Não é somente Lula que distorce o espírito da liberdade de expressão e seu papel na consolidação da democracia. O presidente da seção paulista da OAB, Luiz Flávio Borges D´Urso, queixou-se há alguns dias de uma série de autorretratos do artista plástico pernambucano Gil Vicente em que ele aparece assassinando autoridades e personalidades, como Lula, FHC e o papa Bento XVI. Para D’Urso, trata-se de “desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência”.
Nota de teor semelhante foi emitida pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, para quem, “em que pese a alardeada liberdade da manifestação artística”, as obras podem ser vistas como “fato criminoso”, que cria a possibilidade de “perturbação da ordem pública”, com a “provocação de uma situação de alarme no seio da coletividade, que se traduz pela quebra do sentimento geral de tranquilidade e paz que corresponde à continuidade normal da ordem jurídico-social, que ao Direito incumbe proteger”. Será mesmo que os advogados representados na mensagem acreditam que um punhado de obras de arte, exibida numa mostra restrita a pagantes, será capaz de “quebrar o sentimento geral de tranqüilidade e paz” na sociedade brasileira?
Parece que D’Urso e os outros advogados citados não conseguiram ler a obra de arte como representação. Sem entrar no mérito da qualidade dos trabalhos em si, há uma clara tentativa do autor de fazer graça com a possibilidade de matar celebridades com as próprias mãos. Os “assassinatos” cometidos por Gil Vicente são apenas, e obviamente, metafóricos. Atribuir às obras intenções criminosas é demonstração de falta de senso de humor, que, por sua vez, denota limitada capacidade de ler o mundo. Na ausência dessa qualidade, D’Urso formulou sua visão de liberdade de expressão baseado numa estranha lógica: segundo sua interpretação, a lei brasileira permite que uma obra seja “criada”, mas não exposta livremente.
Em democracias consolidadas, porém, “matar” o presidente numa obra de arte pode até render prêmio. Foi o que aconteceu com o documentário fictício “A Morte de George W. Bush” (2006), do diretor britânico Gabriel Range. A curiosa “reconstituição” do “assassinato” do presidente americano ganhou cinco prêmios, entre eles o Emmy, sem que ninguém visse nisso “apologia ao crime” e “desrespeito à instituição do presidente”.
Aconteceu, enfim: um partido formado só como piada venceu uma eleição. Reeditando o sucesso do rinoceronte Cacareco, “eleito” vereador em São Paulo em 1958, o partido “The Best”, formado em novembro do ano passado, foi o mais votado nas eleições de Reykjavik, a capital da Islândia.
Como se sabe, o país ainda não se recuperou de sua grave crise econômica, o que cria campo fértil para a contestação da política tradicional. “The Best” pegou esse espírito e, à base de uma porção de promessas esdrúxulas, escancarou a fragilidade da democracia.
Agora, os moradores de Reykjavik terão toalhas grátis nas piscinas públicas, uma Disneylândia no aeroporto da cidade e um urso polar no zoológico local, segundo a plataforma do “The Best” – liderado por Jon Gnarr, o principal comediante islandês.
Veja aqui o vídeo de campanha do partido.
O presidente Lula acha “precipitado” que se aceite o retorno de Honduras à comunidade internacional. Para ele, segundo seu porta-voz, reconhecer o governo de Porfírio Lobo agora seria “criar precedente perigoso para eventuais e futuros regimes de exceção” na América Latina.
Para lembrar: Porfírio Lobo foi eleito depois que Manuel Zelaya foi removido do poder por tentar mudar a Constituição, com a ajuda do venezuelano Hugo Chávez, para se perpetuar no poder. O governo Lula deu a isso o nome de “golpe”, apesar de Zelaya ter sido deposto segundo o que previa a Constituição. Honduras realizou então eleições, que já estavam marcadas, e Porfírio Lobo venceu, de forma limpa.
Nada disso parece emocionar Lula e seus assessores para questões internacionais. A tentativa de Honduras de retomar a normalidade institucional não é suficiente para que o governo brasileiro volte atrás de sua decisão.
O mesmo zelo, no entanto, não é observado quando se trata de Cuba, que não é um “futuro regime de exceção” na América Latina, mas sim uma antiqüíssima ditadura – que, no entanto, goza de profunda admiração de Lula. Enquanto as decisões internas em Honduras não são consideradas válidas pelo governo brasileiro, as decisões internas em Cuba – como perseguir dissidentes – são vistas como um problema exclusivamente cubano.
A posição do Brasil a respeito de Honduras não seria, afinal, tão controversa e estranha se, por outro lado, o governo Lula cobrasse da Cuba dos irmãos Castro e do Irã do “amigo” Ahmadinejad o mesmo respeito aos preceitos democráticos que diz defender com fervor no caso hondurenho. Parece, no entanto, que o conceito de democracia ganha inusitada flexibilidade, na política externa brasileira, quando se trata de preservar laços de seu interesse.
Eleições não fazem uma democracia, ao contrário do que dizem os bolivarianos. É necessário que as instituições funcionem de modo independente, é preciso que a lei prevaleça sobre a força, e essa realidade ainda está distante no Iraque. Mas está menos distante do que quando Saddam Hussein detinha o poder. Hoje, é possível dizer, a despeito de todas as agruras iraquianas, causadas em grande medida por uma guerra sectária que antecede – e muito – a presença ocidental ali, que o Iraque caminha para se tornar um país livre.
Ainda há quem torça contra isso – e não é só a Al Qaeda. Muitos “humanistas” esperam que o Iraque se banhe de sangue para comprovar suas teorias sobre o mal intrínseco que representa o Ocidente. Mas a torcida será em vão, como comprovou a enorme afluência de eleitores iraquianos às urnas, mesmo sob o risco de se verem despedaçados pelos terroristas que dispõem do apoio moral dos antiocidentais – gente que, por outro lado, defende a “democracia” do Irã, de Cuba e da Venezuela.
Tudo ainda é muito frágil no Iraque, e o risco maior é o de sempre: que as elites iraquianas prefiram locupletar-se a governar com espírito democrático. E haverá sempre quem responsabilize os EUA também por isso. Mas o fato é que o atual estágio iraquiano já é significativo o bastante para servir como pressão contra as ditaduras recalcitrantes do Oriente Médio e, sobretudo, para mostrar que a democracia pode vingar no mundo árabe, ainda que ao custo de uma guerra.
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