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Moda

09.junho.2010 16:56:30

Ziguezague com Ney

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O cantor, durante o desfile  da Blue Man, na Fashion Rio

Fez sol na manhã desta quarta em São Paulo. Mas é um sol desses de inverno, com vento gelado, apesar do céu azul sem nuvens. Justamente neste tempo que o cantor Ney Matogrosso pegou um resfriado - de leve, é verdade, mas logo no dia em que participaria de um debate na abertura do evento Ziguezague, no MAM, evento de moda paralelo à SPFW. “Alguém aí tem um lencinho de papel?”, ele pergunta, ao passo que uma enxurrada de espectadores devidamente agasalhados saca de suas bolsas o utensílio requisitado. Um princípio de quase tumulto se anunciou, até que uma destemida pessoa venceu os vinte metros que a separava do palco e deixou sobre a mesa de Ney um pacotinho de lenços.

Enquanto os outros combatentes voltavam tristes para seus lugares, alguém faz um gracejo: “Pede para ele assinar o lenço depois que assoar o nariz e guarda.” Risos no recinto. Todos querem uma parcela da energia do cantor. Apesar do tempo frio e do resfriado, o cantor celebra, com uma frase cerimoniosa: “Eu não me ponho diante do sol apenas para me bronzear.” Para ele, estar diante do sol é abrir-se para tudo o que o universo oferece, sem amarras. A propósito, sua penúltima turnê, Inclassificáveis (título que sintetiza magistralmente seu trabalho), foi concebida com outro nome: Um Pouco de Calor.

Este calor todo presente nas performances de Ney fica evidente, mais do que em qualquer outro fator do show, nos figurinos. “Algumas coisas que eu coloco me dão poder”, conta. “Eu sinto poder. É como se eu gritasse ‘Shazan!’ e pronto.” Houve uma ocasião, durante uma cerimônia do Santo Daime, em que ele teve uma visão. Era uma figura com longos cabelos que pareciam crina de cavalo. Ele então saiu à procura de criar um figurino com uma peruca feita de crina de cavalo. “Aquela roupa dava uma amplitude de gesto”, explica. “Tudo o que eu fazia ficava três vezes maior.”

Uma das organizadoras do Ziguezague, Christiane Mesquita, que dividia a mesa, citou uma antropóloga que entrevistara: “Ela dizia: ‘Põe a roupa que o santo baixa’.” “Isso é pagão”, ensina Ney. “Nada vem de mim. O que eu tenho é uma capacidade de estar aberto para as coisas me tocarem.”

As coisas o tocam, fato. Mas as pessoas também são tocadas. Uma delas foi Ocimar Versolato. A ideia de ser estilista só passou pela cabeça de Ocimar quando, adolescente, viu uma apresentação de Ney. Hoje, trabalham juntos. O mentor se tornou pupilo. A última parceria (melhor dizer: a mais recente) foi para a turnê Beijo Bandido. “Ele criou a roupa de um jeito que me veste, mas ainda assim exibe meu corpo”, define Ney. Em tempo: em Beijo Bandido o que se usa é um terno bege. Em certa ocasião, Ocimar explicou: “No caso de Ney, mesmo um terno serve como fantasia.” Ney fica completamente vestido. Porém nu.

Opostos | Um terno bege logo após os 60 mil micropaetês dourados de Inclassificáveis. Negação? “É isso que fazemos a cada seis meses na moda, não é?” diz Jackson Araújo, outro organizador do Ziguezague, presente na mesa. “Esta é a força da marca Ney Matogrosso.” Mas Ney não encara como uma negação. “É simplesmente uma transformação.” Pode ser como na música em que ele diz: “Ser novo para mim é algo velho.”

A nudez | Durante o Fashion Rio, há alguns dias, Ney apareceu de surpresa cantando em um dos desfiles, da grife Blue Man – na passarela, apenas modelos vestindo sunga. Alguém pergunta: “Você teria cantado neste desfile se fosse para também vestir sunga?”. Não, categórico. “Mas sem moralismos.” “E esse corpinho?”, dispara uma fã mais saliente. “Como muito pouco, faço ginástica e – alguns dizem que isso é neurose – me peso todos os dias em uma balança que tenho no meu quarto, para saber se posso me exceder. Às vezes é preciso me exceder.”

Os trópicos | “Eu tenho o maior orgulho de ser latino-americano”, diz, estendendo cada sílaba. “Eles acham que nós somos menos. Menos são eles.” Aplausos. “Quer me ver feliz? Me leva para o Cerrado, para os lugares que ninguém quer ir.” Um desses lugares é um sítio, no meio da mata. Lá tem um passarinho. “Ganhei e pensei: não posso deixá-lo dentro da gaiola.” O passarinho vive solto, mas nunca quis deixar o sítio. “Ele me olha como quem diz ‘Quem é você?’” Por causa desse passarinho, agora outras aves também frequentam o sítio. “É um passe que eu recebo”, brinca. Jackson intervém: “Você assistiu Avatar? Achei esse filme a su-a-ca-ra, essa coisa da conexão com a natureza, uma cosmogonia.”

O relicário | Uma moça da plateia pega o microfone para fazer uma pergunta. “Eu vim do Mato Grosso para ver o Ney Matogrosso”, brinca. E completa: “Gente, eu precisava dizer isso.” Christiane atalha: “E ela tem um nome lindo, e tudo a ver com você: Savana Leão.” Savana prossegue: “Não quero me comparar, é bem diferente, mas eu também tenho umas aberturas dessas, umas ideias.” Ney corta: “Não é diferente. É a mesma coisa. É ser artista.” “Quando é assim, o que você faz?” “Anoto em um caderno. Se for uma visão, eu desenho. Porque então você vai ter outra e mais outra ideia. Quando vê, esqueceu tudo.” Christiane fica eriçada: “Então o Ney tem um caderno de artista.” Ney contabiliza: “Um caderno de artista e um monte de coisas que está em casa, estragando.” O diálogo termina com Christiane prometendo intervir. Um museu para Ney?

O templo | “E no dia a dia? Você comentou que aos 17, usava Havaianas com camiseta. E hoje?” “Calça jeans e camiseta. Mais nada. Não uso um anel, um amuleto, nada”, diz um Ney que faz parecer que são duas pessoas, a que fala e  a que canta. “Mas eu tenho minha cabeça”, completa, colocando tudo de novo em um caminho só.

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