O atentado num aeroporto de Moscou, nesta segunda-feira, parece ter sido calculado para causar constrangimentos ao presidente Dmitry Medvedev – justamente no momento em que ele embarcava para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, para vender a Rússia como um lugar seguro para investimentos.
Como resposta, Medvedev deve mandar caçar os suspeitos de praxe: os separatistas da Tchetchênia. Por essa razão, os mercados não demoraram muito para se recuperar do choque e, afinal, parecem não ter se impressionado com a carnificina em Moscou, confiando na capacidade de Medvedev e de Vladimir Putin de “manter a ordem”.
Por outro lado, um dos efeitos importantes do ataque é a sensação de vulnerabilidade dos aeroportos. Não parece estar longe o dia em que os sistemas de segurança antiterror incluam a inspeção de bagagens antes mesmo de o passageiro chegar ao aeroporto.
As novas técnicas de verificação de passageiros nos aeroportos americanos criaram tantos constrangimentos que se tornaram motivo de piada nacional. Muita gente anda filmando os procedimentos de segurança e postando na internet, expondo, assim, os exageros. Em um dos casos registrados, um menino de 3 anos de idade é submetido a uma vergonhosa revista – que incluiu sua mochilinha. A cena, que pode ser vista aqui, mostra a que ponto chegaram os danos às relações sociais nos EUA causados pelo terrorismo. A primeira vítima desse fenômeno é o bom senso.
A situação, porém, não é nova. Muito antes do 11 de Setembro, os aeroportos americanos já apresentavam rigorosas medidas de segurança, como mostra uma formidável memória das charges da revista New Yorker. Abaixo, alguns exemplos:
Enquanto Nova York autorizava a comunidade islâmica a erguer uma mesquita a dois quarteirões do Ground Zero, as autoridades alemãs ordenavam o fechamento de uma mesquita em Hamburgo – o local foi freqüentado por Mohammad Atta, justamente um dos seqüestradores do 11 de Setembro.
Para os alemães, a mesquita segue sendo local de atração de jihadistas em potencial.
A reunião de cúpula da União dos Estados Africanos tinha como meta discutir o flagelo da mortalidade infantil. Mas as seguidas ações de grupos terroristas muçulmanos na África mudaram o foco. “Vamos agir em conjunto para caçá-los”, disse o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, segundo o jornal Le Monde. A principal decisão foi a de reforçar, com apoio ocidental, o contingente que luta contra o grupo terrorista Shabab na Somália.
O temor dos dirigentes africanos é o da “contaminação” do continente pela ideologia do fundamentalismo islâmico, trazida por terroristas estrangeiros – a maioria vinda do Afeganistão e do Paquistão. “Esses grupos não compartilham os valores de solidariedade da África”, afirmou o somali Boubacar Diarra.
Um estudo conduzido na faixa de Gaza mostra que o maior apoio ao terrorismo vem de jovens que tiveram pelo menos um parente morto pelo Exército de Israel. A pesquisa, do especialista em agressividade humana Jeff Victoroff (University of Southern California), indica que essa simpatia se deve à percepção da injustiça.
“É tentador pensar em extremistas como pessoas agressivas, e é claro que há extremistas agressivos neste mundo perigoso”, disse Victoroff, que trabalhou com pesquisadores palestinos, israelenses e americanos. “Mas nossas descobertas sugerem duas causas diferentes para o apoio à violência política: experiências de vida traumáticas e percepção de injustiça.”
Para os especialistas, a pesquisa indica que talvez fosse mais interessante para os EUA e seus parceiros, em sua “guerra ao terror”, concentrar menos energias nos extremistas e mais nas pessoas que sofrem os efeitos da guerra.
A cineasta Iara Lee, única brasileira a bordo da “Flotilha da Liberdade”, descreveu sua experiência durante a abordagem da Marinha israelense, em texto publicado pela Folha. Sem ter visto o confronto, ela fez suas deduções como se a tudo tivesse testemunhado. “Ouvi tiros e temi pela vida dos meus companheiros de viagem. Mais tarde vi os corpos sendo carregados para dentro. Podia esperar que os soldados atirassem para o ar, ou nas pernas das pessoas, mas em vez disso vi que tinham atirado para matar.”
A frase mostra que ela não viu os soldados atirando, apenas ouviu. Em seguida, viu os corpos de seus “companheiros” sendo carregados. Isso foi o suficiente para que ela denunciasse, com a firmeza de quem assistiu a tudo: “Vi que (os soldados) tinham atirado para matar”. O problema é que Iara Lee não viu nada, como ela mesma admite. Não viu, por exemplo, soldados israelenses sendo espancados e esfaqueados. Ela apenas ouviu tiros e tirou suas conclusões, contaminadas por sua militância. A equação, para ela, era simples: soldados israelenses + tiros + corpos de pacifistas desarmados = massacre premeditado.
Como cineasta, ofício em que a imagem é tudo, Iara Lee deveria saber bem a diferença entre ver e não ver alguma coisa. Para ela, porém, parece que basta acreditar em algo para que isso se torne verdade. Resta só o trabalho de recolher “evidências” para fundamentar a crença.
De todo modo, pelo menos Iara Lee sobreviveu para contar o que acha que viu. Deu mais sorte que outro brasileiro, Giora Balash, assassinado pelo Hamas num atentado a bomba numa pizzaria em Jerusalém, em 2001. Balash não sobreviveu para contar o que efetivamente viu: a cara do terror.

Os muros de Carcassonne, na França
Há um muro na fronteira entre EUA e México; também há um na fronteira entre Israel e Cisjordânia; o Egito construiu o seu na fronteira com Gaza. Agora, as autoridades de Bagdá planejam erguer um muro para dificultar a vida dos terroristas suicidas que infernizam a capital iraquiana.
Nas cidades medievais, os muros serviam para dar à vida urbana a sensação de segurança, contra os salteadores e ignorantes do mundo rural. Mas aqueles eram outros tempos.
A diretora Kathryn Bigelow, premiada com o Oscar pelo filme Guerra ao Terror, vai rodar sua nova produção na Tríplice Fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai. As autoridades paraguaias e argentinas expressaram sua fúria – e, segundo Assunção, o governo brasileiro também não gostou.
Segundo eles, é injusto pintar a região – notória pelo crime organizado e por abrigar financiadores do terrorismo – como o “lixo do mundo”.
A vulnerabilidade das grandes metrópoles ao terrorismo ficou evidente no último sábado, quando a polícia de Nova York frustrou, por um triz, um atentado em plena Times Square. Mesmo depois do 11 de Setembro, a cidade americana ainda carece de segurança específica contra o terror, como bem lembrou o blog de Gustavo Chacra. Trata-se de um dilema urbano característico de nosso tempo: como lidar com a ameaça de ruptura brutal do cotidiano sem alterá-lo de antemão, ou seja, como as autoridades podem prevenir o terrorismo sem acabar com aquilo que dá vida às cidades, que é precisamente sua organização caótica.
Entre as reações ao atentado frustrado na Times Square, um leitor do New York Times sugeriu que se introduzisse naquela região da cidade o “Anel de Aço”, experiência da City londrina contra os ataques do IRA, nos anos 90. Trata-se de uma série de bloqueios (de concreto, e não de aço), com policiais montando guarda dia e noite e câmeras de vigilância às pencas, para evitar os atentados.
É a opção pela descaracterização da cidade como o lugar das trocas e da livre circulação de pessoas, elementos que estão no centro do próprio espírito da civilização.
É justamente isso o que desejam os terroristas.
Muhammad Tahir-ul-Qadri, um dos mais importantes clérigos muçulmanos do Paquistão, emitiu nesta terça-feira no Reino Unido uma “fatwa” (pronunciamento legal islâmico) segundo a qual “os atentados suicidas e os ataques contra civis não são apenas condenados pelo islã, mas deixam os perpetradores totalmente fora do rebanho do islã; em outras palavras, tornam-se infiéis”.
O jornal Telegraph considera que a palavra de Tahir-ul-Qadri pode ter grande peso no Reino Unido, levando extremistas a repensar seu comportamento no país. Em entrevista, o clérigo disse que não há “se e mas” quando se trata de terrorismo, e pediu que outras lideranças islâmicas ajudem a disseminar a mensagem segundo a qual o terrorismo não é digno de um verdadeiro muçulmano.
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