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Moda

26.novembro.2010 15:29:37

Conversa afiada

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A modelo Lea T está em plena ascensão. Depois da capa da Lurve e do anúncio da Givenchy na Vogue, há rumores de que a primeira top model transexual será entrevistada no maior talk show da TV americana: o Oprah Winfrey Show.

Também especula-se que Lea vai participar de desfiles da São Paulo Fashion Week, em janeiro.

A entrevista ainda não foi gravada, e não se sabe quando vai ao ar.

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Os anos 90 não tiveram os exageros da década anterior. Não havia roupas amarelo-gema como nos anos 80, os cabelos não eram armados como nos anos 70, e, definitivamente, tudo foi muito mais sóbrio do que as três décadas anteriores juntas.

Mas apenas na prática.

A época é o tema do livro O Estranho na Moda: A Imagem nos Anos 1990, de Silvana Holzmeister. A jornalista é editora de projetos especiais da Vogue Brasil e aproveitou sua tese de mestrado para analisar o periodo que influenciou o estilo que se estabeleceu (e se tornou o que é) hoje.

Estética | As roupas com influência minimalista, cortes retos e ausência de detalhes precisaram vir do outro lado do mundo para enfrentar os resquícios dos anos 80. Foi o Japão que tornou relevante o estilo clean. Os belgas compraram a ideia e logo a Europa nem se lembrava mais das cores fosforescentes de poucos anos antes.

Só que isso só funcionava no dia a dia. Modelos como Claudia Schiffer e Linda Evangelista viram seu padrão de corpo (exuberante, belo e tido como perfeito, mas ainda assim um corpo normal) ser tirado das passarelas a partir da primeira aparição, em 1993, de Kate Moss na Vogue.

Começava, ali, uma nova era para a estética na moda.

Freakshow | Em 1978, a banda americana de disco e R&B Chic cantava que “O freak (esquisito) é chic”. A moda, que faz parte de movimentos culturais e lança vanguardas, sempre se apossou do freak. Mas os anos 90, com toda a sua sobriedade, foram terreno fértil para explorar ainda mais o conceito.

Parece absurdamente contraditório, mas não é. Era necessário encontrar alguma forma de chamar a atenção para aquele estilo. E a forma encontrada foi o contraste das roupas, sóbrias, e sua apresentação, grotesca. Aquela era a moda da imperfeição, da decadência.

Heroin Chic | É aí que entra Kate Moss. A moça, em 1993, tinha 19 anos, mas cara, corpo e jeito de muito menos. É dessa época que começam a aparecer as modelos anoréxicas, com aspecto de subnutrição – e de ‘usuárias’. “Nos 90, essa coisa de adotar uma imagem que fugia do padrão de beleza se tornou um movimento grande”, conta Silvana.

O período de fim de século também sugeria um clima de tragédia (pessoas apavoradas com a ideia do bug do milênio e até mesmo o fim do mundo na virada do século). E a tragédia permeou os editoriais de moda. Destruição, morte, deficientes físicos foram usados para compor ambientes. “Eram coisas que todos viam todos os dias”, comenta a jornalista. “Mas nunca viam em um editorial de moda. Foi chocante.”

Ícones | Com essa tendência, o mundo viu surgir grandes nomes que foram fundamentais para que, posteriormente, os anos 2000 tivessem a cara que tiveram. Alexander McQueen, Viktor & Rolf, Corinne Day e Hussein Chalayan foram alguns deles.

No Brasil, a moda começava a caminhar, com o Phytoervas Fashion, o embrião da São Paulo Fashion Week, já com o fenômeno Alexandre Herchcovitch.

O livro de Silvana aproveita para traçar referências que vão desde o filme A.I.: Inteligência Artificial, até citações do filósofo Walter Benjamin.

A década passou já há algum tempo. Mas, em dias de uma estética tão fragmentada e retrorreferencial quanto a nossa, a obra é fundamental.

O Estranho na Moda: A Imagem nos Anos 1990
Silvana Holzmeister
Editora Estação das Letras e Cores
132 páginas
R$ 54.

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09.setembro.2010 15:02:15

Calendário 2011

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Desfile da estilista Simone Nunes, em junho

A edição do inverno 2011 dos eventos de moda mais importantes do País já tem data. O Fashion Rio será entre 11 e 15 de janeiro. O evento terá um dia a menos. Imagina-se que algumas marcas não vão desfilar nessa temporada, mas ainda não se sabe quais. Já a São Paulo Fashion Week será entre 28 de janeiro e 2 de fevereiro.

Esta será a primeira edição da SPFW sem o comando de Paulo Borges. A Luminosidade, empresa que organiza os eventos, tem agora como CEO Gustavo Bernhoeft.

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18.junho.2010 17:00:08

Bom fim de semana

Na última temporada de desfiles importantes pelo mundo (leia-se Nova York, Londres, Milão e Paris), a imprensa internacional chamou a atenção para um curioso fato: blogueiros de moda estavam ganhando tanto prestígio quanto jornalistas de revistas importantes.

Como tudo o que é tendência mais cedo ou mais tarde acaba chegando ao Brasil, este processo já começou a ser esboçado nas últimas edições da SPFW. Para este Bom Fim de Semana, selecionamos alguns blogs de moda, não necessariamente que estiveram no prédio da Bienal na última semana.

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1. | Trapo
Ao entrar no site, nos deparamos com uma interessante análise sobre moda e arte. Moda é arte? Ou ela se apropria da arte? Tem Jum Nakao e tudo.

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2. | Tá Usando
Passo a passo, corredores da Bienal e até onde encontrar artigos dos clipes da Lady Gaga (tudo o que muitos queriam, ainda mais no clipe de Telephone, com Beyoncé, na foto acima).

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3. | Ser Sustentável Com Estilo
Aquele vestido Prada caríssimo não precisa ficar sem uso só porque não está mais na moda. Assim como várias coisas do seu guarda-roupa, ele pode passar por uma customização e se transformar em outras coisas.

4. | Fashion 4 Fun
Novidades e piadinhas fashion – porque ninguém é de ferro.

5. | Fora de Moda
Tudo lá, desfile por desfile, no blog de Ricardo Oliveros, com um título bem sugestivo.

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Em seu primeiro álbum, a cantora Ana Carolina fazia um convite cheio de conveniência: “Se precisar de alguma coisa, vai lá no meu armazém. Tem de tudo, quase tudo, tem.” O Vestígios Bar é uma espécie de armazém. Não é o de Ana Carolina, mas tem tudo, quase tudo, também. Em uma placa pendurada entre dois lances de prateleiras, há uma lista das utilidades domésticas do estabelecimento: ovos, cerveja, Coca-Cola, chuveiro e carvão estão entre os itens nem sempre correlatos. Em um dos cantos, um tacho de alumínio todo furado, como um escorredor de macarrão, começa a enferrujar. Pimentas ocupam garrafas de conserva, biscoitos enchem frascos de biscoitos, louças se empilham sobre o escorredor de louças, mas balas não enchem o baleiro giratório, e botões faltam no teclado da caixa registradora.

Intervenção | O Vestígios Bar é, na verdade, uma instalação artística do estilista Jum Nakao no segundo pavimento do prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera. A performance se chama Vestígios Vestíveis. Durante os seis dias da SPFW, o estilista e sua equipe ’vestem’ o bar abandonado, com o intuito de transformá-lo em qualquer outra coisa.

Pegadas | É um bar de vestígios, com vestígios de presença humana. Dois televisores ocupam, cada um, um canto do ambiente. Estão ligados em um jogo de futebol. A presença destes aparelhos, sem ninguém para assisti-los, é mais desoladora do que se eles estivessem desligados. Assim como a desorganização de todos os objetos, que evidenciam gritantemente que alguém esteve ali - e há pouco tempo -, bem mais do que se estivessem organizados. É uma certa impressão de ‘quase’ ter encontrado alguém, e ter chegado atrasado. Muito pior do que a impressão de encontrar um lugar onde ninguém jamais esteve.

Desloamento | Por que um bar? “O bar é um templo”, começa Jum, cabalístico. “É um lugar onde se celebra a alegria”, ou seja, tudo a ver com o tema desta edição do evento, ‘Anima’.

A intenção inicial era causar estranhamento. “Como se ele tivesse sido teletransportado para cá.” Além disso, há duas arquibancadas, uma de cada lado do bar (as paredes laterais do ambiente não existem. No lugar, há tule para separar a área interna da área externa). É como se fosse uma sala de desfile, com o bar fazendo as vezes de passarela.

Queima de arquivo | Os artistas usam retalhos de morim cru em forma de exágono. Com esses retalhos, eles estão revestindo toda e qualquer superfície dentro do bar (paredes, mesas, cadeiras, garrafas, geladeira, balcão, baleiro, caixa registradora…). “É como se estivéssemos apagando os vestígios”, explica Jum. “Para que haja, em seguida, outros vestígios para serem vistos.”

Como qualquer prédio abandonado, pixações tomam conta das paredes. “Mas aqui, a pixação é invisível”, associa. No caso, é o spray com material colante, usado para fixar um tecido (morim).

Quem se senta na arquibancada é incitado a adentrar a atmosfera. De tempos em tempos, as luzes ficam mais fortes e surge o som de uma animada torcida. Nas telas, o gol está próximo. A efusividade da comemoração faz parecer que a arquibancada é de um estádio de futebol, não de um desfile.

Tela em branco | Tudo ali tem motivo. O morim cru é um tecido usado para testes. “Sem contar que ele é ‘cru’. Ou seja: para virar qualquer coisa, precisa ser cozido”, metaforiza Jum. É como se, mesmo depois de ter o ambiente completamente vestido, ele precisasse de novas leituras para que se torne alguma outra coisa. A ideia é deixá-lo aberto a estas novas percepções.

Outra ideia é estabelecer uma ponte entre coisas a princípio vocacionalmente díspares, como a passarela e o boteco, o futebol e a moda, a Copa do Mundo e a SPFW. Mas com algo comum a todos: a animação.

Ponto zero | No fim da SPFW, algo que quem vê a construção do cenário, antisséptico de tão branco, não espera: os retalhos de morim serão todos retirados, um a um. Desconstruindo a desconstrução feita ao longo destes seis dias. Comentários dos espectadores: “É Jum Nakao.”

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Iódice: o que Malvina mais gostou

Enquanto caminhava, após descer de um ônibus, em direção à FAAP, o que a funcionária pública de 60 anos queria mesmo era um convite para assistir ao desfile de Reinaldo Lourenço. No saguão da faculdade (após, misteriosamente, passar pela portaria), a senhora se aproxima de uma rodinha de jovens papparazzi e pergunta: “Como é que vocês vão entrar?” Eles mostram o milagroso crachá verde de imprensa (que abre muitas portas) e continuam conversando entre si. Um deles pergunta: “Você não tem convite?” “Não, não tenho”, responde. “A senhora é lojista?” E ela anuncia, em tom solene: “Eu revendo roupa para a classe média. Sou Malvina Joana de Lima. Joga meu nome no Google que você me acha.” (Até tentamos tirar uma foto de dona Malvina, mas não conseguimos. Siga o conselho dela e jogue o nome no Google).

O local do desfile se abre e, depois da entrada dos convidados com convite, os jornalistas fazem uso do crachá verde e entram. Dona Malvina fica do lado de fora.

Conto de fadas | “A minha vida é a verdadeira história da Gata Borralheira”, conta. Dona Malvina nasceu em 1950, no Rio de Janeiro. Alguns dias depois de conhecer a luz do dia, sua mãe a abandonou em um moisés na Casa de Misericórdia - a mulher trabalhava como empregada doméstica em uma casa de família e a patroa não aceitava ninguém que tivesse filhos. O pai, separado, ao saber do abandono do bebê, deu à mãe 24 horas para recuperar a criança, sob graves ameaças. A pequena Malvina, então, foi para a casa dele e passou a ser criada pela madrasta. Ninguém na família, a não ser o pai, a aceitava.

Lá pelos 18 anos, o pai de Malvina faleceu. Escorraçada pela madrasta, foi morar com uma amiga e passou a trabalhar em casas de família. “Aprendi com ele: quem se junta aos porcos acaba comendo farelo. Nunca deixei de honrar meu pai.”

Foi então que Malvina nunca mais comeu farelo na vida.

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Samuel Cirnansck: roupa aconchegante, como a da vovó

Holofotes | “Eu tenho foto com a Globo inteirinha”, conta, orgulhosa. “E tenho como provar em foto e em CD.” Ela saca de dentro da bolsa uma câmera digital e começa a mostrar imagens dos últimos desfiles (alguns dos quais nem o repórter, que está cobrindo a SPFW, conseguiu entrar). “Eu gosto de moda porque é uma cultura. Você vê o desfile e aprende alguma coisa”, explica, com seu jeito humilde. “Até serviu para eu relembrar meus oito anos”, diz, sobre a roda gigante que foi instalada no meio da Bienal. Suas enormes unhas pintadas de laranja-abóbora apontam as celebridades com quem ela cruzou no dia anterior (no fundo de uma delas, Salete Campari foi flagrada passeando). Até que chega no desfile de Samuel Cirnansck (nome que Malvina, compreensivelmente, tem uma certa dificuldade para pronunciar).

Para lembrar: o cenário do desfile eram abóboras de Halloween do tamanho de um anão. O repórter pergunta: “Foi para o desfile com as unhas combinando?” E ela: “Imagina! Ganhei esse esmalte ontem mesmo!”

Um dos orgulhos de Malvina, que já é conhecida dos seguranças, assessores e cia., é um episódio que ocorreu mais ou menos em 2008. Ela estava na Bienal, garimpando um convite, quando a cantora Wanessa (ex-Camargo) se aproximou dela e disse: “Deixa eu tirar uma foto com você? Adorei o seu ‘link’ [sic]” (Malvina, provavelmente, quis dizer que Wanessa falou ‘look’). O ‘link’ era um vestido balonê. “Que se usava há trinta anos, e eu ainda tinha.”

Nesta edição, Wanessa e Malvina já se cruzaram. O momento ficou devidamente registrado.

Cidadã do mundo | Em um fim de ano, Malvina tirou férias e resolveu passar as festas e parte de janeiro no Rio. Quis pregar uma peça nos familiares. Saiu dizendo que ia andar de navio – coisa que nunca tinha feito. “Mas sabe quando você só fala alguma coisa, sabendo que nunca vai acontecer?”

Passado o réveillon, era época de Fashion Rio. Conseguiu um ingresso para todos os dias. Naquele ano, alguns desfiles seriam no Cais do Porto. “Tirei um monte de fotos com navios atrás, para mostrar para a minha família.” O que ela não esperava é que um dos navios abrigaria alguns eventos da semana de moda carioca. “Passei dois dias no navio de Eike Batista”, conta, orgulhosa.

Contatos | “Teve uma vez que a Marta comentou sobre minha roupa…” Espera aí, que Marta? “A Suplicy, ué”, diz Malvina, com cara de quem diz ‘e tem outra?’. Bem, Marta Suplicy falou bem do chapéu de Malvina. “Eu disse para ela: paguei dez reais! E foi na José Paulino”, ri. Malvina tem contatos. Já trabalhou na casa do cineasta Sérgio Rezende, na dos Chateaubriand. “Eu gosto de todo mundo. De Glória Maria a Felipe Dylon”, enumera. “Tenho foto até com a Gisele!” E foram amigos como estes que a ajudaram em momentos difíceis, como quando ela precisou deixar o trabalho na prefeitura, “Na época do Pitta.”

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Reinaldo Lourenço: avental de flores?

Convite | “É muito chato um evento desfalcado, com cadeira vazia”, conta. “A gente vê pela TV, fica muito feio.” Os programas onde Malvina faz suas análises quanto ao sucesso de um evento são o Programa Amaury Jr. e ‘aquele’ TV Fama. “O pessoal que é mais gordinho, quando se senta, não dá para ver que do lado fica uma cadeira vazia. Daí, não senta ninguém ali.” Também tem o pessoal que pega convite para os amigos e os amigos ficam presos no trânsito. Ou quando, em vez de “sentar lá para trás”, o pessoal senta no meio e, de novo, ninguém vê que tem lugar vago. São estes os pontos de investimento de Malvina.

“É coisa de Deus”, diz. Ela sempre consegue entrar na sala, mesmo sem convite. “E agora, todo mundo já me conhece. Sempre tem alguém que me dá.” Desde 2000, ela não perde uma semana de moda. E adora moda. “Não tem coisa que me deixa mais feliz do que usar uma roupa nova”, revela. “Eu me sinto realizada.” O ‘link’ do dia: calça legging (“Que eu chamo de ‘calça pré-sal’ [sim, ela é petista], porque, quando lançou, diziam que era a calça do futuro.”), maxicardigã, que ela chama de ‘blusão’ (“Fiquei meio assim com essa calça, por causa da minha idade, então coloquei a blusa para cobrir um pouco.”) e, por baixo, uma blusa cacharrel. “Perdi seis quilos para usar essa roupa”, revela.

Chico Xavier | Para entrar no desfile de Reinaldo Lourenço, ela conseguiu uma cadeira na apertadíssima sala de desfiles (onde muitos ficaram de pé). Até gostou do que viu, mas nem tanto: “Parece que ele trabalha com sucata, não é? Acho que ele misturou muita coisa”, diz, associando essa ideia ao fato de estarmos em uma faculdade (?). “Foi muito chocante. Você não pode ir em uma festa cheia de celebridades com um vestido que tem um avental de flores na frente!”, estranha.

Para ela, o desfile mais bonito até agora foi “aquele no Iguatemi”, da Iódice. Também gostou bastante do de Samuel Cirnansck, que, para ela, é uma “roupa com aconchego, como se fosse feita pela vovó.”

“Porque quando um estilista cria, é como um médico, não como nós”, começa, em uma complexa explanação. “Alguma coisa toma conta dele. Ele entra em alfa para criar as formas, as cores.”

Despedida | “Às cinco horas, tenho que ir para Brasília!”, apressa-se (são 15h). O evento é um “congresso da Dilma”. Vai como, de avião? “Até ia. Mas eu gosto de muvuca. Então vou de ônibus mesmo.” Muvuca. Então a Bienal anda ideal para Malvina esses dias. “Mas tem que ser muvuca saudável.” E tem gente fresca na SPFW? “Vish! É o que mais tem.” Segundo ela, a SPFW é feita de panela. “Tem gente que entra com três, quatro convites, e não te dá nenhum”, diz, indignada. E denuncia: “Já vi gente indo para a entrada lateral da sala e dar dinheiro para o segurança.”

Mas ela continua com seus infaliveis métodos. Até na Casa Panamericana, onde houve o concorrido desfile da Cavalera, ela conseguiu entrar. “Precisa, né? Uma roupa bonita, para ir a uma festa, um batizado.” Seu trabalho na prefeitura já tem data para terminar: dia 10 de dezembro, quando Malvina se aposenta. Depois disso, pretende se dedicar ao que ela já faz como trabalho extra: revender roupas compradas na José Paulino, para montar o ‘link’ “da classe média.”

Malvina sabe que vai ser difícil. Mas leva a coragem na certidão de nascimento: “Tenho o maior orgulho do meu nome. É um nome inglês, de uma ilha”, começa. “E ilha é água e pedra. Quer dizer que eu já rolei muito por essa vida.”

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Por alguns momentos (para ser mais exato, durante 120 minutos), os olhos da SPFW, pelo menos os dos repórteres, se voltaram exclusivamente para um acontecimento: Paris Hilton. Isso: ela deixou de ser uma pessoa para se tornar um ‘acontecimento’. E, realmente, não dá para escrever alguma profissão antes do nome Paris Hilton, porque ninguém sabe exatamente o que ela é. “Ela é devassa”, brinca um engraçadinho, contente por ser o primeiro a fazer a piada óbvia da noite. Alguém diz: “Ai, gente. Ela precisa trabalhar?” Um desavisado que certamente acabara de voltar de Marte chega depois de mais ou menos vinte minutos de concentração e lança um “por que está esse tumulto aqui?” Silêncio sepulcral. Climão. O moço sai pela tangente, sem graça.

Um fotógrafo puxa assunto com a pessoa ao lado, sobre os atributos sexuais exibidos no ‘filme’ One Night in Paris, no qual uma (cof, cof) filmagem amadora flagra (cof, cof) Paris transando com seu (cof, cof) namorado. Até que a porta do lado oposto da cerca se abre. Todos se aglutinam contra as grades e a enxurrada de flashes começa. Alarme em falso: era apenas uma assessora de imprensa, dando o solene recado de que, pôxa vida, quase ninguém dali poderia entrar para falar com Paris, que os repórteres deveriam ter feito inscrição antes etc etc etc.

Até que uma voz (masculina?) ecoa: “Mas eu não sou repórter!” E emerge do meio das cabeças um rapazote esbaforido com alguns papéis amassados na mão. “Eu sou fã da Paris.” Antes que alguém pudesse perguntar como alguém é fã da Paris, ele mostra o conteúdo dos papéis: são print screens de um perfil no Twitter, o @parisfansbrazil. O mocinho explicou a história: ele criou um perfil no Twitter só para seguir a Paris e mandar recados para ela. A loira gostou tanto que passou a segui-lo também, e até respondeu os recados (!). “Se ela souber que eu estou aqui, ela manda me deixar entrar!”, exclama. As pessoas ao redor até concordam (conhecendo a Paris…).

Não. O @parisfansbrazil não entrou.

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A portinha se abre novamente. Todo mundo volta para suas posições, enrolam o lanchinho em um papel toalha, interrompem o papo com um ‘peraí’. Também não é Paris, mas sim uma repórter da Vogue. “A Paris ficou ruiva?”, alguém grita. Risos.

De volta ao papo, ao lanche, à parede (ficar de pé por muito tempo dá uma canseira). Até que ela finalmente chega ao recinto (durante este tempo todo ela nem estava no prédio da Bienal). Abre-se uma porta, entram umas três pessoas correndo, cada uma com um microfone ana-maria-braga na cabeça, fotógrafos se eriçam, e uma meia cabeça aparece na porta, de costas. “É a Daniela Versace?”, pergunta um entendido de moda, em referência ao tom ovo mexido do cabelo. “É Donatela”, corrige alguém mais entendida ainda. Alguns nem se mexem, temendo realmente ser mais um alarme em falso. Mas desta vez é ela mesmo.

Antes de entrar completamente, porém, alguém corre emergencialmente com uma escova na mão para pentear o cabelo da loira (diz a lenda que mais tarde perguntaram: “Seu cabelo está diferente. É real?”, e ela teria respondido: “Não. É para o desfile.”). Ela finalmente se vira e faz paris-hiltices para as câmeras: bota a mão na cintura, dá uma quebradinha no quadril, entorta o pescocinho, fica de perfil, mexe no cabelinho, dá uma piscadinha e banda beijo. Foi tudo tão rápido que mal deu para ver que ela usava um vestido tomara-que-caia (cetim?) até o meio da coxa com estampa de fogos de artifício. Um segurança (4×4, cabine dupla) brinca: “Depois dela, ninguém vai querer tirar foto minha?”

A _________ (atriz? modelo? cantora? dançarina?) entra no backstage e apenas alguns agraciados são escolhidos para entrar também para entrevistá-la. Tensão. Gritaria. Xingamentos. Tentativas desesperadas de passar a carteira são ouvidas, em gritos como “Eu sou da Rede TV!”, “Eu sou do Estadão (que teve acesso exclusivo à recepção)!”, “Eu sou do UOL”.

Uma eternidade depois (vários repórteres sentados), em ritmo de conta-gotas, os corajosos que aguardaram duas horas começaram a entrar na almejada salinha (o fotógrafo falava sobre seu desejo de instalar câmeras em casa, para certificar-se de que a faxineira não bateria em seu filho). Depois de muitos gritos de “se não esperarem, não entra ninguém”, estavam todos na salinha onde Paris seria fotografada (e nada além disso).

Ela aparece, com um look da Triton: saia curta de renda branca, coletinho off white e corpete branco. Paris-hiltices aqui e ali. Um modelo é chamado para ‘contracenar’ com ela. Uma apresentadora de TV se diverte dizendo “a Madonna já pegou um. Agora é a Paris”.

Cerca de trinta segundos depois (talvez um pouco mais), termina a sessão. Saem todos da sala com cara de “é isso?”, e correm para tentar entrar no desfile. Tarde demais, a sala já está fechada. No Twitter, Paris ainda tem tempo de comentar sobre o corpo dos brasileiros.

PS.: Mais tarde, a loira foi fotografada com um cartaz pedindo que seus fãs sigam o @parisfansbrazil, porque “it’s hot”.

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Mesmo sentado na arquibancada no lado oposto da sala de desfiles na hora da apresentação da Cia Marítima, sem reconhecer nenhum rosto sequer na plateia, é possível identificar o cabelo à la Marilyn Monroe da drag queen Salete Campari. Terminado o desfile, ela, em um só fôlego, pega o melhor amigo pela mão, passa o outro braço pelas costas do repórter, grita o nome de mais umas três pessoas que estão em volta e dispara rumo ao sofá mais próximo.

Refestelada no móvel feito uma gata manhosa (seu vestido é de tigre e os sapatos são de onça), ela abre a bolsa (também de tigre) e depois de abrir cada um de seus três celulares, finalmente encontra qual estava tocando. “Aloah! Fulano, sobe aqui que vai rolar baladinha” – a música do lounge da Marie Claire estava audível de longe. A conversa continua.

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Salete está presente em todas as edições da SPFW. E, desta vez, logo no primeiro dia do evento, ela falou o que alguns estavam morrendo de medo de dizer: “Estou achando tudo isso aqui muito parado”, sentencia. “Amanhã é que vai estar bom: vai ter Paris Hilton.” Gosta da Paris? “A-DO-RO! Ela é devassa.” As duas divas até já se encontraram pessoalmente. Salete ganhou um presente. “Mas só ganhei o presente. Não entendi nada do que ela falou, não sei falar inglês”, lembra. O presente foram dois dos perfumes que a ricaça lançou. “Eu gosto”, conta uma Salete pouco entusiasmada. “Mas prefiro o Chanel nº 5″. Lógico: o perfume evoca suas maiores divas. “Eu sou toda Marilyn Monroe, Coco Chanel.”

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Desfile | Sim, havíamos acabado de sair de um desfile. “Gostei, mas não é o tipo de roupa que eu usaria.” Não é exatamente fácil para uma drag queen usar um biquíni. “A minha moda praia é um maiô de miss”, brinca. Nesse caso, ela estava mais para Rosa Chá do que para Cia Marítima. “Claro. Adoro Alê [Herchcovitch]. Somos superamigos.”

Requisitada | Toca o telefone de novo. Ela mostra a tela o celular com uma mensagem de texto e diz: “Olha, vê se eu posso? Mais uma festa, amanhã.” Vai? “Claro. A minha vida é uma festa!”

Look | Além da África inteira estampada no vestido, sapato e bolsa, Salete veste um par de meias arrastão (com um quase imperceptível remendo em uma das panturrilhas). O repórter pergunta: “Meia arrastão é tendência?” E Salete anuncia: “Eu sou toda arrastão, querido.” Olha o perigo: “Mas arrastão com Elza, Salete ['Elza' é uma gíria gay para 'roubo', 'dar/fazer a Elza']“. “Nada de Elza por aqui! Mas hoje eu estou até básica.” Como assim, básica com vestido de onça e meia arrastão? “É que isso é básico de Salete. Eu sou toda reluzente. Gosto de ser ofuscante” (faltou citar os cristais dos três braceletes que ela estava usando).

Deuses | Escolha dura para qualquer LGBT: Madonna ou Lady Gaga? Meio segundo depois da pergunta: “Lady Gaga. Aaaaaaaaaaamo.” (O ‘amo’ durou uns dez segundos.) “Tudo de bom ponto com ponto BR.” No pescoço, um pingente drag queen size (inventei isso agora) com a imagem de uma santa. “É Nossa Senhora de Salete”, catequiza. Ué, virou santa? “Ainda não. Essa daqui já é divina. Eu só corro atrás.” Um dia, quem sabe, né, Salete? “Que Deus te ouça – mas o papa não.” O maior sonho: “Ganhar o Oscar.”

Para cima | Apesar de achar o dia meio sem graça (um desconto: o evento começou bem em uma quarta-feira), Salete gostou do tema, ‘Anima’. “Eu sou para cima. A minha vida é uma festa.” Mas há momentos de tristeza em sua vida: “Fico triste quando vejo gente morando embaixo da ponte, quando vejo terremoto acabando com tudo, quando vejo não-sei-quantas travestis sendo mortas por crime de ódio, quando vejo a política brasileira”, enumera. Ela também não é Salete 24 horas por dia. “Meu nome de homem é Sales”, explica. “‘Campari’ é por causa da minha cunhada, que tomava Campari no almoço. Eu achava muito chique”, ri. “Mas nunca quis ser mulher. Mulher é sagrado. Travesti é apenas um homem com alma feminina.” E termina: “Quando eu não souber mais diferenciar a Salete do Sales, a brincadeira terminou.”

Toca o telefone mais uma vez. “Aloah? Menino, espera aí, já estou indo. Estou dando entrevista para um repórter bonitinho aqui. Beijos, querido.” Beijos, Salete.

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09.junho.2010 22:17:47

Um outro olhar

“O mundo é cruel, não é, gente?” Nem parecia que a consultora de moda Ana Pasternack  estava no meio de um monte de alegres cataventos (o prédio da Bienal está todo decorado com eles). Ana é uma dessas fashionistas curinga que sempre aparecem na televisão para dar dicas de moda, principalmente no canal GNT (sua última aparição foi no programa de Ana Maria Braga). Na Bienal, havia um motivo para ela estar mal-humorada: os convites que ela e sua amiga, a professora de moda Dhora Costa (que estava com ela durante a entrevista), pediram para as marcas vieram pela metade. E as duas tiveram de esperar todo mundo entrar nos desfiles para pedir um lugarzinho lá no meio da plateia. “Isso porque esses dias eu estava sendo jurada do concurso Moda Inclusiva“, brinca. “A vida é assim: um dia você está do lado da primeira-dama, no outro, está no meio da plateia.”

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Detalhe de look do desfile de Erika Ikezili

De passagem | Ana só deu uma passadinha na Bienal para ver dois desfiles, o de Tufi Duek e o de Erika Ikezili. Não gostou de algumas pessoas que viu. Ou melhor: reviu. “Tem gente que um dia é sua melhor amiga, mas, no outro, dá uma amnésia”, ri, sem citar nomes (apesar do esforço do repórter). O clima na Bienal estava tão festivo que quase nos esquecemos de falar sobre moda (tem até uma roda gigante instalada no prédio). Tudo por causa do tema desta edição da SPFW: ‘Anima’. “Na edição anterior, o tema estava mais fechado, não é?” relembra. “Desta vez está mais alegre, mais com a cara do verão. O Brasil é isso.”

Miscigenação | Ana também achou Erika Ikezili com a cara do verão, com todas as suas cores e volumes. Dhora avalia: “Ela misturou duas etnias, que foi a brasileira e a japonesa, para compor esta coleção.” Missão cumprida, Erika: há realmente elementos étnicos em sua coleção, mas não necessariamente japoneses. Ela se inspirou nos Brokpas, um povo primitivo e seminômade dos confins da China.

Comercial | De que desfile gostaram mais? Ambas: o de Erika. “Foi mais brasileiro”, diz Ana. “O de Tufi é sempre mais comercial.” Interessante: no de Tufi, havia um curioso mix de peças com modelagem de alfaiataria, mas com tecidos ultratecnológicos, com brilhos, transparências, texturas e cores que iam se transformando em outras. “Mas a alfaiataria é mais sequinha”, avalia Ana. ‘Sequinha’ no bom sentido: não explora muito volume. “O que com as brasileiras faz muito sucesso.”

Calçados | Um ponto que chamou a atenção de Dhora: os sapatos de Erika Ikezili. “Ouvi dizer que foi feita uma parceria com a Dunes, que é superpopular.” Ela explica algo que no Brasil é delicado: as coleções de sapatos (a não ser para as marcas de sapato) são sempre restritas. “Acabam sempre só pegando algo que combine e pronto. É muito caro desenvolver uma coleção de calçados.” Segundo ela, o que erika fez, a parceria com marcas populares, é mais comum no exterior. Cita marcas díspares como Dior e H&M.

Vida | Para Ana, Erika também se aproximou mais do que vai ser tendência nos próximos meses: peças com mais movimento, cores mais tropicais (como azul água) e estampa de flores. “Mas não flores desse tamanho”, explica. “Elas serão mais miudinhas, mas não chegam a ser lieberty.”

Brilho | Perto do fim da conversa, Dhora comenta sobre seus alunos. “Vários vieram. Eles estão quase de férias neste mês.” Para falar das disciplinas que a amiga leciona, Ana mostra os cinco anéis usados por Dhora (todos verdes): “Me fala se ela não é uma professora de acessórios?” Mas por que são todos dessa cor? “Esmeraldas, querido!”

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09.junho.2010 16:56:30

Ziguezague com Ney

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O cantor, durante o desfile  da Blue Man, na Fashion Rio

Fez sol na manhã desta quarta em São Paulo. Mas é um sol desses de inverno, com vento gelado, apesar do céu azul sem nuvens. Justamente neste tempo que o cantor Ney Matogrosso pegou um resfriado - de leve, é verdade, mas logo no dia em que participaria de um debate na abertura do evento Ziguezague, no MAM, evento de moda paralelo à SPFW. “Alguém aí tem um lencinho de papel?”, ele pergunta, ao passo que uma enxurrada de espectadores devidamente agasalhados saca de suas bolsas o utensílio requisitado. Um princípio de quase tumulto se anunciou, até que uma destemida pessoa venceu os vinte metros que a separava do palco e deixou sobre a mesa de Ney um pacotinho de lenços.

Enquanto os outros combatentes voltavam tristes para seus lugares, alguém faz um gracejo: “Pede para ele assinar o lenço depois que assoar o nariz e guarda.” Risos no recinto. Todos querem uma parcela da energia do cantor. Apesar do tempo frio e do resfriado, o cantor celebra, com uma frase cerimoniosa: “Eu não me ponho diante do sol apenas para me bronzear.” Para ele, estar diante do sol é abrir-se para tudo o que o universo oferece, sem amarras. A propósito, sua penúltima turnê, Inclassificáveis (título que sintetiza magistralmente seu trabalho), foi concebida com outro nome: Um Pouco de Calor.

Este calor todo presente nas performances de Ney fica evidente, mais do que em qualquer outro fator do show, nos figurinos. “Algumas coisas que eu coloco me dão poder”, conta. “Eu sinto poder. É como se eu gritasse ‘Shazan!’ e pronto.” Houve uma ocasião, durante uma cerimônia do Santo Daime, em que ele teve uma visão. Era uma figura com longos cabelos que pareciam crina de cavalo. Ele então saiu à procura de criar um figurino com uma peruca feita de crina de cavalo. “Aquela roupa dava uma amplitude de gesto”, explica. “Tudo o que eu fazia ficava três vezes maior.”

Uma das organizadoras do Ziguezague, Christiane Mesquita, que dividia a mesa, citou uma antropóloga que entrevistara: “Ela dizia: ‘Põe a roupa que o santo baixa’.” “Isso é pagão”, ensina Ney. “Nada vem de mim. O que eu tenho é uma capacidade de estar aberto para as coisas me tocarem.”

As coisas o tocam, fato. Mas as pessoas também são tocadas. Uma delas foi Ocimar Versolato. A ideia de ser estilista só passou pela cabeça de Ocimar quando, adolescente, viu uma apresentação de Ney. Hoje, trabalham juntos. O mentor se tornou pupilo. A última parceria (melhor dizer: a mais recente) foi para a turnê Beijo Bandido. “Ele criou a roupa de um jeito que me veste, mas ainda assim exibe meu corpo”, define Ney. Em tempo: em Beijo Bandido o que se usa é um terno bege. Em certa ocasião, Ocimar explicou: “No caso de Ney, mesmo um terno serve como fantasia.” Ney fica completamente vestido. Porém nu.

Opostos | Um terno bege logo após os 60 mil micropaetês dourados de Inclassificáveis. Negação? “É isso que fazemos a cada seis meses na moda, não é?” diz Jackson Araújo, outro organizador do Ziguezague, presente na mesa. “Esta é a força da marca Ney Matogrosso.” Mas Ney não encara como uma negação. “É simplesmente uma transformação.” Pode ser como na música em que ele diz: “Ser novo para mim é algo velho.”

A nudez | Durante o Fashion Rio, há alguns dias, Ney apareceu de surpresa cantando em um dos desfiles, da grife Blue Man – na passarela, apenas modelos vestindo sunga. Alguém pergunta: “Você teria cantado neste desfile se fosse para também vestir sunga?”. Não, categórico. “Mas sem moralismos.” “E esse corpinho?”, dispara uma fã mais saliente. “Como muito pouco, faço ginástica e – alguns dizem que isso é neurose – me peso todos os dias em uma balança que tenho no meu quarto, para saber se posso me exceder. Às vezes é preciso me exceder.”

Os trópicos | “Eu tenho o maior orgulho de ser latino-americano”, diz, estendendo cada sílaba. “Eles acham que nós somos menos. Menos são eles.” Aplausos. “Quer me ver feliz? Me leva para o Cerrado, para os lugares que ninguém quer ir.” Um desses lugares é um sítio, no meio da mata. Lá tem um passarinho. “Ganhei e pensei: não posso deixá-lo dentro da gaiola.” O passarinho vive solto, mas nunca quis deixar o sítio. “Ele me olha como quem diz ‘Quem é você?’” Por causa desse passarinho, agora outras aves também frequentam o sítio. “É um passe que eu recebo”, brinca. Jackson intervém: “Você assistiu Avatar? Achei esse filme a su-a-ca-ra, essa coisa da conexão com a natureza, uma cosmogonia.”

O relicário | Uma moça da plateia pega o microfone para fazer uma pergunta. “Eu vim do Mato Grosso para ver o Ney Matogrosso”, brinca. E completa: “Gente, eu precisava dizer isso.” Christiane atalha: “E ela tem um nome lindo, e tudo a ver com você: Savana Leão.” Savana prossegue: “Não quero me comparar, é bem diferente, mas eu também tenho umas aberturas dessas, umas ideias.” Ney corta: “Não é diferente. É a mesma coisa. É ser artista.” “Quando é assim, o que você faz?” “Anoto em um caderno. Se for uma visão, eu desenho. Porque então você vai ter outra e mais outra ideia. Quando vê, esqueceu tudo.” Christiane fica eriçada: “Então o Ney tem um caderno de artista.” Ney contabiliza: “Um caderno de artista e um monte de coisas que está em casa, estragando.” O diálogo termina com Christiane prometendo intervir. Um museu para Ney?

O templo | “E no dia a dia? Você comentou que aos 17, usava Havaianas com camiseta. E hoje?” “Calça jeans e camiseta. Mais nada. Não uso um anel, um amuleto, nada”, diz um Ney que faz parecer que são duas pessoas, a que fala e  a que canta. “Mas eu tenho minha cabeça”, completa, colocando tudo de novo em um caminho só.

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    Quem Faz

    Mariana Belley

    Mariana Belley é jornalista e taurina. Ama os clássicos da música brasileira e dança rock. Prefere meia-calça à calça jeans e não sai de casa sem o batom vermelho na bolsa. E adora moda, muito!

    Contato: mariana.barbosa@estadao.com

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