Acaba de ser publicado na França o livro Doping no Futebol – A Lei do Silêncio. Seu autor, o médico Jean-Pierre Mondenard, afirma em entrevista ao Le Point que o futebol é “o último esporte na luta contra o doping”. Segundo ele, a probabilidade de um ciclista ser flagrado é de 1 em 10; entre os jogadores de futebol, é de 1 em 2.000. “A luta contra o doping é eficiente quando 10% dos atletas são testados. No futebol, são 0,05%”, diz Mondenard.
Segundo o médico, o doping ajuda não só a melhorar o desempenho físico, mas também a capacidade de chutar mais forte ou de saltar mais alto. Todos estão envolvidos no esquema – preparadores físicos, médicos, jogadores. Os grandes clubes de futebol, diz Mondenard, dispõem de um arsenal de drogas equivalente ao de hospitais, cada uma para uma meta de desempenho diferente. “Os futebolistas profissionais são tratados como se estivessem gravemente doentes – é como se esse esporte fosse visto como uma doença profissional.”
Para o Triestina, da Segunda Divisão da Itália, a torcida é tão importante que a direção teve uma ideia para encher as arquibancadas de seu estádio, vazias por causa da campanha modesta do time: mandou pintar torcedores em cartazes e os espalhou, para criar a impressão de casa cheia.
“Na TV, parece impressionante”, ironizou o Wall Stret Journal. O presidente do Triestina, Marco Cernaz, foi mais romântico: “Fizemos de tudo para atrair torcedores, mas a verdade é que não conseguimos. Então tentamos criar uma atmosfera, um pouco de teatro”.
Setenta por cento dos rendimentos do Triestina vêm da TV.
O episódio do falso moralismo envolvendo Neymar não foi, definitivamente, um fato isolado. Mais uma prova de que o futebol está ficando careta, no pior sentido, foi dada no México, onde 13 jogadores da seleção foram punidos por participar de uma festinha que eles fizeram depois de um amistoso da equipe contra a Colômbia – consta que participaram do convescote prostitutas e travestis.
Os atletas agora ameaçam boicotar a seleção, informou o capitão do time e líder dos rebeldes, Rafa Marquez. Para ele, houve exagero por parte do coordenador da seleção, Nestor de la Torre, que puniu alguns jogadores com suspensão de até seis meses e outros com multas de quase US$ 4 mil.
“Ninguém gosta de De la Torre”, desabafou Cuauhtemoc Blanco, veterano de três Copas.
O presidente Lula, no melhor estilo bolivariano, disse que tênis é um esporte “burguês”. Parecia seu colega venezuelano, Hugo Chávez, que declarou “guerra” ao golfe, qualificando-o também de “esporte burguês”, porque usa terrenos enormes e uma bolinha pequenininha.
O curioso é que o futebol, esporte amado por Lula e visto como essencialmente popular, também começou no Brasil como uma atividade, digamos, “burguesa”. Ou seja: se Lula fosse contemporâneo de Charles Miller, Friese e Friedenreich, os primeiros craques do futebol brasileiro – que usufruíam dos frufrus da “burguesia” –, ele certamente faria campanha contra esse esporte.
Inspirando-se num texto de Graciliano Ramos sobre o futebol, escrito em 1921, esse Lula do passado poderia ter sugerido à juventude brasileira um esporte melhor – a rasteira:
“Este, sim, é o esporte nacional por excelência! (…) Cultivem a rasteira, amigos! E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno. Muito útil, sim senhor. Dediquem-se à rasteira, rapazes”.

Klose, polonês, e Boateng, de pai ganês
A Alemanha não se cabe em si. O time que tentará nesta quarta-feira classificar-se para sua oitava final de Copa é o queridinho da competição, com seu ataque avassalador e seu “futebol arte”. O traço mais marcante, porém, é a grande presença de jogadores de origem estrangeira – alguns negros, outros poloneses e turcos, um brasileiro. “Essa seleção alemã está dando a todo o país o sentimento especial de força, porque essa equipe multicultural realmente joga junto, algo que não se imaginava possível antes”, festejou o jornal Die Welt.
Nem sempre foi assim na Alemanha, claro. Em “Olympia”, Leni Riefensthal, a cineasta de Hitler, apresentou uma imagem muito diferente do potencial esportivo e patriótico alemão. Há apenas 70 anos, o ideal retratado no filme – e disseminado em cada célula do corpo social do país – indicava o sonho da sociedade branca pura.
Não se muda uma mentalidade assim em apenas sete décadas. Mas a seleção de futebol da Alemanha indica que alguma coisa está diferente naquele complexo país.

O filme ariano de Riefensthal
Fotos: Carls de Souza/France Presse e Reprodução
A eliminação precoce do Brasil na Copa deflagrou uma onda de “reflexão” sobre o legado do “dunguismo”, sistema de pensamento segundo o qual o resultado é mais importante do que os princípios – algo semelhante ao lulismo. Mas nenhuma discussão resume melhor esse legado do que a imagem que vi hoje ao vir para o Estadão. No caminho para o jornal há uma favela, e no bar de lá vi um morador com a camisa da Argentina. A cena era impensável desde os tempos da “Batalha de Buenos Aires”, em 1937, quando Brasil e Argentina se descobriram como inimigos mortais. Para lembrar: até aquele ano, brasileiros e argentinos disputavam jogos marcados pela cordialidade; mas o Sul-Americano de 1937 opôs as duas seleções na final, e o time do Brasil, imbuído de inédito furor cívico, queria vingar a violência e as provocações da Argentina, que incluíam xingar os brasileiros de “macaquitos”. A Argentina venceu, e cada jogo entre os dois países, dali em diante, se tornou oportunidade para vingança, sem falar do prazer de ver o maior inimigo ser derrotado até em campeonato de bocha.
O que então levou esse brasileiro típico a vestir a camisa do grande rival do Brasil? Tenho um palpite: a Argentina jogou nesta Copa um futebol muito bonito, que encantou mesmo os brasileiros. O time de Maradona foi eliminado, mas certamente seus torcedores – e seus improváveis admiradores – ficaram muito mais satisfeitos do que os torcedores brasileiros, que engoliram a violência dos “guerreiros” de Dunga em troca de uma vitória que afinal nem veio. Diante da pobreza burocrática atual do futebol brasileiro e da insistência argentina em jogar para o espetáculo, é provável que invejemos cada vez mais a Argentina – coisa que faria Ary Barroso, o locutor símbolo da “batalha de Buenos Aires”, rolar no túmulo.
A Holanda derrotou o Brasil usando uma arma tipicamente brasileira: a malandragem. Seus jogadores, em especial Robben, provocaram os tensos adversários ao transformar cada falta sofrida num teatro de segunda categoria, diante do olhar complacente do árbitro japonês Yuichi Nishimura. Robinho, de quem se esperava justamente a malícia que sobrou aos holandeses, foi o retrato do descontrole emocional, ao perder mais tempo reclamando da fita dos laranjas do que jogando bola.
E ainda tivemos Felipe Melo, que no segundo tempo confirmou a crônica de uma expulsão anunciada. Se no início do jogo, com o passe milimétrico que deu a Robinho para fazer o gol brasileiro, Melo surpreendeu seus críticos, na etapa final ele tratou de desfazer a ilusão de que enfim havia se tornado um bom jogador.
A seleção brasileira, disciplinada e “fechada”, como prescreve o dunguismo, parece ter deixado o futebol autêntico em segundo plano. E o futebol, como sabe quase todo brasileiro, não se resume a um jogo; é também um modo de confirmar a vocação do Brasil para a improvável aliança entre o individual e o coletivo, entre o malandro e o esquema tático, entre o “jeitinho” e as obrigações sociais. Na didática derrota para a Holanda, aprendemos que, com o dunguismo, a seleção deixou de ser essa representação, que nossos melhores jogadores parecem ter esquecido aquilo que Gilberto Freyre identificou, no futebol brasileiro, como o “conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia e, ao mesmo tempo, de espontaneidade individual”.
Numa Copa em que a Alemanha jogou um futebol mais “brasileiro” que o Brasil, é o caso de refletir sobre o que fizemos do nosso maior patrimônio cultural.
Oliver Haydock, jornalista do New York Observer, publicou no blog Huffington Post uma contundente crítica à seleção brasileira de futebol. Segundo ele, quem gosta mesmo de futebol deve torcer conta o Brasil nesta sexta-feira, porque, em resumo, o técnico Dunga matou o estilo de jogo ofensivo que quase sempre caracterizou os brasileiros e encantou o mundo.
“Não tenham dúvidas de que muitos fãs de futebol torcerão firmemente pela Holanda (contra o Brasil). Celebrar esse time brasileiro atual é o mesmo que torcer por uma Itália, e nenhum amante do futebol cometeria ato tão blasfemo.”
Sean Gregory, colunista da revista Time, escreve entusiasmada análise sobre o desempenho da seleção dos EUA na Copa – o time acaba de se classificar num surpreendente primeiro lugar na chave que tinha os favoritos ingleses.
O texto diz que “nunca tantos americanos assistiram futebol e se interessaram tanto pelo esporte” e que, enfim, “este pode ser o ponto de virada da história do futebol nos EUA”.
A pergunta feita no título da coluna – “Os EUA podem ganhar a coisa toda?” – dá ideia do quão alto voa o “sonho americano” no soccer.
A desmoralização do contraditório é um dos elementos centrais do pensamento totalitário, bem como a certeza de que uma “missão patriótica” jamais pode ser objeto de questionamento. Pela primeira vez em sua história, a seleção brasileira está inteiramente impregnada desse espírito, graças ao técnico Dunga.
A equipe nacional já teve treinadores difíceis. João Saldanha, por exemplo, brigou com muitos jornalistas – e a ironia é que ele mesmo era um. Zagallo, por sua vez, notabilizou-se pela célebre frase “vocês vão ter que me engolir”, invectiva dirigida, obviamente, aos jornalistas cuja diversão era criticá-lo.
Não se espera que todos os técnicos da seleção sejam cavalheiros como Parreira ou boas-praças como Feola. Eles foram exceções numa função que é objeto de imensas pressões – por parte de torcedores, da imprensa e dos patrocinadores – e que, portanto, exige de seu ocupante uma personalidade que pende necessariamente mais para a dureza que para a doçura. No entanto, o destempero de Dunga vai muito além do figurino, o que autoriza a conclusão de que o técnico está numa cruzada pessoal para se vingar da história.
De fato, a história foi madrasta com Dunga. Seu nome está para sempre associado ao futebol burocrático, pobre e defensivo da seleção brasileira que disputou a Copa de 90. Chamar esse período de “Era Dunga”, no entanto, é uma injustiça evidente.
O jogador havia sido eleito “símbolo” da seleção pelo próprio técnico na ocasião, Sebastião Lazaroni, que via em Dunga a possibilidade de impor à equipe a eficiência e a força, elementos que, de acordo com seu raciocínio, faltaram ao Brasil nas campanhas de 1982 e 1986. Sua missão era catequizar os brasileiros a aceitar o novo evangelho do futebol, como ele disse à revista “Playboy” antes da Copa: “A gente precisa trabalhar a finesse de um Careca, de um Romário e, ao mesmo tempo, dar força à tenacidade de um Dunga, do Alemão. Aliás, os brasileiros precisam aprender a gostar dessa aplicação, como os italianos”. Como se vê, se houve alguém responsável pela “italianização” do futebol brasileiro nos anos 90, esse alguém não foi Dunga.
Mas ele carregou a cruz que Lazaroni lhe colocou nos ombros. Após quatro anos de suplício, Dunga sagrou-se campeão do mundo como capitão da seleção e fez questão de escancarar sua mágoa para os jornalistas brasileiros, com a taça na mão: “Esse título é para vocês, seus traíras”. Em vez de comemorar, Dunga preferiu usar o grande momento de sua vida para desabafar contra os que, em sua opinião, o haviam marcado como símbolo de futebol ruim.
O ritual de purificação pela violência, porém, parece não ter saciado Dunga. Desde que foi chamado para treinar a seleção, ele se empenha o tempo todo em provar que merece o cargo, que não deve satisfações senão à CBF e que, no limite, é mais brasileiro que os que eventualmente o questionam. Só isso explica sua aberta hostilidade aos jornalistas, com doses cavalares de desrespeito e soberba.
Essa atitude destruiu os já frágeis laços dos jogadores com os torcedores e com os jornalistas. Pior: criou na seleção uma atmosfera de agressividade permanente, sugerindo um paralelo com as gangues de rua que, devidamente doutrinadas, carregam a essência do fascismo. Esses movimentos se notabilizam pela rejeição sistemática e militante de toda forma de oposição e pela resposta violenta ao “mundo exterior” – isto é, ao mundo ainda não convertido às certezas morais em torno da “sagrada missão” do grupo. Nesse clima, até o pacato Kaká revela-se hostil.
Para Dunga, quem não comunga de sua cartilha é simplesmente inimigo, na melhor das hipóteses. Fica muito difícil torcer por alguém assim.
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