O Vaticano está sendo co-responsabilizado num tribunal do Kentucky em processo nos quais bispos nos EUA são acusados de se omitir nos casos de abusos sexuais cometido por padres. Mas os advogados da Igreja já têm um argumento na ponta da língua: tecnicamente, os bispos não são empregados do Vaticano; logo, a Santa Sé não pode ser ré solidária. A relação entre as partes é apenas “religiosa”, e não “civil”, e a Igreja não controla a vida e as atividades dos bispos.
Segundo o Telegraph, o caso do Kentucky pode servir de referência para vários outros nos EUA.
Primeiro, o Vaticano mandou dizer que as palavras do frei Raniero Cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia, que teve o desplante de comparar o noticiário sobre a pedofilia na Igreja Católica ao antissemitismo, não traduziam o ponto de vista da Santa Sé.
Agora, o Vaticano tenta se distanciar das palavras do cardeal Tarcisio Bertone, seu secretário de Estado, que ligou o escândalo de pedofilia na Igreja à “patologia” do homossexualismo. Um porta-voz informou que “autoridades da Igreja não têm competência para fazer declarações sobre questões médicas ou psicológicas”.
São tantos os tiros no pé que é o caso de perguntar se há no Vaticano algo como o “bando de aloprados”, como foram chamados os petistas que queriam “ajudar” a candidatura de Lula em 2006. Os seguidos desmentidos de declarações de gente importante na hierarquia da Igreja mostram um descontrole que não combina com a noção de rigidez monárquica que emana dos corredores da Santa Sé sob Bento XVI.
O presidente da CNBB, d. Geraldo Lyrio Rocha, criticou a imprensa por noticiar, com “insistência incomum”, o escândalo de pedofilia na Igreja Católica. O Vaticano chamou esse noticiário de “tentativa ignóbil” de “manchar a qualquer custo” a reputação do papa Bento XVI. Estudantes católicos, em mensagem de solidariedade ao sumo pontífice, qualificaram de “semeadores da desconfiança” os jornalistas que publicam informações sobre esses casos.
Em meio a essa reação raivosa contra os jornalistas, que nada mais fazem do que noticiar casos escabrosos de violência contra crianças cujo único crime foi ter confiado em homens de batina, uma voz católica de peso resolveu lembrar que o problema não é a imprensa. Foi o arcebispo de Toronto, Thomas Collins, que disse, em sermão:
“Alguns têm usado o dom maravilhoso do sacerdócio para vantagens pessoais, traindo inocentes e devastando suas vidas. Não podemos escapar do horror argumentando que quase todos os sacerdotes têm servido fielmente, embora esse fato seja uma graça que dá alegria ao povo católico. Mas mesmo um único padre que cometa um erro causa imenso mal, e em todo o mundo padres têm feito um mal inominável. Devemos ser gratos pela atenção que a mídia dedica aos pecados do clero católico, mesmo que a repetição constante possa dar a falsa impressão de que o clero católico é particularmente pecaminoso. Essa atenção é um profundo tributo ao sacerdócio. As pessoas instintivamente esperam a santidade de um padre católico e ficam especialmente chocadas quando ele faz o mal”.
Um artigo corajoso, o que Maureen Dowd publicou no New York Times a respeito do interminável escândalo de pedofilia na Igreja Católica. Como solução para a epidemia de padres pedófilos, ela sugere que a Igreja passe a permitir a ordenação de mulheres. Mais: ela diz que a inacreditável omissão de Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, ao ser informado sobre casos escabrosos – como o do padre que abusou de 200 meninos surdos –, não aconteceria se o papa fosse uma mulher.
“As freiras, historicamente, têm limpado a bagunça dos padres”, escreveu Dowd. “E essa é uma bagunça histórica. Bento XVI deveria ir para sua casa na Baviera. E os cardeais deveriam enviar fumaça branca pela chaminé, proclamando ‘Habemus Mama’.”
Dowd não é a primeira voz com peso na imprensa a pedir a, digamos, “demissão” do papa diante do escândalo. A revista alemã Der Spiegel publicou recentemente um texto que dizia o mesmo a respeito de seu compatriota no Vaticano. “Por que o papa ainda está no cargo?”, perguntou Peter Wensierski no artigo. Para ele, assim como para Dowd, o “Rottweiler de Deus” está perdendo a autoridade moral para dizer o que os católicos devem ou não devem fazer.
Enquanto isso, Bento 16 disse neste domingo que não se intimidará diante de “fofocas sem importância”.
Gary Krupp vende equipamentos médicos nos EUA.Por conta dessa sua atividade, ele conseguiu mobilizar vários empresários no país para ajudar a equipar um hospital italiano. Sua iniciativa lhe rendeu uma condecoração do Vaticano – tornou-se Cavaleiro da Ordem Equestre de São Gregório o Grande. É chamado de “vossa excelência” pelos cardeais, mostra o New York Times.
Detalhe: Krupp é judeu.
Depois de ter sido homenageado pelo Vaticano, Krupp assumiu para si a tarefa de ajudar no processo de canonização do controverso papa Pio 12, cujo silêncio em relação ao Holocausto é uma das principais fontes de atrito entre os judeus e a Igreja Católica. Ocioso dizer que a ação de Krupp foi muito bem recebida nos corredores da Santa Sé – nada melhor do que ter “um judeu” apoiando uma causa tão polêmica.
Krupp, porém, não parece nem um pouco preocupado em ser instrumentalizado. “Você sabia que Pio 12 salvou mais de 860 mil judeus dos campos de concentração?”, diz o empresário, que afirma se basear em pesquisa própria. “É um desastre que tantos judeus o considerem um antissemita.”
Para o rabino Eric Greenberg, da Liga Anti-Difamação, o trabalho de Krupp nada mais é do que “campanha de desinformação”.
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