
Animal prints das marcas Amapô e Juliana Jabour: estampa de bichos apareceu menos em São Paulo do que no Rio, mas segue como uma das tendências deixadas por esta edição da SPFW
Ao longo de seis dias, a principal semana de moda do Hemisfério Sul mostrou ao mundo suas ideias e coleções para o inverno deste ano. A São Paulo Fashion Week cresce de tamanho e importância a cada nova edição. Com o cenário da Bienal completamente transformado e diferente de todas as temporadas anteriores, a SPFW trouxe alguns excelentes momentos – e outros, nem tanto.
Da magnitude da passarela de entrada com seu lago artificial e painel de leds até o excesso de rigôr para retirada dos convites e passagem para as salas, a 30ª SPFW foi recheada de novidades boas e ruins. No meio de tudo isso, os estilistas conseguiram destacar-se com uma moda criativa como se inveja em muitos países do mundo. Alexandre Herchcovitch, Maria Bonita, Reinaldo Lourenço, Samuel Cirnansck e João Pimenta destacaram-se entre os designers que mais souberam aproveitar a passarela para criar um show de moda. Um espetáculo, que é o que todos estão lá para ver, sem a ausência da fundamental qualidade das roupas.
Coleções fantásticas e inovadoras, que ficarão para sempre entre os melhores momentos da história da fashion week, também são responsáveis por ditar tendências. Aqueles objetos e ideias repetidas, que se reafirmam como uma busca minimamente parecida entre os estilistas e configuram os pontos essenciais do que vamos vestir na próxima estação. O Moda separou para você as principais destas dicas, que podem servir como guia ou base para as suas próximas compras. Ou sugestões para você recombinar peças antigas do guarda-roupa. De qualquer forma, vale a pena ficar ligado, já que a SPFW tem a responsabilidade de ser a principal lançadora de tendências do ano no Brasil. Confira!
| Tranças
Amapô
Triton
Seja nos cabelos ou nas roupas, as tranças confirmaram a tendência que já vem de 2010 e ganhou fama nacional pelo penteado da vice-primeira-dama, Marcela Temer. As mechas entrelaçadas com ar retrô ganharam repaginação superoriginal das estilistas Carolina Gold e Pitty Taliani: roupas feitas de tecidos trançados. No cabelo, a Triton investiu no topete e nas tranças duplas para incrementar a beleza das modelos.
| Ankle Boots

Iódice

Ronaldo Fraga

Triton
O sapato, que já é a escolha oficial de nove entre dez hipsters, é uma opção bastante adequada para o clima ameno do nosso inverno tropical. Nas passarelas, elas apareceram em pernas nuas com saias, vestidos ou shorts e, na maioria das vezes, com saltos bem altos. A Melissa preparou algumas ankle boots sem saltos para as mulheres que gostam de ficar elegantes, porém confortáveis, mas a coleção ainda não chegou às lojas.
| Bolsas clutch

Colcci

Alexandre Herchcovitch

Fause Haten

Osklen
Pode não ser a forma mais confortável do mundo de carregar a sua bolsa, mas sem dúvida alguma, é a maneira prodominante do próximo inverno. As elegantes carteiras de mão de Herchcovitch, Colcci e Fause Haten são excelentes escolhas para um look de festa, mais elaborado; já a clutch desenvolvida por Oskar Metsavaht atende perfeitamente ao objetivo despojado e básico da coleção da Osklen. Ou seja: a bolsa veio mesmo para ficar e é adaptável a qualquer hora do dia ou da noite. Vale a aposta.
| Transparências

Reinaldo Lourenço
Animale
Fernanda Yamamoto
Huis Clos
Os efeitos translúcidos de vidro ou papel vegetal nas roupas vêm e voltam como itens importantíssimos em várias estações. A tendência, que já apareceu forte no Fashion Rio, fica ao menos até o verão 2012 e serve para incrementar os looks, e não torná-los sensuais. Uma mudança atípica para a brasileira, mas que foi brilhantemente adaptada por marcas como Reinaldo Lourenço e Fernanda Yamamoto.
| Tricô

Colcci
João Pimenta
Cori
Reserva
A palavra “tricô” estava presente na maioria absoluta dos releases – material que o estilista cria para explicar o conceito de sua coleção, que contém também os acessórios, materiais predominantes e ponto de partida inspirador dos designers. Na maior parte das vezes, o tricô apareceu em casacos, sobretudos e capas, mas também surgiu em vestidos e blusas femininas e masculinas. É, afinal, um tecido versátil e unissex, adequado para o frio.
| Luvas

Cori
Iódice
Convenhamos: na maior parte do Brasil, as luvas servem mais para incrementar o look do que para proteger das baixas temperaturas. De qualquer forma, os acessórios de couro para as mãos foram presença firme em poucos, porém marcantes desfiles nesta edição do SPFW. Tanto as de cano longo quanto curto surgiram discretas, em tons frios, mas dando um ar mais formal e duro ao visual das passarelas de inverno. Para quem gosta do estilo rocker, então, são acessórios perfeitos.
| Boca marcada
Ana Salazaar
Juliana Jabour
Ghetz
Neon
Entra inverno, sai inverno, e o batom vermelho está sempre lá, iluminando os lábios das modelos na maior parte das passarelas. Mas a cor que combina com as estações frias não foi a única a estampar as bocas nesta SPFW; a tendência de make foram olhos e rostos simples e grande destaque para a boca marcada, seja pelo vermelho ou por qualquer outro tom escuro, como os roxos, cerejas, vinhos e púrpuras. Blush e sombra leves voltam ainda mais os olhos para a boca. Portanto, aproveite para usar os tons nudes agora, durante o verão, e não fique triste de deixá-los de molho quando o tempo esfriar.
Não deixa de ser irônico que, exatamente quando a Cavalera estava prestes a encerrar a SPFW Inverno 2011 ao som de O Guarani (ou a música da Hora do Brasil), de Carlos Gomes, os fotógrafos que trabalham incessantemente na Bienal durante o evento, e que lotavam o pitch de fotógrafos do desfile, entoasse “Não rouba, não rouba, não rouba. Sai fora ladrão” e exibiram faixas com dizeres “Parem de roubar a gente.”
Apesar da equipe da SPFW trabalhe arduamente para manter tudo em ordem na maior semana de moda da América Latina, há sempre algo que foge à ordem. Esta é, por exemplo, a segunda vez consecutiva que um fotógrafo tem sua câmera roubada em plena sala de imprensa. Keiny Andrade, da Getty Images, teve um prejuízo de cerca de R$ 20mil ao ter sua câmera e sua lente objetiva 300 furtadas hoje à tarde. Daí a revolta e o protesto dos fotógrafos.
Não foi exatamente em clima de revolta, mas sim de ‘movimento pró ordem e progresso’ que a Cavalera entrou na passarela. Ou quase passarela. A grife lançou sua República Cavalera na megapassarela improvisada na entrada do prédio da Bienal, de madeira. Detalhe, a passarela era, na verdade, o espelho d’água que se estendia na Bienal, como parte da cenografia criada pelo Estúdio Árvore para esta edição da SPFW.
Para completar, uma pesada chuva artificial caiu sobre os modelos que desfilavam a coleção outono-inverno da Cavalera. Mais paulistano, impossível. A propósito, a Nova República Cavalera “proclama o contato humano, celebra o coletivo, reclama o beijo, protesta contra o solitário espetáculo do mundo da fama, instigando o imaginário desse desejo esquecido.”
“Tem tudo a ver com o momento por que o Brasil está passando. A gente sempre se preocupa em dar algum recado para nosso público e neste caso não é diferente”, contou o estilista Fabiano Grassi ao Moda após o desfile. Por falar em desfile, Grassi, Igor de Barros e o diretor criativo Alberto Hiar transformaram esta república em peças remetem ao ‘clima fim de império’, com direito a brasão de Nova República Cavalera e muito bordado tridimensional sem seda e algodão, formando patchworks que ostentavam este brasão. A insígnia voltou também em estamparia nas camisetas, casacos, jeans, jaquetas e casacos. Destaque para o ‘movimento da bandeira do Brasil’ das malhas e camisetas. Nas cores, claro, verde, amarelo e azul bandeira, brancdo e ‘vermelho bandeira de São Paulo’. As cores também estiveram presentes nos sapatos ‘à la marquês’.
Já entre os materiais, jacquard de lã (que chegou em casaqueto e no poncho masculino), sarja com renda, maximoleton e o jeans (que surgiu resinado em jaquetas pretas e dourada), bordados e até paetês ‘em forma de brasão Cavalera’.
Vale lembrar que nesta edição a marca também lança uma nova linha, a linha premium Cavalera Caviar, que tem a proposta de trazer um corte mais sofisticado, sem perder a descontração, e jeans de alta qualidade.
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A Bienal parecia mais calma na tarde de hoje. Sem celebridades ou grandes expectativas, o prédio preparava-se para encerrar mais um edição da São Paulo Fashion Week, a trigésima. A organização convidou uma marca para o encerramento da data especial. É uma grife de jeanswear jovem, que faz uma moda de rua básica e tem, em sua origem, o DNA do rock. Chama-se Cavalera.
Quando as pessoas receberam seus convites, pensaram: “Ué, mas o desfile vai ser na Bienal?” É que a Cavalera sempre prepara uma apresentação externa, com surpresas e detalhes interessantes. Ao contrário de marcas parecidas, não investe na contratação de gente famosa para brilhar em sua passarela, mas na elaboração de um show de moda com cenário, surpresas, gracinhas.
A hora da correria no camarim da Cavalera
Desta vez, o convite surgiu da Luminosidade. “Eles disseram que queriam aproveitar o espaço da entrada do prédio e aquela decoração incrível e nos chamaram para fechar o evento”, explica o estilista Fabiano Grassi. Daí, ficaram sabendo que esta entrada seria uma passarela envolta em água e decidiram aproveitar completamente o cenário para mostrar sua coleção de inverno.
No backstage, o clima antes do desfile anterior, de André Lima, era de tranquilidade. Sem muita gente para lotar o camarim, a equipe de estilo – que chegou às 15h para preparar a apresentação que seria às 21h – descansava e cuidava de pequenos detalhes finais. Mas foi abrirem as portas para a saída da sala precedente para a correria começar. “Vamos ao ensaio, o desfile vai ser na entrada da Bienal, e não na Sala 2 como diz o convite”, falou alguém da equipe. Estava revelada a surpresa principal da Cavalera.
Faltava meia hora para o horário original do desfile – 21h30 – quando as primeiras modelos apareceram para fazer o cruzamento. “Vamos colocar antiderrapantes em todos os tênis dos modelos masculinos!”, gritava o diretor do desfile, Wan Vieira. Os modelos passariam no meio da água e, além disso, por baixo de uma chuva artificial. “Quem não tiver guarda-chuva desvia da água, e quem tiver, passa embaixo. Mas na hora do agradecimento, todo mundo vai se molhar!”, berrava Vieira, enquanto o casting ria e alguns diziam que só se molhariam se o diretor fosse junto.
O casting
Os designers Igor de Barros e Fabiano Grassi pareciam calmos. Não dá ansiedade fechar uma SPFW? “Que nada”, disse Fabiano: “nós já abrimos e fechamos, é sempre a mesma coisa, a diferença maior é que acaba para a gente.” Eles desejavam boa sorte às modelos com sorrisos no rosto e providenciavam os cortes dos laços dos sapatos, que estavam muito grandes e podiam ser um risco maior à queda.
Não adiantou muito – uma das meninas caiu bem em frente ao pit dos fotógrafos. Mesmo assim, não deixou de seguir a orientação do diretor: continuou alegre, sorridente, com aquela energia boa que a organização da SPFW queria quando convidou a Cavalera para encerrar a semana. “Nós somos uma marca de comportamento, não temos grandes pretensões com relação à inovação de design”, disse Fabiano, antes do desfile. Nas araras, jeans, jaquetas douradas, vestidinhos estampados. Nada que já não tenha sido visto antes e, inclusive, modelagens que já são antigas.
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Laços, longos e surrealismo no desfile ultrafeminino de André Lima.
Das 32 marcas que se apresentam nesta edição comemorativa de 15 da São Paulo Fashion Week, pelo menos dez estão desde o início– quando evento ainda se chamava MorumbiFashion e ter uma semana de moda no Brasil era apenas um sonho de Paulo Borges. Entre as grifes veteranas, Lino Villaventura e Fause Haten, mostraram a coleção ontem. E hoje é a vez de Gloria Coelho.
“Eu sempre falei que o evento só daria certo se todo mundo entendesse a ideia e caminhasse no mesmo sentido, no de gerar um protagonismo”, diz Borges, o organizador do evento. “As pessoas que trabalham na moda passaram a existir, houve uma profissionalização do setor e um desenvolvimento da imagem.”
Na primeira edição do evento, na marquise do Parque do Ibirapuera, o investimento foi de apenas R$ 900 mil. Nesta edição foram gastos R$ 5 milhões. “Tínhamos apenas uma camarim geral de beleza, que atendia a todas as grifes”, diz Ruy Furtado, diretor de desfiles. “As modelos entravam na fila para se arrumar. E o evento inteiro contava com um cabeleireiro, Mauro Freire, e um maquiador, Duda Molinos.” Hoje, cada marca tem seu camarim para a troca de roupa e para maquiagem, assim como uma equipe diferenciada de profissionais para fazer o make up e o cabelo.
TALENTO PROMISSOR
Nesta época, Alexandre Herchcovitch ainda era um talento promissor. E Gisele Bündchen estava longe de ser uma celebridade internacional. “As agências de modelos ainda não estavam tão profissionalizadas e não respeitavam os horários como hoje”, lembra o stylist Paulo Martinez. “Os desfiles tinham até 40 minutos de duração. E atrasavam mais de uma hora para começar.” Hoje, as modelos não ficam em média de 5 a 7 minutos na passarela para mostrar cerca de 30 looks. Antes eram 90, e a quantidade de modelos no mercado era bem menor do que hoje.
AS MODELOS
O jeito de desfilar também mudou neste tempo. “Elas paravam, punham a mão na cintura e ainda davam pivô”, diverte-se Martinez, que está entre os nomes que despontaram neste meio. Muitas profissões que não existiam foram surgindo no decorrer dos 15 anos, caso do stylist, ou na outra ponta, da coordenadora de camarim, uma espécie de gerente que organiza o fluxo e a distribuição das roupas das modelos.
MODA VENDE MAIS ENTRETENIMENTO
Para mim a grande diferença está na sala de imprensa”, diz Gloria Kalil, do site Chic, que está há dez anos na web, com dois milhões de acessos mês.”Em 2001, tive de alugar um ônibus para montar uma espécie de estúdio com internet. A sala de impresa só tinha máquina de escrever.Hoje há 116 micros e 2,4 mil jonalistas credenciados. Segundo Glória, moda vende mais entretenimento do que roupa.
“A moda hoje está na moda”, diz Adriana Bozon, estilista da Ellus. “São muitas as pessoas que se interessam. Há várias faculdades.” Para ter uma ideia, a equipe de desenvolvimento de um produto da Ellus conta com quase 100 profissionais. “Houve também uma evolução tecnológica muito importante.”
Adriana lembra que no fim da década de 1990, a lycra começava a fazer parte do jeans. E era só na confecção feminina. Hoje, 95% do jeans que sai da fábrica tem lycra para dar conforto aos artigos. E este ano a Ellus desenvolveu um fio de jeans que brilha nos escuro. “Hoje fazemos moda para o mundo.”
Enquanto as grifes investem em pesquisa, Paulo Borges trabalha na evolução da semana de moda. “No início, o que eu mais ouvia era se haveria a próxima edição.” A SPFW é o quarto evento de moda mais importante do mundo. E em junho cresce ainda mais. “Teremos um salão de design que vai acontecer junto com a SPFW.”
A estilista Fernanda Yamamoto tem uma forma muito particular de fazer moda. Para quem já é familiarizado com seu estilo, é impossível não reconhecer, de cara, qual é a sua arara na loja colaborativa que leva seu nome, na Vila Madalena. A designer é acostumada a fazer parcerias com outros criadores que tenham um estilo parecido com o seu. E por ele, entenda simplicidade, influências japonesas e trabalho com formas e suas reconstruções/desconstruções.
Em sua terceira passagem pela SPFW, direto da Casa de Criadores, Fernanda apresentou uma coleção suave, delicada. Ela começou a elaborar a ideia das criações a partir do desenho de um círculo, objeto geométrico que esteve presente em várias aplicações e estampas, tanto de lã quanto de feltro. Os tecidos quentes de inverno figuravam em peças muito finas, como gaze de seda especialmente tecida no ateliê da artista.
A impressão de roupas em degradê, mesmo que de cores diferentes, era possível graças a uma técnica oriental chamada washi-ê, que é desfiar um papel japonês especial, feito de uma planta que se chama kozo, para formar desenhos e colagens em várias tonalidades diferentes. A impressão da passarela ela linda, fluida, com peças formadas por tecidos de cores e texturas diferentes. Nos pés, nada de saltos: as modelos de Fernanda usaram tênis vazados e quadriculados como redes.
Mas o mais especial do desfile de Fernanda foram os acessórios para cabeça. Nenhum dos chapéus de acrílico transparentes e coloridos era igual ao outro: todos foram confeccionados manualmente por Roseli Kasumi e, apropriando-se da ideia de círculo, construiam acessórios amorfos e belíssimos. Um desfile simples, despretensioso, mas que deixa marcada a qualidade técnica e a criatividade de Fernanda Yamamoto, uma estilista que veio para ficar.
Uma moda pós-apocalíptica, em que o homem tem de lutar contra a fúria da natureza. E, já que este homem tem de se vestir, por que não esbanjar estilo? Pois foi assim, utilitário e poético, que Alexandre Hercovitch pensou no homem de sua coleção inverno 2011.
Lutando contra vulcões ( que já haviam surgido no desfile feminino do domingo), terremotos e tempestades, o homem tem de se proteger, mas sem perder o estilo. Usa roupas que protegem e são até agressivas em seus cortes e acabamentos, mas que esbanjar boas soluções fashion para suas armaduras pós-modernas.
O desfile começa com jaquetas e casacos que mais lembram uniformes de ‘soldados de laboratório’, confeccionadas em nylon teflonado e tyvek (em várias texturas) brilham e protegem da chuva, do vento, do fogo… Há uma virilidade latente neste homem sobrevivente. Ele se move com agilidade e recorre às formas amplas e confortáveis, mas também sabe valorizar o rico trabalho da alfaiataria e de tecidos como o astracan sintético (pense em uma pele de carneiro, o astracan, que dá volume, nervuras e texturas a paletós, casacos e golas), o cetim pesado e envelhecido, o cashmere e até mesmo o couro e o piton (couro de cobra, que surge nos calçados e nas luvas). Nos pés, claro, calçado mais utilitário e protetor impossível: o indefectível coturno.
O acabamento é caprichado, mas ganha tons rústicos como uma borda ‘por fazer’, um corte em zigue-zague. As cores ou são escuras e desgastadas pelo tempo, como preto, chumbo, cinza e grafite, ou são ‘industriais’, como o laranja, o caramelo e o prata metalizado.
Por falar nisso, os acessórios ganham importância nesta guerra fashion. Óculos reforçados com metal e couro ora surgem ‘sozinhos’ ora são ‘aplicados’ a máscaras de proteção em couro. Para terminar, os vestidos (que mais têm cara de túnica masculina) em lã pesada completam o tom ousado e, ao mesmo tempo, viril que Herchcovitch sabe dar às suas coleções masculinas.
Em 1956, o arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho causou polêmica ao passear pelo centro de São Paulo vestindo saia. “A roupa masculina não precisa ser sempre igual. Acho que os homens não ousam vestir modelos com propostas diferentes porque o mercado não faz”, disse hoje o estilista João Pimenta, ao encerrar hojeo desfile de outono inverno na SPFW. Na passarela, os homens usavam saias longas, até plissadas, e vestidos. A inspiração foi litúrgica, de onde vieram golas de padres e espécies de batinas revisitadas, que conferiram seriedade a proposta. “Só padre para conseguir respeito usando saia”, brincou Pimenta. Os acessórios militares, caso das botas, ou mesmo de um colete de veludo com um brasão bordado que remetia aos cavaleiros medievais, deram masculinidade aos homens de João Pimenta.
A estilista Gloria Coelho sempre realiza um desfile bastante esperado na São Paulo Fashion Week. Os convidados são recebidos com um coquetel e acomodam-se na vasta sala do 9º andar do Shopping Iguatemi esperando as novidades da mulher de Reinaldo Lourenço. Desta vez, graças a uma parceria com a Sony, todo mundo que chegava posava para uma foto, como se os convidados fossem, na realidade, as grandes estrelas da tarde. Ao fim do desfile, lá estavam os retratos impressos – um brinde personalizado, para a alegria de todos, que brindavam suas taças de champanhe.
As modelos de Gloria pareciam robozinhas. Com silhuetas absolutamente retas, calças skinny de couro mestiço, detalhes em verniz e feltro, elas tinham o cabelo preso em assépticos rabos de cavalos. No meio da passarela onde ficava a imprensa, paravam duas vezes, uma para cada lado, e depois continuavam a percorrer o caminho retangular até o fim. Só depois descobri que a inspiração de Gloria para a apresentação foram o universo dos bonecos Pokémon e das armaduras de MotoCross, passando pelos anos 30 e 60. Por isso, movimentos tão comedidos.
Os babados plissados formavam grandes dobraduras, armadas e em destaque nas roupas. Meias-calças coloridas, primeiro em tons pastéis de azul, verde e laranja, assumiriam mais ao fim as mesmas cores, mas em uma tonalidade néon. Os saltos dos sapatos, também coloridos, combinavam com os acessórios das pernas. No encerramento, grandes cristais Swaróvski enriqueciam os looks finais.
“Coragem é a intenção. Luxo é o propósito! O Luxo da originalidade, sem arrogância!… Precisão nos detalhes e na exaustão dos bordados “hand made’. Extravagência ou loucura?”
Assim Lino Villaventura ‘provocou’ o público que lotou a sala 1 da Bienal há pouco para conferir sua coleção inverno 2011. Inspirado na coragem que Paulo Borges e equipe tiveram há 15 anos, quando o diretor da SPFW decidiu criar esta que é hoje a maior semana de moda da América Latina.
O evento não seria o mesmo se não fossem talentos como o de Lino, que, desde a primeira edição, enche os olhos dos fashionistas com seu show de apuro técnico e criativo. Desta vez não foi diferente. Mais uma vez, o preciosismo do trabalho de Lino se traduziu em uma profusão de bordados, nervuras, pedrarias, plissados, matelassés… Nos tecidos, jacquard bordado, tafetá de seda, jersey de malha, tule…
Nitidamente mais despojado que em outras edições, Lino, na verdade, buscou o essencial de sua moda para criar uma coleção em quatro momentos, que resumem muito bem sua trajetória como um dos mais prolíficos estilistas brasileiros.
O resumo da ópera Villaventura pode ser dividido em quatro atos. O primeiro foi uma seqüência de pretos médios, sexies e acinturados. Destaque para o trabalho caprichado em tule irizado, texturizado e elástico. Manualmente trabalhado, o tule armado dava sustentação e elegância aos looks. Em seguida, uma seqüência de ‘couro falso’ relembrava por que Lino é mestre quando o assunto é criar textura.
Confecionadas em ciree (malha com efeito de couro), jaquetas motoqueiro e sobretudos ganhavam um ar de ‘matelassé feito lá em casa’. Na seqüência, os longos de seda (sempre ponto forte nas criações do estilistas) surgiram lisos e ricamente texturizados com o uso de plissados. Imperdíveis os vestidos médios em cetim bucol (que ganham ares de veludo cristal). Para terminar, não poderiam faltar os longos de seda estampados e bordados com forte inspiração oriental.
Nos detalhes, destaque para as meias-calças com risca de cetim. Inspiradas na nova tatuagem do estilista, deram modernidade aos looks mais clássicos. “Acabei de fazer esta tatoo. Queria cobrir uma antiga no braço esquerdo. E meu tatuador me sugeriu estas listras, que significam algo como ‘caminho, energia…’ Nem pensei nisso na hora, mas adorei. E foi parar nas meias”, contou o estilista ao Moda no backstage após o desfile.
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