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A gangorra emocional feminina

Joel Renno

18 junho 2014 | 09:23

Que as mulheres são mais vulneráveis a vários transtornos mentais e que há diferenças cerebrais anatômicas e funcionais já está definido pela ciência. Alguns transtornos mentais como depressão e ansiedade podem atingir as mulheres de 2 a 3 vezes mais que os homens.

Por que tais diferenças existem e como explicar tais diferenças sem que o sexo feminino seja novamente tratado com o estigma da inferioridade biológica?

Definitivamente, esse é um grande desafio. Sabemos que algumas mulheres são mais predispostas a transtornos mentais em períodos de oscilações dos níveis hormonais como o pré-menstrual, pós-parto e perimenopausa (de 5 anos antes da menopausa até 1 ano após o início da menopausa). Mulheres também costumam ser mais vítimas, na infância e adolescência, a traumas e abusos físico e sexual que funcionarão como “gatilhos estressores” desencadeadores de episódios depressivos e ansiosos mesmo anos mais tarde.

Embora o corpo caloso (estrutura que divide o cérebro nos hemisférios direito e esquerdo e os integra) seja mais espesso nas mulheres e permite, portanto, uma maior e melhor conexão entre os hemisférios cerebrais femininos (não por acaso as mulheres conseguem desempenhar várias atividades simultâneas como cuidar dos filhos, atender o telefone e ao mesmo tempo preparar um gostoso alimento), na atualidade a frequência e intensidade de estímulos nas mulheres ultrapassa qualquer limite razoável do seu complexo sistema nervoso central. Há exigência de múltiplos papéis para que a mulher contemporânea consiga se impor: executiva de destaque, super mãe, amante sensacional e extremamente prendada nos afazeres domésticos. Essas inúmeras cobranças, muitas ainda oriundas de um universo machista, podem deixar muitas mulheres angustiadas ao extremo e levá-las a crises de ansiedade ou em graus extremos a crises de pânico.

As mulheres costumam, porém, procurar ajuda médica precoce e isso as favorece em situações de tratamento e prevenção.

Os vilões hormonais podem, em outras situações, ser até protetores como no autismo e na esquizofrenia que são, ao contrário, menos frequentes nas mulheres.

É fundamental que a sociedade não rotule as mulheres como descontroladas ou até mais incapazes que os homens só porque elas têm uma frequência maior de vários distúrbios mentais. Sempre digo a todos os meus pacientes que pessoas inteligentes, vencedoras e sensíveis também podem sofrer de transtornos mentais como qualquer mortal e isso jamais pode ser utilizado como motivo para desqualificá-las.