O xeque Yousef Al-Qaradhawi, chefe da União Internacional dos Estudiosos Muçulmanos, considerou a escolha do Qatar para sediar a Copa do Mundo de 2022, em detrimento dos EUA, como uma vitória do islã sobre os americanos.
Em sermão transmitido pela TV catariana, Al-Qaradhawi afirmou que pediu a Deus que eliminasse os EUA da disputa e que o Qatar vencesse. “Foi a primeira vez que o Qatar derrotou a América em alguma coisa”, declarou.
O xeque negou que seu país tenha comprado votos e criticou o presidente americano, Barack Obama, por ter dito que a escolha do Qatar havia sido uma “decisão errada” da Fifa. “Isso demonstra que a América quer o monopólio de tudo. Essas pessoas são as mais arrogantes da face da Terra. Eles se recusam a permitir que nós tenhamos algo. Querem ter o monopólio da política, o monopólio sobre a economia, o monopólio sobre as armas, o monopólio sobre futebol e outros esportes, o monopólio sobre tudo, sem nos deixar qualquer coisa, como se não fizéssemos parte deste mundo.”
A escolha da Rússia para sediar a Copa de 2018 não é necessariamente uma surpresa. Embora não tenham se classificado para a última Copa, os russos têm razoável tradição e estão entre as 15 melhores seleções do mundo, segundo o ranking da Fifa. Além disso, o país, ex-superpotência, tem disposição (e um governo suficientemente autoritário) para superar as evidentes deficiências de infra-estrutura e fazer um bom torneio.
Já a escolha do Qatar para 2022 é um mistério. Nem é o caso de lembrar que a temperatura por lá é de incomodar beduínos – isso se resolve, segundo os catarianos, com ar-condicionado nos estádios. Mais adequado é falar de sua população – somente 1,5 milhão de pessoas. É como se a Fifa tivesse decidido fazer a Copa em Campinas e, de uma hora para outra, a cidade tivesse de erguer 12 estádios – que, no caso do emirado, serão quase totalmente inúteis depois do torneio, porque lá existem apenas 10 times de futebol na primeira divisão.
Poderíamos pensar que o Qatar foi escolhido por representar um contraponto à candidatura dos EUA, mas o emirado foi apoiado por países que não nutrem nenhum sentimento especial contra os americanos. Um argumento possível é o de que o Qatar funcionaria como sede para a “Copa do Oriente Médio”, atraindo, portanto, as atenções de 350 milhões de pessoas, uma população equivalente à dos EUA. No entanto, o Qatar pode não ser o país adequado para representar o Oriente Médio, se a intenção for fazer relações públicas; afinal, o país é uma ditadura feroz, cujo emir derrubou o próprio pai num golpe sangrento e que segue o script clássico: não permite liberdade de imprensa, encarcera homossexuais, reprime mulheres e faz vista grossa ao tráfico humano.
Resta a hipótese de que o Qatar comprou a Copa de 2022. Não há como provar isso, mas, diante da ausência de uma explicação melhor, a corrupção passa a ser pelo menos plausível.
Há quem diga, porém, que os vencedores mesmo foram os países que perderam a disputa. No New York Times, o economista Dennis Coates argumenta que a Copa do Mundo vale muito menos do que é oferecido por ela.
“Os economistas e os especialistas em políticas públicas estudaram o impacto de grandes eventos esportivos, como Copa e Olimpíada, e as evidências mostram que há muito pouco benefício econômico para os anfitriões desses eventos. Os lucros não crescem tão rápido, a expansão do emprego não se verifica e os governos não obtêm aumento significativo na arrecadação de impostos. Em outras palavras, o valor econômico de organizar uma Copa ou uma Olimpíada não é especialmente grande”, escreveu Coates.
Para Paul Rhys, da Al Jazeera, a decisão da Fifa foi “corajosa”; para Coates, é simplesmente uma “maldição”.
Depois de infernizarem o mundo durante a Copa da África do Sul, as vuvuzelas estão de volta. Agora, elas animam passeatas de funcionários públicos sul-africanos, em greve há mais de uma semana.
“Nós nos comportamos bem durante a Copa. Agora dêem-nos 8,6%”, diziam cartazes carregados por enfermeiras grevistas, em referência ao reajuste salarial pedido.
Segundo a Agência Brasil, há risco de colapso no atendimento médico, razão pela qual militares foram deslocados para o serviço emergencial. O problema é que os militares também podem aderir à greve.
A eliminação precoce do Brasil na Copa deflagrou uma onda de “reflexão” sobre o legado do “dunguismo”, sistema de pensamento segundo o qual o resultado é mais importante do que os princípios – algo semelhante ao lulismo. Mas nenhuma discussão resume melhor esse legado do que a imagem que vi hoje ao vir para o Estadão. No caminho para o jornal há uma favela, e no bar de lá vi um morador com a camisa da Argentina. A cena era impensável desde os tempos da “Batalha de Buenos Aires”, em 1937, quando Brasil e Argentina se descobriram como inimigos mortais. Para lembrar: até aquele ano, brasileiros e argentinos disputavam jogos marcados pela cordialidade; mas o Sul-Americano de 1937 opôs as duas seleções na final, e o time do Brasil, imbuído de inédito furor cívico, queria vingar a violência e as provocações da Argentina, que incluíam xingar os brasileiros de “macaquitos”. A Argentina venceu, e cada jogo entre os dois países, dali em diante, se tornou oportunidade para vingança, sem falar do prazer de ver o maior inimigo ser derrotado até em campeonato de bocha.
O que então levou esse brasileiro típico a vestir a camisa do grande rival do Brasil? Tenho um palpite: a Argentina jogou nesta Copa um futebol muito bonito, que encantou mesmo os brasileiros. O time de Maradona foi eliminado, mas certamente seus torcedores – e seus improváveis admiradores – ficaram muito mais satisfeitos do que os torcedores brasileiros, que engoliram a violência dos “guerreiros” de Dunga em troca de uma vitória que afinal nem veio. Diante da pobreza burocrática atual do futebol brasileiro e da insistência argentina em jogar para o espetáculo, é provável que invejemos cada vez mais a Argentina – coisa que faria Ary Barroso, o locutor símbolo da “batalha de Buenos Aires”, rolar no túmulo.
A Holanda derrotou o Brasil usando uma arma tipicamente brasileira: a malandragem. Seus jogadores, em especial Robben, provocaram os tensos adversários ao transformar cada falta sofrida num teatro de segunda categoria, diante do olhar complacente do árbitro japonês Yuichi Nishimura. Robinho, de quem se esperava justamente a malícia que sobrou aos holandeses, foi o retrato do descontrole emocional, ao perder mais tempo reclamando da fita dos laranjas do que jogando bola.
E ainda tivemos Felipe Melo, que no segundo tempo confirmou a crônica de uma expulsão anunciada. Se no início do jogo, com o passe milimétrico que deu a Robinho para fazer o gol brasileiro, Melo surpreendeu seus críticos, na etapa final ele tratou de desfazer a ilusão de que enfim havia se tornado um bom jogador.
A seleção brasileira, disciplinada e “fechada”, como prescreve o dunguismo, parece ter deixado o futebol autêntico em segundo plano. E o futebol, como sabe quase todo brasileiro, não se resume a um jogo; é também um modo de confirmar a vocação do Brasil para a improvável aliança entre o individual e o coletivo, entre o malandro e o esquema tático, entre o “jeitinho” e as obrigações sociais. Na didática derrota para a Holanda, aprendemos que, com o dunguismo, a seleção deixou de ser essa representação, que nossos melhores jogadores parecem ter esquecido aquilo que Gilberto Freyre identificou, no futebol brasileiro, como o “conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia e, ao mesmo tempo, de espontaneidade individual”.
Numa Copa em que a Alemanha jogou um futebol mais “brasileiro” que o Brasil, é o caso de refletir sobre o que fizemos do nosso maior patrimônio cultural.
Oliver Haydock, jornalista do New York Observer, publicou no blog Huffington Post uma contundente crítica à seleção brasileira de futebol. Segundo ele, quem gosta mesmo de futebol deve torcer conta o Brasil nesta sexta-feira, porque, em resumo, o técnico Dunga matou o estilo de jogo ofensivo que quase sempre caracterizou os brasileiros e encantou o mundo.
“Não tenham dúvidas de que muitos fãs de futebol torcerão firmemente pela Holanda (contra o Brasil). Celebrar esse time brasileiro atual é o mesmo que torcer por uma Itália, e nenhum amante do futebol cometeria ato tão blasfemo.”
Sean Gregory, colunista da revista Time, escreve entusiasmada análise sobre o desempenho da seleção dos EUA na Copa – o time acaba de se classificar num surpreendente primeiro lugar na chave que tinha os favoritos ingleses.
O texto diz que “nunca tantos americanos assistiram futebol e se interessaram tanto pelo esporte” e que, enfim, “este pode ser o ponto de virada da história do futebol nos EUA”.
A pergunta feita no título da coluna – “Os EUA podem ganhar a coisa toda?” – dá ideia do quão alto voa o “sonho americano” no soccer.
Os “Bleus”, como é conhecida a seleção da França, estão protagonizando um episódio que tem tudo para ser histórico. A coisa é, aparentemente, simples: o esquentadinho atacante Anelka despejou um caminhão de insultos sobre o técnico Raymond Domenech ao ser substituído na derrota para o México; como resultado, foi desligado da delegação. O problema é que a decisão de afastar Anelka gerou uma onda rebelde na seleção francesa que ainda não é possível mensurar. É um caso inédito em Copas e que nos leva a uma reflexão sobre a tensão entre o que querem os jogadores de futebol e o que se espera deles, em meio a pressões multibilionárias e nacionalistas.
As seleções de futebol são, em tese, a reunião dos mais capazes para representar o país em torneios internacionais que muito se assemelham a “guerras”. A maioria dos jogadores das seleções mais competitivas, porém, não atua em seu país, ou então ganha dinheiro demais para se incomodar de verdade com questões como “amor à pátria”. Quando muito, eles se adaptam à estratégia de marketing que envolve as seleções e as obriga a incorporar o ufanismo como algo natural, mesmo que os atletas nem remotamente sejam os soldados que esse discurso procura criar. O patriotismo vira produto, como prova o “guerreiro” Dunga no comercial de cerveja.
Quando um jogador revolve dizer “não”, quando decide romper a estrutura e questionar as decisões do comandante dos “guerreiros”, como fizeram Anelka e alguns de seus companheiros, a suposta “unidade nacional” se prova uma fraude. Para os jogadores de futebol, há questões tão ou mais importantes que “pátria”. Solidariedade é uma delas.
Mas até o governo francês apelou ao sentimentalismo barato e à crucificação dos rebeldes, ao dizer que o caso Anelka ameaçava se transformar num “desastre moral”. “É a imagem da França que está sendo manchada”, disse a ministra dos Esportes, Roselyne Bachelot, como se o caráter de todo um país pudesse ser medido pelos atos de um punhado de jogadores de futebol.
Em sua doce aposentadoria de tirano, Fidel Castro segue perpetrando “reflexões” sobre os acontecimentos. Mesmo que sejam rematadas asneiras, serão lidas com profunda reverência pelos saudosistas do Muro de Berlim e repetidas como doutrina religiosa fundamentalista. No último sermão, Fidel “refletiu” sobre as más intenções dos EUA contra a Coreia do Norte e o Irã, usando como eixo a Copa do Mundo. É imperdível, como peça de humor involuntário e como documento do nível de cretinice a que chega o contorcionismo retórico antiamericano, na boca de seu porta-voz mais caduco.
Há passagens particularmente delirantes. Na primeira, Fidel “reflete” sobre o afundamento da fragata sul-coreana Cheonan, em episódio que matou dezenas de marinheiros. Como se sabe, Seul acusou o governo norte-coreano, e uma investigação internacional concluiu que a acusação tinha fundamento. Para Fidel, contudo, vale mais a lenda urbana segundo a qual o navio foi afundado por uma mina americana. Isso mesmo: Fidel acredita que foram os EUA os responsáveis pelo incidente, com propósitos inconfessáveis. Vai na mesma linha da tese segundo a qual o homem não foi à Lua ou que os americanos (e judeus, claro) estão por trás do 11 de Setembro. Será inútil tentar contrapor o delírio de Fidel a qualquer forma de argumento factual. Nas próprias palavras do ditador de pijama, a versão de que foram os americanos que afundaram o navio sul-coreano é “coerente com o que aconteceu”. E, na cartilha antiamericana, como se sabe, os fatos são irrelevantes; basta a “coerência”.
O mesmo vale para as “intenções” dos EUA em relação ao Irã. Para Fidel, os americanos atuam para que Israel ataque os iranianos, porque Washington tem o “desejo ardente de varrer o governo nacionalista que dirige o Irã”. Pouco importam as gestões da Casa Branca para impedir que Israel faça uma besteira, e pouco importa que o tal “governo nacionalista que dirige o Irã” seja, na verdade, um regime teocrático messiânico que visa a estabelecer um domínio imperialista sobre o Oriente Médio. Para Fidel, e para aqueles que o idolatram, quanto mais primário o discurso, melhor –e isso significa colocar os EUA como pivô dos males do mundo. Todas essas “diabólicas notícias”, segundo Fidel, acontecem “entre um jogo e outro da Copa do Mundo”, de modo a que “ninguém se dê conta delas”. Perversos, esses americanos.
Mas o último delírio de Fidel em sua “reflexão” – e o mais imperdoável deles – é a afirmação segundo a qual Maradona é “o melhor jogador da história do futebol”.
Se há uma unanimidade nesta Copa, é a chateação por causa da vuvuzela. A imprensa em geral, porém, lida com o assunto como se estivesse pisando em ovos – afinal, dizem os antropólogos de boteco, trata-se de um “traço cultural” sul-africano e, portanto, deve ser liberado sem restrições na Copa dos sul-africanos.
A tal corneta, quando tocada por milhares de pessoas ao mesmo tempo, gera o som de um enxame de abelhas, monocórdio e entediante. Não se ouve a torcida propriamente dita, que é parte essencial da emoção do jogo. Partidas que já são monótonas se transformam em suplício; por outro lado, quando há tensão, que normalmente se traduz em silêncios ou em urros dos torcedores, tudo isso fica em segundo plano e não se nota a diferença entre um chute na trave e uma cobrança de lateral. Na feliz definição de Marcos Augusto Gonçalves na Folha, a vuvuzela é uma expressão totalitária, porque iguala tudo.
Falar disso, porém, é correr o risco de ferir os códigos do politicamente correto – afinal, a vuvuzela deve ser preservada em nome da tal “diversidade”, mesmo que o mundo inteiro se aborreça com isso.
2012
2011
2010
2009
2008