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Marcos Guterman

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou a concessão do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo. Para o líder da revolução rumo ao socialismo do século 21, Liu – que defende a mudança pacífica de regime político na China – é um “contrarrevolucionário” que não merecia ter sido laureado.

“Esse (Liu) é como Obama, o outro prêmio da paz”, disse Chávez, referindo-se ao presidente americano, que ganhou o Nobel apesar de seu país estar em duas guerras. A reação chavista foi motivada pela manifestação de opositores venezuelanos, que, em nota, pediram a libertação de Liu. Chávez os qualificou de “lacaios” do Ocidente. “São piores do que os ianques”, declarou, para, em seguida, expressar suas “saudações e solidariedade ao governo da República Popular da China”. “Viva China! E sua soberania, sua independência e sua grandeza”, bradou.

As declarações de Chávez têm de ser entendidas no contexto do crescente investimento chinês na Venezuela. Por causa dos negócios, o presidente venezuelano, que enfrenta séria crise econômica graças a sua péssima administração, não vê nenhum problema em criticar um pacifista e elogiar o regime ditatorial contra o qual esse pacifista luta.

Nesse ponto, Chávez é pelo menos mais autêntico do que o presidente Lula, que não se manifestou acerca da premiação a Liu – ao contrário do que fizeram os governos de países importantes, que pediram a libertação do dissidente. Também por interesses econômicos e por uma inexplicável estratégia de alinhar-se a ditaduras, Lula, como bem lembrou Clóvis Rossi em artigo na Folha, optou mais uma vez por um silêncio covarde.

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O governo cubano anunciou a demissão de 500 mil servidores públicos, o equivalente a 10% da força de trabalho total da ilha. Ao mesmo tempo, serão reduzidas as restrições à iniciativa privada, justamente para absorver toda essa turma de barnabés. Segundo Havana, o objetivo da medida é tornar a economia mais eficiente – uma semana depois de Fidel Castro ter declarado que o modelo cubano “não funciona mais nem para Cuba”.

Enquanto isso, a Venezuela de Hugo Chávez, discípulo mais fiel de Fidel, continua estatizando avidamente o país. E o Brasil de Lula e Dilma aposta cada vez mais no Estado como agente econômico. Como a revolucionária Cuba está mostrando, e a Venezuela chavista já sabe bem, esse modelo tem fôlego curto, porque os recursos que deveriam ser investidos em infra-estrutura são drenados para custear a gigantesca máquina pública. Sem esses investimentos, não é possível sustentar o crescimento econômico no longo prazo.

Talvez a experiência do aposentado Fidel tenha mais a ensinar do que as habituais bravatas sobre os males do liberalismo econômico.

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“A carga tributária do Brasil em relação ao PIB é a maior do hemisfério ocidental. E adivinhe só: o país está crescendo à beça. Os ricos estão ficando cada vez mais ricos, mas eles estão tirando as pessoas da pobreza. Há uma certa fórmula que costumava funcionar conosco e nós abandonamos – para nossa lástima, em minha opinião. Do meu ponto de vista, muitos países deviam aumentar sua arrecadação de impostos.”

HILLARY CLINTON, durante seminário no Brookings Institution. A secretária de Estado dos EUA ressaltou que falava em seu nome, e não em nome do governo.

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O presidente Lula, que não consegue nem fechar acordo com o PMDB para reforçar a candidatura de Dilma “Mandela” Rousseff, acha que está muito perto de um acerto com o Irã. “Noventa e nove por cento”, para ser mais exato.

Já os adultos estão um pouco mais céticos. Em Moscou, durante a visita de Lula, o presidente russo, Dmitri Medvedev, calculou as chances do brasileiro em 30%. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, aproveitou a deixa para ironizar, dizendo que a enorme diferença de perspectiva entre Lula e Medvedev “ilustra o tamanho da montanha que os brasileiros estão tentando escalar”.

O Irã não é o PMDB, claro. Os peemedebistas, como de hábito, estão apenas barganhando e, no final, adotarão o apoio ambíguo de sempre. Já o regime iraniano tem convicções muito firmes e objetivas, contra os EUA, Israel e o resto do Ocidente. Teerã receberá Lula com rapapés e salamaleques que servirão para adular um dos poucos aliados que lhe restaram no mundo; na realidade, porém, o que o Irã está fazendo é explorar o apoio brasileiro para mostrar que não está isolado como as nações responsáveis gostariam e para ganhar tempo. Não há hipótese de colaboração real do Irã, nem mesmo com todo o charme de um dos “líderes mais influentes do mundo”.

Como até as paredes da ONU sabem, só restam as sanções – que, não custa lembrar, fazem parte do arsenal de ações diplomáticas absolutamente legítimas.

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Dilma Rousseff, incapaz de discursar de improviso, já teve de usar anotações até para bradar “viva o PR”, durante evento em que o Partido da República sacramentou seu apoio à presidenciável do PT. É possível imaginar como seria sua campanha sem muletas tecnológicas, como o teleponto? Sim, é possível: basta ver o vídeo abaixo, da campanha do insosso Calvin Coolidge à Presidência dos EUA, em 1924.

Em tempo: Coolidge ganhou a eleição.

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O caso do pedreiro Adimar Jesus da Silva, assassino confesso de seis jovens que foi encontrado morto dentro da cela, é exemplar da perversa informalidade brasileira.

Aqui, o racismo não é, por exemplo, como foi na África do Sul, aplicado como política oficial. Aqui, os brasileiros, felizes por sua “convivência racial”, excluem os negros de quase tudo, salvo dos campos de futebol e da arte popular. O racismo é disfarçado pelo “valor” que os negros obtêm como artistas, por causa do uso de seu corpo e de sua musicalidade, como seres exóticos, que lembram a ancestralidade hominídea, animal. Estão muito longe de ter influência como os brancos intelectuais, empresários e políticos, pessoas em quem confiamos os destinos do país. Quem precisa de apartheid, afinal?

Do mesmo modo, aqui a pena de morte não existe no Código Penal. Formalmente, consideramos uma estupidez jurídica tirar a vida de um condenado. Na prática, porém, como mostrou o caso de Adimar, a pena de morte existe e é aplicada sem que cause comoção – pelo contrário, o país sabia que Adimar morreria na cadeia e, para muitos, ele merecia morrer. Quem precisa de pena de morte, afinal?

Antes de se enforcar na prisão, contudo, o pedreiro passou por um meticuloso processo de animalização. A cela em que ele estava só tem equivalente nas antigas senzalas. Foi colocado lá por ter cometido crimes que chocaram o país – ou seja, a “Justiça” referendou a barbárie como resposta à barbárie, alimentando um ciclo de desumanização de pessoas que simplesmente não interessam mais, se é que algum dia interessaram. Gente como o pedreiro Adimar pode ser aniquilada sem que a “civilização” se abale por causa disso. Pelo contrário: cumprem-se dois objetivos: o primeiro, claro, é a vingança; o segundo, menos óbvio, é que, ao varrer o criminoso para debaixo do tapete, encontramos uma forma de neutralizar a responsabilidade da sociedade por tê-lo produzido.

Dar condições mínimas de dignidade aos presos significaria tratá-los como seres humanos – isto é, como pessoas iguais a nós. Reduzir os presos a animais, por outro lado, transforma o próprio Estado em criminoso e colabora com a crescente sensação de descartabilidade, típica de sociedades doentes.

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Animado com o formidável protagonismo de Lula no cenário internacional, o vice-presidente da República, José Alencar, também resolveu dar seu pitaco. E não deixou por menos: ele afirmou que o Irã tem o direito de ter armas nucleares. Segundo ele, essas armas teriam “fins pacíficos”, já que seriam “para dissuasão”.

Talvez sem perceber, nosso vice-presidente deu uma ideia genial: segundo sua lógica, se todos no mundo tiverem armas nucleares, as guerras simplesmente acabariam, uma vez que todos teriam o tal “poder de dissuasão”.

Não é brilhante?

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Acaba de ficar claro, se é que alguém era suficientemente ingênuo para crer no contrário, que o Brasil não tem a menor condição de exercer alguma influência sobre o Irã. Ficou-se sabendo nesta quarta que Rússia e China pediram que Teerã aceitasse o acordo com a ONU sobre seu projeto nuclear – que, na prática, o impediria de ter um arsenal atômico. Mas o regime iraniano ignorou solenemente a pressão.

Ora, se China e Rússia não conseguem convencer o Irã a colaborar, o que faz o presidente Lula pensar que o Brasil conseguirá? Em uma palavra: megalomania.

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A visita de Lula a Israel é histórica, por ser a primeira de um presidente brasileiro. O evento tem ainda mais importância porque seu protagonista é Lula – sempre criticado por sua suposta posição excessivamente pró-árabe e pró-Irã na questão do Oriente Médio. Sob sua Presidência e com seu aval, Israel deverá se tornar o primeiro país fora da América Latina a se integrar ao Mercosul. Assim, Lula dá sinais de uma enorme boa vontade com relação a Israel, como poucas vezes se viu no governo de seus antecessores. Nada disso, porém, muda o fato de que a visita de Lula é inútil e, pior, ingênua.

Não se trata de levar a sério a reação ridícula e oportunista do chanceler israelense, Avigdor Lierberman, à decisão da comitiva de Lula de não colocar flores no túmulo de Teodor Herzl, fundador do movimento sionista. O compromisso, que Israel tentou incorporar de última hora na programação de Lula, é uma prática protocolar para representantes estrangeiros que foi retomada somente na semana passada – o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, foi o primeiro a colocar flores no túmulo. Com razão, o Itamaraty considerou que Lula não tinha de prestar a homenagem, já que outros chefes de Estado não foram obrigados a fazê-lo no passado. Mas, como Lula vai homenagear o líder palestino Yasser Arafat, colocando flores em seu túmulo, Lieberman viu nisso uma oportunidade de exercitar aquilo que faz melhor: a grosseria diplomática. Mandou dizer que boicotaria a visita de Lula.

A cretinice de Lieberman, contudo, não é o principal sinal do fracasso da visita de Lula, embora tenha o potencial de roubar as manchetes. O principal sinal foi a demonstração de união nacional israelense em torno da necessidade de conter o Irã e seus óbvios planos de construir um arsenal nuclear. Inimigos políticos figadais deixaram de lado suas diferenças para demonstrar a Lula, e a quem pretenda convencer Israel a considerar o Irã um “parceiro de diálogo”, que o esforço é inútil. Como disse o presidente Shimon Peres, trata-se de enfrentar um regime que quer a destruição de Israel. Nesse aspecto, não cabe negociar nada.

Assim, se Lula pretendia usar a visita a Israel como prova de suas credenciais de estadista, capaz de mediar intrincados conflitos internacionais, transformando o Brasil em ator pleno no concerto geopolítico, o fracasso foi retumbante. Pena que, em razão da megalomania dos assessores de Lula para assuntos internacionais, o governo brasileiro continuará acreditando que só o carisma do “cara” basta para fazer o mundo se dar as mãos.

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Lula andou espalhando por aí que foi convidado para ser secretário-geral da ONU. A pergunta é: como defensor de governos despóticos, Lula pode ocupar o cargo cuja atribuição, entre outras, é fomentar o respeito aos direitos humanos?

Em entrevista à Associated Press, o presidente brasileiro disse, a propósito dos presos políticos cubanos, que é preciso “respeitar a determinação da Justiça e do governo de Cuba”. Ou seja: se o regime tirânico de Havana atira nos porões quem ousa se opor a ele, isso não é problema nosso. Afinal, se a lei de Cuba manda prender opositores, quem é o governo brasileiro para questionar? A título de paralelo, o que diria Lula diante da prisão de milhares de militantes comunistas e social-democratas pelos nazistas nos primeiros anos de governo na Alemanha? Como foi tudo rigorosamente dentro da lei, Lula defenderia o respeito à decisão do regime de Hitler?

Num atentado aos valores democráticos, Lula declarou: “Gostaria que não ocorressem (detenções de presos políticos), mas não posso questionar as razões pelas quais Cuba os prendeu, como tampouco quero que Cuba questione as razões pelas quais há pessoas presas no Brasil”. Cuba certamente não tem o que questionar em relação aos presos no Brasil – afinal, são criminosos comuns, e lugar de criminoso comum, salvo melhor juízo, é na cadeia. Já os presos políticos cubanos estão detidos porque se recusam a aceitar um regime repressor e antidemocrático.

É obviamente um acinte comparar as duas situações, mas Lula fez exatamente isso: para ele, os presos políticos em Cuba estão na mesma categoria dos presos comuns no Brasil. Bastaria a Lula ter lido a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que está disponível no site de seu próprio governo e que foi violada quase na íntegra pela ditadura de Fidel e Raúl, para saber que cometeu um enorme despautério.

A comparação criminosa ficou evidente na sequência da entrevista, quando Lula afirmou, a respeito da greve de fome como instrumento de pressão usado pelos dissidentes cubanos: “Eu penso que a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem liberdade”.

Não são declarações adequadas a um postulante ao cargo de secretário-geral da ONU. Tampouco poderiam ter saído da boca de alguém cujo passado está tão ligado à luta contra a ditadura militar brasileira, regime cujo espírito não tem nenhuma diferença significativa em relação ao da tirania cubana. As palavras de Lula, que ofendem a inteligência e a causa da liberdade, são, no entanto, úteis: servem para ilustrar a espiral de hipocrisia em que mergulhou o outrora líder de um partido que se orgulhava de sua retidão de caráter e propósitos. Em nome de um projeto de poder irrefreável, os ideólogos do lulismo distorcem grosseiramente a realidade para justificar os crimes dos companheiros e para inventar um legado histórico que simplesmente não existe, salvo como mentira.

Diante disso, fica difícil saber o que Lula quer fazer de sua biografia.

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