Um grupo de historiadores alemães concluiu um estudo que mostra a extensão da colaboração do Ministério das Relações Exteriores do país na Shoah – o extermínio dos judeus da Europa. O levantamento foi feito a pedido do então ministro Joschka Fischer, em 2005, a título de estabelecer o tamanho do envolvimento dos diplomatas alemães, porque ele não queria que ex-nazistas convictos fossem homenageados. O resultado não é nada abonador.
Segundo a comissão, citada pela revista Der Spiegel, o extermínio dos judeus era uma “área de atuação” da diplomacia, em toda a Europa. “O ministério era uma organização criminosa”, disse o líder das pesquisas, Eckart Conze, usando um termo normalmente associado à SS, a tropa de elite nazista que executou a Shoah.
Além disso, diplomatas que atuaram no pós-guerra tinham muito mais ligação com o massacre do que podiam admitir. O chanceler Konrad Adenauer permitiu que eles permanecessem no ministério mesmo sabendo disso. “Diplomatas com passado nazista foram enviados a países árabes e à América Latina, onde não seriam criticados publicamente”, diz a Spiegel.
A revista, porém, afirma que o trabalho dos historiadores tem algumas falhas importantes, como generalizar o envolvimento “dos diplomatas”, como se fossem a maioria. Faltam, ainda, provas desse envolvimento em muitos casos citados. De qualquer maneira, o Ministério das Relações Exteriores alemão se disse feliz com o resultado, porque não pode haver espaço para nenhum tipo de concessão histórica no que diz respeito ao nazismo. Como diz a Spiegel, porém, outros ministérios até hoje não fizeram esse mergulho doloroso em seu passado.
A empresa alemã Siemens anunciou nesta quarta-feira um acordo com seus 128 mil funcionários que lhes dá garantia vitalícia de emprego. Segundo o Financial Times, isso mostra o quanto a crise financeira está afetando as relações de trabalho na Alemanha.
“A medida é rara mesmo na Alemanha, famosa pelo bom entendimento entre patrões e empregados”, diz o jornal. Hagen Lesch, especialista em questões trabalhistas no Instituto de Pesquisa Econômica de Colônia, resumiu: “Eu não acho que isso seja racional do ponto de vista econômico. Como é que a Siemens vai impedir os sindicatos de exigir aumento de salários se ela não tem como ameaçar os funcionários de demissão?”.
A grande questão na Alemanha atualmente não é a crise econômica. O assunto do momento atende pelo nome de Thilo Sarrazin. Executivo do Banco Central alemão e socialdemocrata de carteirinha, Sarrazin acaba de publicar um livro no qual destila, de modo cru, opiniões nada simpáticas aos imigrantes muçulmanos.
Segundo Sarrazin, esses muçulmanos são um problema para o desenvolvimento do país. Seu raciocínio avança: ele diz que os muçulmanos na Alemanha preferem viver à custa do Estado de Bem-Estar Social a arranjar um emprego e que, como têm uma taxa de fertilidade maior do que a média alemã, eles serão cada vez mais numerosos e vão reduzir o QI médio do país.
Não é de hoje que Sarrazin causa controvérsias. Ele já fez parte do governo de Berlim e, na ocasião, vivia reclamando dos cidadãos que recebiam algum benefício pago pelo governo.
Além dos muçulmanos, Sarrazin também emitiu opiniões controversas sobre os judeus – chegou a dizer que eles têm todos “o mesmo gene”, o que os tornaria diferentes de outros grupos. Não é preciso dizer que, na Alemanha, opiniões “genéticas” como essa causam profundo incômodo.
Como Sarrazin não é um extremista de direita, e sim um socialdemocrata militante, suas opiniões não caíram no vazio – e o resultado é que a Alemanha, de novo, está em transe por causa do debate sobre sua relação difícil com os imigrantes, notadamente os muçulmanos.
A revista Der Spiegel fez uma seleção das “melhores” frases de Sarrazin, espécie de resumo de seu “pensamento”. Abaixo, uma parte delas:
“Os turcos estão tomando a Alemanha exatamente como os kosovares tomaram Kosovo: por meio da alta taxa de natalidade. Eu não me importaria se eles fossem judeus do Leste Europeu, com um QI 15% mais alto do que o da população alemã”
“Um grande número de árabes e turcos (em Berlim) não tem função produtiva, a não ser no mercado de frutas e vegetais”
“Eu não tenho respeito por ninguém que viva de benefícios estatais, mas rejeite o Estado, que não tenha o suficiente para a educação de seus filhos e que constantemente produza menininhas com véus”
“Quanto mais baixa a classe social, maior é a taxa de natalidade”
“De uma maneira natural, estamos nos tornando mais burros (por causa da imigração turca, africana e do Oriente Médio)”
“Eu não quero que o país dos meus netos e bisnetos seja majoritariamente muçulmano, ou que turco e árabe sejam falados em larga escala, que as mulheres se cubram com véus e que o ritmo cotidiano seja ditado pelo chamado do muezim. Se eu quisesse ter essa experiência, eu simplesmente tiraria férias no Oriente”.
“Os funcionários públicos são pálidos e fedorentos porque trabalham muito”
Enquanto Nova York autorizava a comunidade islâmica a erguer uma mesquita a dois quarteirões do Ground Zero, as autoridades alemãs ordenavam o fechamento de uma mesquita em Hamburgo – o local foi freqüentado por Mohammad Atta, justamente um dos seqüestradores do 11 de Setembro.
Para os alemães, a mesquita segue sendo local de atração de jihadistas em potencial.
A Alemanha está testemunhando a formação de uma aliança “informal e acidental” entre neonazistas e imigrantes muçulmanos, mostra reportagem da revista Der Spiegel. Segundo autoridades da agência de inteligência doméstica alemã, o que une os dois grupos são “ideologias antissemitas vagamente similares”.
O antissemitismo neonazista, como se sabe, tem bases racistas explícitas, enquanto os jovens muçulmanos radicais se manifestam por meio de um antissionismo com evidente carga antijudaica. Nos dois casos, diz a agência, os judeus são vistos como excessivamente poderosos, assim como Israel, e os extremistas assumiram a tarefa de combater esse poder imaginário.
A Spiegel afirma que a retórica inflamada de líderes islâmicos contra Israel alimenta a ameaça crescente de violência contra os judeus por parte de “imigrantes ainda mal integrados” ao país – os mesmos imigrantes que, ironicamente, também são alvo da fúria neonazista na Alemanha.

Klose, polonês, e Boateng, de pai ganês
A Alemanha não se cabe em si. O time que tentará nesta quarta-feira classificar-se para sua oitava final de Copa é o queridinho da competição, com seu ataque avassalador e seu “futebol arte”. O traço mais marcante, porém, é a grande presença de jogadores de origem estrangeira – alguns negros, outros poloneses e turcos, um brasileiro. “Essa seleção alemã está dando a todo o país o sentimento especial de força, porque essa equipe multicultural realmente joga junto, algo que não se imaginava possível antes”, festejou o jornal Die Welt.
Nem sempre foi assim na Alemanha, claro. Em “Olympia”, Leni Riefensthal, a cineasta de Hitler, apresentou uma imagem muito diferente do potencial esportivo e patriótico alemão. Há apenas 70 anos, o ideal retratado no filme – e disseminado em cada célula do corpo social do país – indicava o sonho da sociedade branca pura.
Não se muda uma mentalidade assim em apenas sete décadas. Mas a seleção de futebol da Alemanha indica que alguma coisa está diferente naquele complexo país.

O filme ariano de Riefensthal
Fotos: Carls de Souza/France Presse e Reprodução
Diferenças culturais são uma coisa divertida.
A União Europeia acaba de autorizar uma cervejaria alemã a registrar o nome “Fucking Hell” para um de seus produtos, informa a Der Spiegel. Em inglês, trata-se de uma expressão pouco elegante. Em alemão, porém, “hell” é a cerveja clara – a conhecida “loura”, para os brasileiros. E “Fucking” é o nome de um vilarejo austríaco – cujo prefeito ficou furioso com a história.
Para a UE, porém, “a combinação de palavras não contém nenhuma indicação semântica que possa fazer referência a uma pessoa ou a um grupo de pessoas”. Ah, bom.
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