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Moda

O tricô da netinha

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Tropicalista e escandinavo. Quem achava que a técnica do tricô acabou resumida às toalhinhas de estante da tia-avó precisa conhecer o trabalho de Helen Rödel (se diz ‘Rêdel’), que começou no interior do Rio Grande do Sul e já chegou à terra dos esquimós, na Islândia. Com marca própria desde 2007, a estilista e seu marido, Guilherme Thofehrn, já prepararam algumas coleções, todas disponíveis na página do casal no Flickr, sendo a mais recente intitulada ‘Et Dieu… créa la femme‘ (‘E Deus… criou a mulher’, em francês).

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A própria Helen foi a modelo da coleção ‘Reality is Forbidden’

Na última edição da SPFW, suas criações estavam na cabeça de alguns modelos da 2nd Floor, em forma de morcego, coruja e raposa – tudo tricotado. Uma das estilistas da marca já conhecia o trabalho de Helen e decidiu encomendar alguns modelos. Levou para ela, como referência, um livro de fotos de criações de formandos de uma escola de moda em Paris, onde aparecia uma cabeça de cavalo em tricô. Deu trabalho. “Nas cabeças de coruja, eu queria que tivesse o olhar da coruja, a expressão da coruja”, conta. Para o efeito rústico, usou fios típicos do Chile, da Islândia e até dos Pampas Gaúchos.

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Deu trabalho: “Eu queria que tivesse a expressão da coruja”

Com um estilo tido como moderno, Helen tem por referência artistas como Brian Eno, Brian Ferry, Caetano Veloso, Can, Cocteau Twins, David Bowie, Love e Velvet Underground. “Aprendi o tricô de ontem, mas eu procuro fazer o tricô de agora”, define. “Eu quero imprimir a minha realidade, o que eu penso que é belo.” Com esta proposta, o que vemos é algo completamente diferente dos tradicionais suéteres de inverno. “Modelagem é o que eu primo”, conta. Para isso, é preciso levar em conta onde vão menos pontos e onde eles devem ser mais estreitos ou mais largos. “É um processo artesanal. O legal do tricô é que cada peça é única. Nunca pode ser igual a outra.”

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Modelagem é o foco de Helen

O básico da técnica, Helen aprendeu com a mãe, em Lajeado, no interior do Rio Grande do Sul. Ela se lembra de ir às lojas para comprar material, aos seis anos de idade. “Aquelas estantes cheias de fios, de cores. Isso me inspirou muito.” Mais tarde, aos 13, se apaixonou pelas revistas Elle que a prima colecionava, e começou ela mesma a comprar também, todo mês. E foi aos 21 que descobriu que haveria um curso de moda no Senai, em Porto Alegre. “Fui até pedir abrigo para amigos, para fazer o curso”, lembra.

Em seu tempo na capital, Helen começou a se inscrever em concursos premovidos por feiras da indústria têxtil local. “No Rio Grande do Sul, não há uma cena de moda”, explica. “Há desfiles ligados a eventos da indústria têxtil ou a shoppings.” Foi em um desses eventos que ganhou seu primeiro desfile. “Precisei correr para preparar uma coleção inteira.” O concurso abriu margem para que ela expusesse suas peças na feira. Foram três meses.

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‘Et Dieu… créa la femme’ é o nome da coleção atual

Vendo o potencial de divulgação da internet, começou a colocar seu trabalho em redes sociais. “Propus uma brincadeira com as amigas”, conta Helen: “Eu manvada umas peças para elas e elas colocavam três fotos no Flickr com os looks.” As amigas eram de vários países: Polônia, Áustria, Chile, Estados Unidos e Suécia. “A internet é bacana, porque você joga para cima e não sabe onde vai cair, quem vai ver”, conta Helen. A repercussão de ações deste tipo foi tão grande, que logo recebeu um e-mail de Andrew Lockhart, a convidando para participar da Iceland Fashion Week – a semana de moda da Islândia (!).

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Inspiração na Björk? Não: “O tricô dela é mais orgânico”

O evento reúne jovens estilistas do mundo todo. Desde o início, houve identificação com a proposta. “O design escandivano é uma grande referência no meu trabalho”, conta. Tem também a admiração pela cantora islandesa Björk, que já usou o tricô em excesso nas fotos de divulgação do álbum Volta, de 2007. Parênteses: na passagem da cantora pelo Brasil, Helen preparou um vestido especialmente para ela. Entregou nas mãos de uma das assistentes, sem saber se o presente chegaria ao destino. Cinco meses depois, Helen recebeu uma carta da equipe de Björk, dizendo que a cantora adorou a roupa e que desejava o melhor para a marca.

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A técnica é antiga, mas o design é moderno

A passagem pela Islândia “foi transendental”. O casal aproveitou para fazer um editorial de moda com modelos – e paisagens – locais. A hospitalidade dos anfitriões fez com que conseguissem rápido toda a estrutura para a empreitada. “Andávamos em um comboio de carros”, ri. Segundo Helen, as referências escandinavas e nórdicas estão nos padrões, pontos, cores, combinações, estruturas. Os moradores se identificaram com o trabalho. “Eles diziam: ‘Isso aqui é muito escandinavo, mas tem a coisa colorida brasileira’.”

De volta ao Brasil, Helen segue com sua marca, a Rödel Latin America. Desde o início, os dois cuidam de tudo, da concepção das peças até o layout do site. “Gostamos muito do ‘do it yourself‘”, brinca Helen. Houve um tempo, por exemplo, em que a própria Helen posava como modelo para as fotos, que Thofehrn tirava depois de chegar do trabalho. Isso era para ter certeza de passar no ensaio exatamente a ideia que queria.

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A produção ainda é pequena. “Estou mais preocupada com o design”

Além do casal, são quatro pessoas que trabalham na produção. Helen prepara as novidades com ajuda de uma ‘piloteira’ (responsável pela peça-modelo), e as outras pessoas as reproduzem. Há planos para ampliar, mas não agora. “Estou primeiro pensando no design, na identidade”, explica Helen. “É importante criar um trabalho sólido para depois pensar em crescer, para poder crescer com base.”

As peças criadas por Helen estão em dois pontos de venda em Porto Alegre. Os gorros da 2nd Floor foram criados só para o desfile, mas é possível que sigam para as lojas. Helen também prepara uma coleção para a loja Ellus and Guests. O trabalho da estilista pode ser conferido no site da marca, a Rödel Latin America. (Dado Carvalho)