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Marcos Guterman

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) foi o sujeito que, em 1937, disse que não combateria Hitler para ajudar os judeus. Em relação ao premiê francês da época, o judeu Léon Blum, ele escreveu: “Prefiro uma dúzia de Hitlers a um todo-poderoso Blum. Hitler, pelo menos, eu consigo entender, enquanto com Blum é perda de tempo, ele sempre será o pior inimigo, absolutamente odioso”. Esse mesmo cavalheiro seria celebrado nesta semana pelo governo francês como uma das grandes personalidades da história do país. Pressões de grupos judaicos, porém, levaram o ministro da Cultura da França, Frederic Mitterrand, a retirar Céline da homenagem.

Céline é um dos grandes escritores contemporâneos. Sua obra mais importante, Viagem ao Fim da Noite, é um retrato impactante de uma sociedade em transformação, no mergulho da loucura da guerra e da industrialização frenética, em nome do racionalismo. Cheio de cinismo, o livro é um dos marcos da literatura do século 20, justificando a homenagem que lhe seria feita.

A julgar pela reação dos grupos judaicos e do próprio governo da França, porém, a genialidade artística de Celine não é suficiente para que se relativize seus pecados. Exige-se dele o que não se exigiu do antissemita Dostoiévski, por exemplo, ou de Gabriel García-Marquez, amigo íntimo do ditador Fidel Castro.

É compreensível que a figura de Céline cause repulsa por causa de seus panfletos. Mas, como brincou o presidente Nicolas Sarkozy tempos atrás, “pode-se amar Céline sem ser um antissemita, assim como pode-se amar Proust sem ser um homossexual”.

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09.outubro.2010 00:47:24

Dom Quixote 2.0

A Real Academia Espanhola lançou um projeto com o qual pretende fazer uma “leitura universal” do maior herói da língua espanhola, Dom Quixote. A ideia é convidar internautas a gravar trechos da obra no YouTube. Serão 2.149 pedaços previamente determinados, e os interessados devem se inscrever no site do projeto. O total da obra deve consumir seis horas de vídeo.

Para a Real Academia, a iniciativa visa a “dar a Dom Quixote o espaço ideal para sua expressão”.

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31.agosto.2010 00:11:02

150 vezes Lolita

O site do estudioso alemão de literatura Dieter Zimmer publica a sessão Covering Lolita, que reúne 150 capas de edições de Lolita, obra-prima de Vladimir Nabokov, publicadas nos últimos 54 anos em 33 países. Toda a fantasia da pré-adolescente por quem o professor de literatura Humbert Humbert se apaixona está nesses trabalhos. No romance – tenso, divertido, obsceno –, não se sabe quem é a vítima de sedução cruel, se o desequilibrado de meia-idade ou a ninfeta manipuladora. Genial.

Abaixo, alguns exemplos.

 

Edição inglesa de 1995

Edição inglesa de 1995

 

Edução americana de 1997

Audio book americano de 1997

 

Edição turca de 1974

Edição turca de 1974

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18.junho.2010 15:43:39

A morte de um gigante

Não era possível ficar indiferente a José Saramago. Seu estilo complexo e sua temática provocadora certamente repeliam mais do que atraiam leitores. No entanto, uma vez superado o estranhamento, revelava-se um escritor vigoroso e corajoso, qualidades raras na literatura, a qualquer tempo.

Saramago vivia de ironizar a Igreja, num país fervorosamente católico, e de questionar a qualidade da democracia e da burocracia na Europa. Mostrou-se desencantado com a vida descartável do século 20 e, claro, com a sobrevivência do capitalismo.

Seu comunismo militante foi usado muitas vezes por seus detratores para desmerecer sua obra, o que é uma injustiça aliás típica de nosso tempo. Saramago era um crítico da ocultação retórica da tirania, quer fosse em Israel ou em Cuba. Mesmo que tenha cometido exageros ou poupado Fidel Castro, Saramago nunca se ausentou, transformando-o num dos raros intelectuais públicos, daqueles sem vínculos senão com sua consciência.

Por essa razão, Saramago deve se transformar num clássico, por exprimir como poucos as contradições de seu tempo.

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