John Galliano, um apreciador de História diferente de qualquer outro estilista de sua geração, já concebeu coleções de moda a partir de cenas das ruas da Revolução Francesa, charges de Napoleão e até da vida de Pocahontas. Suas viagens de pesquisa pelo mundo são legendárias, levando-o a casas de chá no Japão e a ruínas do Egito. Mas quem imaginaria que seria em Los Angeles que Galliano encontraria um dos melhores exemplos da vestimenta europeia desde a época do Iluminismo até a Primeira Guerra Mundial?
Em abril do ano passado, Galliano visitou um espaço escuro, semelhante a um closet, que é o departamento de roupas e tecidos do Los Angeles County Museum of Art. Passou duas horas maravilhado com delicados bordados de ouro e mangas plissadas como acordeões, pedindo a uma série de assistentes que tirassem fotos de diferentes ângulos.
Pesquisadores, estilistas e o público poderão, em breve, ver um pouco do que ele viu na expoosição Fashioning Fashion: European Dress in Detail 1700-1915 (em português: “Modelanto a Moda: Vestidos Europeus em Detalhes 1700-1915).
O período tumultuoso representado em Fashioning Fashion é similar ao nosso momento atual. O Velho Mundo estava agitado pelas forças da revolução, expansão do mercado global e avanços tecnológicos. A moda veio a partir de uma forma de artesanato apreciada pela aristocracia e se tornou uma indústria de reprodução em massa.
Boa parte dos modelos exibidos no museu são peças raras e foram propriedade de gente muito rica, incluindo um espetacular turbante cravejado de joias e plumas feito pelo estilista francês Paul Poiret para sua mulher, Denise, como traje de uma festa com temática árabe em 1911 (cujo título foi “A Milésima Segunda Noite”). Há também o colete sobre o qual Galliano escreve no prefácio da mostra. A peça é da época da Revolução Francesa e possui bordados nas cores vermelho, branco e azul.
Na exposição, a graça está nos detalhes – na precisão das listras em um colete masculino de 1850 - e no charme de um pássaro prateado bordado abaixo do joelho em uma meia vermelha que data entre 1700 e 1725.
Há também as estruturas que proporcionavam as desejadas modificações no corpo em uma época anterior à cirurgia plástica, incluindo uma azáfama dobrável, um corpete de couro que precedeu os de Vivienne Westwood em pelo menos um século e um par de botas-fetiche da época do Moulin Rouge, com cadarços ao longo de toda a perna. Poderia até ser confundida facilmente com botas do último outono de Christian Louboutin. (The New York Times)
Quais filmes têm mais chances de ganhar um Oscar de figurino? É muito provável que você diga ”filmes da realeza”. A onipresença dos vestidões e trajes da monarquia parecem os candidatos certos para levar a estatueta. E talvez seu raciocínio não esteja errado. Nos três últimos anos, por exemplo, filmes que mostravam o vestuário dos nobres foram os premiados: Maria Antonieta (2006), Elizabeth: A Era de Ouro (2007) e A Duquesa (2008). Isso quer dizer que, em 2010, o sucessor natural seria The Young Victoria (veja os indicados)? Não necessariamente. Há outros critérios que definem um vencedor.

O filme A Duquesa foi o melhor figurino de 2008
“Geralmente, o filme de época é onde você consegue mostrar o tamanho da pesquisa e do trabalho em cima do figurino”, diz Verônica Julian, figurinista que trabalhou em produções como Castelo Rá-Tim-Bum (1999), Nina (2004) e na inédita de Tonico Mello, Vips. Mas, analisando o histórico das últimas premiações do Oscar, vemos que este trabalho de pesquisa e criação pode ser bem representado em outros estilos. Foram premiados dois épicos: Gladiador (2000) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003); dois musicais: Moulin Rouge (2001) e Chicago (2002); e dois filmes ambientados em meados do século 20: O Aviador (2004) e Memórias de Uma Gueixa (2006).

A Maria Antonieta do cinema usa até All Star (ao fundo)
Mas a avaliação não é feita só em cima do trabalho do figurinista. Há também o da direção de arte, que precisa ir além da mera caracterização de época. No filme Maria Antonieta, por exemplo, em uma cena que mostra os inúmeros sapatos colecionados pela rainha, aparece um nada medieval par de All Star. “Apesar de fazer um figurino de época perfeito, a produção consegue colocar um toque pessoal no filme”, avalia Verônica.
Isso não significa que filmes que se passam no tempo presente não tenham um bom trabalho de figurino. Verônica cita o simpático Pequena Miss Sunshine (2008). “É um figurino simples, mas primoroso”, conta. “Não concorreu [em 2009], mas tem uma grande personalidade.” Para a figurinista, é esta última palavra que deve definir o vencedor deste ano. Ela aposta em O mundo imaginário do Doutor Parnassus. “Ele tem uma linguagem surrealista que é incrível. Há uma personalidade no filme”, diz. O que não quer dizer figurino espalhafatoso. “A roupa não pode se sobrepor nem ao ator nem à obra”, avalia. “Se isso ocorrer, o figurino não está bom.”
Veja como a Academia premiou os figurinos nas cerimônias do Oscar desde o ano 2000 e tire suas conclusões para a premiação deste ano (leia post).
2000 | Gladiador
Hollywood gosta de escalar a figurinista Janty Yates para produzir roupas de época. Além de Gladiador, ela participou da criação do figurino do filme Cruzadas. Armaduras desgastadas, túnicas e vestidos da alta sociedade romana foram as peças que chamaram a atenção da Academia. O couro apareceu nas sandálias, nas capas em cima das armaduras e em acessórios de luta. A seda e os bordados em fios de ouro ficaram para as vestimentas da nobreza.
2001 | Moulin Rouge – O Amor em Vermelho
Satine (Nicole Kidman) adora diamantes e é a mais glamourosa das meninas do cabaré. Por isso, Catherine Martin e Angus Strathie sem empenharam em desenhos de mais de 400 roupas que representassem o luxo e a sensualidade pedidos pela personagem. Mas não foi o can-can a inspiração, dizem eles, e sim as divas do cinema clássico - Dietrich, Garbo e Joan Crawford. Catherine já havia sido indicada ao Oscar em Direção de Arte por Romeu + Julieta. E Strathie havia feito vários figurinos para a ópera.
2002 | Chicago
As roupas sexys do filme Chicago vieram das mãos de Colleen Atwood, que teve de vestir Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) e Roxie Hart (Renée Zellweger) - uma mata o marido adúltero e a outra se vinga do amante que a enganou. O imaginário e o real são muito bem representados, já que os musicais brincam com o tempo e a mente particular de cada personagem. Colleen Atwood é autora também do figurino de Desventuras em Série, Sweetney Tood – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e do ainda inédito Alice no País das Maravilhas. Ela concorre este ano com o filme Nine, como já falamos por aqui.
2003 | O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei
As roupas dos hobbits, guardiões e elfos não apenas pareciam surradas. Elas foram de fato muito usadas. Viggo Mortensen, por exemplo, colocava as roupas do personagem Aragorn mesmo quando não estava filmando, para que ficassem sujas e marcadas naturalmente. Não faltaram armaduras, coletes, capas e túnicas no figurino elaborado por Ngila Dickson. Na época, a joalheria Dryzun desenvolveu uma coleção de joias usadas pelos personagens como o ‘Um Anel’ e o colar da elfa Arwen.
2004 | O Aviador
Sandy Powell mergulhou no anos 1940 para fazer o figurino das estrelas hollywoodianas e do aviador Howard Hughes, e apresentou na tela roupas chiques, cheias de peles de animais e bolsinhas de mão. Se você não se lembra da roupa da vendedora de charutos no Coconut Groove, Thelma, vale a pena rever o filme – e não apenas pela bela atuação de Cate Blanchett, que levou o Oscar de atriz coadjuvante. Ela concorre este ano com The Young Victoria.
2005 | Memórias de uma Gueixa
Mais uma vez Colleen Atwood foi premiada. Para o figurino oriental de Memórias de uma Gueixa, a figurinista optou por uma fórmula mais moderna para os quimonos: estampas elaboradas e moldes simples. Mas, na época, Colleen foi criticada pelo descompromisso com as datas, que mesclou sem medo referências japonesas de todas as décadas.
2006 | Marie Antoinette
A ideia era retratar a essência do espírito de Maria Antonieta. Milena Canonero elaborou uma lógica para seu figurino: para cada estado de espírito, uma cor e um tipo de estampa. O rosa, por exemplo, era usado em momentos mais ingênuos da personagem. Além desse, Milena ganhou Oscars pelos filmes Carruagens de Fogo e Barry Lyndon, e foi indicada em outras cinco edições da premiação.
2007 | Elizabeth: A Era de Ouro

Mais um filme de época, só que dessa vez Cate Blanchett não apenas veste um figurino volumoso, mas suas roupas são pensadas para que a mesma pessoa ‘acomode’ duas personagens. O guarda-roupas foi dividido em vestimentas formais e informais - nos looks de Bess, a mortal; e Elizabeth, a divina. A figurinista Alexandra Byrne tem apenas oito filmes no currículo, mas já venceu o Oscar quatro vezes, mostrando que é sempre bom ficar de olho em seus trabalhos.
2008 | A Duquesa

Michael O’Connor venceu o Oscar em 2008 na primeira vez em que foi indicado. O interessante é que os 30 vestidos cheios de babados, volumes e golas de Keira Knightley ficaram tão complexos que tiveram de ser suavizados para não disputar a atenção com os próprios personagens. O’Connor retratou três fases da duquesa: a garota, a esposa infeliz e a mulher madura, sempre com sensualidade.
2012
2011
2010