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Crise econômica e risco de suicídio nos jovens

Joel Renno

18 agosto 2014 | 23:09

O número total de suicídios teve aumento significativo no Brasil. Passou de 6.743 para 10.321 no mesmo período, uma média de 28 mortes por dia. As taxas de suicídio são muito superiores às mortes associadas à depressão porque, na maioria dos casos, o atestado de óbito não traz a doença como causa associada.

No período de 16 anos, o número de mortes relacionadas com depressão cresceu 705% no Brasil, mostra levantamento inédito feito pelo jornal O Estado de S. Paulo com base nos dados do sistema de mortalidade do Datasus. Estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes de episódios depressivos.

Há diversos fatores de risco associados ao suicídio.  Demissões em massa desencadeiam comportamento suicida em adultos e até em algumas categorias de adolescentes, segundo um estudo atual publicado, em 2014, no American Journal of Public Health. Pesquisadores da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Duke, nos EUA, avaliaram, entre 1997 e 2009, os efeitos de demissão em massa em uma população diversificada de 400 mil  adolescentes – com idade média de 16 anos.

Os resultados mostraram que quando 1% dos jovens em idade de trabalhar (indivíduos de idades entre 25 a 64 anos) perderam seus empregos, todos os comportamentos relacionados com o suicídio (ideação, planejamento e tentativa) avaliados no estudo aumentaram 2% em meninas, enquanto os meninos não foram afetados.

Para as meninas, a dificuldade econômica parece ter piorado tendências suicidas existentes, segundo os autores sugerem. Ao observar a etnia, o aumento de suicídio na população afro-americana é nítido. Demissões em massa não afetaram os comportamentos relacionados com o suicídio em adolescentes brancos ou hispânicos. Os pesquisadores esperam que suas descobertas possam ajudar os médicos a identificar os adolescentes que poderão estar em maior risco de suicídio.

Extrapolando esses dados para o Brasil, dá para fazer uma análise ou hipótese de que adolescentes ou jovens adultos em dificuldades econômicas possam ser mais vulneráveis à depressão e ao suicídio. O pior é que essas pessoas têm pouca assistência ou possibilidade de tratamento da depressão na Rede Pública de Saúde nacional e o diagnóstico precoce da depressão raramente é realizado.

Profissionais da área clínica e que trabalham com adolescentes devem ficar atentos e serem preparados para entender que em momentos econômicos difíceis pode haver aumento de transtornos mentais e do risco de suicídio – principalmente na população mais carente e desassistida pelo Estado. A própria Comunidade pode contribuir com importantes discussões sobre cuidados de primeira linha que sejam eficazes e baratos na prevenção de suicídio.

Por fim, já passou da hora dos clínicos serem capazes de fornecer ferramentas educacionais importantes em saúde mental, respaldados por ações comunitárias e escolares. Medidas simples, planejadas e baratas podem trazer bons resultados.