O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, conseguiu aprovar uma lei que lhe dá o poder de governar por decreto nos próximos 18 meses. É a quarta vez nos últimos 12 anos que a Assembleia, controlada por Chávez, lhe faz essa bondade, sob o argumento de que é preciso enfrentar alguma urgência, normalmente criada pela crônica má administração chavista. Na verdade, até as pedras do Palácio Miraflores sabem que Chávez correu para aprovar essa lei porque não terá, no próximo Congresso, a maioria necessária para aprovar automaticamente as medidas esdrúxulas que encaminham a Venezuela para o desastre do “socialismo do século 21”.
Ao promulgar seus novos superpoderes, o “democrata” Chávez deu seu recado: disse que os novos deputados não poderão aprovar “nenhuma nova lei” e voltou a qualificá-los de “piti-ianquis”, um gracejo típico da truculência chavista. O fato de que esses deputados foram eleitos pelo voto popular lhe parece irrelevante. Para ele, a oposição é simplesmente “inimiga do povo”. E previu que haverá uma “batalha ideológica e moral na Assembleia Nacional da Venezuela”.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo. Para o líder da revolução rumo ao socialismo do século 21, Liu – que defende a mudança pacífica de regime político na China – é um “contrarrevolucionário” que não merecia ter sido laureado.
“Esse (Liu) é como Obama, o outro prêmio da paz”, disse Chávez, referindo-se ao presidente americano, que ganhou o Nobel apesar de seu país estar em duas guerras. A reação chavista foi motivada pela manifestação de opositores venezuelanos, que, em nota, pediram a libertação de Liu. Chávez os qualificou de “lacaios” do Ocidente. “São piores do que os ianques”, declarou, para, em seguida, expressar suas “saudações e solidariedade ao governo da República Popular da China”. “Viva China! E sua soberania, sua independência e sua grandeza”, bradou.
As declarações de Chávez têm de ser entendidas no contexto do crescente investimento chinês na Venezuela. Por causa dos negócios, o presidente venezuelano, que enfrenta séria crise econômica graças a sua péssima administração, não vê nenhum problema em criticar um pacifista e elogiar o regime ditatorial contra o qual esse pacifista luta.
Nesse ponto, Chávez é pelo menos mais autêntico do que o presidente Lula, que não se manifestou acerca da premiação a Liu – ao contrário do que fizeram os governos de países importantes, que pediram a libertação do dissidente. Também por interesses econômicos e por uma inexplicável estratégia de alinhar-se a ditaduras, Lula, como bem lembrou Clóvis Rossi em artigo na Folha, optou mais uma vez por um silêncio covarde.
A oposição venezuelana corrigiu seu erro histórico de 2005, quando boicotou as eleições legislativas, e saiu-se bem das urnas na votação de anteontem. O bloco, que não é tão unido quanto parece, obteve cadeiras suficientes para tirar dos chavistas a possibilidade de aprovar emendas constitucionais sem negociar com ninguém. Diante disso, comprovaram-se os limites do chavismo em sua própria casa, mesmo com um processo eleitoral que incluiu mudanças legais para dar aos governistas mais cadeiras mesmo que tivessem menos votos. A dúvida, agora, é saber como Hugo Chávez reagirá a seu enfraquecimento – de resto previsível ante o desastre de sua administração de perfil cubano, que nem em Cuba funciona mais.
Em seu twitter, Chávez já avisou que os resultados da eleição o animam a “aprofundar a revolução”. É a senha para tentar manter unido o bloco governista, formado por todo tipo de oportunista ideológico que se abrigou sob as asas do “comandante” para usufruir das benesses da máfia corrupta instalada no Palácio Miraflores. Não é improvável que esses partidos, percebendo que a maré chavista pode virar até a eleição presidencial de 2012, abandonem o barco. Como a eleição de domingo mostrou, Chávez não é o líder invencível que se supunha. Pelo contrário: ele é um ditador desgastado por anos de promessas não cumpridas, de enfrentamento interno e externo e de destruição da economia do país. As rachaduras em sua base de poder podem acabar expondo divisões que se julgavam controladas.
Por enquanto, pelo menos publicamente, Chávez não dá sinais de que sentiu o golpe. Mas sua serenidade pós-eleitoral contrasta com seu habitual histrionismo em vitórias passadas, obtidas depois de enorme pressão da máquina chavista contra os limites da democracia.
Por essas razões, mesmo o governo brasileiro, tão leniente em relação aos desmandos do chavismo, reconheceu que foi “um avanço” o fato de Chávez “respeitar o resultado” das eleições, como disse Celso Amorim. E nosso chanceler se permitiu uma concessão que deveria servir tanto para os chavistas quanto para os simpatizantes do lulismo: “A oposição às vezes é muito incômoda. Mas é importante (que ela exista) para discutir e dialogar”.
O presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, deixará o poder no próximo dia 7 com uma impressionante popularidade – mais de 70%. Logo, não é prudente considerá-lo um “pato manco”, como está fazendo o governo brasileiro.
“Pato manco” é uma expressão que qualifica presidentes em fim de mandato, que já têm sucessor definido e que, portanto, não têm mais influência política significativa. O caso de Uribe é claramente diferente, e não só por causa de sua aprovação popular, mas por ter conseguido fazer seu sucessor de modo acachapante. Os colombianos prezam muito o esforço uribista de destruir as Farc.
O próximo presidente, Juan Manuel Santos, sabe muito bem disso e, embora tenha acenado com uma aproximação com a Venezuela, ele não deverá fazer nenhum recuo na política de repressão à narcoguerrilha marxista e de denúncia daqueles que lhes dão guarida – casos de Venezuela e Equador.
Portanto, Lula está cometendo um equívoco quando sugere que o confronto entre Colômbia e Venezuela é meramente pessoal, isto é, entre Uribe e Chávez. Não: a questão é entre a maioria absoluta dos colombianos, cansados da violência das Farc, e o líder do movimento “bolivariano”, que dá apoio aos narcoguerrilheiros.
Ao esperar que a Colômbia seja mais flexível com a Venezuela na questão das Farc após a posse do sucessor de Uribe, Lula faz uma aposta que não tem amparo na realidade. A mediação da crise passa necessariamente pelo reconhecimento de que a Colômbia jamais abrirá mão de seu projeto soberano de combater os movimentos que desejam a destruição do Estado.
Será curioso acompanhar como atuará a diplomacia brasileira diante da nova crise entre Venezuela e Colômbia. O Brasil de Lula, que se julgou capaz de interferir no complexo tema do impasse nuclear iraniano e que se ofereceu como mediador no distante problema israelo-palestino, tem agora a oportunidade de atuar em seu próprio “quintal” e provar a força dissuasória que imagina ter.
Já é possível antecipar, porém, que a diplomacia brasileira terá alguma dificuldade. Em primeiro lugar, porque não conseguiu agir decisivamente em nenhuma das outras oportunidades em que Colômbia e Venezuela se estranharam – aliás, é possível dizer que a atual crise nada mais é do que uma extensão das anteriores.
A segunda dificuldade, porém, é mais grave. Diz respeito ao alinhamento do Brasil ao chavismo, manifestado mais claramente por conta de sua atuação desastrosa na recente crise de Honduras. Embora esse alinhamento seja mais discreto do que Chávez gostaria que fosse, o fato é que ele existe e, no frigir dos ovos, pode transformar o Brasil em suspeito aos olhos colombianos, reduzindo consideravelmente sua capacidade de mediação.
O presidente da Venezuela, que é um verdadeiro democrata e um exemplar chefe de Estado, tornou a emitir sua opinião sobre as eleições alheias. Depois de manifestar “de coração” sua preferência pela petista Dilma Rousseff na disputa ao Planalto, Chávez declarou que o candidato à Presidência da Colômbia Juan Manuel Santos “é um perigo para a paz”. Santos é apoiado pelo atual presidente colombiano, Alvaro Uribe, que Chávez ama odiar.
“Se Santos for presidente da Colômbia, eu não o receberei aqui e será bastante difícil, quase impossível, que tenhamos relações com uma pessoa como ele”, declarou Chávez, sem medo de ser feliz.
Os simpatizantes de Chávez certamente encontrarão boas razões para justificar a atitude do venezuelano – que já emprestou sua descarada “solidariedade eleitoral” a Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Daniel Ortega na Nicarágua e Manuel Zelaya em Honduras.
É possível imaginar, no entanto, o que diriam esses militantes da causa chavista se o presidente dos EUA, Barack Obama, decidisse deixar de lado a civilidade política e manifestasse apoio “de coração” a José Serra, dizendo que, se Dilma ganhasse a eleição, ele não a receberia.
“Los brasileños sabrán a quienes tienen que elegir, pero uno tiene su corazoncito y yo suelto el corazón, así que a quién de nosotros no le va a gustar que Dilma (Rousseff) sea presidenta, una mujer, además amiga.”
Frase de HUGO CHÁVEZ, presidente da Venezuela, sobre a campanha presidencial brasileira. Para ele, a petista é “una gran mujer de nuestra America”.
“Os esquálidos torcem para que não chova. Mas vai chover, vocês vão ver, porque Deus é bolivariano. Deus não pode ser um esquálido. A natureza está conosco.”
HUGO CHÁVEZ, presidente da Venezuela, em mais um acesso de messianismo doentio típico dos bolivarianos e seus assemelhados na América Latina. A declaração mal esconde a angústia do país – e de seu governo – diante da crise energética, causada por sua incompetência administrativa disfarçada de “revolução”. Em tempo: “esquálidos” são os opositores do regime ditatorial venezuelano.
Os números oficiais sobre a violência na Venezuela são muito pouco confiáveis, mas mesmo os dados disponíveis são impressionantes. Segundo essas informações, publicadas no El Universal, 16.047 pessoas foram assassinadas no país em 2009, contra 14.800 em 2008 e muito acima das 4.500 em 1998.
Por outro lado, a impunidade é igualmente impressionante: em 2009, apenas 1.491 pessoas foram presas por causa dos mais de 16 mil homicídios; em 1998, foram efetuadas 5.017 prisões em meio aos 4.500 homicídios.
Para especialistas, os criminosos não são punidos na Venezuela porque o governo “bolivariano” considera que a violência é parte da “luta de classes”, razão pela qual a polícia “socialista e bolivariana” é constrangida a não prender os “pobres” que, em tese, estão lutando contra os “ricos”. “Mas o que está acontecendo na Venezuela é que são os pobres que estão matando os pobres”, diz Roberto Briceño-León, diretor do Observatório Venezuelano da Violência. “Neste momento, as pessoas na Venezuela não têm razões para não roubar, e o governo acredita que, ocultando os números, possa criar uma situação ilusória de segurança.”
A Cúpula de Cancún, por suposto, deveria coroar a formação de um novo bloco diplomático entre os países da América Latina e do Caribe para fazer contraponto à OEA e sua liderança americana. Pode até dar certo no futuro, mas os sinais atuais indicam diferenças irreconciliáveis entre pelo menos dois integrantes dessa “OEA do B”: Venezuela e Colômbia. Pois os presidentes desses dois países protagonizaram um vexame na cúpula.
O venezuelano Hugo Chávez e o colombiano Álvaro Uribe trocaram xingamentos durante reunião fechada entre os chefes de Estado. Segundo relatos de diplomatas, Chávez acusou Uribe de planejar seu assassinato, ao que Uribe respondeu: “Seja homem! Você é corajoso falando à distância, mas um covarde quando estamos cara a cara!”. Chávez, então, mandou: “Vá para o inferno!”.
Em meio ao tumulto, o presidente de Cuba, quem diria, tentou acalmar os ânimos: “Como é possível brigarmos numa cúpula cuja intenção é unir os países latino-americanos?”, perguntou um atônito Raúl Castro.
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