O progressista presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, telefonou ao ditador da Líbia, Muamar Kadafi – aquele que está matando seus próprios concidadãos –, para lhe prestar “solidariedade”. Ortega disse que Kadafi está lutando “uma grande batalha” para manter seu país “unido”.
Como se sabe, Ortega é um dos principais líderes da vanguarda chavista, aquela turma que diz estar criando um “novo mundo”, mais “humanista” e “solidário”.
Na mesma linha, Fidel Castro, o ditador de pijama de Cuba, também expressou seus “pensamentos” acerca da crise líbia. Para ele, é “muito cedo” para criticar Kadafi, porque as notícias sobre a Líbia podem ser mentirosas. O visionário cubano – que, apesar da aposentadoria, mostra que ainda é mestre em distorcer a realidade para adaptá-la às suas fantasias – disse que a crise servirá de pretexto para que a Otan, liderada pelos EUA, invada a Líbia e cometa um “crime contra o povo líbio”.
Depois de ter arruinado a ilha que governou por mais de cinco décadas, Fidel Castro agora quer “salvar a humanidade”. Em palestra a “intelectuais”, o ditador de pijama disse que os riscos estão numa eventual guerra nuclear e na crise alimentar, conforme noticiou o Opera Mundi. Para Fidel, a salvação virá se “nós, os políticos” forem persuadidos da urgência dos problemas.
No entanto, para que “eles, os políticos” sejam persuadidos de algo é preciso haver liberdade, como demonstraram eloquentemente os manifestantes que derrubaram a ditadura no Egito. “Para a pergunta sobre o sentido da política”, explica Hannah Arendt, “existe uma resposta tão simples e tão concludente em si que se poderia achar outras respostas dispensáveis por completo. Tal resposta seria: o sentido da política é a liberdade”.
Isso, porém, Fidel não entenderá nunca, porque seu espírito é totalitário: não existe verdade fora de seu evangelho. Pobre da humanidade que espera esse tipo de salvação.
Com o slogan “Há um soldado em cada um de nós”, foi lançada nesta quarta-feira a mais nova versão do videogame Call of Duty. A primeira das “operações clandestinas” dos EUA da qual o jogador é convidado a participar é matar Fidel Castro.
A ditadura cubana, por meio do site Cubadebate, não tardou a ironizar: “O que o governo americano não conseguiu realizar em mais de 50 anos pretende fazer agora de modo virtual”.

Fidel, vivinho da silva
A revista Semana, da Colômbia, fez curiosa retrospectiva das diversas vezes em que se anunciou a iminência da morte de Fidel Castro. Como se sabe, o ditador cubano (alguns o chamam de “ex-ditador”, mas há controvérsias) reapareceu todo pimpão nos últimos dias, depois de ter sido considerado definitivamente fora de combate. Fidel parece ter vencido mais uma batalha contra o vodu dos cubanos exilados em Miami, que começou já em 1960, um ano depois da revolução em Cuba.
Na primeira semana de agosto daquele ano, Fidel adoeceu e os jornais já especulavam sobre sua sucessão. No dia 2, a manchete do Estadão foi “Cuba: Fidel precisa de repouso físico e mental – Rumores de que seria substituído por Raúl”. Depois, no dia seguinte, o tom era ainda mais sombrio: “Sigilo absoluto em torno da situação de Fidel Castro: perdura clima de rumores”.

Nada aconteceu, claro, além de um forte resfriado. No ano seguinte, 1961, no episódio da Baía dos Porcos, Fidel escaparia da primeira de uma série de tentativas de assassinato tramadas ou patrocinadas pelos EUA e pelos cubanos de Miami. O comandante, de fato, é um sobrevivente – resistiu aos EUA, ao fim da URSS e à desmoralização do comunismo, além do mau olhado: em 1989, como lembra a Semana, a revista Economist chegou a prever o fim do regime comunista em Cuba; três anos mais tarde, o jornalista Andres Openheimer publicou um livro chamado “A Hora Final de Fidel Castro”.
Ignorando tais profecias, o regime não só segue firme, como Fidel superou a grave doença que em 2006 o obrigou a entregar o poder ao irmão Raúl – na ocasião, a revista Time chegou a informar, com base em fontes do governo americano, que o comandante sofria de câncer em “estado terminal”.
O comandante, portanto, resistiu a tudo. Só não resistiu à decrepitude acelerada de seu legado – que em pouco tempo passou de inspiração autêntica na luta contra a tirania na América Latina a uma ditadura sanguinária, que sobrevive com mentiras e que contradiz flagrantemente os valores pelos quais diz lutar.
(Foto: Desmond Boylan/Reuters)
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