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Marcos Guterman

A presidente Dilma Rousseff não se ofereceu para mediar a transição no Egito nem fez bravatas celebrando o fim da “tutela” americana na região. Limitou-se a soltar uma nota anódina em que pede “entendimento” e “diálogo democrático” – um tom adequado ao pequeno peso do Brasil no Oriente Médio.

Quanta diferença.

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Mohammed ElBaradei, que na quinta-feira havia implorado ao Exército egípcio que tomasse o poder para tirar o ditador Hosni Mubarak de lá, festejou: “Minha mensagem ao povo egípcio é que vocês ganharam a liberdade. Façam o melhor uso disso, e que Deus os abençoe”.

Estranho esse Egito, onde um Prêmio Nobel da Paz apela aos militares para dar um golpe de Estado e que festeja a “liberdade” depois que o poder passou para as Forças Armadas. Mas talvez não seja tão estranho assim. Os militares são vistos pelos egípcios como o próprio espírito da república, e Mubarak caiu porque teria favorecido uma rede de corrupção e influência que não incluía o Exército em primeiro lugar.

Por outro lado, pode até ser que os militares egípcios presidam mesmo a transição do país para uma autêntica democracia e aceitem ser apenas seu avalista neutro. Mas já há quem aposte no contrário: que os militares, com o poder nas mãos, decidam consolidar esse status, adiando uma transformação do regime que, inevitavelmente, reduziria sua capacidade de interferir nos rumos do país e em seus interesses diretos.

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Demorou, e foi necessário que Obama fosse passado para trás, para que, enfim, o presidente dos EUA escolhesse ficar do lado dos manifestantes egípcios, de maneira quase inequívoca. Obama ultrapassou o limite da não interferência em assuntos internos do Egito ao cobrar de Hosni Mubarak que “aproveite a oportunidade” para fazer a transição para a democracia “imediatamente”.

O presidente americano foi direto em suas críticas ao teatro de Mubarak, quando exigiu do governo egípcio explicações sobre suas últimas decisões, em “linguagem sem ambiguidades” e com explicações “passo a passo” do processo que “levará à democracia e ao governo representativo que o povo egípcio quer”.

Ao encerrar seu rápido mas significativo discurso, Obama disse que o “o povo egípcio deve saber que tem nos EUA um amigo”. E Mubarak deve ter percebido que perdeu o seu.

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O presidente dos EUA, Barack Obama, havia dito nesta quinta-feira que estávamos vendo “a história sendo escrita” no Egito, em meio a rumores de que o ditador do Egito, Hosni Mubarak, renunciaria. Pouco depois, Mubarak apareceu na TV para dizer que não renunciaria e para afirmar que não aceita pressões externas.

Das três, uma: ou Obama não sabe o que acontece no Egito; ou Obama sabe e Mubarak não; ou Mubarak jogou para a torcida ao rejeitar “pressões externas” e, concertado com os EUA e o Exército, manteve o calendário da transição “genuína e ordenada”, como quer Obama.

Duro vai ser convencer aquela turma na Praça Tahrir que tudo não passou de um mal-entendido.

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Os EUA parecem já ter se dado conta de que o Egito vai mudar para ficar exatamente como está. Em público, o governo de Barack Obama pressiona o ditador Hosni Mubarak a suspender as prisões arbitrárias, a parar de perseguir opositores e a incluir vários setores políticos no diálogo para a transição. Na prática, porém, a reforma que os EUA tentam patrocinar talvez não desemboque em democracia, por uma razão muito simples: o Exército não quer, e a Casa Branca sabe que, a esta altura, nenhuma “transição” será possível sem Mubarak e a caserna. Logo, o “novo” regime deverá ter o DNA do atual ditador, na provável figura do general Omar Suleiman – para quem a demanda pela democracia no Egito vem do exterior, e não das ruas do Cairo.

As imagens de soldados com megafones participando das manifestações anti-Mubarak deram a falsa sensação de que o Exército poderia abandonar o ditador. Não houve, contudo, nenhuma fissura nas Forças Armadas, que continuam perfeitamente alinhadas a Mubarak. A estratégia do Exército é sofisticada: declara neutralidade e aparece como “protetor” dos manifestantes ao conter a violência produzida exatamente por agentes do próprio governo. É o “bate-e-assopra” que garante a longevidade das ditaduras.

Enquanto isso, Mubarak tratou de capitalizar a insatisfação dos egípcios que não estão na Praça Tahrir e sentem os efeitos dramáticos da paralisação do país por conta dos protestos. O humor popular em relação aos opositores nunca esteve tão ruim desde que as manifestações começaram.

A soma de tudo isso é que a “revolução” no Egito, na verdade, parece ter dado oportunidade não para a democracia, mas para seu exato oposto – a efetivação de um regime militar.

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29.janeiro.2011 00:29:34

O vexame americano

O presidente dos EUA, Barack Obama, pronunciou-se sobre a crise no Egito. Em sua declaração, ele citou uma única vez a palavra “democracia”. Pior: nessa única vez, Obama disse que Hosni Mubarak, um ditador implacável, prometeu uma “democracia melhor” – como se houvesse alguma democracia hoje no Egito para ser “melhorada”.

Assim, na ânsia de proteger um tirano que atende aos interesses geoestratégicos imediatos dos EUA no mundo árabe, Obama insulta a inteligência daqueles que preferem a democracia à ditadura e trai o próprio espírito americano.

Um vexame, enfim.

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A onda de protestos no mundo árabe está dando oportunidade a todo tipo de especulação. A Arábia Saudita, por exemplo, considera que o Irã está por trás dos tumultos, porque tem interesse em desestabilizar esses países para neles instalar regimes ligados a Teerã, como no Líbano. Já os iranianos entendem que os eventos são uma reação contra governos alinhados aos EUA e a Israel. Nos dois casos, trata-se de uma óbvia tentativa de seqüestrar os protestos para alimentar agendas político-ideológicas próprias. Seja como for, a atual crise contribui decisivamente para mostrar que o discurso segundo o qual o principal problema do mundo árabe se chama Israel não passa de um mito, que só ajuda ditadores e teocratas.

Sobre o caso específico do Egito, por outro lado, Obama está pisando em ovos porque o ditador Hosni Mubarak é aliado estratégico. Num primeiro momento, seu governo se limitou a pedir “calma” e a dizer que o governo de Mubarak é “estável”. É o mesmo entendimento que tem Israel ­­– que não se manifesta publicamente sobre o assunto, mas, reservadamente, considera que Mubarak não corre risco de cair, porque seu poder é fortemente garantido pelo Exército.

No entanto, com a violenta dinâmica dos acontecimentos – e a volta ao Egito do Nobel da Paz Mohammed ElBaradei, disposto a usar sua credibilidade para liderar a mudança de regime –, o presidente americano viu-se obrigado a arriscar-se um pouco mais no campo da retórica. Agora, Obama diz que esta é a oportunidade para “reformas” no Egito. Não significa mudança de regime, mas alguma abertura (o vice-presidente americano, Joe Biden, conhecido por suas gafes, disse que nem considera Mubarak um ditador). O problema dos EUA é que há o risco de que a alternativa a Mubarak seja a Irmandade Muçulmana, imenso grupo fundamentalista de oposição. O primeiro sinal do problema apareceu quando a Irmandade, após silenciar sobre a crise, anunciou que participará dos protestos previstos para hoje.

Assim, como não há nenhuma garantia de que o incipiente movimento árabe pela democracia resulte em democracia efetiva – a tumultuada desintegração da URSS é um exemplo histórico desse possível impasse –, ainda é muito cedo para sabermos que tipo de regime emergirá de toda a confusão. As perspectivas, porém, não são animadoras, porque, na maioria desses países, a oposição democrática ou é fraca demais ou foi inteiramente destruída, abrindo caminho para a substituição de uma autocracia por outra.

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Ainda é cedo para avaliar a extensão dos protestos no Egito. Para Washington, porém, o governo do ditador Hosni Mubarak é “estável”. Parece mais um desejo do que uma tradução racional dos fatos – afinal, Mubarak é um elemento-chave no jogo americano no Oriente Médio.

Tanto é assim que a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, não defendeu reformas democráticas no Egito, diferentemente do que Obama fez em relação à Tunísia. Ela se limitou a dizer que os egípcios têm o direito de protestar – e, cinicamente, afirmou que Mubarak está “buscando formas” de atender às demandas populares.

O papel dos EUA é fundamental para o sucesso de uma eventual revolta contra Mubarak. Sem que Washington retire seu apoio ao velho ditador, fica difícil imaginá-lo fora do poder, razão pela qual ele terá mãos livres para “manter a ordem”, como sugeriu Hillary.

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O técnico da seleção egípcia de futebol, Hassan Shehata, estava sendo cogitado para treinar a seleção de Israel. Seria uma excelente oportunidade para estreitar laços entre árabes e israelenses. Mas, para não deixar dúvidas sobre o assunto, Shehata, conhecido como “Professor”, declarou:

“Eu prefiro morrer de fome a treinar a seleção de Israel. Eu posso entender o ciúme que Israel tem da seleção egípcia e de seu sucesso. Mas seria impossível, para mim, visitar Israel ou treinar seu time, mesmo que Israel fosse o único país do mundo que quisesse me contratar. Como é que esses sionistas podem pensar que eu aceitaria treinar uma seleção que inclui assassinos de crianças e aposentados? Como eu poderia ajudar uma seleção que representa uma nação de ocupantes?”

O “Professor” está certo ao não querer treinar Israel e seus pernas-de-pau assassinos. Melhor é treinar a seleção do Egito, país governado por uma ditadura sanguinária, que reprime a oposição, prende homossexuais, não protege minorias religiosas e mata palestinos na fronteira com Gaza.

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