A Força Aérea dos EUA dispõe de um novo equipamento para vigiar o Afeganistão, informa o Washington Post. Trata-se do Gorgon Stare, um avião não-tripulado capaz de fazer imagens do movimento de pessoas em toda uma cidade.
Batizado em homenagem às górgonas gregas, que transformavam em pedra quem olhasse para elas – a Medusa era a mais conhecida –, o avião é bem mais eficiente do que os modelos atuais. “O Gorgon Stare estará observando cada detalhe, de modo que o inimigo não tem como saber para onde estamos olhando, e nós podemos ver tudo”, disse o general James Poss.
O problema, segundo os militares americanos, é o que fazer com tantas informações. Sem um eficiente trabalho de inteligência em terra, o Gorgon Stare tende a ser só uma bugiganga cara.
Não é só Barack Obama que está desembarcando da Guerra do Afeganistão. A imprensa americana já fez isso há tempos, mostra um levantamento do Pew Research Center. Segundo esse estudo, comentado no New York Times, as pautas sobre o Afeganistão representaram apenas 4% do noticiário total no início do mês, embora tenha várias mortes por dia e ainda seja um dos principais desafios da política externa americana. E, quando noticiada, a guerra vem acompanhada de perguntas como “por que ainda estamos no Afeganistão?”.
Tony Maddox, da CNN, resumiu a dificuldade de transformar o importante em interessante no caso afegão: “Nos EUA, a audiência já está sofrendo de fadiga de guerra”.
O presidente Barack Obama disse nesta quinta-feira que os EUA estão no caminho certo para atingir seus objetivos na Guerra do Afeganistão. Ele declarou que houve “avanços significativos” no combate à Al-Qaeda e manteve o calendário da retirada americana – entre 2011 e 2014.
O discurso de Obama, contudo, omite elementos cruciais, resenhados pela própria inteligência americana. O principal deles é a má vontade do Paquistão no combate ao Taleban. Os paquistaneses estão cada vez menos inclinados a se envolver numa guerra para ajudar os EUA, que, por seu lado estão cada vez mais inclinados a considerar a Índia como seu principal aliado na região – e o Paquistão, como se sabe, não gosta nem um pouco da Índia. Como resultado disso, os paquistaneses não só têm deixado os EUA na mão, como também alguns deles têm financiado e treinado os insurgentes islâmicos no Afeganistão.
Os outros elementos omitidos por Obama explicam a urgência da retirada americana. A violência no Afeganistão não para de crescer, a despeito dos esforços da Otan; a corrupção é endêmica e alimenta a insurgência; a ajuda não chega a quem precisa; e, sobretudo, a Guerra do Afeganistão, que há muito tempo deixou de ser vital para os EUA, custa US$ 125 bilhões anuais – para um país com déficit de US$ 1,5 trilhão previsto para 2011, parece um grande desperdício.
Depois de perceber que não é possível derrotar o Taleban, o governo afegão e a aliança liderada pelos EUA na Guerra do Afeganistão resolveram negociar com a milícia fundamentalista islâmica. Durante meses, líderes se encontraram com o mulá Akhtar Muhammad Mansour, considerado um dos mais altos dirigentes do Taleban, e a coisa parecia estar indo bem. Parecia.
Agora, segundo o New York Times, descobriu-se que o homem que se dizia Mansour é na verdade um farsante. Ele nem mesmo é do Taleban. “Não é ele”, disse ao “Times” um diplomata ocidental envolvido nas negociações. “E nós demos um bocado de dinheiro a ele.”
A Associated Press obteve e-mails e documentos militares que revelam que soldados americanos no Afeganistão posaram para fotos ao lado de cadáveres e de pedaços de corpos, ao estilo do escândalo de Abu Ghraib. O material está em poder do Exército e foi mantido em sigilo porque o governo americano teme o efeito devastador que ele possa ter na imagem do país. As fotos integram as evidências do processo contra cinco soldados dos EUA acusados de matar três afegãos “por esporte”.
O caso aprofunda a sensação de que o estado de guerra é encarado por alguns soldados como um entorpecente, que os ajuda a encontrar um lugar no mundo. O tema foi abordado no premiado filme The Hurt Locker (lamentavelmente traduzido como “Guerra ao Terror” no Brasil), em que o protagonista não pode viver sem a excitação da guerra. É diante do risco que ele se sente em casa. Os mortos do lado inimigo não existem senão como parte desse habitat – logo, nada mais coerente do que deixar-se fotografar perto deles como se fossem animais abatidos.
Para Michael Corgan, professor de Relações Internacionais na Universidade de Boston e veterano do Vietnã, as fotos são como suvenires: “As imagens provam que eles são os durões que dizem que são. A guerra é uma experiência lírica em suas vidas – em comparação, tudo o mais é entediante. Eles se revelam na guerra e coletam lembranças dela”.
Anne Applebaum escreve interessante comentário na Slate acerca da publicação, pelo site Wikileaks, de mais de 90 mil documentos do Pentágono sobre a Guerra do Afeganistão. Assim como este blog, ela considera que a montoeira de papéis, em si, não traz novidades e deverá ter importância somente no futuro, quando os historiadores resolverem gastar suor para tentar extrair dali algum sentido. Neste momento, a relevância do caso dos documentos é mostrar que, a despeito da moda do “jornalismo colaborativo” – de que o WikiLeaks é um símbolo –, o trabalho da chamada “grande imprensa” ainda é vital.
“Se você tem a impressão de que não precisamos mais das organizações noticiosas, dos editores e dos repórteres com mais de dez minutos de experiência, então pense de novo. A noção de que a internet pode substituir o tradicional trabalho de garimpagem de notícias acaba de se revelar um mito”, escreve Applebaum.
Para provar o que diz, ela mostra um dos milhares de documentos publicados:
“At 1850Z, TF 2-2 using PREDATOR (UAV) PID insurgents emplacing IEDs at 41R PR 9243 0202, 2.7km NW of FOB Hutal, Kandahar. TF 2-2 using PREDATOR engaged with 1x Hellfire missile resulting in 1x INS KIA and 1x INS WIA. ISAF tracking #12-374”.
Segundo o New York Times, esse documento descreve o ataque de um avião não-tripulado contra um suspeito de ter colocado uma bomba numa estrada. Se não fosse o trabalho dos jornalistas, em consulta com especialistas e conscientes do contexto em que os documentos foram produzidos, não seria possível compreender seu conteúdo e sua dimensão, diz Applebaum.
Além disso, os documentos, sozinhos, não representam nada; o melhor seria que repórteres tivessem testemunhado o que está lá relatado. Somente uma lista de documentos sobre acontecimentos esparsos não diz o que é uma guerra. Como escreve Applebaum: “Afirmar que esses papéis são significativos porque eles vão informar um público ignorante é risível: se você não sabia que o serviço secreto paquistanês ajudou o Taleban, ou que a morte de civis geralmente é um problema para a Otan, ou que as Forças Especiais estão caçando combatentes da Al-Qaeda, significa que você não leu a grande imprensa. E isso significa que você não quer realmente saber”.
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