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Marcos Guterman

A população muçulmana xiita na Arábia Saudita chega a 20% do total. Isso explica por que o governo saudita está acompanhando com apreensão a crise no Bahrein – em que os xiitas, majoritários, exigem da monarquia sunita mais direitos.

Além disso, os xiitas sauditas vivem próximos do Bahrein, numa região crítica para a economia do país: é lá que ficam os maiores campos da petrolífera saudita Aramco.

Não é por outro motivo que já se fala até em “reformas” na Arábia Saudita, porque, do contrário, “tudo pode acontecer” no país, segundo admitiu o príncipe Talal bin Abdul-Aziz Al Saud. O tamanho das concessões aos xiitas, porém, vai depender da intensidade da paranóia da realeza saudita em relação à influência do xiita Irã na região – para o rei Abdullah, é Teerã quem está por trás dos levantes.

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A diplomacia brasileira se absteve de apoiar uma resolução da ONU que pede o fim do apedrejamento de condenados no Irã e condena o país por graves violações de direitos humanos. Não foi a primeira vez que o Itamaraty se posicionou dessa maneira, o que reforça a sensação de que se trata de uma política deliberada de ignorar a barbárie iraniana em respeito a interesses geopolíticos.

O Itamaraty informou que o Brasil se absteve porque é favorável ao diálogo com o Irã e, em sua visão, as resoluções da ONU não ajudam esse entendimento. Com isso, a atual diplomacia brasileira ignora suas obrigações previstas na Carta da ONU. Diz o Artigo 1, parágrafo 3, sobre os propósitos das Nações Unidas:

“Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião”.

Isso significa que as manifestações da ONU sobre direitos humanos não são um capricho dos países que os defendem, mas sim um instrumento legítimo de pressão. Para Teerã, a resolução é tão somente resultado da “hostilidade americana” contra o Irã – como se outras dezenas de países, muitos dos quais críticos aos EUA, não tivessem igualmente votado a favor da censura. Essa reação grosseira mostra a indisposição iraniana para mudar seu comportamento.

Nada disso, porém, parece alterar a visão do atual governo brasileiro, cuja estratégia, como já está claro para todos, visa a arregimentar apoio de países marginais para construir um arco ideológico antiamericano – mesmo que, para isso, relativize a questão básica dos direitos humanos, tão duramente conquistados pelas nações civilizadas.

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David Broder, articulista do Washington Post, publicou um texto em que avalia as condições de Barack Obama para se reeleger em 2012, mesmo com a provável derrota democrata nas eleições parlamentares desta terça-feira. Para Broder, as chances de Obama são boas, considerando-se que ele é “mais esperto” que seus oponentes e mais capaz de “ler as evidências e chegar às conclusões corretas”. O problema, diz o jornalista, é a possível persistência da crise econômica. Broder lembra que Franklin Roosevelt “resolveu” a crise dos anos 30 com a Segunda Guerra Mundial. Para ele, Obama vai ganhar aí: com maioria republicana no Congresso, disposta a desafiar as ambições nucleares iranianas, o presidente poderá mobilizar o país em torno de uma guerra contra o Irã – “e, no momento em que as tensões se acentuem, e aceleremos as preparações para os combates, a economia irá melhorar”.

Apesar das aparências, Broder diz que não está “sugerindo que Obama comece uma guerra para se reeleger”.

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Roger Noriega, um dos principais diplomatas americanos durante a administração de George W. Bush, está preocupado com a Venezuela. Em artigo publicado na Foreign Policy, ele alertou que venezuelanos e iranianos estão em estreita colaboração para o desenvolvimento de programas nucleares suspeitos.

Segundo Noriega, há elementos suficientes para supor que a Venezuela esteja ajudando o Irã a burlar as sanções da ONU, desenhadas para impedir que o país desenvolva um arsenal nuclear. Por outro lado, o governo de Hugo Chávez anunciou que a Venezuela está “iniciando estudos” para um programa nuclear que, para Noriega, já nasce contaminado pela proximidade com um “país delinqüente” como o Irã.

Noriega diz que os EUA e seus aliados precisam agir imediatamente para impedir que Chávez tenha a bomba: “Ignorar o que Chávez e seus amigos estão prestes a fazer bem debaixo no nosso nariz não é mais uma opção”.

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Os EUA estão preparando uma venda de armas para a Arábia Saudita no valor de US$ 60 bilhões. Se concretizado, será o maior negócio do gênero já efetuado na história americana. A ideia é fazer frente à ameaça do Irã, país que persegue homossexuais e apredreja adúlteras.

No mesmo dia em que a imprensa americana noticiava a negociação, um diplomata da Arábia Saudita pedia asilo aos EUA. Ele é homossexual e tem uma amiga judia, e por essas razões teme ser preso ou morto quando voltar a seu país.

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O governo do Irã chamou de “traidores” os países árabes que estimularam e estão participando da retomada das negociações de paz entre Israel e palestinos. Ao mesmo tempo, o Hamas, associado de Teerã, anunciou que vai intensificar os ataques contra Israel, com ajuda de outros grupos terroristas, com a deliberada intenção de sabotar o diálogo. O Hizbollah, outro associado do governo iraniano, aplaudiu o atentado do Hamas que matou quatro colonos israelenses, entre eles uma mulher grávida, dizendo que “essa é a maneira de liberar a Palestina”.

A reação do Irã e de seus associados mostra que, embora cercada de profundo ceticismo, a iniciativa de Israel e dos palestinos, mediada pelos EUA, foi suficiente para incomodar os terroristas e seus patrocinadores. Ao governo iraniano, não interessa a resolução dos impasses entre israelenses e palestinos, que resultaria no amplo reconhecimento de Israel. Pelo contrário: nesta sexta-feira, Ahmadinejad, o “querido companheiro” do presidente Lula, voltou a “prever” o “colapso” de Israel.

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O presidente dos EUA, Barack Obama, ligou pessoalmente para o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, para lhe dizer que vai suspender a venda de armas americanas à Turquia se Ancara não se reaproximar de Israel e não se afastar do Irã, informou o Financial Times.

Funcionários americanos ouvidos pelo jornal dizem que será difícil, no momento,  aprovar no Congresso qualquer venda de armamentos à Turquia para combater os curdos do PKK. O governo turco, como se sabe, ameaça romper relações com Israel desde o episódio da Flotilha da Liberdade; ao mesmo tempo, aproximou-se do Irã a ponto de votar contra as sanções da ONU ao regime iraniano, o que irritou Obama.

A pressão sobre a Turquia deve aumentar também por conta da informação segundo a qual o Exército turco usou armas químicas contra rebeldes curdos. Fotos tiradas em 2009 e agora consideradas autênticas, segundo a revista Der Spiegel, provam o que o regime turco sempre negou. Diante disso, será difícil levar a Turquia a sério quando vocifera sua indignação humanista contra Israel.

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O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, declarou nesta segunda-feira que a música “não é compatível” com os “elevados valores” do “sagrado regime” da República Islâmica, razão pela qual não deve ser executada ou ensinada no país, relata o Guardian.

De fato, música não combina com apedrejamento de mulheres até a morte, enforcamento de homossexuais, tortura de dissidentes políticos, perseguição de minorias religiosas e censura generalizada.

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O presidente Lula ainda não sabe o que fazer com a influência internacional que supõe ter, a julgar pelas suas reações no caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Pior: confirmou a sensação de que cada gesto seu é fruto de cálculo político, e não de convicção moral.

Primeiro, ele se negou a aderir à campanha que busca impedir a morte de Sakineh por apedrejamento – ela foi condenada no Irã por suposto “adultério”. Argumentou que um presidente brasileiro não pode interceder em favor de condenados no Irã, a não ser que esses condenados sejam brasileiros ou de um terceiro país. Desconsiderando-se o fato de que Lula é aliado do regime dos aiatolás e que já justificou inclusive a perseguição aos dissidentes políticos iranianos, o argumento do presidente é correto. Não se tem notícia, por exemplo, de que o presidente dos EUA, Barack Obama, tenha aderido a qualquer campanha por Sakineh. Com seu jeito deselegante e confuso, Lula criticou a condenação da iraniana, mas considerou que interceder em seu favor seria “avacalhação”.

Em época de eleição, porém, tal declaração obviamente ganhou repercussão negativa. Por essa razão, Lula tentou mostrar que está sensibilizado pelo caso de Sakineh e que agora quer ajudá-la. Ele tocou no assunto neste sábado, durante comício em Curitiba, e o que se viu foi uma série de gafes, distorções e tentativas patéticas de reverter um episódio que lhe pareceu desfavorável.

Em primeiro lugar, Lula escolheu um comício eleitoral para fazer suas considerações, o que dá a dimensão da seriedade com que ele está tratando o caso. Se a diplomacia brasileira é “silenciosa”, como se gabam Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, o que dizer desse arroubo lulista em cima de um palanque?

Em segundo lugar, Lula, mais uma vez, parece demonstrar imensa insensibilidade para o sofrimento dos prisioneiros de regimes despóticos e violadores de direitos humanos que agora são parceiros comerciais e políticos do Brasil. Ao se referir a Sakineh, Lula declarou que, “se essa mulher está causando incômodo” ao Irã, ele a ajudaria. “Causando incômodo”? Sakineh foi condenada sob a acusação de ter traído o marido. Não teve direito a ampla defesa e seu julgamento foi um claro exemplo do estado deplorável da Justiça iraniana dirigida por fanáticos religiosos. Sem falar da sentença – ela morrerá sentido dores indescritíveis, apedrejada num ritual macabro de “justiça”. Seu caso não causa nenhum “incômodo” aos aiatolás; causa “incômodo”, sim, à consciência e aos valores morais e humanitários universais.

Lula, porém, parece ter levado seu pragmatismo cínico ao ápice da desumanidade. Em Cuba, comparou os presos políticos a bandidos comuns; agora, quando resolveu falar do caso de Sakineh, foi para tentar atrair dividendos políticos. No palanque, ao lado de Dilma Rousseff, ele discursou: “Já que minha candidata é uma mulher, eu queria fazer um apelo ao meu amigo Ahmadinejad, ao líder supremo do Irã e ao governo do Irã”. Ora, se o candidato de Lula fosse homem, então ele não interviria? E o que o fato de seu candidato ser uma mulher tem a ver com Sakineh e seu sofrimento? A única resposta possível a essas perguntas é: Lula está simplesmente tentando capitalizar o hediondo caso iraniano a favor de sua candidata. Nem mais, nem menos.

É sórdido demais.

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O presidente Lula foi infeliz ao comentar o caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a ser apedrejada por “adultério”. Disse que seria “avacalhação” um presidente ficar dando palpite sobre o que outro Estado deve fazer com seus condenados.

Fora a deselegância, Lula está certo. Não se imagina que um presidente brasileiro possa interceder em favor de um criminoso “comum” no Irã – a não ser que o réu seja um cidadão brasileiro ou de um terceiro país; aí passa a ser uma questão diplomática.

A questão da “adúltera” iraniana não é de diplomacia. Lula poderia (ou melhor, deveria) lamentar o estado geral dos direitos humanos no Irã, poderia (ou melhor, deveria) condenar a perseguição sistemática a opositores do regime, mas jamais poderia atacar decisões específicas que envolvem apenas iranianos em crimes “comuns”. Cobrar de Lula que se envolva no caso da “adúltera” iraniana soa apenas como oportunismo político.

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