O cientista político Jorge Zaverucha, da Universidade Federal de Pernambuco, vai lançar na próxima segunda-feira, em São Paulo, seu livro “Armadilha em Gaza – Fundamentalismo Islâmico e Guerra de Propaganda contra Israel”. O trabalho visa a mostrar que a controversa Flotilha da Liberdade não queria levar ajuda humanitária a Gaza e que seu único objetivo era ser uma operação midiática contra Israel. Zaverucha usa o episódio para revelar que as questões do Oriente Médio são, em grande medida, julgadas mais pelo impacto de imagens e discursos do que propriamente pela realidade.
Zaverucha falou ao blog:
Pergunta – O senhor certamente tem noção de que a tese de seu livro, a de que Israel foi vítima de uma armadilha do Hamas no caso da Flotilha da Liberdade, não é de fácil digestão. Como o senhor chegou a essa conclusão e de que maneira o senhor encara a atuação de Israel no episódio?
Jorge Zaverucha – Não escrevo algo pensando sobre a facilidade ou dificuldade de sua digestão. Escrevo sobre o que acredito. O Mavi Marmara era um dos seis navios que compunham a Flotilha da Liberdade. Estava repleto de militantes pró-Hamas, com apoio da Turquia, e foi o único navio que optou por atacar os militares israelenses em vez de cooperar com eles. Israel ofereceu a possibilidade de descarregar a ajuda humanitária no porto israelense de Ashdod e depois enviá-la à Faixa de Gaza por via terrestre. Os militantes descartaram tal proposta. Queriam que Israel caísse na armadilha e conseguiram. Houve uma grande falha da inteligência naval israelense que não identificou corretamente quem estava a bordo do principal navio da flotilha. Por ter usado força de menos, a princípio, Israel teve de usar força de mais, a posteriori. Não acredito que devemos julgar um acontecimento apenas pelos seus resultados.
Pergunta – Sua tese central no livro é que o conflito israelo-palestino não é mais por território, mas por razões ideológicas. Isso significa que todo o esforço de negociação das últimas décadas, cujo foco era territorial, foi inútil?
Zaverucha – Afirmo que, de acordo com a visão islâmica, qualquer parte do território de Israel é considerada como sendo sagrada. Portanto, a questão sobre os assentamentos na Cisjordânia é algo perfunctório. O que os fundamentalistas islâmicos querem é a destruição de Israel. Ponto. É só ler a Carta do Hamas que está no anexo do livro. Por isso, as atuais negociações de paz fracassarão como outras já fracassaram. E para piorar houve uma guerra civil em Gaza entre o Hamas e o Fatah. Ontem (quarta-feira), salvo engano, a Autoridade Palestina prendeu uma célula do Hamas que almejava assassinar o prefeito de Nablus, ligado ao Fatah. Temos jogos em teia, jogos dentro de jogos.
Pergunta – Sua área de especialização é a influência dos militares no Brasil e a democracia. Por que o senhor decidiu escrever sobre o conflito no Oriente Médio?
Zaverucha – Eu estudo forças armadas e comportamento estratégico de atores em situação de conflito. Quer melhor situação para análise do que está ocorrendo em Gaza? Prato cheio.
Um documentário levado ao ar pela BBC nesta semana afirma que o objetivo dos ativistas do navio Mavi Marmara, pivô da famosa “Flotilha da Liberdade”, não era levar ajuda humanitária aos moradores de Gaza. Segundo o programa, os líderes do ato arquitetaram a operação somente para causar um incidente e constranger Israel. Além disso, os soldados israelenses que abordaram o barco foram recebidos com violência, numa ação premeditada, segundo concluiu o documentário, que usou imagens inéditas obtidas tanto de Israel quanto dos participantes da flotilha, além de entrevistas com envolvidos de parte a parte.
A exibição do programa, chamado “Morte no Mediterrâneo”, irritou profundamente grupos palestinos, porque a versão levada ao ar contraria todo o discurso que se seguiu ao incidente – o de que os israelenses eram cruéis assassinos de inocentes voluntários desarmados que só queriam entregar comida, remédios e brinquedos em Gaza. Para os ativistas, a BBC fez propaganda pró-Israel.
De fato, a organização noticiosa britânica BBC é frequentemente acusada de distorcer as informações que publica. Há até um verbete no Wikipedia e um blog dedicados ao assunto. Em geral, no que diz respeito ao Oriente Médio, os israelenses são os que mais se queixam da BBC, para deleite dos “antissionistas” – que, a título de “provar” os “crimes” de Israel, citam as reportagens da rede britânica largamente baseadas em informações frágeis e na versão dos palestinos. Agora, porém, parece que a situação se inverteu.
Abaixo, o programa da BBC, em duas partes:
O governo da Turquia, que deu amplo apoio à famosa “Flotilha da Liberdade” e acusa Israel de cometer “crimes contra a humanidade”, entre outras gentilezas, enviou uma comissão de militares a Israel. O objetivo deles é aprender a usar os aviões não tripulados fabricados no país e que os turcos querem comprar, informa o Jerusalem Post.
O governo de Israel, que ficou bastante irritado com a atitude turca no caso da flotilha, hesitou, mas acabou dando sinal verde à negociação. Afinal, o contrato, assinado em 2004, é de US$ 180 milhões.
O episódio da “Flotilha da Liberdade” serviu para mostrar que o antissemitismo continua vigoroso. Mais do que isso: tem se provado indiferente à passagem do tempo, reinventando-se de modo formidável diante dos desafios históricos que se lhe impõem.
O que talvez explique a resiliência do antissemitismo é sua estratégia. O ódio aos judeus aposta basicamente na ignorância generalizada e na disposição de aceitar como verdadeiras as proposições que “fazem sentido”, embora não tenham correspondência com a realidade. Só isso explica o fato de que intelectuais altamente preparados, como José Saramago, chancelem a comparação dos territórios palestinos com Auschwitz. Para Saramago, o paralelo “faz sentido”, enquadrando-se em uma visão de mundo na qual o Estado judeu representa a essência do Mal – entendido como a encarnação do capitalismo ocidental e de seus valores desumanos.
Essa visão remonta ao século 19, quando a ascensão do nacionalismo transformou o judeu “deicida” no judeu como dono do capital mundial, com planos para destruir as nações por dentro, de modo a facilitar a dominação. Contra esse Mal reagiram muitos intelectuais europeus, o que explica como foi possível um país que gerou Goethe e Beethoven ter igualmente gerado o nazismo. O judeu alemão Marx confundiu ferozmente o judaísmo com a burguesia de seu tempo, e esse discurso é o que sobrevive na retórica antissemita à esquerda.
No século 21, estamos longe da tese da “raça como motor da história”, que animou tantos pensadores na Europa que caminhou alegremente para o abismo nazista. Contudo, a essência do antissemitismo, tal como concebido por intelectuais de 200 anos atrás, manteve-se. Com exceção de um brevíssimo intervalo de tempo, quando o mundo ocidental se penitenciou pelo Holocausto, os judeus seguiram sendo vinculados a dinheiro, poder e influência em escala global. E isso não acontece somente na chamada “rua árabe”, onde excrescências como os Protocolos dos Sábios de Sião, farsa literária que “revela” um complô judaico para dominar o mundo, são lidos como obra autêntica. Isso acontece também em ambientes altamente sofisticados, como universidades e redações de jornais.
Esse mecanismo mental explica o sucesso de teses segundo as quais o famoso “lobby judaico” domina a política americana e a Casa Branca. Há dezenas de outros lobbies nos EUA, inclusive árabe e islâmico, tão ou mais ricos e influentes que o judaico; no entanto, para efeito de propaganda, é a pressão dos judeus que se destaca das demais e é objeto de intenso escrutínio internacional, como se aí residisse a explicação para as atitudes belicistas e intransigentes dos EUA no que diz respeito ao Oriente Médio.
A predisposição antijudaica explica também como pessoas bem preparadas aceitam como verdadeiras as imposturas anti-israelenses, cujo método consiste em sequestrar todos os símbolos da tragédia judaica e invertê-los a favor dos inimigos de Israel, justamente o Estado judeu.
Desse modo, o termo “antissemitismo”, criado no século 19 para designar especificamente o ódio aos judeus, foi sequestrado pelos inimigos de Israel para caracterizar a hostilidade israelense contra os árabes “semitas”, o que transformaria os judeus israelenses, vejam só, em “antissemitas”; o termo “Holocausto”, que passou à história como o extermínio de milhões de judeus pelos nazistas e seus associados, foi sequestrado pelos inimigos de Israel para designar o suposto “genocídio” palestino, mesmo que os dados demográficos indiquem que a população palestina está crescendo, e não diminuindo; as expressões “Gueto de Varsóvia” e “campo de concentração”, que designam o confinamento de civis judeus para seu extermínio, foram sequestradas pelos inimigos de Israel para dramatizar a descrição do ambiente em Gaza.
Em paralelo, os antissemitas exploram o clima contrário a Israel distorcendo outros termos para disfarçar seus objetivos inconfessáveis. O mais óbvio é “ajuda humanitária”, expressão que tem revestido atentados propagandísticos para desmoralizar o Estado judeu. O caso da “Flotilha da Liberdade” foi o mais bem-sucedido, mas não foi o único – até o Irã agora quer enviar “ajuda humanitária” para Gaza. Em lugar de protestar contra o uso malicioso da expressão “ajuda humanitária”, porém, os “humanistas” preferem criticar Israel, que, como qualquer outro país, está empenhado em defender sua soberania.
Os esforços dos judeus para demonstrar que a questão tem dois lados são irrelevantes diante da percepção de que Israel é a reencarnação da Alemanha nazista e de que os judeus são o que sempre foram. Parece impossível caracterizar Israel como um país qualquer, com erros e acertos. Esse é o ponto: questões como “defesa de soberania” e “segurança”, que fazem parte da agenda de todos os Estados nacionais, remetem ao real; o que acontece no Oriente Médio, contudo, é a transformação do real em ficção ideológica, por meio da qual o ódio ancestral se manifesta e, sorrateiramente, conquista mesmo aqueles que se supõem racionais.
A cineasta Iara Lee, única brasileira a bordo da “Flotilha da Liberdade”, descreveu sua experiência durante a abordagem da Marinha israelense, em texto publicado pela Folha. Sem ter visto o confronto, ela fez suas deduções como se a tudo tivesse testemunhado. “Ouvi tiros e temi pela vida dos meus companheiros de viagem. Mais tarde vi os corpos sendo carregados para dentro. Podia esperar que os soldados atirassem para o ar, ou nas pernas das pessoas, mas em vez disso vi que tinham atirado para matar.”
A frase mostra que ela não viu os soldados atirando, apenas ouviu. Em seguida, viu os corpos de seus “companheiros” sendo carregados. Isso foi o suficiente para que ela denunciasse, com a firmeza de quem assistiu a tudo: “Vi que (os soldados) tinham atirado para matar”. O problema é que Iara Lee não viu nada, como ela mesma admite. Não viu, por exemplo, soldados israelenses sendo espancados e esfaqueados. Ela apenas ouviu tiros e tirou suas conclusões, contaminadas por sua militância. A equação, para ela, era simples: soldados israelenses + tiros + corpos de pacifistas desarmados = massacre premeditado.
Como cineasta, ofício em que a imagem é tudo, Iara Lee deveria saber bem a diferença entre ver e não ver alguma coisa. Para ela, porém, parece que basta acreditar em algo para que isso se torne verdade. Resta só o trabalho de recolher “evidências” para fundamentar a crença.
De todo modo, pelo menos Iara Lee sobreviveu para contar o que acha que viu. Deu mais sorte que outro brasileiro, Giora Balash, assassinado pelo Hamas num atentado a bomba numa pizzaria em Jerusalém, em 2001. Balash não sobreviveu para contar o que efetivamente viu: a cara do terror.
Israel impõe um bloqueio implacável à Faixa de Gaza há cerca de três anos. Tem seus motivos, reafirmados a cada foguete que o Hamas atira contra civis israelenses. Por outro lado, a imposição de um bloqueio tão feroz denota um forte espírito de indisposição ao diálogo e ao compromisso. Para Israel, a guerra parece sempre preferível à paz, como escreveu Amos Oz.
O episódio da “Flotilha da Liberdade” evidenciou os limites dessa predisposição ao conflito. Os israelenses poderiam ter permitido que os barcos dos ativistas pró-palestinos chegassem a Gaza. Seria uma “derrota” muito menos significativa do que a que o país sofreu ao decidir abordar as embarcações. Mesmo que se prove que a lei estava do lado de Israel, o comportamento israelense reafirmou sua imagem beligerante, que faz a delícia dos inimigos do país. Nada melhor para os cínicos fundamentalistas islâmicos que querem varrer Israel do mapa do que explorar mártires produzidos pelos erros israelenses.
O comportamento de Israel, ademais, ameaça aprofundar seu isolamento. Mesmo o governo americano piscou, cobrando dos israelenses que repensem o cerco a Gaza – como antes já havia cobrado a interrupção da colonização da Cisjordânia. Sem amigos e sem moral, Israel aparece ao mundo como pior do que os terroristas do Hamas. E sua imagem não vai melhorar se seu governo se limitar a enviar a jornalistas vídeos sobre a violência dos ativistas da “Flotilha da Liberdade” e a chamá-los indiscriminadamente de “terroristas”.
A solução para essa crise é menos política e mais espiritual. Israel deveria refletir sobre a conveniência de não ter amigos, deveria reavaliar suas reações violentas quando contrariado e, principalmente, deveria resgatar a ideologia humanista que está no DNA de sua criação e que os “falcões” irresponsáveis estão destruindo.
A agora famosa “Flotilha da Liberdade”, pivô da mais recente crise envolvendo Israel, foi organizada pela ONG turca Insani Yardim Vakhi (IHH). Trata-se de um grupo voltado para a defesa dos direitos humanos, certo? Nem tanto.
Segundo um paper do Instituto Dinamarquês para Estudos Internacionais, a IHH é apenas fachada de apoio a grupos terroristas. A pesquisa é de 2006 – portanto, não pode ser desacreditada como “contrapropaganda sionista”, ou alguma bobagem do gênero, já que, naquela época, a IHH era obscura demais para que a mídia se ocupasse dela.
O estudo mostra que a IHH, de acordo com investigações do próprio governo turco, comprou armas automáticas de grupos extremistas muçulmanos em 1997. Seu escritório em Istambul foi revistado, e a polícia encontrou armas, explosivos e instruções sobre como fabricar bombas. As autoridades turcas concluíram que os líderes do IHH estavam prontos para lutar no Afeganistão, na Bósnia e na Tchetchênia.
Outra investigação da época, feita pela França, indica que os líderes da IHH estavam profundamente ligados a atividades terroristas. Bulent Yildrim, o principal dirigente do IHH, que estava no barco principal da “Flotilha da Liberdade”, recrutou militantes para uma “guerra santa”, nos anos 90. Telefonemas grampeados mostram a relação entre a IHH, a Al Qaeda e terroristas argelinos. Suspeita-se ainda que a IHH esteve envolvida em tráfico de armas. E consta que o “trabalho de caridade” da IHH servia para disfarçar proselitismo e recrutamento de militantes para a causa anti-Ocidente.
Na tal “Flotilha da Liberdade”, a IHH reuniu centenas de pessoas que, em sua maioria, provavelmente nada têm a ver com a ONG. Foram inocentes úteis, recrutados sob o apelo da “ajuda humanitária” aos sofridos moradores de Gaza, cujas condições de vida são melhores do que as dos habitantes de Índia e África do Sul, dois dos festejados “emergentes”. Na verdade, conforme todas as declarações dadas pelos líderes da iniciativa, a “Flotilha da Liberdade” não pretendia entregar nenhuma ajuda humanitária – se fosse assim, teria aceitado as várias ofertas israelenses nesse sentido. Eles queriam simplesmente provocar Israel, queriam produzir mortos, para exibi-los como a prova da crueldade intrínseca dos “sionistas sanguinários”. Havia mulheres e crianças a bordo – Bulent Yildrim apareceu com um bebê no colo enquanto, cinicamente, dava entrevista a uma TV turca sobre a “missão”, dizendo que haveria resistência se Israel tentasse interceptar os barcos.
E Israel caiu na armadilha dessa gente que não tem nenhuma consideração pela vida humana.
A desastrada abordagem israelense da agora famosa “Flotilha da Liberdade”, carregada de ativistas pró-palestinos, foi um bálsamo para um punhado de oportunistas.
Os mais óbvios são os militantes do Hamas, grupo fundamentalista islâmico que defende, em seus estatutos, a destruição de Israel. Enquanto a comunidade internacional exige agora de Israel que levante o bloqueio a Gaza, ninguém cobrou do Hamas que interrompesse o lançamento de foguetes contra civis israelenses e ninguém cobrou do Egito que fosse mais eficiente para conter o contrabando de armas para o Hamas em Gaza, que é precisamente a razão pela qual Israel impôs o bloqueio ao território. Dá até para imaginar a felicidade de Ismail Haniyeh, o líder do Hamas, com os nove mortos na ação israelense.
Outro oportunista óbvio é a Turquia. Esse país, que qualificou Israel de “Estado terrorista”, é o mesmo que massacra sistematicamente a minoria curda em seu território. A Turquia financiou e deu apoio logístico à tal “Flotilha da Liberdade”, com a clara intenção de colaborar para que houvesse um incidente constrangedor para Israel. Seu interesse era desviar o foco da comunidade internacional, empenhada em impor sanções contra o Irã, um dos principais parceiros comerciais dos turcos. Nada melhor do que usar Israel e seu governo trapalhão para isso.
Por fim, o episódio da “Flotilha da Liberdade” alimentou os nossos próprios oportunistas. O presidente Lula e o chanceler Celso Amorim expressaram duríssimas críticas a Israel, antes mesmo que houvesse investigações sobre o que realmente aconteceu. Tomaram partido num contexto em que, como se sabe, há muito poucos inocentes. Ademais, é lamentável que Lula e Amorim não tenham usado a mesma energia para criticar a repressão iraniana aos opositores do regime dos aiatolás – pelo contrário, o presidente brasileiro tratou de desqualificar a oposição do Irã, cujos militantes foram barbaramente torturados e mortos. A intenção do governo brasileiro parece ser usar o episódio de Gaza para revidar o vexame a que foi submetido por causa da farsa do acordo nuclear com o Irã. E Lula, como se sabe, está em plena campanha para ganhar o Nobel da Paz, razão pela qual ele não titubeou em espinafrar o vilão habitual.
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