Sabe aquele dito popular que a gente sempre escutou da nossa avó, Sofrer para formosa ser? O desfile da marca Andrea Marques neste último dia de Fashion Rio levou o conselho ao pé da letra. As modelos estavam visivelmente desconfortáveis nos belos tamancos de salto alto que a estilista levou à passarela; embora tivessem solados de borracha, fizeram algumas tropeçarem ou entortarem os pés enquanto desfilavam. A inspiração setentista que trouxe ombreiras às blusas e vestidos também alongou o comprimento das saias, que ficavam logo abaixo dos joelhos. Algumas peças eram muito justas e faziam com que as meninas precisassem dar passos bem curtinhos, dando a impressão de que elas poderiam se atrapalhar com as próprias pernas a qualquer momento.
O movimento, palavra bastante exaltada como influência em temas de vários desfiles desta edição do Fashion Rio, esteve bastante comprometido. Mas minha avó aprovaria.
O Moda já tinha ficado de olho nela desde a edição passada das semanas de moda do calendário oficial brasileiro, quando a gaúcha Luana Teifke foi recordista de desfiles no Fashion Rio e São Paulo Fashion Week. Também já havia reparado que ela foi capa da revista Elle, participou de vários editoriais das revistas Vogue e Marie Claire, além de aparecer nas fashion weeks de Londres e Paris.
Depois de sentar nas plateias dos primeiros desfiles desta edição da semana de moda carioca e ver, novamente, Luana figurar na maioria das apresentações, decidimos marcar um bate-papo para saber um pouco mais sobre a menina. Com rosto de boneca e um olhar sério, quase triste, nas passarelas, ela revela-se muito alegre e simpática pessoalmente. “Claro que podemos marcar uma conversa, quando você prefere?”, perguntou, enquanto esperava as outras garotas para passar de um desfile a outro.
Eu pedi seu telefone, já que deveríamos cruzar duas agendas em algum momento que não fosse tão corrido para ela. Já sabia que seria complicado, afinal de contas, as modelos acordam cedo, chegam três horas antes do primeiro desfile, fazem prova de roupas às pressas, podem ser confirmadas em um casting em cima da hora e aproveitam qualquer minuto que tenham livre para descansar durante uma semana de moda concorrida como esta. Depois de trocarmos várias mensagens de celular, conseguimos marcar o encontro para as 12h de hoje, dia em que Luana conseguiu dormir um pouco mais. O papo foi no restaurante do Hotel em que estava hospedada, no centro do Rio.



Luana diz que seu estilo é básico, e eu acho engraçado. Todas as modelos falam isso, afinal, quando na verdade elas adquirem um senso de estética que vai muito além do feijão com arroz. Luana estava sem maquiagem, mas usava calça skinny preta, camiseta cinza e um colete de couro preto que mudava completamente a cara do look. “Tenho algumas peças diferentes que uso sempre e garantem um visual moderno”, explicou.
Luana, 19 anos, já tem uma carreira consolidada, mas ainda está na demorada fase em que não pode escolher seus trabalhos – esta regalia só é reservada às top models. “Eu já sonhei muito em ser uma delas, mas hoje em dia, encaro tudo isso como uma profissão. Quero aproveitar o momento bom e passar mais tempo em Nova York este ano”, diz várias vezes durante a entrevista. É sua agência, a Way Models, que coordena tudo o que ela faz e que decide, inclusive, onde vai morar nos próximos meses. As modelos não sabem ainda nem se vão desfilar na SPFW, que começa no dia 28.
Ela olha para a esquerda toda vez que faço uma pergunta. Responde de forma ponderada, bem tranquila e disciplinada. Está sempre sorrindo e não parece ter grandes crises em relação à carreira que a vida escolheu para ela, há quatro anos, quando saiu de Sertão Santana, no interior do Rio Grande do Sul, para um teste em Porto Alegre. No dia seguinte, foi para São Paulo com a tia (a primeira vez que andou de avião) e, em seguida, já embarcou para o Japão, onde passou dois meses a trabalho.

Luana e eu batemos papo no lounge do Hotel Guanabara, no centro do Rio de Janeiro
E é assim a vida das modelos, tudo imprevisível, de repente. De um dia para o outro elas começam e, também de um dia para o outro, a carreira focada na beleza idealizada termina. “Tenho consciência de que tenho poucos anos como modelo, não vou poder fazer isto por muito tempo, mas passa muito rápido. Vejo fotos do primeiro ano hoje e parecem imagens superantigas”, reflete, nostálgica, acrescentando que o tempo ensina a se adaptar.
Ela gosta de acordar cedo e não é uma típica baladeira. Tem uma alimentação equilibrada, fala todos os dias com a mãe e sonha em ter uma família e morar em uma “cidade legal”. Quando não tem nada na agenda, prefere ficar em casa, fazer o próprio almoço e esquecer que é modelo – algo que também faz quando visita a cidade natal, duas vezes por ano, e sai com as amigas de infância. “Elas querem saber como é a minha vida, morar em outro país, e tudo que eu quero é ouvir suas histórias normais, do dia-a-dia da faculdade etc”, conta.
Também deseja voltar a estudar, já que abandonou a escola no 1º ano do Ensino Médio para focar na carreira. Mas reafirma, muito calmamente, que isso pode ficar para depois e que agora não é o momento de se preocupar com os estudos. “Se fosse para terminar o Colegial de qualquer jeito, eu já teria concluído, mas quero aprender de verdade, então adio”, justifica. Ela já conseguiu comprar um apartamento em São Paulo, mas quando está em NY ou Paris, fica na casa fornecida pela agência, onde tem que dividir o espaço com mais três meninas. “É aí que ponho em prática tudo sobre organização que meu pai sempre me cobrou”, sorri.
Luana desfila para a marca Têca no Fashion Rio
Luana desfila para a marca Filhas de Gaia no Fashion Rio
Luana tenta despistar quando pergunto se dá para namorar. Fica na cara que ela não quer falar sobre o assunto. Pergunto se não é difícil arrumar companhia quando se vive em um meio em que a maioria dos homens ao redor são homossexuais e, fora dele, bem mais baixos do que ela. “Eu até tenho conseguido. Nada sério, mas é bom ter alguém para cuidar da gente”, confessa.
No final, peço para fazermos uma foto e, como eu esperava, ela acha que está muito desarrumada. Mas Luana tem uma fotogenia clássica, é impossível dar errado. Nos despedimos e eu espero vê-la de novo, daqui a pouco, na sala de algum outro desfile. Ou dentro de alguns dias, folheando mais uma revista e tentando identificá-la no meio de tantos outros rostos parecidos, perfeitos e com olhares vazios. Espero que seja só pose para foto.
A edição de inverno das semanas de moda nacionais começa no próximo dia 10, com o Fashion Rio. Como sempre, o Moda antecipa alguns dos modelitos que serão desfilados nas passarelas nos dias que se seguem. Ver croquis e entender um pouco mais sobre o conceito das coleções é sempre legal para acompanhar melhor as criações de cada estilista.
A segunda marca a passar pelo Fashion Rio, às 19h da terça-feira (11), será a Filhas de Gaia. As designers Marcela Calmon e Renata Salles estrearam na semana de moda carioca em 2008, causando uma boa impressão de estreia com misturas de estampas, cores fortes e a presença da atriz e modelo Letícia Birkheuer na passarela. Desta vez, a marca prepara um clima mais sombrio para o inverno 2011, inspirado nos romances policiais da escritora Agatha Christie.
Jano Felinto e Daniela Nery prepararam um cenário misterioso, inspirado em um hall de hotel por onde entram e saem várias pessoas. No styling de Rogério S. e Yasmine Sterea, alfaiataria masculina se mistura a fendas e transparências conferem sensualidade às produções. O tecido mais explorado é a seda em georgetes, cetim estonado e musseline. Tons frios dominam a coleção em pretos, off-whites, vinhos e verdes.
A Filhas de Gaia revende para elegantes multimarcas no País. Estão na Via Flores, Alberta e Nag Nag, no Rio; na Surface to Air e Thelu, em São Paulo; na Magrella, em Brasília; na Clô, em Belo Horizonte, e também exportam para Cingapura e Itália.
A abertura da Casa de Criadores costuma ter clima festivo. Na edição anterior, no semestre passado, principalmente. O estilista Walério Araújo estava completando 40 anos. Por isso, comemorou com uma coleção especial (até com a presença da cantora Stefhany do Cross Fox, que distribuiu algumas cópias de seu CD).


Seis meses depois, na 28ª edição do evento, que começou ontem (29), Araújo pulou para um assunto mais denso: o luto. “Eu perdi muitas pessoas importantes nos últimos meses”, ele conta. “Foram amigos, familiares e também alguns ex-namorados, que é melhor enterrar de vez”, brinca. Uma dessas pessoas foi o melhor amigo. A outra estava sendo celebrada por muitos dos presentes no backstage. Era a performer Cláudia Wonder, que morreu na sexta (26).


Foi uma triste coincidência com o tema do desfile. Araújo distribuiu bottons escrito ‘I ♥ Claudia Wonder’.
Mas apesar do tema mórbido, a conotação dada por Araújo não foi de todo triste. O estilista pesquisou o significado do luto em diversos países, e apresentou, além dos esperados vestidos pretos, peças completamente vermelhas (o luto na Índia, cor do fogo que consome os corpos), bege (cor de folha seca, de quando as plantas morrem, no Egito), violeta (na Tailândia).


As peças eram basicamente feitas de renda, como os chapéus das viúvas, bem transparentes e colados ao corpo. Havia diversos laços, também de renda, e, surpreendentemente, as franjas das bolsas eram de cabelo humano. Uma das peças remetia a uma burca (“Mas uma burca transparente, para quem não tem nada a esconder”).

A morte, para Araújo, simboliza recomeço. Isso ficou expresso na peça que representava o luto na China: branco. O macacão transparente todo franzido parecia flutuar sobre o corpo, formando uma aura clara.
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A fuga | O evento seguiu com o desfile de R. Rosner. O estilista conta que se inspirou ao ler O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. O livro se passa no fim dos anos 1920, e conta a história da esposa de um burguês (tornado paralítico durante a guerra) que se envolve com um homem da classe operária.
Lady Chatterley sai às escondidas durante a noite para visitar seu novo amado. Este espírito de fuga entrou no desfile sob a forma de peças escuras (pretas, na maioria das vezes), com pontos luminosos (estrelas?). A música foi um Mash up entre Chopin e Mad World, do Teas for Fears.
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Um sonho | Danilo Costa levou seus amigos imaginários para a passarela (não, nós não o vimos). A ideia da coleção veio do filme Onde Vivem os Monstros.
Havia calças que remetiam a pijamas, com o característico tom cinza mesclado do moletom, em contraponto a peles sintéticas (que seriam o pelo dos monstros do filme) e imensas padronagens de xadrez (como cobertores antigos).
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Olé | Uma viagem à Espanha deu a inspiração de Geraldo Couto, que viu muitos shows de flamenco. Para Couto, a mulher que mais retrata o espírito de seu trabalho é Hebe Camargo.
O desfile foi bastante folclórico, com referências por vezes claras demais, com babados e espartilhos em vermelho, branco e preto.
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Rock | O desfile de Rober Dognani foi o mais frenético, com couro em todas as peças. A ideia que permeava a coleção parece ter sido a desconstrução e a assimetria, com macacões sem a perna esquerda e sem o braço direito, por exemplo.
Uma ideia apresentada foi a calça com costura de pata, que dava a impressão de ser uma bota com plataforma incrivelmente alta.
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Lounge | O primeiro dia terminou com uma tradição do evento: a marca convidada. Desta vez, quem apareceu foi a Sumemo, de Alex Poisé.
O símbolo da Sumemo remete a outro grande estilista, Alexandre Herchcovitch. É uma caveira, mas com algumas adaptações. Em vez dos dentes, há um soco inglês. Diferente das caveiras dos piratas, não há ossos cruzados, mas tacos de beisebol (um deles atravessado por um prego). “Eu me inspiro nas coisas que vivi, na rua.”
O dono da marca de streetwear (que não tem muito apelo de passarela, é verdade) dispensou o modelo tradicional de cast. Assim como Marcelo Sommer costuma fazer, o estilista Poisé convidou os amigos para desfilar.
“Eu tenho amigos de todas as tribos”, conta, antes de enumerar: “Tem gótico, skatista, punk…” O próprio nome da marca vem disso: a gíria vem do termo ‘isso mesmo’, usado pelas ruas. A passarela confirmou a diversidade: havia gente como o cantor Marcelo D2, o chef Alex Atala, o músico Júnior Lima e até o estilista Dudu Bertholini (na última foto).
Entre as peças, muito moletom, couro e máxi tachas em jaquetas. As estampas geralmente remetem a pichações, caveiras e armas.
No fim do evento, Poisé aproveitou que seus amigos estavam reunidos e partiram para a festa. A noite terminaria muitas horas depois, no clube Glória, não muito longe dali.

Os escoceses são quase os únicos remanescentes de um peculiar item do vestuário: a saia. Para homens. No caso, é o kilt, que, apesar de ser parte da cultura do país, não deixa de ser extremamente folclórico e pouco casual.
O estilista português (cujo nome não desmente sua origem) Nuno Gama quer levar o hábito para mais longe. Em seu desfile, ontem, ele apresentou um modelo de saia que nem é muito masculina, mas estava sendo usada por um homem.
A peça lembra a tradicional costura portuguesa, com poás, babados, listras e várias camadas. A sugestão do desfile era combinar com uma camisa de manga comprida, gravata e pesadas botas.
A pergunta é: o item estará nas prateleiras de Gama?
A Grécia se encontrou com o Oriente Médio na calada da noite para o destile de Giorgio Armani, na Semana de Moda de Milão. Todas as cores foram noturnas, em trajes que exploraram ao máximo o comprimento dos tecidos. Turbantes dividiram espaço com colares de várias voltas, com contas grossas e pesadas. Algumas das peças pareciam feitas de apenas um corte de tecido, modelado às voltas em torno do corpo.
{Confira aqui os melhores detalhes da Semana de Moda de Milão}
Para quebrar o clima exótico, algumas peças clássicas foram revisitadas ao clima proposto: o colete ganhou uma versão curvilínea e as batas tiveram sobreposições de babados (que estão com tudo na estação). Roupas com pedrarias reforçaram a ideia de noite, remetendo às estrelas. Tudo em tecidos que não deixavam de ter seu brilho, mesmo nos tons mais escuros da cartela.







Sábado, na Semana de Moda de Milão, foi dia de Emporio Armani, do estilista Giorgio Armani. Na passarela, alguns colares que deixariam nossa amiga Debora Gelman bem curiosa. Os tecidos exploraram texturas mais luminosas, de brilho opaco, mesclando transparências e babados. Em todos os looks, cintos. Mesmo as peças completamente pretas tiveram detalhes em destaque com materiais como vinil. Para quebrar o monocromático da maioria das peças, alguns looks vieram com estampas quase primaveris – mesmo assim, com uma gama pequena (porém elegante) de cores. Veja algumas fotos.
{Confira aqui os melhores detalhes da Semana de Moda de Milão}








Desfiles realmente não servem apenas para mostrar as roupas de uma marca. A cantora Wanessa (ex-Camargo), por exemplo, se apresentou na coleção verão 2011 da Planet Girls. O Moda não vai se estender muito. Assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões.
Há brasileiro na alta-costura de Paris. O mineiro Gustavo Lins apresentou esta semana sua coleção inverno 2011 na França. Gostamos do desfile, mas tivemos um déjà vu: o vestido da direita não se parece um pouco com o look criado por Oskar Metsavaht para a Osklen, na coleção inverno 2010?
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