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Marcos Guterman

Será curioso acompanhar como atuará a diplomacia brasileira diante da nova crise entre Venezuela e Colômbia. O Brasil de Lula, que se julgou capaz de interferir no complexo tema do impasse nuclear iraniano e que se ofereceu como mediador no distante problema israelo-palestino, tem agora a oportunidade de atuar em seu próprio “quintal” e provar a força dissuasória que imagina ter.

Já é possível antecipar, porém, que a diplomacia brasileira terá alguma dificuldade. Em primeiro lugar, porque não conseguiu agir decisivamente em nenhuma das outras oportunidades em que Colômbia e Venezuela se estranharam – aliás, é possível dizer que a atual crise nada mais é do que uma extensão das anteriores.

A segunda dificuldade, porém, é mais grave. Diz respeito ao alinhamento do Brasil ao chavismo, manifestado mais claramente por conta de sua atuação desastrosa na recente crise de Honduras. Embora esse alinhamento seja mais discreto do que Chávez gostaria que fosse, o fato é que ele existe e, no frigir dos ovos, pode transformar o Brasil em suspeito aos olhos colombianos, reduzindo consideravelmente sua capacidade de mediação.

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O presidente da Venezuela, que é um verdadeiro democrata e um exemplar chefe de Estado, tornou a emitir sua opinião sobre as eleições alheias. Depois de manifestar “de coração” sua preferência pela petista Dilma Rousseff na disputa ao Planalto, Chávez declarou que o candidato à Presidência da Colômbia Juan Manuel Santos “é um perigo para a paz”. Santos é apoiado pelo atual presidente colombiano, Alvaro Uribe, que Chávez ama odiar.

“Se Santos for presidente da Colômbia, eu não o receberei aqui e será bastante difícil, quase impossível, que tenhamos relações com uma pessoa como ele”, declarou Chávez, sem medo de ser feliz.

Os simpatizantes de Chávez certamente encontrarão boas razões para justificar a atitude do venezuelano – que já emprestou sua descarada “solidariedade eleitoral” a Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Daniel Ortega na Nicarágua e Manuel Zelaya em Honduras.

É possível imaginar, no entanto, o que diriam esses militantes da causa chavista se o presidente dos EUA, Barack Obama, decidisse deixar de lado a civilidade política e manifestasse apoio “de coração” a José Serra, dizendo que, se Dilma ganhasse a eleição, ele não a receberia.

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A Cúpula de Cancún, por suposto, deveria coroar a formação de um novo bloco diplomático entre os países da América Latina e do Caribe para fazer contraponto à OEA e sua liderança americana. Pode até dar certo no futuro, mas os sinais atuais indicam diferenças irreconciliáveis entre pelo menos dois integrantes dessa “OEA do B”: Venezuela e Colômbia. Pois os presidentes desses dois países protagonizaram um vexame na cúpula.

O venezuelano Hugo Chávez e o colombiano Álvaro Uribe trocaram xingamentos durante reunião fechada entre os chefes de Estado. Segundo relatos de diplomatas, Chávez acusou Uribe de planejar seu assassinato, ao que Uribe respondeu: “Seja homem! Você é corajoso falando à distância, mas um covarde quando estamos cara a cara!”. Chávez, então, mandou: “Vá para o inferno!”.

Em meio ao tumulto, o presidente de Cuba, quem diria, tentou acalmar os ânimos: “Como é possível brigarmos numa cúpula cuja intenção é unir os países latino-americanos?”, perguntou um atônito Raúl Castro.

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