Flavia Guerra
Nova York
A pergunta mais óbvia que roda as calçadas do Damrosch Park (no complexo do Lincoln Center) onde há dias o que se via eram tatames e tendas sendo montadas em um dos lugares mais centrais de Manhattan, era: Qual a tendência para o próximo outono (no hemisfério norte as semanas de moda, que começaram na última quinta com a New York Fashion Week e se seguem com as européias, vão trazer o que há de novo para os meses mais frios)? Mais cliché impossível. Mais atual também.
A moda pode até dar menos importância às tendências que um dia de fato ditaram moda, mas tampouco se pode dizer que elas morreram. Entre uma delas, está a de usar a tecnologia de ponta para levar ao público (tanto o especializado quanto o consumidor) o que mais novo se está vendo nas passarelas. Fashion mesmo é acompanhar a semana de moda de tablet na mão.
Mesmo sem ser um privilegiado da fila A, quem quisesse conferir o que o cão Jake foi fazer no desfile de seu dono, o estilista Christopher Kunz, co-proprietário da Nicholas K, poderia ver as imagens em tempo real na quinta passada. Aliás, os primeiros a desfilar na NYFW não chamaram tanta atenção pelos nomes famosos, mas sim por serem símbolos da ousadia da organização do evento, que tem a fama de dar espaço a novos talentos e não só privilegiar grandes nomes.
Não é à toa que o grande para comemorar os 50 anos do The Council of Fashion Designers of America, nomes como Diane von Furstenberg, Marc Jacobs e Michael Kors, foram convidados para escolher um look que mais representa seu estilo para contar a história da moda americana. Não foi surpresa que os estilistas primaram por apontar modelos como o vestido envelope (que tornou Furstenberg um ícone internacional), símbolo da mulher que não tem tempo para ‘se montar’, mas que nem por isso quer deixar de ser elegante e nem pagar muito por isso.
Em cartaz no Museum at FIT em Manhattan, a mostra também poderá ser conferida online. Mais um motivo porque a imprensa internacional tem falado mais da democratização da moda, apontando o quão prático é poder contar com os gadgets (ou os aparelhos eletrônicos) para ter acesso em tempo real também aos looks de grifes que ainda vão entrar na passarela, como Carolina Herrera, Tom Ford, Jacobs, Furstenberg e até os brasileiros Carlos Miele e Alexandre Herchcovitch.
A moda segue cada vez mais global e há muito tempo não se faz mais só na semana de moda e muito menos na passarela. Jason Wu, o queridíssimo da primeira dama Michelle Obama, tem aparecido em todos outdoors e comerciais com sua nova coleção para a rede popular de supermercados Target. Moda para todos mesmo. Inclusive para os brasileiros. Na quarta passada, a Melissa inaugurou sua primeira Galeria fora do Brasil. Em pleno Soho, a galeria abriu as portas com a presença de celebridades e do próprio Wu, que criou em 2011 alguns modelos da tradicional ‘sandália de plástico’. “Ser fashion é a capacidade de combinar itens de alta costura com outros mais acessíveis. É a arte de misturar tudo. Adoro o conceito da Melissa. New York é isso. É a semana de moda que quer chegar nas pessoas e não ser algo intangível”, declarou o estilista ao Estado.
Os estilistas brasileiros atingiram o alvo no público internacional ao escolher os Estados Unidos para ser ponta de lança de suas coleções. Miele, o único brasileiro a desfilar exclusivamente em Nova York, vai apresentar na segunda, 13, no Lincoln Center, a coleção Chic Amazon Style. Inspirada nas tradições culturais gaúchas e suas Amazonas, a coleção traz ares brasileiros com toques cosmopolitas.
Cosmopolita também será a coleção que Herchcovitch apresenta amanhã (segunda, 13. O brasileiro traz a coleção que acaba de apresentar na São Paulo Fashion Week. Com rico e sofisticado trabalho de sobreposição de rendas, mistura de tecidos e texturas (destaque para o xadrez em contraste com a renda), o paulistano propõe um inverno sofisticado tanto para as brasileiras quanto para as ‘mulheres do mundo’.
Pois bem, o que se vai ver de acessível na passarela do Damrosch Park (e também em outros pontos intangíveis de Manhattan, onde grifes como Pedro Lourenço mostram suas coleções em caráter mais privado) é uma moda que quer não só ser vista, mas também comprada e, mais do que nunca, acessada.
Tonica Chagas – O Estado de S.Paulo
ESPECIAL PARA O ESTADO
NOVA YORK
Alexandre Herchcovitch, visto como enfant terrible da moda brasileira, já mostrou mais de 20 coleções nas tendas brancas da semana de moda de NY. Primeiro no Bryant Park e, nas duas temporadas anteriores, entre os prédios do complexo cultural do Lincoln Center, onde o evento passou a ser realizado. Desta vez, quis retomar sua aura dark, trocando o local oficial dos desfiles por um galpão escuro no fim da Rua 21, no Meatpacking District de Manhattan. A região, hoje povoada por lojas de grifes internacionais, concentrava abatedouros e empresas de distribuição de carne para a cidade no início da século passado.
“A tenda deixava a apresentação sem personalidade”, diz Herchcovitch. “Aqui é um lugar histórico e o espaço é só nosso, não há correria para entrar ou sair porque tem outro desfile antes ou depois.”
O estilista sempre exibe em NY a coleção para a estação que começa antes no Brasil e ele exibe no calendário da semana de moda de São Paulo. Assim, a primavera-verão 2012 de Herchcovitch vista na segunda foi a mesma apresentada em junho no prédio da Bienal, no Ibirapuera. No Beam, o galpão no Meatpacking, a coleção baseada em tecidos e vestidos de festa dos anos 1950, em cores claras e detalhes brilhantes, teve como palco paredes de tijolo sem pintura e piso de pedra.
Estilista brasileiro Carlos Miele mostra uma coleção que define como mundo imaginário perfeito
Tonica Chagas – O Estado de S.Paulo
ESPECIAL PARA O ESTADO
NOVA YORK
Mergulhado numa paisagem digital, Carlos Miele criou uma coleção orgânica, líquida, de cores vívidas e formas esculturais para o verão de 2012, que apresentou segunda, na semana de moda de Nova York. Em Immersive Landscape, o estilista brasileiro também quis mostrar a possibilidade de “uma comunidade global sem fronteiras”, com modelos de 12 nacionalidades em seu elenco. O difícil, segundo comentaram várias delas, foi desfilar e não dançar no ritmo de A Tonga da Mironga do Kabuletê, composta nos anos 1970 por Vinícius de Moraes e Toquinho.
Liderado pela negra francesa Anais Mali, quatro garotas abriram o desfile em cafetãs esvoaçantes de chifom de seda, lembrando o voo aquático de arraias. Sobre maiôs brancos, as peças têm estampas inspiradas em peixes dourados, no interior das conchas das ostras, em recifes e rochedos à beira-mar. Os desenhos voltam em vestidos longos e macacões amplos como palazzos pijamas, peças que Miele também compôs com sedas e crepes brancos ou tons químicos de verdes, alaranjados e azuis.
“Busquei o diálogo entre tecnologia e vida”, explicou o estilista, que considera ter como resultado dessa busca “um paraíso artificial”. A coleção – que ele define como “um mundo imaginário perfeito e sob um sol perpétuo” – é marcada por fendas frontais, decotes e cavas profundos como o de túnicas gregas, referência ainda para peças com ombros assimétricos.
Os 32 looks foram completados por joias de Ivanka Trump e apresentados no Stage, um dos palcos montados para os desfiles da semana no Lincoln Center. Nova York é a única cidade do circuito fashion mundial onde Miele, que vende em mais de 30 países, põe seu trabalho na passarela. Entre representantes de veículos internacionais de moda estavam, na primeira fila, Emmanuelle Alt, editora-chefe da Vogue Paris, Suzy Menkes, editora especial do International Herald Tribune, e Virginia Smith, do Figaro.
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