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Mentes Femininas

Toda vez que um crime chocante atinge a nossa sociedade é comum a presença de pessoas questionando a relação entre doença mental e violência. Isso pode ser muito prejudicial devido ao sofrimento e preconceito que portadores e familiares de pacientes com transtornos mentais já enfrentam naturalmente no cotidiano.

O recente assassinato do conceituado cineasta Eduardo Coutinho pelo seu filho Daniel chamou os holofotes para a possibilidade do diagnóstico de esquizofrenia e que deverá ser confirmado.

A esquizofrenia é uma doença mental que atinge cerca de 1% da população mundial e estima-se que no Brasil atinja 2,5 milhões de pessoas- não há diferenças na frequência da doença entre homens e mulheres. Costuma ter início na adolescência (em alguns casos na infância) e o início dificilmente ocorre após os 30 anos de idade. A hereditariedade pode ser um fator de risco maior, assim como o parto traumático (ou com sofrimento fetal) e o uso de drogas. Há vários trabalhos científicos sérios que demonstram uma chance aumentada de esquizofrenia em até dez vezes entre usuários de maconha que possuem genes predisponentes ao transtorno.

Geralmente, a esquizofrenia começa a partir de alterações comportamentais na adolescência. É comum o jovem se isolar socialmente, ficar desconfiado e com medos infundados a respeito da realidade que o cerca. Concomitantemente, pode haver prejuízos na funcionalidade do jovem nos diversos níveis de atuação.

Os sintomas positivos conhecidos como delirios e alucinações (percepções táteis, visuais ou auditivas na ausência dos respectivos estímulos) são os mais preocupantes para todos. Durante os conhecidos “surtos psicóticos” as pessoas têm alterações perceptíveis de juízo e crítica a respeito da realidade que as cercam. O discurso geralmente é desconexo e confuso, além de difícil entendimento do significado de um determinado pensamento ou idéia. Alguns pacientes podem apresentar a catatonia (imobilidade motora, atividade motora excessiva ou até mutismo) ou mesmo o embotamento afetivo onde o paciente não tem a minima expressão emocional.

Tanto mutações genéticas herdadas quanto mutações genéticas não herdadas podem causar a esquizofrenia ao interferirem no desenvolvimento cerebral, especificamente na plasticidade sináptica (capacidade que o cérebro tem em se remodelar e estabelecer novas conexões). Tais mutações podem interferir na força das ligações entre os neurônios (células nervosas). Há determinados tipos de mutações que podem estar presentes tanto na predisposição à esquizofrenia quanto ao autismo e essa é uma área de muito interesse na neurociência atual onde recentemente foi publicado um artigo na conceituada Revista Nature.

Como em toda doença crônica, o grande problema é a baixa aderência ao tratamento. É comum os pacientes abandonarem o tratamento, fumarem excessivamente (o que pode diminuir o efeito do medicamento antipsicótico) ou usarem concomitantemente drogas como álcool, maconha e cocaína que pioram o curso da doença levando a surtos psicóticos frequentes.

Pacientes esquizofrênicos em tratamentos regulares podem ter uma vida bem ajustada do ponto de vista psicossocial e familiar. Hoje dispomos de antipsicóticos eficazes e com bom perfil de efeitos colaterais distribuídos pelo SUS como medicações de alto custo. Há diferentes tipos e graus de esquizofrenia e cada caso deve ser analisado individualmente- sendo importantes o diagnóstico e o tratamento precoces. Na fase aguda da doença, onde o surto psicótico ocorre, a internação pode ser necessária em algumas situações e daí o drama da falta de leitos psiquiátricos no SUS atormenta familiares e pacientes carentes.  Durante a fase de manutenção, o tratamento ambulatorial é o indicado.

Portanto, o paciente esquizofrênico em tratamento correto não é mais ou menos violento que qualquer pessoa da sociedade e tal informação precisa ser do conhecimento de todos. Essas pessoas já estão marcadas por muita estigmatização e isso precisa ser combatido dentro da sociedade.

 

 

 

 

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Prof. Dr. JOEL RENNÓ JR

    Ph.D em Ciências.
    Professor Colaborador Médico do Departamento de Psiquiatria da FMUSP.
    Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP).
    Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa da Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
    Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein - SP.

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