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Marcos Guterman

Que Israel deve interromper sua colonização da Cisjordânia para que haja paz com os palestinos, disso poucos discordam. Mas há um peso excessivo nessa questão quando se trata de avaliar o processo de negociação ora em curso no Oriente Médio – não sem óbvios interesses dos países que pretendem constranger Israel, colocando-o como vilão da história perante a opinião pública internacional.

O fato é que há muito mais em jogo na mesa de diálogo. Supondo que Israel resolva aceitar todas as exigências palestinas, que garantias os israelenses terão de que sua segurança estará assegurada? Afinal, Mahmmoud Abbas, com quem Israel negocia, é inimigo do Hamas; logo, um acordo com Abbas não significa que os palestinos farão realmente a paz com os israelenses.

A questão de fundo, portanto, é: quem fala efetivamente em nome dos palestinos?

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O governo do Irã chamou de “traidores” os países árabes que estimularam e estão participando da retomada das negociações de paz entre Israel e palestinos. Ao mesmo tempo, o Hamas, associado de Teerã, anunciou que vai intensificar os ataques contra Israel, com ajuda de outros grupos terroristas, com a deliberada intenção de sabotar o diálogo. O Hizbollah, outro associado do governo iraniano, aplaudiu o atentado do Hamas que matou quatro colonos israelenses, entre eles uma mulher grávida, dizendo que “essa é a maneira de liberar a Palestina”.

A reação do Irã e de seus associados mostra que, embora cercada de profundo ceticismo, a iniciativa de Israel e dos palestinos, mediada pelos EUA, foi suficiente para incomodar os terroristas e seus patrocinadores. Ao governo iraniano, não interessa a resolução dos impasses entre israelenses e palestinos, que resultaria no amplo reconhecimento de Israel. Pelo contrário: nesta sexta-feira, Ahmadinejad, o “querido companheiro” do presidente Lula, voltou a “prever” o “colapso” de Israel.

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Todos os dias, várias vezes ao dia, líderes religiosos muçulmanos, palestinos inclusive, pregam abertamente a destruição de Israel e a morte dos judeus. Basta dar uma olhada nos jornais do mundo árabe e na imprensa iraniana para constatar esse fato, que, no entanto, não é objeto de repúdio dos “humanistas” palestinos e de seus simpatizantes.

Bastou, porém, que um rabino israelense tolo, Ovadia Yosef, dissesse que os palestinos “deveriam desaparecer da Terra” para que os “humanistas” despejassem todo o seu ódio a Israel, qualificando o rabino de “nazista” e usando sua frase infeliz como prova de que os judeus israelenses preparam o “genocídio” dos palestinos.

Referindo-se a Yosef como “membro do governo israelense” – um exagero retórico típico, já que o rabino é apenas o “líder espiritual” de um dos partidos da coalizão que sustenta o governo de Israel –, o dirigente palestino Saeb Erekat cobrou do premiê Binyamin Netanyahu uma “firme condenação” da diatribe. Disse que Yosef reproduz a “incitação ao racismo contra os palestinos que está em curso em Israel”.

As lideranças palestinas, porém, jamais cobraram moderação daqueles que incitam o racismo contra os judeus. Pelo contrário: o próprio establishment palestino e islâmico no Oriente Médio prega a eliminação dos judeus ou permite a pregação. Há uma extensa lista de exemplos, mas fiquemos apenas em três:

“Todas as armas têm de estar voltadas contra os judeus, inimigos de Allah, aqueles que o Corão descreve como macacos e porcos, adoradores de ídolos. Allah determinará a governança muçulmana sobre os judeus. Vamos explodi-los em Hadera, vamos explodi-los em Tel Aviv e em Netanya… Abençoamos todos aqueles que educam seus filhos para a jihad e para o martírio. Abençoados aqueles que dão um tiro na cabeça de um judeu”.

Sermão transmitido pela TV da Autoridade Nacional Palestina em 3 de agosto de 2001.

“Os judeus são um câncer que está se espalhando pelo corpo da nação árabe e da nação islâmica, um câncer que vai atingir as instituições árabes, os vilarejos e os campos de refugiados.”

Sermão do xeque Ibrahim Mudeiris, transmitido pela TV da Autoridade Nacional Palestina em 7 de janeiro de 2005

“Ó, Deus, fortaleça o islã e os muçulmanos, humilhe os infiéis e a infidelidade. Ó, Deus, destrua nossos inimigos, os judeus e os cruzados inimigos do islã.”

Sermão do xeque Jamal Shakir na mesquita Rei Abdallah, em Amã, transmitido pela TV da Jordânia Canal 1, em 5 de março de 2004.

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israel

 

Israel ocupa territórios palestinos há mais de quatro décadas. À parte a ofensa às leis internacionais e ao bom senso, a atitude israelense gerou um tipo de dano colateral dificilmente reversível: a indiferença em relação aos palestinos. Foi isso o que se viu no episódio de Eden Abergil, a militar de Israel que se deixou fotografar diante de palestinos vendados e amarrados e publicou as imagens no Facebook. Suas poses deram margem a comentários sexistas e, claro, geraram indignação, levando-a a retirar as imagens.

O Exército de Israel condenou duramente a exposição vexatória dos prisioneiros e a atitude de Eden – que, no entanto, disse não saber o que fez de errado. Segundo ela, as fotos foram tiradas “de boa-fé” e não tinham nenhum significado especial.

Isso mostra que, para Eden, não há nada demais em constranger palestinos. Aos 20 e poucos anos, ela é de uma geração que não enxerga mais os palestinos como inimigos – ela é de uma geração que simplesmente já não enxerga os palestinos de jeito nenhum. A longa ocupação transformou os subjugados em parte da paisagem, como as árvores, os prédios, os carros, os animais. As fotos de Eden, de fato, não têm maldade; elas apenas retratam como uma fração da sociedade israelense parece desconsiderar a existência dos palestinos como indivíduos, com seus desejos, suas dores e sua vergonha.

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A desastrada abordagem israelense da agora famosa “Flotilha da Liberdade”, carregada de ativistas pró-palestinos, foi um bálsamo para um punhado de oportunistas.

Os mais óbvios são os militantes do Hamas, grupo fundamentalista islâmico que defende, em seus estatutos, a destruição de Israel. Enquanto a comunidade internacional exige agora de Israel que levante o bloqueio a Gaza, ninguém cobrou do Hamas que interrompesse o lançamento de foguetes contra civis israelenses e ninguém cobrou do Egito que fosse mais eficiente para conter o contrabando de armas para o Hamas em Gaza, que é precisamente a razão pela qual Israel impôs o bloqueio ao território. Dá até para imaginar a felicidade de Ismail Haniyeh, o líder do Hamas, com os nove mortos na ação israelense.

Outro oportunista óbvio é a Turquia. Esse país, que qualificou Israel de “Estado terrorista”, é o mesmo que massacra sistematicamente a minoria curda em seu território. A Turquia financiou e deu apoio logístico à tal “Flotilha da Liberdade”, com a clara intenção de colaborar para que houvesse um incidente constrangedor para Israel. Seu interesse era desviar o foco da comunidade internacional, empenhada em impor sanções contra o Irã, um dos principais parceiros comerciais dos turcos. Nada melhor do que usar Israel e seu governo trapalhão para isso.

Por fim, o episódio da “Flotilha da Liberdade” alimentou os nossos próprios oportunistas. O presidente Lula e o chanceler Celso Amorim expressaram duríssimas críticas a Israel, antes mesmo que houvesse investigações sobre o que realmente aconteceu. Tomaram partido num contexto em que, como se sabe, há muito poucos inocentes. Ademais, é lamentável que Lula e Amorim não tenham usado a mesma energia para criticar a repressão iraniana aos opositores do regime dos aiatolás – pelo contrário, o presidente brasileiro tratou de desqualificar a oposição do Irã, cujos militantes foram barbaramente torturados e mortos. A intenção do governo brasileiro parece ser usar o episódio de Gaza para revidar o vexame a que foi submetido por causa da farsa do acordo nuclear com o Irã. E Lula, como se sabe, está em plena campanha para ganhar o Nobel da Paz, razão pela qual ele não titubeou em espinafrar o vilão habitual.

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A Marinha de Israel abordou de modo desastrado, nesta segunda-feira, uma frota de barcos carregados de militantes da causa palestina, provocando um número ainda indeterminado de mortes. Com a ação, os israelenses conseguiram atrair críticas pesadas mesmo dos EUA. Em termos de relações públicas, Israel definitivamente se aparta do resto do mundo, enquanto os palestinos ganham ainda mais apoio e cacife moral, que era precisamente o que tinham em mente os organizadores do protesto.

Nada justifica o que Israel fez, nem do ponto de vista militar nem sob o aspecto político. Ainda que se prove que alguns dos militantes estavam armados; ainda que se argumente que Israel tem direito de defender sua soberania; ainda que se mostre que, para o Hamas, quanto mais militantes morressem, melhor seria para sua estratégia de propaganda: nada disso é suficiente para explicar a desinteligência israelense.

Desde sua vitória espetacular na Guerra dos Seis Dias (1967), Israel embebedou-se de certezas morais que parecem cegá-lo para o fato de que precisa de amigos. Os EUA são os únicos amigos de Israel, mas mesmo os americanos, agora sob Obama, parecem enfastiados com as repetidas tentativas israelenses de fazer o que bem entendem, em franca desconsideração pelo que pensa o resto do mundo e mesmo pelas regras elementares do pragmatismo político. Sua ação contra os barcos pró-palestinos nesta segunda-feira enquadra-se nessa categoria de erro, e toda crítica será interpretada pelos “falcões” israelenses como parte de uma orquestração para minar o país e, por tabela, como manifestação de antissemitismo.

O episódio dos barcos terá efeitos imprevisíveis, mas já dá para estimar o tamanho do estrago para Israel e em sua capacidade de impor sua agenda nas questões do Oriente Médio.

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Começa a ganhar força, em Gaza, um movimento que defende a resistência pacífica a Israel, mostra a Economist. Considerando que lançar foguetes contra o território israelense causa danos somente do lado palestino, esse movimento prefere o esforço de enfrentar, desarmado, os atiradores israelenses bem perto da fronteira, em vez de apoiar a violência do Hamas. Alguns militantes saem feridos da aventura, mas o efeito midiático positivo é considerável, bem maior do que os desfiles militares dos fanáticos fundamentalistas islâmicos.

Para Walid Awad, o líder comunista que está à frente da iniciativa, o Hamas, que até agora tem ditado a estratégia de Gaza contra Israel, “não tem coragem de aceitar sua responsabilidade” pelos estragos que provoca e “trata os palestinos de Gaza como carneiros no matadouro”. Seu discurso contrasta com o habitual silêncio aterrorizado dos moradores de Gaza, que não ousam contrariar os “heróis” do Hamas.

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O governo de Israel, cuja má vontade em relação ao processo de paz com os palestinos é cada dia mais evidente, conseguiu com seu comportamento irritar profundamente seu principal aliado, os EUA, conforme registra o Washington Post.

A gota d’água foi o anúncio da construção de mais casas em uma área de Jerusalém disputada com os palestinos, feito no momento da visita do vice-presidente americano, Joe Biden. A missão de Biden era justamente a de reaproximar o governo Obama de Israel. O vexame a que Biden foi submetido não passou despercebido na Casa Branca.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, telefonou ao premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, para lhe dizer, segundo seu porta-voz, que “não conseguiu entender como isso pôde acontecer”. Para os EUA, disse o porta-voz, o anúncio israelense foi “um sinal profundamente negativo sobre o modo como Israel encara a relação bilateral e contrário ao espírito da visita do vice-presidente”. Segundo Hillary, “essa ação minou a confiança no processo de paz e nos interesses americanos”.

Os problemas de relacionamento entre EUA e Israel se dão justamente nesse aspecto: confiança. Se Hillary sugeriu que o governo israelense comprometeu a confiança americana em seu parceiro fiel, o contrário é verdadeiro desde a posse de Obama como presidente. Israel tem a sensação de que Obama lhe cobra muito mais do que aos palestinos, principalmente na questão dos assentamentos. A generalização americana a respeito desses assentamentos, igualando as colônias ilegais aos bairros que servem de moradia para israelenses, é particularmente decepcionante para Israel.

A tendência é haver um abismo de confiança ainda maior, porque a estratégia americana para o Oriente Médio não inclui um ataque ao Irã, que Israel defende, e reforça a tese segundo a qual os interesses americanos estarão mais bem atendidos se Israel desocupar as terras palestinas. A essa abordagem desoladora, o governo de direita de Israel, que tem na ocupação um de seus pilares políticos, está respondendo com pirraça típica de criança contrariada.

Noves fora a indisposição israelense, o fato é que a diplomacia americana sob Obama entrou na aventura da crise no Oriente Médio com a certeza de que poderia cortar o nó somente com o carisma de seu presidente, sem ter um plano de contingência para o caso de isso não funcionar. Pior: em lugar de seduzir os atores do conflito, os EUA acabaram por ajudar a atrasar o relógio do processo de paz para o tempo em que palestinos e israelenses não podiam nem sequer respirar o mesmo ar. Exatamente como agora.

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Já se fala em retomada do diálogo entre Israel e palestinos, mas a situação tensa entre os dois lados continua a mesma. O governo israelense acaba de autorizar, por “questões de segurança”, a construção de um novo assentamento na Cisjordânia.

Apesar da óbvia oposição palestina a mais esse movimento ilegal de Israel, a realidade é dura: boa parte da mão de obra usada para erguer a colônia é palestina.

(Via Internazionale)

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Os chanceleres da França, Bernard Kouchner, e da Espanha, Miguel Angel Moratinos, publicaram um artigo no Le Monde em que defendem a aceleração da criação do Estado palestino.

Segundo o texto, houve um avanço significativo da infraestrutura palestina, graças à ajuda internacional e ao amadurecimento do governo da Autoridade Nacional Palestina na Cisjordânia. Por outro lado, Israel reduziu as barreiras à livre circulação de pessoas e mercadorias e acenou com a possibilidade de congelar seus assentamentos ilegais no território palestino.

Por esses motivos, argumentam os chanceleres, é chegada a hora de negociar os temas mais espinhosos, como o direito de retorno dos palestinos e o status de Jerusalém, além da garantia de segurança a Israel.

“A construção de um Estado palestino é agora um objetivo partilhado por todos”, diz o artigo. Que assim seja.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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