O governo cubano anunciou a demissão de 500 mil servidores públicos, o equivalente a 10% da força de trabalho total da ilha. Ao mesmo tempo, serão reduzidas as restrições à iniciativa privada, justamente para absorver toda essa turma de barnabés. Segundo Havana, o objetivo da medida é tornar a economia mais eficiente – uma semana depois de Fidel Castro ter declarado que o modelo cubano “não funciona mais nem para Cuba”.
Enquanto isso, a Venezuela de Hugo Chávez, discípulo mais fiel de Fidel, continua estatizando avidamente o país. E o Brasil de Lula e Dilma aposta cada vez mais no Estado como agente econômico. Como a revolucionária Cuba está mostrando, e a Venezuela chavista já sabe bem, esse modelo tem fôlego curto, porque os recursos que deveriam ser investidos em infra-estrutura são drenados para custear a gigantesca máquina pública. Sem esses investimentos, não é possível sustentar o crescimento econômico no longo prazo.
Talvez a experiência do aposentado Fidel tenha mais a ensinar do que as habituais bravatas sobre os males do liberalismo econômico.

Fidel, vivinho da silva
A revista Semana, da Colômbia, fez curiosa retrospectiva das diversas vezes em que se anunciou a iminência da morte de Fidel Castro. Como se sabe, o ditador cubano (alguns o chamam de “ex-ditador”, mas há controvérsias) reapareceu todo pimpão nos últimos dias, depois de ter sido considerado definitivamente fora de combate. Fidel parece ter vencido mais uma batalha contra o vodu dos cubanos exilados em Miami, que começou já em 1960, um ano depois da revolução em Cuba.
Na primeira semana de agosto daquele ano, Fidel adoeceu e os jornais já especulavam sobre sua sucessão. No dia 2, a manchete do Estadão foi “Cuba: Fidel precisa de repouso físico e mental – Rumores de que seria substituído por Raúl”. Depois, no dia seguinte, o tom era ainda mais sombrio: “Sigilo absoluto em torno da situação de Fidel Castro: perdura clima de rumores”.

Nada aconteceu, claro, além de um forte resfriado. No ano seguinte, 1961, no episódio da Baía dos Porcos, Fidel escaparia da primeira de uma série de tentativas de assassinato tramadas ou patrocinadas pelos EUA e pelos cubanos de Miami. O comandante, de fato, é um sobrevivente – resistiu aos EUA, ao fim da URSS e à desmoralização do comunismo, além do mau olhado: em 1989, como lembra a Semana, a revista Economist chegou a prever o fim do regime comunista em Cuba; três anos mais tarde, o jornalista Andres Openheimer publicou um livro chamado “A Hora Final de Fidel Castro”.
Ignorando tais profecias, o regime não só segue firme, como Fidel superou a grave doença que em 2006 o obrigou a entregar o poder ao irmão Raúl – na ocasião, a revista Time chegou a informar, com base em fontes do governo americano, que o comandante sofria de câncer em “estado terminal”.
O comandante, portanto, resistiu a tudo. Só não resistiu à decrepitude acelerada de seu legado – que em pouco tempo passou de inspiração autêntica na luta contra a tirania na América Latina a uma ditadura sanguinária, que sobrevive com mentiras e que contradiz flagrantemente os valores pelos quais diz lutar.
(Foto: Desmond Boylan/Reuters)
O presidente Lula disse nesta quarta-feira que se sentiu muito “feliz” com a libertação dos presos políticos cubanos. Já é um avanço que Lula tenha admitido a existência de presos políticos na ilha de seu amigo Fidel Castro – basta lembrar a deselegância do presidente ao comparar os dissidentes encarcerados aos presos comuns de São Paulo. Mas à ligeira concessão de Lula à defesa dos direitos humanos na ilha seguiu-se um curioso malabarismo retórico para justificar a leniência brasileira diante das óbvias violações cometidas em Cuba.
Questionado sobre por que seu governo não participou da pressão sobre Havana para libertar os presos políticos – papel que coube à Espanha e à Igreja Católica –, Lula disse que não é adepto da “pirotecnia”. Ou seja: na prática, além de admitir sua omissão, o presidente ainda relativizou o trabalho daqueles que se engajaram no esforço de constranger Cuba a ceder.
Para piorar, Lula incluiu o governo cubano entre os que mereciam os “parabéns” pelo desfecho do caso, como se a chave dos porões cubanos não estivesse no bolso do companheiro Raúl Castro e como se Cuba ainda não tivesse mais de cem presos políticos.

Ao lado de Lula, Raúl ofende a inteligência alheia
Foi necessário que um diplomata europeu aparecesse em Cuba para conseguir convencer a ditadura dos Castros a libertar dezenas de presos políticos. Foi com o chanceler da Espanha, Miguel Angel Moratinos, que Raúl Castro conversou antes de decidir soltar 52 dissidentes, após mediação da Igreja Católica. Poucos detalhes emergiram desse processo, mas é lícito supor que o Brasil não teve participação significativa no desenlace da negociação, e isso mostra que o país talvez não seja a potência que seu governo julga ser.
O fato de o Brasil não ter tido influência num dos mais significativos gestos de abertura do regime cubano nos últimos anos contrasta com o discurso oficial corrente de que o país ganhou condições de mediar complexas questões internacionais. A chave do caso foi oferecida pela Espanha, que dominou Cuba por quatro séculos, quando era de se esperar que fosse dada pelo Brasil, que almeja ser líder regional e cujo atual presidente, além de tudo, é amigo de Fidel Castro.
Dado o histórico da relação de Lula com Cuba, porém, o desfecho não surpreende. Na última visita à ilha, Lula estava ao lado de Raúl quando o ditador negou a existência de presos políticos na ilha – esses mesmos que agora estão sendo soltos – e atribuiu a morte de um dissidente, por greve de fome, ao “terrorismo de Estado” dos EUA. O presidente brasileiro ficou impassível. Mais tarde, obrigado pelas constrangedoras circunstâncias a comentar o caso, Lula não deixou por menos: criticou a greve de fome como instrumento de pressão e comparou os presos políticos cubanos aos “bandidos que estão presos em São Paulo”. Para ele, era preciso “respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos” – mesmo que essa determinação significasse encarcerar opositores do regime.
Enquanto Lula estava fazendo “negócios” com o ditador da Guiné Equatorial, a diplomacia espanhola atuava de modo concreto para mudar alguma coisa na atmosfera de Havana – e o resultado disso é que EUA e União Europeia já sinalizaram que o gesto cubano foi considerado substancialmente significativo. O Brasil deixou escapar a chance de protagonizar algo histórico, entre outras razões porque Lula parece lidar com ditadores com deferência e pragmatismo excessivos – convém lembrar que, em 1979, o hoje presidente brasileiro disse à revista Playboy que admirava “a disposição, a força, a dedicação” de Adolf Hitler.
Foto: André Dusek/Agência Estado
Cuba, cujo regime de partido único prende e tortura dissidentes políticos e reprime a liberdade de expressão, acaba de ser eleita para a vice-presidência do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Em nota, o governo cubano celebrou: ”A eleição de Cuba para este importante cargo é um reconhecimento à exemplar execução e à obra da Revolução cubana a favor dos direitos humanos de seu povo e de todo o mundo”. Obviamente, as informações sobre violação de direitos humanos na ilha são atribuídas por Havana a uma “brutal campanha política anticubana na mídia”.
Em sua doce aposentadoria de tirano, Fidel Castro segue perpetrando “reflexões” sobre os acontecimentos. Mesmo que sejam rematadas asneiras, serão lidas com profunda reverência pelos saudosistas do Muro de Berlim e repetidas como doutrina religiosa fundamentalista. No último sermão, Fidel “refletiu” sobre as más intenções dos EUA contra a Coreia do Norte e o Irã, usando como eixo a Copa do Mundo. É imperdível, como peça de humor involuntário e como documento do nível de cretinice a que chega o contorcionismo retórico antiamericano, na boca de seu porta-voz mais caduco.
Há passagens particularmente delirantes. Na primeira, Fidel “reflete” sobre o afundamento da fragata sul-coreana Cheonan, em episódio que matou dezenas de marinheiros. Como se sabe, Seul acusou o governo norte-coreano, e uma investigação internacional concluiu que a acusação tinha fundamento. Para Fidel, contudo, vale mais a lenda urbana segundo a qual o navio foi afundado por uma mina americana. Isso mesmo: Fidel acredita que foram os EUA os responsáveis pelo incidente, com propósitos inconfessáveis. Vai na mesma linha da tese segundo a qual o homem não foi à Lua ou que os americanos (e judeus, claro) estão por trás do 11 de Setembro. Será inútil tentar contrapor o delírio de Fidel a qualquer forma de argumento factual. Nas próprias palavras do ditador de pijama, a versão de que foram os americanos que afundaram o navio sul-coreano é “coerente com o que aconteceu”. E, na cartilha antiamericana, como se sabe, os fatos são irrelevantes; basta a “coerência”.
O mesmo vale para as “intenções” dos EUA em relação ao Irã. Para Fidel, os americanos atuam para que Israel ataque os iranianos, porque Washington tem o “desejo ardente de varrer o governo nacionalista que dirige o Irã”. Pouco importam as gestões da Casa Branca para impedir que Israel faça uma besteira, e pouco importa que o tal “governo nacionalista que dirige o Irã” seja, na verdade, um regime teocrático messiânico que visa a estabelecer um domínio imperialista sobre o Oriente Médio. Para Fidel, e para aqueles que o idolatram, quanto mais primário o discurso, melhor –e isso significa colocar os EUA como pivô dos males do mundo. Todas essas “diabólicas notícias”, segundo Fidel, acontecem “entre um jogo e outro da Copa do Mundo”, de modo a que “ninguém se dê conta delas”. Perversos, esses americanos.
Mas o último delírio de Fidel em sua “reflexão” – e o mais imperdoável deles – é a afirmação segundo a qual Maradona é “o melhor jogador da história do futebol”.
O presidente Lula acha “precipitado” que se aceite o retorno de Honduras à comunidade internacional. Para ele, segundo seu porta-voz, reconhecer o governo de Porfírio Lobo agora seria “criar precedente perigoso para eventuais e futuros regimes de exceção” na América Latina.
Para lembrar: Porfírio Lobo foi eleito depois que Manuel Zelaya foi removido do poder por tentar mudar a Constituição, com a ajuda do venezuelano Hugo Chávez, para se perpetuar no poder. O governo Lula deu a isso o nome de “golpe”, apesar de Zelaya ter sido deposto segundo o que previa a Constituição. Honduras realizou então eleições, que já estavam marcadas, e Porfírio Lobo venceu, de forma limpa.
Nada disso parece emocionar Lula e seus assessores para questões internacionais. A tentativa de Honduras de retomar a normalidade institucional não é suficiente para que o governo brasileiro volte atrás de sua decisão.
O mesmo zelo, no entanto, não é observado quando se trata de Cuba, que não é um “futuro regime de exceção” na América Latina, mas sim uma antiqüíssima ditadura – que, no entanto, goza de profunda admiração de Lula. Enquanto as decisões internas em Honduras não são consideradas válidas pelo governo brasileiro, as decisões internas em Cuba – como perseguir dissidentes – são vistas como um problema exclusivamente cubano.
A posição do Brasil a respeito de Honduras não seria, afinal, tão controversa e estranha se, por outro lado, o governo Lula cobrasse da Cuba dos irmãos Castro e do Irã do “amigo” Ahmadinejad o mesmo respeito aos preceitos democráticos que diz defender com fervor no caso hondurenho. Parece, no entanto, que o conceito de democracia ganha inusitada flexibilidade, na política externa brasileira, quando se trata de preservar laços de seu interesse.
Lula andou espalhando por aí que foi convidado para ser secretário-geral da ONU. A pergunta é: como defensor de governos despóticos, Lula pode ocupar o cargo cuja atribuição, entre outras, é fomentar o respeito aos direitos humanos?
Em entrevista à Associated Press, o presidente brasileiro disse, a propósito dos presos políticos cubanos, que é preciso “respeitar a determinação da Justiça e do governo de Cuba”. Ou seja: se o regime tirânico de Havana atira nos porões quem ousa se opor a ele, isso não é problema nosso. Afinal, se a lei de Cuba manda prender opositores, quem é o governo brasileiro para questionar? A título de paralelo, o que diria Lula diante da prisão de milhares de militantes comunistas e social-democratas pelos nazistas nos primeiros anos de governo na Alemanha? Como foi tudo rigorosamente dentro da lei, Lula defenderia o respeito à decisão do regime de Hitler?
Num atentado aos valores democráticos, Lula declarou: “Gostaria que não ocorressem (detenções de presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os prendeu, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil”. Cuba certamente não tem o que questionar em relação aos presos no Brasil – afinal, são criminosos comuns, e lugar de criminoso comum, salvo melhor juízo, é na cadeia. Já os presos políticos cubanos estão detidos porque se recusam a aceitar um regime repressor e antidemocrático.
É obviamente um acinte comparar as duas situações, mas Lula fez exatamente isso: para ele, os presos políticos em Cuba estão na mesma categoria dos presos comuns no Brasil. Bastaria a Lula ter lido a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que está disponível no site de seu próprio governo e que foi violada quase na íntegra pela ditadura de Fidel e Raúl, para saber que cometeu um enorme despautério.
A comparação criminosa ficou evidente na sequência da entrevista, quando Lula afirmou, a respeito da greve de fome como instrumento de pressão usado pelos dissidentes cubanos: “Eu penso que a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem liberdade”.
Não são declarações adequadas a um postulante ao cargo de secretário-geral da ONU. Tampouco poderiam ter saído da boca de alguém cujo passado está tão ligado à luta contra a ditadura militar brasileira, regime cujo espírito não tem nenhuma diferença significativa em relação ao da tirania cubana. As palavras de Lula, que ofendem a inteligência e a causa da liberdade, são, no entanto, úteis: servem para ilustrar a espiral de hipocrisia em que mergulhou o outrora líder de um partido que se orgulhava de sua retidão de caráter e propósitos. Em nome de um projeto de poder irrefreável, os ideólogos do lulismo distorcem grosseiramente a realidade para justificar os crimes dos companheiros e para inventar um legado histórico que simplesmente não existe, salvo como mentira.
Diante disso, fica difícil saber o que Lula quer fazer de sua biografia.
O dissidente cubano Guillermo Fariñas, de 48 anos, ainda estava vivo nesta quarta-feira, dia 3. Ele é um veterano das greves de fome – fez 23 delas desde 1989, para protestar contra o governo dos alegres companheiros do presidente Lula. Na última delas, em 2006, pedia que a gerontocracia ditatorial cubana liberasse a internet para todos os moradores da ilha, informa o El País. Não conseguiu, claro, e esteve entre a vida e a morte. Agora, em nova greve de fome, Fariñas deseja chamar a atenção para o caso do dissidente Orlando Zapata, que morreu após também fazer greve de fome, em episódio que escancarou de vez o cinismo do governo Lula em relação aos direitos humanos.
Fariñas deu uma entrevista contundente ao El País:
Pergunta: Quais são seus objetivos com a greve?
Fariñas: Primeiro, que o governo pague um alto preço pelo assassinato de Zapata. Segundo, que as autoridades não sejam cruéis e desumanas e liberem imediatamente os presos políticos que estão doentes e que podem se converter em outros Zapatas. Terceiro, que, se eu morrer, o mundo perceba que o governo deixa morrer seus opositores e que o caso de Zapata não é isolado.
Pergunta: E se o governo não soltar os dissidentes?
Fariñas: Vou continuar (a greve) até as últimas conseqüências…
Pergunta: Você quer morrer?
Fariñas: Sim, quero morrer. Já está na hora de o mundo perceber que esse governo é cruel, e há momentos na história dos países em que é preciso haver mártires…
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