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Marcos Guterman

Pesquisa do Pew Research Institute mostra que a maioria dos muçulmanos em países onde eles têm forte presença defende um papel maior do islã na vida política, diz o Los Angeles Times.

Segundo o levantamento, a maioria no Paquistão, no Egito, na Jordânia e na Nigéria apóia o apedrejamento como punição por adultério, a amputação da mão para ladrões e a morte para muçulmanos que se convertem a outras religiões. Cerca de 85% dos muçulmanos paquistaneses defendem segregar homens e mulheres no local de trabalho.

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A Suprema Corte dos Emirados Árabes decidiu que o marido tem o direito de bater na mulher e nos filhos, para “discipliná-los”, segundo a sharia (lei islâmica).

Há limites para esse direito: o castigo não pode deixar marcas e não pode ser aplicado em filhos mais velhos – só em crianças, que ainda podem ser “disciplinadas”.

O espírito da lei, diz um especialista ouvido pelo jornal The National, é que é preferível bater na mulher e nos filhos a permitir que a família se dissolva.

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Que tipo de muçulmano leva realmente a sério a diatribe imbecil de Terry Jones, o obscuro pastor evangélico americano que prometeu queimar dezenas de cópias do Alcorão, no próximo dia 11 de setembro, para lembrar o atentado contra o World Trade Center?

Essa pergunta parece pertinente, a julgar pela ânsia frenética de autoridades ocidentais para criticar Jones e tratar o episódio como “isolado”. Quando a própria secretária de Estado americana, Hillary Clinton, se abala a se pronunciar a respeito do caso, quando a chanceler (premiê) da Alemanha, Angela Merkel, se apressa a emprestar seu peso diplomático contra um insignificante religioso da Flórida, parece que a ofensa causada pelo ato de Jones é algo realmente transcendental.

O jornal Daily Star, do Líbano, deu o tom. Em editorial, informou que a queima dos exemplares do Alcorão será um evento capaz de “detonar uma onda de ódio que pode consumir partes do planeta” e “ameaçar as conquistas da civilização americana”, colocando o mundo “mais perto do precipício de uma guerra de civilizações do que jamais estivemos”. É um exagero típico da retórica antiamericana da maioria dos países árabes e muçulmanos, que voltou a ganhar força após a curta e cínica trégua gerada pela eleição de Barack Obama.

É óbvio que o pastor demente merece ser criticado, como reconhecem mesmo os islamófobos mais empedernidos dos EUA, como Sarah Palin, para quem a queima do Alcorão não se coaduna com os valores americanos e é uma “provocação desnecessária”. De fato, não é queimando o Alcorão que a mensagem contra o radicalismo islâmico será disseminada. Pelo contrário: só lhe dá força, ao fornecer “justificativa” para a histeria de muçulmanos que não enxergam o mundo senão como lugar do embate entre fiéis e infiéis. O problema, contudo, é o duplo padrão na abordagem do caso.

Sempre que radicais muçulmanos prometem destruir os EUA e se explodem para provar sua determinação, eles são retratados no Ocidente como uma minoria irrelevante dentro do chamado “mundo islâmico”. Por que então um pastor evangélico demente não recebe o mesmo tratamento por parte do chamado “mundo islâmico”? Por que é que multidões ao redor do “mundo islâmico” queimarão bandeiras americanas, gritarão “Morte à América” e jurarão vingança, como se o tal pastor representasse a essência do pensamento ocidental?

A resposta, incômoda, é que o chamado “mundo islâmico” instrumentaliza episódios como esse para reforçar a sensação generalizada de insegurança sobre como lidar com o islã, criando um vácuo em que o constrangimento ocidental se torna arma política. Qualquer crítica que diga respeito à violência promovida por muçulmanos, mesmo vinda de vozes moderadas, é imediatamente qualificada de “islamofobia” ou de “blasfêmia” – ao ponto de o lobby islâmico na ONU ter conseguido aprovar resolução que, na prática, estabelece censura a críticas religiosas.

Se o ridículo episódio do pastor americano serve para alguma coisa, é para mostrar que o Ocidente parece cada vez mais envergonhado de defender suas conquistas mais caras, como a liberdade de opinião, ante a campanha insidiosa de seus inimigos ideológicos mais atuantes.

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A planejada construção de uma mesquita a dois quarteirões do Ground Zero, local que marca o 11 de Setembro em Nova York, ganhou componentes ainda mais polêmicos na sexta-feira, quando a Anti-Defamation League (liga antidifamação), uma das principais organizações judaicas americanas, se pronunciou contra o projeto.

Segundo a ADL, defensora dos direitos humanos e alinhada com a denúncia do pensamento anti-islâmico nos EUA, a construção da mesquita naquele lugar não ajudará a “curar as feridas” do atentado – cometido por muçulmanos fanáticos.

Após reiterar sua defesa da liberdade de religião no país e criticar os que condenam a construção da mesquita movidos por sentimentos anti-islâmicos, a ADL argumenta que há “fortes sensibilidades” em relação ao local onde ficava o World Trade Center:

“Defensores do Centro Islâmico podem ter todo o direito de construir (a mesquita) nesse local, e podem até ter escolhido o local para enviar uma mensagem positiva sobre o islã. O fanatismo que alguns expressaram ao atacá-los é injusto e equivocado. Mas, afinal, isso não é uma questão de direitos, mas uma questão do que é o certo. Em nossa opinião, a construção de um centro islâmico à sombra do World Trade Center causará a algumas vítimas mais dor – desnecessariamente – e isso não está certo”.

Comentaristas judeus americanos manifestaram forte repúdio à declaração da ADL. Paul Krugman, por exemplo, qualificou de “vergonhosa” e “estúpida”. Para ilustrar, o colunista do New York Times propôs uma comparação:

“Causa dor a algumas pessoas ver judeus operando pequenos negócios em bairros não-judeus; causa dor a algumas pessoas ver judeus escrevendo em publicações nacionais (como sei bem pela minha caixa de emails); causa dor a algumas pessoas ver judeus na Suprema Corte. Então, a ADL concordaria que baníssemos os judeus dessas atividades, de modo a evitar a dor dessas pessoas? Não? Qual é a diferença?”.

Jeffrey Goldberg, da The Atlantic, apontou o que, na sua visão, é um erro estratégico da ADL:

“Se nós, como sociedade, punirmos os muçulmanos de boa fé, os muçulmanos de boa fé vão se juntar ao outro lado. Isso não é difícil de entender. Estou desapontado que a ADL não tenha entendido isso”.

Como mostra o New York Times, o caso não é meramente religioso e ganhou componentes políticos nacionais. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que é judeu, defende a construção da mesquita, mas seus ex-correligionários republicanos – tomados de uma espécie de histeria direitista – vêem na obra a rendição dos americanos ao islã radical. Junte-se a isso o fato de que a maior parte do dinheiro para a construção da mesquita está vindo da Arábia Saudita – país que não tem liberdade religiosa e que forneceu os terroristas do 11 de Setembro – e temos importantes contradições no caso para que a direita republicana explore à vontade. Newt Gingrich, um dos principais porta-vozes dessa corrente, declarou:

“Esses muçulmanos e seus apologistas que invocam a ‘tolerância religiosa’ são arrogantemente desonestos. Eles ignoram o fato de que há mais de 100 mesquitas em Nova York. Enquanto isso, não há igrejas ou sinagogas em toda a Arábia Saudita. De fato, nenhum cristão ou judeu pode sequer entrar em Meca”.

Um comentarista muçulmano bengali, Salah Uddin Shoaib Choudhury, premiado nos EUA por denunciar os muçulmanos radicais, chegou a escrever que a mesquita seria como “cravar uma bandeira islâmica no Ground Zero”, o que seria “um chute na cara dos que ainda estão em choque com a morte de 3.000 pessoas por militantes muçulmanos”.

Pesquisas mostram que a maioria dos americanos é contrária à construção da mesquita, diz o New York Times. E os parentes das vítimas do 11 de Setembro são muito claros sobre o que sentem, como mostra Lee Hanson, cujo filho, Peter, foi morto no atentado: “Quando eu olhar para lá e ver uma mesquita, vai doer. Construam em outro lugar”.

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A Alemanha está testemunhando a formação de uma aliança “informal e acidental” entre neonazistas e imigrantes muçulmanos, mostra reportagem da revista Der Spiegel. Segundo autoridades da agência de inteligência doméstica alemã, o que une os dois grupos são “ideologias antissemitas vagamente similares”.

O antissemitismo neonazista, como se sabe, tem bases racistas explícitas, enquanto os jovens muçulmanos radicais se manifestam por meio de um antissionismo com evidente carga antijudaica. Nos dois casos, diz a agência, os judeus são vistos como excessivamente poderosos, assim como Israel, e os extremistas assumiram a tarefa de combater esse poder imaginário.

A Spiegel afirma que a retórica inflamada de líderes islâmicos contra Israel alimenta a ameaça crescente de violência contra os judeus por parte de “imigrantes ainda mal integrados” ao país ­– os mesmos imigrantes que, ironicamente, também são alvo da fúria neonazista na Alemanha.

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A Somália não irá à Copa, mas os somalis, como a maioria dos africanos, são loucos por futebol e querem acompanhar os jogos pela TV. O problema é que a milícia fundamentalista islâmica Al-Shabaab, que controla boa parte do país, ameaça punir quem aderir à febre do futebol – o grupo costuma decapitar os “infratores”.

Para a Al-Shabaab, o futebol desvia a atenção dos jovens, que deveriam estar concentrados na “jihad”. A explicação é semelhante à do clérigo egípcio Mus’id Anwar. Em recente entrevista à TV Al-Rahma, Anwar criticou duramente o futebol, dizendo que “jovens muçulmanos decoram resultados das partidas, mas não memorizam o Alcorão”. O clérigo lamentou: “As mesquitas estão sendo afetadas pelo futebol. Se houver uma partida na hora da oração da tarde, haverá somente duas fileiras de fieis na mesquita; se não houver jogo, a mesquita fica lotada”.

Para Anwar, a culpa pela febre do futebol é, adivinhem só, dos judeus:

“Os judeus, ou os sionistas, têm os Protocolos dos Sábios de Sião. Há mais de cem anos, eles formularam um plano para dominar o mundo, e eles estão implementando esse plano. Um dos protocolos diz: “Mantenha os não-judeus preocupados com músicas, futebol e filmes”. Isso está ou não está acontecendo? Está. Os sionistas trabalham para gerar animosidade entre os muçulmanos e mesmo entre os países muçulmanos usando o futebol. A quem interessa isso? Aos judeus. Eles são muito bem-sucedidos, a ponto de o futebol ter se tornado uma religião”.

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Mideast Iran US Hikers

Foto Vahid Salemi/Associated Press

O raciocínio parece simples: em Roma, faça como os romanos.

Assim, as mulheres ocidentais não podem se queixar de que, no Irã, são obrigadas a cobrir a cabeça com véu – como dá para ver na foto acima, que mostra as americanas que foram visitar seus filhos presos no Irã sob acusação de espionagem. Elas não podem se queixar porque, afinal, trata-se da lei local.

Do mesmo modo, os muçulmanos fundamentalistas não deveriam se queixar da eventual proibição do véu islâmico em países europeus. Afinal, também é a lei local, fruto de grande debate público, e não de um édito real ou religioso. E ninguém é obrigado a viver num país cujas leis lhes pareçam ofensivas. No entanto, o raciocínio não é tão simples, principalmente na batalha ideológica que se aprofundou depois do 11 de Setembro, com ecos da conturbada relação Oriente-Ocidente por conta do imperialismo europeu do século 19.

Os militantes anti-Ocidente usam a questão do véu islâmico para produzir provas do suposto desrespeito judaico-cristão liberal ao patrimônio moral do islamismo, num processo de sistemática demonização. A estratégia contida na exigência da preservação das peculiaridades da minoria islâmica, ainda que contrárias aos valores ocidentais seculares, é erigir um muro de separação, porque o islã fundamentalista, desde sempre, não permite que valores externos contaminem a “ummah”, isto é, sua nação.

O liberalismo, cujo espírito reside na possibilidade de resolução de problemas por meio do compromisso, é visto como um inimigo a ser isolado e destruído porque, na visão anti-Ocidental, efemina o mundo ideal. Essa visão não nasceu no universo islâmico, mas no próprio Ocidente, na Alemanha pré-Hitler, impregnada do romantismo que gerou tanto a utopia do retorno à Antiguidade quanto o horror ao racionalismo. A democracia e a liberdade de pensamento, nesse contexto, são consideradas sintomas de fraqueza. É um poderoso discurso contra a intelectualidade, que, não obstante, atraiu e atrai a intelectualidade de esquerda ocidental, interessada em toda forma de oposição ao modelo de vida desse mesmo Ocidente.

Os subprodutos desse caldo são a cegueira ideológica e o antissemitismo, disfarçado de antissionismo – e Israel, como a vanguarda do Ocidente encravada no mundo muçulmano, é vista como o perfeito “invasor”, a bactéria da tibieza moral a contaminar o virtuoso organismo islâmico.

Com apoio estridente dessa turma, líderes muçulmanos radicais cobram respeito absoluto dos europeus a seus valores mais caros, mas não têm o mesmo apreço pelos valores dos europeus quando vivem entre eles – antes pelo contrário: exploram a democracia para defender o “direito” de manter intacta sua “cultura”, palavrinha mágica que embala a repressão a mulheres e homossexuais e alimenta justificativas heroicas para o terror.

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“Muitas mulheres que não se vestem modestamente levam os homens jovens a se desviar do bem, corrompem sua castidade e espalham o adultério na sociedade, o que aumenta os terremotos.”

Frase de HOJATOLESLAM KAZEM SEDIGHI, clérigo iraniano, ao explicar a onda de terremotos no mundo.

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Le Pen e seu cartaz anti-islâmico: sem meias palavras. Foto: Le Parisien

Le Pen e seu cartaz anti-islâmico: sem meias palavras. Foto: Le Parisien

A Justiça francesa rejeitou uma ação contra uma campanha da Frente Nacional, partido do extremista Jean-Marie Le Pen, cujo slogan é “Não ao islamismo”, relata o Le Parisien. A Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo, que impetrou a ação, disse que a mensagem “incita ao ódio racial”.

Para um advogado da FN, a campanha não é contra os muçulmanos nem contra o islã em si, mas contra “o islamismo”. Já Le Pen deixou claras as intenções em discurso a simpatizantes, quando denunciou “a presença islâmica na França” e disse que mesquitas estão surgindo “como cogumelos” no país.

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Muhammad Tahir-ul-Qadri, um dos mais importantes clérigos muçulmanos do Paquistão, emitiu nesta terça-feira no Reino Unido uma “fatwa” (pronunciamento legal islâmico) segundo a qual “os atentados suicidas e os ataques contra civis não são apenas condenados pelo islã, mas deixam os perpetradores totalmente fora do rebanho do islã; em outras palavras, tornam-se infiéis”.

O jornal Telegraph considera que a palavra de Tahir-ul-Qadri pode ter grande peso no Reino Unido, levando extremistas a repensar seu comportamento no país. Em entrevista, o clérigo disse que não há “se e mas” quando se trata de terrorismo, e pediu que outras lideranças islâmicas ajudem a disseminar a mensagem segundo a qual o terrorismo não é digno de um verdadeiro muçulmano.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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