O New York Times está estudando a possibilidade de adotar um sistema para receber mais facilmente documentos vazados, informa o blog The Cutline. O modelo seria o usado pela Al Jazeera – a empresa catariana criou uma central para recepção de informações anônimas, isto é, seu próprio WikiLeaks. Como resultado, já obteve centenas de documentos sobre as negociações entre palestinos e israelenses.
Para o New York Times, a vantagem evidente desse sistema é se livrar do ególatra Julian Assange, o dono do WikiLeaks. Já há quem veja na ideia o início de uma espécie de “corrida armamentista” no mundo jornalístico para obter documentos sigilosos de modo rápido e eficiente.
O WikiLeaks não tem nada de democrático; é, na verdade, equivalente a uma ditadura. A opinião é do escritor e cineasta francês Yann Moix, em artigo publicado na revista La Règle Du Jeu. Essa ideia contraria a essência da noção construída em torno do WikiLeaks, a de que o vazamento de informações confidenciais produzidas pelo Estado contribui para aperfeiçoar a democracia.
Para Moix, a demanda pela “transparência” que emana do WikiLeaks não é democrática, e sim “uma obsessão totalitária”. “A palavra totalitarismo, de fato, expressa perfeitamente essa idéia: tudo é igual a tudo, tudo deve ser conhecido de todos, tudo deve ser conhecido em todos os momentos.’’ Moix considera que uma ditadura busca “fazer com que os seres sejam indistinguíveis’’, ou seja, promove ‘‘o primado da massa sobre o indivíduo’’, por meio da “transparência”.
Se houvesse transparência em todos os momentos, se a vida fosse sem mentiras e segredos, sem privacidade, argumenta Moix, ela seria um ‘‘inferno’’. A essência da política, diz ele, é saber equilibrar o segredo e a transparência, em nome do bem público. Moix lembra que ‘‘a soma das vontades individuais não constitui a vontade geral’’, de modo que, numa democracia, cada indivíduo aceita a liberdade ‘‘possível’’, alienando parte dela ao Estado, tendo em troca a garantia de que o Estado saberá administrá-la melhor do que os indivíduos isoladamente.
O WikiLeaks, sob esse aspecto, “quebra o contrato, aquele de Rousseau, do Iluminismo”, diz Moix. “É antidemocrático, porque, de repente, um homem, uma organização, um homem-organização decide parar de cooperar, decide desistir da ‘farandole’ (dança coletiva). Sem a permissão (ou a legitimidade) daqueles que nos governam, mas também nos representam, o WikiLeaks está se colocando acima deles. Ao fazer isso, o WikiLeaks não está insultando o Estado, mas o povo representado por esse Estado. Somos nós os insultados – em nossa democracia, em nossa liberdade.”
O presidente Lula, como se sabe, prestou solidariedade entusiasmada a Julian Assange e seu WikiLeaks, fazendo a defesa da “liberdade de expressão” e da divulgação irrestrita de documentos sigilosos da diplomacia americana. Pois esse mesmo presidente chefia um governo que nada faz para facilitar o acesso a documentos da ditadura brasileira, que deveriam ser públicos há muito tempo.
Em artigo no Aliás deste domingo, o historiador Carlos Fico tocou nesse assunto. Sob o título “Público e inacessível”, o texto mostra todos os obstáculos mantidos pelo governo Lula para a consulta. Um deles é a retenção de documentos que já não podem ser mais considerados “sigilosos”. Outro, pior, é a chamada “proteção à intimidade”. Escreve Fico:
“O Arquivo Nacional impede a consulta de documentos que, segundo seu critério, ponham em risco a imagem, a privacidade ou a honra de alguém. Como o direito à privacidade perdura por cem anos, o acesso a esses papéis estaria praticamente proibido. Trata-se de um grave erro. A consulta à documentação do regime militar não põe em risco a intimidade das pessoas nele mencionadas. Os documentos da repressão não são um testemunho da verdade, mas o registro histórico do arbítrio. O Arquivo Nacional não pode se arvorar em intérprete do direito à privacidade e arbitrar – conforme as idiossincrasias do funcionário ocasionalmente situado na posição de decidir – se este ou aquele papel agride a honra ou a imagem de alguém”.
Esse tipo de restrição é claramente uma forma de censura, confirmada durante a campanha eleitoral – quando o Arquivo Nacional vetou a consulta a documentos da ditadura sobre os candidatos à Presidência, a título de preservá-los de eventual uso “político” desses papéis.
Contra esse lamentável estado de coisas, os historiadores brasileiros que estudam o período ditatorial – já elogiado por Lula em outras ocasiões – esperam que o presidente lhes estenda a solidariedade que ele tão alegremente emprestou a um obscuro australiano.
O ainda chanceler brasileiro, Celso Amorim, também deu sua opinião sobre o caso WikiLeaks. Para ele, não há dúvida de que Julian Assange, organizador do site, está sofrendo “perseguição” – referindo-se ao processo por crime sexual, que, segundo Amorim, foi “desencavado” para prejudicá-lo.
O chanceler admitiu que não tem “informação privilegiada” sobre o caso, mas isso não impediu que ele tirasse conclusões definitivas, afirmando que Assange está preso porque “foi inconveniente”.
Sobre a acusação de crime sexual, Amorim praticamente absolveu Assange: “Não sei o que o rapaz fez ou não fez lá, não vou entrar no mérito disso”. Isto é, para nosso chanceler, não importa se Assange cometeu crime ou não. Importa é que ele é o herói da “liberdade de expressão” e está sendo “perseguido” por isso.
A esse propósito, Amorim se disse “a favor da total liberdade de expressão” e afirmou que a divulgação dos documentos obtidos pelo WikiLeaks “não pode ser cerceada”. Talvez por não ter “informação privilegiada”, o chanceler se confundiu: nenhum veículo de comunicação foi impedido até agora de divulgar as informações vazadas pelo WikiLeaks; portanto, não há censura de nenhuma espécie no caso.
Como bem sabe Amorim, paladino da “diplomacia discreta”, os diplomatas precisam trabalhar com algum grau de sigilo. Por outro lado, como defensor da “total liberdade de expressão”, o chanceler talvez devesse então abrir os arquivos do Itamaraty e revelar a correspondência diplomática brasileira, principalmente sob o governo Lula. A não ser que a “liberdade de expressão” só valha para os segredos dos EUA.
O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, é admirador confesso de Stálin. Mesmo assim, embalado pelo antiamericanismo alimentado pelo caso WikiLeaks, sentiu-se à vontade para questionar a prisão de Julian Assange, o organizador do site.
“A democracia é isso?”, provocou Putin, sob cuja administração jornalistas críticos do regime morrem misteriosamente. Nos documentos de diplomatas americanos vazados por Assange, diz-se que a democracia na Rússia “desapareceu”.
O presidente Lula condenou duramente nesta quinta-feira a prisão de Julian Assange, o organizador do WikiLeaks. Ao formular “o primeiro protesto” contra o cerceamento à liberdade de expressão na internet que estaria caracterizado pela prisão de Assange, Lula declarou que o australiano “estava apenas colocando (no site) aquilo que ele leu”. “Se ele leu é porque alguém escreveu, o culpado não é quem divulgou, o culpado é quem escreveu. Portanto, em vez de culpar quem divulgou, culpe quem escreveu a bobagem, porque senão não teria o escândalo que tem. Então, Wikileaks, minha solidariedade pela divulgação das coisas e meu protesto contra (o cerceamento à) liberdade de expressão.”
Lula não tinha a mesma opinião em 2007, quando vazaram informações sobre investigações da Polícia Federal. “Nós ficaremos muito mais tranquilos se não permitir que um processo vaze para alguém antes de ser concluído, criando uma imagem negativa da pessoa”, afirmou o presidente na ocasião.
Alguns dirão que uma coisa são documentos diplomáticos, e outra são os dados de uma investigação policial. No espírito do debate sobre a liberdade de informação, no entanto, essa diferença parece irrelevante. A única coisa clara nisso tudo é que pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Muitos excelentes jornalistas saíram em defesa de Julian Assange e seu WikiLeaks no episódio do vazamento de documentos diplomáticos americanos. Para eles, a prisão de Assange é “política”, como brada um ainda incipiente movimento brasileiro de protesto. O argumento é simples: o direito à informação é superior a qualquer outra consideração moral ou ética.
“A prisão de Julian Assange é um teste claro, voltaireano: não precisamos concordar com nada do que ele diz para aceitar que tem o direito de fazê-lo”, escreveu Paulo Moreira Leite em seu blog.
“Não há autismo intelectual que impeça o mais medíocre dos jornalistas de perceber a ardilosa campanha organizada contra a WikiLeaks”, argumentou Diego Escosteguy em seu Twitter. “Para aqueles que, como eu, subordinam seu trabalho ao princípio democrático da liberdade de expressão, é imperativo expressar indignação.”
São discursos fortes, obviamente respaldados na ideia, absolutamente correta, de que a transparência do poder público é sempre melhor do que a sombra, e na percepção de que Assange está sendo perseguido mundialmente não porque fez sexo sem camisinha, mas porque incomodou a Casa Branca. O caso do WikiLeaks, porém, requer algumas considerações que deveriam ser levadas em conta para analisar o caso, inclusive do ponto de vista jornalístico.
O primeiro aspecto a se observar é a natureza dos documentos vazados. É muito provável que, entre os 250 mil despachos diplomáticos, haja alguma coisa relevante do ponto de vista da história; afinal, como lembrou o historiador Timothy Garton Ash, não é todo dia que podemos pôr a mão em fontes primárias tão frescas e conceituadas para entender o tempo presente. No entanto, a maioria absoluta dos documentos vazados, a julgar pelo que veio à luz até aqui, aparenta ser simplesmente inútil para reconhecer neles alguma importância histórica ou jornalística, quer porque tratam de fatos já bastante conhecidos, quer porque resvalam na fofoca, pura e simples. Assim, o único efeito prático desse vazamento, tomado em seu todo, tem sido o de supostamente desmoralizar a diplomacia dos EUA – para Umberto Eco, é irônico descobrir que diplomatas da maior potência do mundo comunicam “segredos” vazios, isto é, que saem antes na imprensa.
Como lembrou no New York Times o colunista Roger Cohen, porém, a revelação dos documentos do Departamento de Estado dos EUA compromete anos de trabalho de diplomatas empenhados em costurar acordos e negociações ao redor do mundo. Em lugar de atender algum tipo de interesse público, o vazamento é simplesmente danoso, segundo esse ponto de vista, porque os contatos diplomáticos são feitos na base da confiança do sigilo. Na Slate, Christopher Hitchens comenta que “uma das mais antigas e melhores ideias da civilização é estabelecer pequenos encraves estrangeiros soberanos na capital de cada país” e que esses encraves, destinados à resolução pacífica de impasses, precisam ter “certas imunidades especiais” para exercer suas funções, entre as quais “um alto grau de privacidade”. Para Hitchens, “mesmo a menor violação dessa antiga tradição pode causar indesejáveis e inesperadas consequências”. Cohen, por sua vez, faz uma comparação interessante: “Todos os jornalistas sabem que, se seus contatos fossem subitamente tornados públicos, eles perderiam a maioria de suas fontes. Isso deveria fazê-los parar para pensar”.
Outro argumento foi apresentado pelo jornalista João Pereira Coutinho, colunista da Folha. Para ele, os jornalistas deixaram de fazer seu trabalho e se transformaram em “cúmplices da pirataria e da espionagem de um foragido”: “Temo pelo futuro do próprio jornalismo. Tempos houve em que os jornalistas tinham a nobre função de vigiar e criticar o poder. Uma tarefa necessária, solitária, tantas vezes perigosa, que implicava ‘pesquisa’, ‘filtragem’, ‘interpretação’. Uma fonte era uma fonte. O início do processo, não o seu fim preguiçoso. Com a WikiLeaks, o jornalismo transformou-se no latão de lixo de um delinquente cibernético. Não existe ‘pesquisa’, ‘filtragem’ ou ‘interpretação’ alguma”. Christopher Hitchens foi na mesma direção – para ele, Assange é um “megalomaníaco inescrupuloso” que “transformou todo mundo em cúmplice de sua decisão privada de tentar sabotar a política externa dos EUA”, em nome de uma “agenda política”.
Desconsiderando-se os exageros de praxe, o fato é que o caso WikiLeaks colocou não só a diplomacia americana numa encruzilhada, mas também o próprio jornalismo, que Assange diz defender.
O vazamento irresponsável de documentos diplomáticos americanos, a título de “mostrar a verdade” sobre coisas que o mundo todo já estava careca de saber, continua a causar danos à própria diplomacia. O Departamento de Estado dos EUA planeja substituir vários de seus representantes ao redor do mundo, porque eles aparecem nos documentos fazendo comentários pouco lisonjeiros sobre os países em que estão estabelecidos. A ideia obviamente é protegê-los. O problema, como mostra o Daily Beast, é que se trata de diplomatas altamente treinados e competentes, cuja substituição será muito difícil e custosa.
Um funcionário do Departamento de Estado comentou: “Teremos de trazer de volta alguns de nossos melhores funcionários – os diplomatas que melhor representam os EUA e que eram os mais profundos em suas análises – porque eles ousaram falar a verdade sobre os países nos quais eles trabalhavam”.
Muito vai se falar sobre o botox de Kaddafi, ou da pirataria chinesa do Google, mas um dos aspectos centrais dos documentos diplomáticos americanos obtidos pelo site WikiLeaks é a vontade dos países árabes islâmicos de bombardear o Irã. “Vamos cortar a cabeça da cobra”, propôs o rei Abdullah, da Arábia Saudita. O príncipe Muhammad Bin Zayed, de Abu Dabi, chegou a comparar: “Ahmadinejad é Hitler”. Ou seja: a belicosidade contra o Irã e seu programa nuclear não é necessariamente um traço ocidental.
Esse “segredo de polichinelo” serve para desmontar parte da retórica antiamericana no Oriente Médio. O mundo muçulmano, que acusa a política externa americana de ser “anti-islâmica” por causa do Irã, terá então de hostilizar também a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, além do Egito e do Paquistão, se quiser ser coerente. Ademais, os países árabes costumam censurar Israel por considerar o Irã como a principal ameaça à estabilidade regional. Diante de declarações como a de Abdullah, fica claro que tudo isso não passa de hipocrisia dos governos árabes, tanto externa quanto interna.
Outro aspecto importante de todo o vazamento diz respeito à natureza dos documentos. A título de crítica à administração dos EUA, há quem diga que, “numa democracia, as pessoas têm o direito de saber o que seu governo está fazendo de fato”. É verdade, mas, em diplomacia, nem tudo pode se tornar público.
É ingênuo supor que os EUA pudessem ou devessem ser mais transparentes que, por exemplo, o Brasil, cuja diplomacia também é, em alguma medida, mantida em sigilo. Neste ano, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que estipula prazos para a desclassificação de documentos secretos brasileiros. A maior resistência ao projeto foi do Itamaraty – há papeis que permanecerão indefinidamente secretos porque tratam de política externa e cuja publicidade pode comprometer os esforços diplomáticos do Brasil.
Assim, o vazamento dos documentos pelo WikiLeaks não pode ser ignorado – é material jornalístico e histórico de grande valor; ao mesmo tempo, porém, há situações que pertencem aos corredores da diplomacia, com seus códigos próprios. Fazer considerações morais anti-EUA a partir de documentos que foram produzidos para permanecer secretos é tentador, mas talvez seja apressado. É melhor esperar o vazamento de documentos da diplomacia de outros países – digamos China, Rússia, Venezuela, Cuba ou Irã – para comparar.
O Taleban informou que está estudando os documentos militares americanos vazados pelo WikiLeaks para encontrar os afegãos que trabalham como informantes para os EUA. “Vamos puni-los”, prometeu o porta-voz.
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