Não deixa de ser irônico que, exatamente quando a Cavalera estava prestes a encerrar a SPFW Inverno 2011 ao som de O Guarani (ou a música da Hora do Brasil), de Carlos Gomes, os fotógrafos que trabalham incessantemente na Bienal durante o evento, e que lotavam o pitch de fotógrafos do desfile, entoasse “Não rouba, não rouba, não rouba. Sai fora ladrão” e exibiram faixas com dizeres “Parem de roubar a gente.”
Apesar da equipe da SPFW trabalhe arduamente para manter tudo em ordem na maior semana de moda da América Latina, há sempre algo que foge à ordem. Esta é, por exemplo, a segunda vez consecutiva que um fotógrafo tem sua câmera roubada em plena sala de imprensa. Keiny Andrade, da Getty Images, teve um prejuízo de cerca de R$ 20mil ao ter sua câmera e sua lente objetiva 300 furtadas hoje à tarde. Daí a revolta e o protesto dos fotógrafos.
Não foi exatamente em clima de revolta, mas sim de ‘movimento pró ordem e progresso’ que a Cavalera entrou na passarela. Ou quase passarela. A grife lançou sua República Cavalera na megapassarela improvisada na entrada do prédio da Bienal, de madeira. Detalhe, a passarela era, na verdade, o espelho d’água que se estendia na Bienal, como parte da cenografia criada pelo Estúdio Árvore para esta edição da SPFW.
Para completar, uma pesada chuva artificial caiu sobre os modelos que desfilavam a coleção outono-inverno da Cavalera. Mais paulistano, impossível. A propósito, a Nova República Cavalera “proclama o contato humano, celebra o coletivo, reclama o beijo, protesta contra o solitário espetáculo do mundo da fama, instigando o imaginário desse desejo esquecido.”
“Tem tudo a ver com o momento por que o Brasil está passando. A gente sempre se preocupa em dar algum recado para nosso público e neste caso não é diferente”, contou o estilista Fabiano Grassi ao Moda após o desfile. Por falar em desfile, Grassi, Igor de Barros e o diretor criativo Alberto Hiar transformaram esta república em peças remetem ao ‘clima fim de império’, com direito a brasão de Nova República Cavalera e muito bordado tridimensional sem seda e algodão, formando patchworks que ostentavam este brasão. A insígnia voltou também em estamparia nas camisetas, casacos, jeans, jaquetas e casacos. Destaque para o ‘movimento da bandeira do Brasil’ das malhas e camisetas. Nas cores, claro, verde, amarelo e azul bandeira, brancdo e ‘vermelho bandeira de São Paulo’. As cores também estiveram presentes nos sapatos ‘à la marquês’.
Já entre os materiais, jacquard de lã (que chegou em casaqueto e no poncho masculino), sarja com renda, maximoleton e o jeans (que surgiu resinado em jaquetas pretas e dourada), bordados e até paetês ‘em forma de brasão Cavalera’.
Vale lembrar que nesta edição a marca também lança uma nova linha, a linha premium Cavalera Caviar, que tem a proposta de trazer um corte mais sofisticado, sem perder a descontração, e jeans de alta qualidade.
Comentários desativados
A estilista Fernanda Yamamoto tem uma forma muito particular de fazer moda. Para quem já é familiarizado com seu estilo, é impossível não reconhecer, de cara, qual é a sua arara na loja colaborativa que leva seu nome, na Vila Madalena. A designer é acostumada a fazer parcerias com outros criadores que tenham um estilo parecido com o seu. E por ele, entenda simplicidade, influências japonesas e trabalho com formas e suas reconstruções/desconstruções.
Em sua terceira passagem pela SPFW, direto da Casa de Criadores, Fernanda apresentou uma coleção suave, delicada. Ela começou a elaborar a ideia das criações a partir do desenho de um círculo, objeto geométrico que esteve presente em várias aplicações e estampas, tanto de lã quanto de feltro. Os tecidos quentes de inverno figuravam em peças muito finas, como gaze de seda especialmente tecida no ateliê da artista.
A impressão de roupas em degradê, mesmo que de cores diferentes, era possível graças a uma técnica oriental chamada washi-ê, que é desfiar um papel japonês especial, feito de uma planta que se chama kozo, para formar desenhos e colagens em várias tonalidades diferentes. A impressão da passarela ela linda, fluida, com peças formadas por tecidos de cores e texturas diferentes. Nos pés, nada de saltos: as modelos de Fernanda usaram tênis vazados e quadriculados como redes.
Mas o mais especial do desfile de Fernanda foram os acessórios para cabeça. Nenhum dos chapéus de acrílico transparentes e coloridos era igual ao outro: todos foram confeccionados manualmente por Roseli Kasumi e, apropriando-se da ideia de círculo, construiam acessórios amorfos e belíssimos. Um desfile simples, despretensioso, mas que deixa marcada a qualidade técnica e a criatividade de Fernanda Yamamoto, uma estilista que veio para ficar.
Uma moda pós-apocalíptica, em que o homem tem de lutar contra a fúria da natureza. E, já que este homem tem de se vestir, por que não esbanjar estilo? Pois foi assim, utilitário e poético, que Alexandre Hercovitch pensou no homem de sua coleção inverno 2011.
Lutando contra vulcões ( que já haviam surgido no desfile feminino do domingo), terremotos e tempestades, o homem tem de se proteger, mas sem perder o estilo. Usa roupas que protegem e são até agressivas em seus cortes e acabamentos, mas que esbanjar boas soluções fashion para suas armaduras pós-modernas.
O desfile começa com jaquetas e casacos que mais lembram uniformes de ‘soldados de laboratório’, confeccionadas em nylon teflonado e tyvek (em várias texturas) brilham e protegem da chuva, do vento, do fogo… Há uma virilidade latente neste homem sobrevivente. Ele se move com agilidade e recorre às formas amplas e confortáveis, mas também sabe valorizar o rico trabalho da alfaiataria e de tecidos como o astracan sintético (pense em uma pele de carneiro, o astracan, que dá volume, nervuras e texturas a paletós, casacos e golas), o cetim pesado e envelhecido, o cashmere e até mesmo o couro e o piton (couro de cobra, que surge nos calçados e nas luvas). Nos pés, claro, calçado mais utilitário e protetor impossível: o indefectível coturno.
O acabamento é caprichado, mas ganha tons rústicos como uma borda ‘por fazer’, um corte em zigue-zague. As cores ou são escuras e desgastadas pelo tempo, como preto, chumbo, cinza e grafite, ou são ‘industriais’, como o laranja, o caramelo e o prata metalizado.
Por falar nisso, os acessórios ganham importância nesta guerra fashion. Óculos reforçados com metal e couro ora surgem ‘sozinhos’ ora são ‘aplicados’ a máscaras de proteção em couro. Para terminar, os vestidos (que mais têm cara de túnica masculina) em lã pesada completam o tom ousado e, ao mesmo tempo, viril que Herchcovitch sabe dar às suas coleções masculinas.
A estilista Gloria Coelho sempre realiza um desfile bastante esperado na São Paulo Fashion Week. Os convidados são recebidos com um coquetel e acomodam-se na vasta sala do 9º andar do Shopping Iguatemi esperando as novidades da mulher de Reinaldo Lourenço. Desta vez, graças a uma parceria com a Sony, todo mundo que chegava posava para uma foto, como se os convidados fossem, na realidade, as grandes estrelas da tarde. Ao fim do desfile, lá estavam os retratos impressos – um brinde personalizado, para a alegria de todos, que brindavam suas taças de champanhe.
As modelos de Gloria pareciam robozinhas. Com silhuetas absolutamente retas, calças skinny de couro mestiço, detalhes em verniz e feltro, elas tinham o cabelo preso em assépticos rabos de cavalos. No meio da passarela onde ficava a imprensa, paravam duas vezes, uma para cada lado, e depois continuavam a percorrer o caminho retangular até o fim. Só depois descobri que a inspiração de Gloria para a apresentação foram o universo dos bonecos Pokémon e das armaduras de MotoCross, passando pelos anos 30 e 60. Por isso, movimentos tão comedidos.
Os babados plissados formavam grandes dobraduras, armadas e em destaque nas roupas. Meias-calças coloridas, primeiro em tons pastéis de azul, verde e laranja, assumiriam mais ao fim as mesmas cores, mas em uma tonalidade néon. Os saltos dos sapatos, também coloridos, combinavam com os acessórios das pernas. No encerramento, grandes cristais Swaróvski enriqueciam os looks finais.
“Coragem é a intenção. Luxo é o propósito! O Luxo da originalidade, sem arrogância!… Precisão nos detalhes e na exaustão dos bordados “hand made’. Extravagência ou loucura?”
Assim Lino Villaventura ‘provocou’ o público que lotou a sala 1 da Bienal há pouco para conferir sua coleção inverno 2011. Inspirado na coragem que Paulo Borges e equipe tiveram há 15 anos, quando o diretor da SPFW decidiu criar esta que é hoje a maior semana de moda da América Latina.
O evento não seria o mesmo se não fossem talentos como o de Lino, que, desde a primeira edição, enche os olhos dos fashionistas com seu show de apuro técnico e criativo. Desta vez não foi diferente. Mais uma vez, o preciosismo do trabalho de Lino se traduziu em uma profusão de bordados, nervuras, pedrarias, plissados, matelassés… Nos tecidos, jacquard bordado, tafetá de seda, jersey de malha, tule…
Nitidamente mais despojado que em outras edições, Lino, na verdade, buscou o essencial de sua moda para criar uma coleção em quatro momentos, que resumem muito bem sua trajetória como um dos mais prolíficos estilistas brasileiros.
O resumo da ópera Villaventura pode ser dividido em quatro atos. O primeiro foi uma seqüência de pretos médios, sexies e acinturados. Destaque para o trabalho caprichado em tule irizado, texturizado e elástico. Manualmente trabalhado, o tule armado dava sustentação e elegância aos looks. Em seguida, uma seqüência de ‘couro falso’ relembrava por que Lino é mestre quando o assunto é criar textura.
Confecionadas em ciree (malha com efeito de couro), jaquetas motoqueiro e sobretudos ganhavam um ar de ‘matelassé feito lá em casa’. Na seqüência, os longos de seda (sempre ponto forte nas criações do estilistas) surgiram lisos e ricamente texturizados com o uso de plissados. Imperdíveis os vestidos médios em cetim bucol (que ganham ares de veludo cristal). Para terminar, não poderiam faltar os longos de seda estampados e bordados com forte inspiração oriental.
Nos detalhes, destaque para as meias-calças com risca de cetim. Inspiradas na nova tatuagem do estilista, deram modernidade aos looks mais clássicos. “Acabei de fazer esta tatoo. Queria cobrir uma antiga no braço esquerdo. E meu tatuador me sugeriu estas listras, que significam algo como ‘caminho, energia…’ Nem pensei nisso na hora, mas adorei. E foi parar nas meias”, contou o estilista ao Moda no backstage após o desfile.
Depois do tumulto causado pela passagem de Ashton Kutcher, Demi Moore e Gisele Bündchen, hoje foi a vez de Christina Aguilera causar na SPFW. A cantora norte-americana fez uma visita estratégica à Bienal para contar aos jornalistas como é estrear como estilista. Depois de se aventurar pelo cinema, Aguilera agora faz sua incusrsão na moda e assina uma coleção para o projeto C&A Pop Fashion, que chega às lojas em 31 de março.
A seguir, a entrevista que a cantora/estilista concedeu aos jornalistas:
Porque você escolheu o Brasil para estrear uma coleção?
Primeiramente, e acima de tudo, foi meu amor pelo Brasil que me fez aceitar esta proposta. Sempre adorei a ideia de vir ao Brasil, a paixão que as pessoas têm, e pelos grandes fãs que eu tenho aqui, o que me fez também pensar em fazer um show aqui muito em breve. Sem contar que acho que a mulher brasileira é perfeita para usar minha linha de roupas. São mulheres apaixonadas, sensuais, que têm um corpo lindo, além de serem muito seguras de sua beleza. Basicamente foi isso.
Como é estilo? Como vai ser essa coleção?
Sempre fui uma pessoa que gosta muito de se arriscar, e de construir meu estilo pessoal. É a minha forma de expressão. Esta coleção vai ser como eu. Trouxe muito do meu próprio estilo. Há animal prints, vermelho, há lindas lingeries que fazem as mulheres se sentirem mais poderosas, jeans e vestidos pretos (como o que estou usando agora). Os sapatos também estão incríveis.
Você escolhe suas roupas e monta seu looks sozinha ou tem um personal stylist?
Tenho uma personal stylist é incrível. A gente trabalha junto há anos e ela é muito amiga minha. Ela conhece meu corpo e sabe do que gosto, do que gosto de mostrar e do que gosto de esconder. Ela escolhe as peças, mas a palavra final é minha.
Você se considera um ícone da moda? Como você define a sua sensualidade?
Com certeza já provei que sou uma formadora de opinião quando o assunto é moda. Há alguns anos estrelei a campanha Versace. E John Galeano é meu favorito. É maravilhoso ser reconhecida como um ícone da moda, como alguém que sabe correr riscos e que não segue regras. Sou muito confortável com meu corpo. E isso eu mostro em meus vídeos, nos meus shows. Isso dá muito poder. Há várias peças na minha coleção que traduzem isso.
Por quanto tempo você será garota propaganda da C&A? Esta é a primeira vez que você cria algo para uma rede de fast fashion?
Sim é a primeira vez que faço uma campanha de fast fashion. E vai durar cerca de um mês todo o processo da campanha, que vai viajar também para o México.
O que você acha da popularização da moda?
Acho que a moda tem de ser mais acessível, para que as pessoas possam vestir o que vêem as celebridades usando, por exemplo. Esta democratização é boa para todos.
Você tem planos de fazer um show em breve no Brasil?
Sim. Ainda não temos uma data certa, mas só a recepção tão calorosa que tive assim que eu pisei no aeroporto (Graças a Deus ninguém se machucou!) me fez quere voltar muito em breve.
Semana de moda é como carnaval e escola de samba: mal termina uma, a organização já começa a planejar a próxima. Um dos principais desafios, sem dúvida alguma, é montar o line-up dos desfiles. Esta tarefa inclui as seguintes atribuições: decidir que marca abre e qual encerra a SPFW; encaixar no calendário os desfiles externos, que devem ser os primeiros de cada dia para facilitar a cobertura; mesclar grifes que trabalhar com jeanswear com as mais sofisticadas e desfiles masculinos com os femininos, para um dia não correr o risco de ficar entediante; encerrar cada maratona com gostinho de quero mais para o dia que está por vir.
Uma única pessoa é responsável pelo contato direto com as marcas, que dura o ano todo: é Augusto Mariotti, diretor de conteúdo da SPFW e da versão brasileira do site Fashion Forward (FFW), oficial da semana de moda paulistana. Seu trabalho é supervisionado por Paulo Borges, mas é ele quem fica encarregado de resolver o pepino que é criar um novo line-up duas vezes por ano. Imagine uma média de 30 marcas, cada uma com suas especificidades e importância: se duas grandes querem desfilar no mesmo horário, é preciso muito jogo de cintura. Como se fosse um quebra-cabeça de mil peças, daqueles dificílimos, é necessário levar vários pontos em consideração.
Todos os visitantes recebem cartõezinhos com o line-up de todos os dias da SPFW
O primeiro passo na hora de começar o planejamento da próxima fashion week é levar em consideração o histórico de cada marca. Tradicionalmente, há aquelas que preferem desfilar nos primeiros dias e outras que gostam mais de estampar as páginas dos jornais mais perto do grand finale. “Escolher a grife que abre o SPFW é uma grande responsabilidade. É preciso que a marca tenha uma energia especial para deixar todo mundo animado”, explica Mariotti. O contato é feito de ambos os lados, tanto dos estilistas quanto da organização. Alguns recebem um convite para desfilar em determinado horário, outros pedem o espaço a Mariotti.
“Quando os shows são externos, é preciso que as grifes me avisem com muita antecedência para conseguir colocá-las como as primeiras de cada dia”, conta. A Cavalera, que sempre realiza uma apresentação em algum lugar que não seja a Bienal, foi convidada a encerrar o evento desta vez. E topou. “Como a grife acaba de completar 15 anos e tem uma ótima energia, achamos que seriam boa ideia que eles fechassem a semana de inverno 2011″, diz Mariotti.
Mas não acontece de ter que mudar tudo e refazer o calendário todo porque alguma marca mudou de ideia? “E como acontece! Este ano, era para a Adriana Degreas encerrar a segunda-feira, mas a marca teve um problema e precisou cancelar a participação do evento. Como os convites já haviam sido enviados, não deu tempo de fazer as mudanças e o último desfile foi às 20h30, algo inédito”, revela. E realizar um desfile fora da Bienal é sempre um problema: é preciso conseguir uma licença do Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru), que algumas vezes, pode não ter concedido. Daí, o jeito é voltar para a boa e velha Bienal, que está sempre de braços – e line-up – abertos para receber o estilista.
De repente, uma marca que contava com uma modelo para ser a grande estrela do show recebe a notícia de que a menina estará ocupada e só poderá vir no dia seguinte. Às vezes 15, 20 dias antes. A organização faz o máximo que pode e só deixa de fazer a troca quando realmente não há mais jeito. O último dos fatores de dificuldade é organizar os horários, pensar em intervalos que sejam suficientes para as modelos fazerem os cruzamentos entre uma sala e outra. “Devemos pensar que grifes que têm o casting muito parecido não podem ser seguidas uma da outra”, explica.
A conclusão é que, na maioria das vezes, o calendário começa de uma maneira e termina completamente diferente. Depois de várias versões, a final fica pronta e pode ser, enfim, divulgada – em geral, 10 dias antes do evento. Daí em diante, é só relaxar. E torcer para que dê tudo o mais certo possível.
A estilista portuguesa Ana Salazar foi buscar nas florestas de seu país a inspiração para seu inverno 2011. Com foco especial nos pássaros que habitam as paisagens de Portugal, trouxe para a passarela formas, texturas, cores e uma atmosfera de ‘ninho seguro’. A floresta delicada de Salazar remete à camuflagem floral (destaque nos vestidos de malha estampada e nas leggings), brilho (muito paetê em longos, saias, ‘capuzes à la cabeça de pássaro’ e também nas leggings). Nas cores, o vermelho vivo, o verde-floresta o carvalho e o preto não podem faltam. Para dar um tom mais urbano à coleção, muitos apliques em tachinhas (nos vestidos de couro e sapatos), drapeados e fru-frus em musseline, que dão sofisticação a esta floresta tão etérea.

Caroline Ribeiro abre o desfile da grife Do Estilista
Marcelo Sommer desistiu de fazer roupas masculinas. Pela primeira vez na São Paulo Fashion Week, o estilista, que abriu o penúltimo dia de desfiles nesta edição de inverno 2011, apresentou uma coleção exclusivamente para mulheres. Nesta temporada, a semana de moda paulistana está pobre de desfiles externos. Ao todo, somente três foram programados para fora do prédio da Bienal: Reinaldo Lourenço tradicionalmente na FAAP, Iódice e Glória Coelho no Shopping Iguatemi, um local seguro, fechado, difícil de errar. E com Sommer não foi diferente.

Mariana Weickert


Macacão com duas estampas e tecidos diferentes nos dois lados do corpo: inovação
A grife Do Estilista, que no ano passado desfilou no Villa Country, ocupou então a sala 3 da Bienal para mostrar suas novas criações. Como sempre, Marcelo Sommer chamou os amigos para desfilarem: as ex-modelos Caroline Ribeiro, Carolina Bittencourt, Mariana Weickert e Isabela Fiorentino eram as presenças ilustres, desenvoltas em um local que já dominaram tão bem. Usavam vestidos volumosos, com camadas e estampas sobrepostas, capuzes e muitos blazeres de cotelê. As botas de cano médio eram amarradas com cadarços, muitas vezes por cima de meias calças rendadas. Ou seja: o que não faltava era informação.
O clima folk (não muito diferente do country que predominou no verão 2011) reinava soberano nos looks. E as modelos (e amigas de Sommer que viraram modelos por um dia, como a jornalista Katia Lessa, a stylist Lara Gerin) tiveram que ralar no ensaio para atravessar o ziguezague que se formou na passarela, com parte do público sentado em uma linha reta de um lado e várias filas diagonais de outro. Um rapaz resolveu virar para o lado oposto de onde estava, revoltando o pit de fotógrafos, que gritou assim que as luzes se apagaram: “ei, você que se virou e atrapalhou todo mundo, desvira!” O menino riu, achando graça. E logo depois, modelos e estilistas agradeceram a presença do público.
Preppy decadente. Assim é o homem Reserva 2011. Entendeu? Não? Então pense em um típico estudante da classe alta norte-americana, daqueles que freqüentam os cursos preparatórios (daí o preppy) para as grandes universidades do noroeste dos EUA, tipo Harvard. E vai às aulas de pullover Lacoste, pólo Polo Ralph Lauren, calça de alfaiataria e sapatos sempre envernizados. Estão sempre prontos para um coquetel no clube de campo ou um fim de samana ao ar livre. Sempre sorridentes, são educados, sofisticados e impecáveis.
Não confunda com mauricinhos. Está mais para um almofadinha. Um autêntico preppy não ostenta, prefere a discrição a usar a pólo com a gola levantada (tão mauricinho…), jamais usa grifes com logos imensos que o fariam parecer um outdoor ambulante. Um preppy não perde a pose jamais. Ou a ‘chinfra’, como bem diria Lobão.
Mas, como diz Decadance Avec Elegance, a canção tema do desfile da grife carioca e que Lobão tocou na passarela, os preppys podem sim decair, mas sem perder a elegância. E foi esta decadência (do tempo e do poder) que a coleção Reserva propõe em seu inverno. Quer dizer, decadência em partes. Para os estilistas, enquanto os EUA (país símbolo do preppy) passa por uma decadência, mas não perde a pose, o Brasil (e a moda nacional) está em franca ascendência. Então, porque não criar o nosso ‘preppy brasuca’? Com muita irreverência, claro?
Pois bem. Isso tudo traduzido em informação de moda resultou em uma coleção que literalmente desconstruiu os padrões da alfaiataria ‘à lord inglês’ e brincou com proporções, materiais e estampas. O passeio começa com maxitricôs verde musgo e malhas em ‘ferrugem stamp’. A ação do tempo corrói os tricôs, que ganham estampas de mofo, conseguida por meio de técnica de estamparia. A ‘mofo stamp’ pode ser impressa ou trabalhada diretamente em ponto de crochê.
Antes de prosseguir, vale lembrar que o tempo também fez mal (ou bem) aos modelos, que foram ‘envelhecidos’ por Celso Kamura e equipe.
A desconstrução da alfaiataria ganha destaque nos looks em que os ombros são descolados, os coletes surgem apenas em ‘versão forro’, o cós das calças dá a volta pelo corpo, e as pregas ganham novas aplicações. Nas cores e estampas, a decadência chega na ótima ‘estampa de mosquinhas’, boa sacada que dá humor a peças como paletós, smokings, e calças sociais. As mosquinhas ora ‘sobrevoam’ looks bege, ora pousam sobre rebuscados paletós e calças de cetim vermelho. O xadrez é literalmente ‘empilhado’ no colete de tricô. Quando a ‘grana para a lã acaba’, o efeito xadrez é pintado sobre o jeans. No fim, chegam shorts combinados com paletós no tecido mais ‘decadance avec elegance’ que há, o veludo cotelê.
Ponto para a Reserva, que propõe um sopro de irreverência na moda ‘para mocinhos abastados’. Afinal, como disse Lobão, a música sempre foi comercial. A moda também. Mas produz design, estética e comportamento. ” E quem sabe envelhecer com estilo fica sempre mais bonito com o tempo.”
2012
2011
2010