Celebridades demais, propaganda de menos
7 de novembro de 2011 | 0h02
Marili Ribeiro
Anderson Silva dança com Marisa Monte no clipe de lançamento de seu novo disco. A escolha da cantora pelo lutador se deu porque ela vê nele um misto de força e delicadeza. Acertou. O vídeo já contabiliza mais de 1 milhão de acessos.
Em fevereiro, quando disputou nos EUA o título de campeão mundial de peso médio do Ultimate Fighting Championship (UFC), Anderson Silva ainda era pouco conhecido por aqui. A empresa de marketing esportivo que iria representá-lo, a 9ine, teve dificuldade em seduzir convidados para assistir à luta em Las Vegas. Em outubro, pelo levantamento da consultoria Controle da Concorrência, ele já contava 161 inserções em comerciais de TV. Um desempenho acima até mesmo do queridinho da hora, o jogador Neymar, que apareceu, nesse mesmo mês, 100 vezes nos intervalos da programação televisiva.
Anderson Silva é, decididamente, a bola da vez da propaganda e da mídia. O mercado publicitário brasileiro tende a correr atrás de quem está em evidência, provocando uma onda que, por vezes, resvala para o abuso, decorrente do excesso de exposição do personagem em questão. Como atesta a publicitária Isabelle Perelmuter, dona consultoria ONstrategy, a superexposição pode ter efeito contrário ao esperado pela empresa que paga o garoto-propaganda.
“Uma empresa americana fez amplo estudo sobre a imagem da top Gisele Bündchen para uma gigante mundial de cosméticos e mostrou que 36% dos entrevistados atribuíam a ela pouca credibilidade por fazer propaganda para inúmeros produtos ao mesmo tempo”, explica Isabelle. “A presença dela pode até dar resultados tangíveis em vendas, mas não vai funcionar como estratégia de construção da marca e levar à diferenciação em um mercado tão competitivo. A médio prazo essa tática é dinheiro jogado fora”.
Presente em campanhas da C&A, Grendene, Procter & Gamble, Hope e Sky, entre outras, a modelo somou 3.176 inserções em comerciais de janeiro a outubro deste ano, conforme o Controle da Concorrência. Um recorde. Nesse mesmo período, outras figuras com excessiva exposição foram Luciano Huck, com 2.226 inserções, e Ivete Sangalo, que somou 2.189 nesses mesmos dez meses.
A hora de parar
No exterior, o uso de celebridades em propaganda é mais comedido. Num ranking recente das propagandas mais vistas nos EUA, entre os dez primeiros comerciais classificados, os sete primeiros não usam famosos. Ou seja, eles não são fundamentais para se fixar a marca.
Anselmo Ramos, vice-presidente de criação da agência Ogilvy, que trabalhou por mais de dez anos fora do País, reconhece que lá eles usam melhor os famosos de plantão, porque contextualizam a presença deles no roteiro, o que, na opinião dele, é o ideal.
“Aqui temos uma tendência a provocar um pico na utilização de uma figura em evidência, em busca de aproveitar a visibilidade pontual”, diz ele. “Todo mundo vai atrás e isso pode ficar over. Assim, quando o consumidor começa a notar, é hora de parar o uso da figura”.
Carisma e leveza
No caso do Anderson Silva, que Ramos utilizou no viral produzido para a rede de fast food Burguer King, o lutador finge cantar Loving You, mas a voz é de Minnie Ripperton (cantora americana de soul, morta em 1979). “Atingimos 5 milhões de acessos. O vídeo atrai audiência porque brinca com a famosa voz fina dele. Ele tem carisma e leveza”.
Embora os envolvidos nas negociações não deem detalhes, é sabido pelo mercado de propaganda que o cachê do lutador gira em torno de R$ 500 mil por campanha. Já o jogador Neymar, por exemplo, já atingiu o patamar dos R$ 2 milhões. O preço maior estimula trocas de patrocinadores. Nem todos podem bancar os custos. Essa situação, para Isabelle, confunde e mais atrapalha do que ajuda. “Neymar fez propaganda para a Nextel e agora faz para a Oi. Isso gera desconfiança sob o endosso dele à marca”.
O apelo para um garoto-propaganda que dá aval a uma marca floresceu como ferramenta de marketing na década de 80. “Dá bons resultados para ambas as partes quando bem administrada”, considera Evandro Guimarães, diretor da 9ine e responsável pela administração da carreira comercial do lutador.“O Anderson viveu um boom com a realização do evento da UFC no Brasil. Estamos agora diminuindo a presença dele. Duas campanhas ao mesmo tempo é aceitável, mais pode desgastar a imagem”.
Chamado para ajudar a vender carros para da Ford, ao lado da atriz Débora Secco, Anderson já recebeu mais do que ela pela presença no comercial. Pai de cinco filhos, ele empresta o seu charme atualmente para cinco patrocinadores. Nada mal para quem há nove meses era quase desconhecido.
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