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O que são antidepressivos?

Joel Renno

12 fevereiro 2014 | 01:02

Introdução

Na minha prática clínica, observo que muitos pacientes têm dúvidas semelhantes ou coincidentes sobre vários temas de saúde mental.

Dentro do possível, pretendo esclarecer algumas questões polêmicas e gerais da prática clínica psiquiátrica.

Começarei tecendo considerações sobre 3 perguntas frequentes e recorrentes sobre o uso de antidepressivos prescritos não apenas por psiquiatras mas por médicos de diversas especialidades e com finalidades completamente diferentes.

 1. O que são antidepressivos?

 2. Quais efeitos colaterais que os antidepressivos causam?

 3. Quais os cuidados que devem ser tomados em caso de uma intoxicação com antidepressivos?

Os antidepressivos são medicamentos ou drogas que agem no sistema nervoso, cuja função é normalizar o fluxo de neurotransmissores, que são moléculas responsáveis pelo impulso nervoso de um neurônio para o outro. Os neurotransmissores saem de um neurônio, atravessam a sinapse (espaço entre dois neurônios) e ativam os receptores do neurônio seguinte. Os neurotransmissores mais importantes são: serotonina, noradrenalina, dopamina, acetilcolina, glutamato e GABA.

Os mecanismos de ação são distintos de um antidepressivo para outro. Há várias e diferentes classes.

Há os inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou serotoninérgicos (fluoxetina, sertralina, paroxetina, citalopram e escitalopram).  Há os antidepressivos duais que inibem a recaptura tanto de serotonina quanto de noradrenalina, conhecidos como os de duplo mecanismo de ação (venlafaxina, desvenlafaxina e duloxetina). Há certos antidepressivos que também atuam sobre outros neurotransmissores ou têm mecanismos de ação completamente diferentes como a agomelatina que atua como agonista em receptores de melatonina (hormônio produzido pela glândula pineal do cérebro). Os efeitos colaterais variam de acordo com a classe ao qual o antidepressivo pertence e também de acordo com a tolerância de cada pessoa. Os antidepressivos mais antigos, conhecidos como tricíclicos (clomipramina, imipramina, amitriptilina) costumam dar mais efeitos colaterais que os mais recentes (inibidores da recaptação de serotonina e os de duplo mecanismo de ação). Parece haver diferenças nas respostas aos antidepressivos entre homens e mulheres. As mulheres até 50 anos de idade parecem ser mais respondedoras aos antidepressivos serotoninérgicos enquanto os homens respondem melhor aos tricíclicos e duais – porém, isso não é uma regra geral.

Entre os efeitos colaterais (variável de pessoa para pessoa e de acordo com o tipo de antidepressivo utilizado) que podem ocorrer temos: alteração do sono e apetite, alterações gastrintestinais (diarréia ou obstipação intestinal), retenção urinária, alergias de pele, sudorese, diminuição da libido ou retardo da ejaculação, aumento ou diminuição de peso, náusea, tontura, tremores – inclusive, alguns deles, de forma paradoxal, podem aumentar até a ansiedade e agitação nos primeiros dias de tratamento e por tempo limitado. Os efeitos colaterais iniciais podem ser contornados e atenuados nos primeiros dias ou semanas de tratamento, o médico deve sempre ser consultado e orientar o seu paciente a respeito. Há alguns antidepressivos que podem ser hepatotóxicos e exames de sangue devem ser solicitados.Deve-se evitar a parada da medicação por conta própria. Há pessoas mais sensíveis aos efeitos colaterais, enquanto alguns não os têm. É muito individual. É bom frisarmos que antidepressivos não causam dependência e são confundidos habitualmente pelas pessoas com os benzodiazepínicos (“calmantes”) como bromazepam, clonazepam, diazepam, lorazepam e alprazolam.

Em caso da ingestão acidental excessiva, ou mesmo com o intuito de suicídio, é fundamental levar, imediatamente, tais pacientes para uma avaliação clínica em um pronto-socorro. Geralmente, dependendo da avalição clínica e do tempo decorrido da ingestão do medicamento, uma “lavagem gástrica”, com carvão ativado, é realizada. Em casos de intoxicação importante, com alterações cardiorrespiratórias e do nível de consciência pode até ser necessária a internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Geralmente, os antidepressivos atuais são mais seguros que os antigos (tricíclicos), mesmo em ingestões consideráveis.