O governo americano descobriu que o programa nuclear norte-coreano domina uma tecnologia em estágio bem mais avançado do que se supunha – à frente do Irã, por exemplo.
Isso significa que as sanções contra a Coreia do Norte não funcionaram. Significa também que o desafio para os EUA, agora, é tentar impedir que os norte-coreanos vendam sua tecnologia a países do Oriente Médio.
Em meio à tensão renovada na fronteira entre as Coreias do Norte e do Sul, por conta de mais uma ação agressiva dos norte-coreanos, a pergunta óbvia é: haverá guerra?
Do lado sul-coreano, embora tenha considerável superioridade militar em relação ao hostil vizinho do norte, não há interesse em levar o caso às últimas conseqüências – sobretudo porque uma guerra seria custosa, num momento delicado da economia, e o inimigo dispõe de arsenal nuclear. Ademais, os EUA, cujo compromisso com a segurança sul-coreana foi reafirmado nesta terça-feira, certamente hesitarão em envolver-se em mais um confronto militar. A diplomacia de Obama para as Coreias seguirá sendo de “paciência estratégica” – que não inclui, por ora, a retomada do diálogo, porque Pyongyang quer ditar seus termos.
Do lado norte-coreano, seu isolamento internacional é motivo bastante razoável para não provocar uma escalada. Não há garantia nem mesmo de apoio aberto da China, seu único grande aliado, que tem sido bastante crítica em relação às atitudes de Pyongyang. É obvio que, para Pequim, não interessa permitir que seu aliado seja derrotado por forças pró-EUA, ampliando a presença ocidental em seu quintal. No limite, porém, se a Coreia do Norte resolver ir à guerra, deverá ter a seu lado uma China não inteiramente comprometida. Pequim prefere preservar a Coreia do Norte para uma desejável reunificação com o Sul.
À ditadura norte-coreana, por sua vez, interessa muito mais continuar demonstrando que pode agir de modo delinqüente sem ser punida de forma exemplar pelas potências mundiais – como quando recentemente afundou um navio sul-coreano, matando dezenas de marinheiros, ou quando se descobriu uma nova instalação nuclear na Coreia do Norte, em aberto desafio aos acordos que Pyongyang fez com a comunidade internacional. Com isso, Kim Jong-il exibe força externa e faz propaganda interna de seu poder, algo crucial no momento em que tenta consolidar o filho Kim Jong-un como sucessor – há quem diga que o ataque foi ordenado pelo rapazinho.
A guerra, portanto, parece não interessar a ninguém neste momento. No entanto, como bom-senso é produto raro acima do paralelo 38 na Península da Coreia, um desastre pode afinal acontecer, porque o grau de previsibilidade das atitudes de Pyongyang é cada vez menor.
Entrevistas da Anistia Internacional com cerca de 40 norte-coreanos que fugiram nos últimos seis meses mostra um cenário de horror na Coreia do Norte. Há relatos de amputações e outras cirurgias sem anestesia, além da falta de material hospitalar esterilizado e limpo, como seringas e lençóis.
Um jovem conta como teve a perna amputada sem anestesia depois de um acidente de trem: “Cinco enfermeiros seguraram minhas pernas e meus braços para evitar que eu me mexesse. Eu estava com tanta dor que acabei desmaiando”.
Uma mulher de 56 anos relata como teve seu apêndice removido também sem anestesia, que estava em falta no hospital: “A operação levou cerca de uma hora e dez minutos. Eu gritava tanto por causa da dor, pensei que fosse morrer. Eles haviam amarrado minhas mãos e meus pés para evitar que eu me movesse”.
A ditadura norte-coreana se orgulha de dizer que fornece saúde de graça para toda a população. Mas, a julgar pelo relatório da Anistia, essa é mais uma entre tantas mentiras do regime. Um jovem de 19 anos conta: “Na Coreia do Norte, quem não tem dinheiro não recebe tratamento médico adequado. Médicos e enfermeiras tratam melhor quem lhes dá garrafas de bebida ou cigarros”.
Enquanto isso, o governo de Kim Jong-il, chamado de “Querido Líder”, empenha-se em construir um arsenal nuclear e em matar os norte-coreanos de fome, em franco desafio à comunidade internacional. Apenas uns poucos países não se constrangem em ter “relações normais” com a Coreia do Norte. O Brasil é um deles.
Em sua doce aposentadoria de tirano, Fidel Castro segue perpetrando “reflexões” sobre os acontecimentos. Mesmo que sejam rematadas asneiras, serão lidas com profunda reverência pelos saudosistas do Muro de Berlim e repetidas como doutrina religiosa fundamentalista. No último sermão, Fidel “refletiu” sobre as más intenções dos EUA contra a Coreia do Norte e o Irã, usando como eixo a Copa do Mundo. É imperdível, como peça de humor involuntário e como documento do nível de cretinice a que chega o contorcionismo retórico antiamericano, na boca de seu porta-voz mais caduco.
Há passagens particularmente delirantes. Na primeira, Fidel “reflete” sobre o afundamento da fragata sul-coreana Cheonan, em episódio que matou dezenas de marinheiros. Como se sabe, Seul acusou o governo norte-coreano, e uma investigação internacional concluiu que a acusação tinha fundamento. Para Fidel, contudo, vale mais a lenda urbana segundo a qual o navio foi afundado por uma mina americana. Isso mesmo: Fidel acredita que foram os EUA os responsáveis pelo incidente, com propósitos inconfessáveis. Vai na mesma linha da tese segundo a qual o homem não foi à Lua ou que os americanos (e judeus, claro) estão por trás do 11 de Setembro. Será inútil tentar contrapor o delírio de Fidel a qualquer forma de argumento factual. Nas próprias palavras do ditador de pijama, a versão de que foram os americanos que afundaram o navio sul-coreano é “coerente com o que aconteceu”. E, na cartilha antiamericana, como se sabe, os fatos são irrelevantes; basta a “coerência”.
O mesmo vale para as “intenções” dos EUA em relação ao Irã. Para Fidel, os americanos atuam para que Israel ataque os iranianos, porque Washington tem o “desejo ardente de varrer o governo nacionalista que dirige o Irã”. Pouco importam as gestões da Casa Branca para impedir que Israel faça uma besteira, e pouco importa que o tal “governo nacionalista que dirige o Irã” seja, na verdade, um regime teocrático messiânico que visa a estabelecer um domínio imperialista sobre o Oriente Médio. Para Fidel, e para aqueles que o idolatram, quanto mais primário o discurso, melhor –e isso significa colocar os EUA como pivô dos males do mundo. Todas essas “diabólicas notícias”, segundo Fidel, acontecem “entre um jogo e outro da Copa do Mundo”, de modo a que “ninguém se dê conta delas”. Perversos, esses americanos.
Mas o último delírio de Fidel em sua “reflexão” – e o mais imperdoável deles – é a afirmação segundo a qual Maradona é “o melhor jogador da história do futebol”.
O ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, mandou capturar casais de elefantes, girafas, rinocerontes e outros animais selvagens para dar de presente à Coreia do Norte. A ideia dessa moderna “Arca de Noé” é homenagear um aliado incondicional do regime zimbabuano – cuja tirania precisa desesperadamente de seus poucos amigos, como Hugo Chávez.
Para entidades ambientalistas, muitos animais correm o risco de morrer na viagem, ou então serão devorados pelo ditador Kim Jong-il e seus burocratas amestrados, como já aconteceu no passado com presentes semelhantes.
Foi o segundo gesto carinhoso recente de Mugabe a Kim. O primeiro foi o convite para abrigar a seleção da Coreia do Norte até a Copa do Mundo. Tudo porque Mugabe é grato aos norte-coreanos, que treinaram e equiparam os soldados do ditador há 30 anos, quando eles massacraram 20 mil pessoas que ousaram se opor ao regime.
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