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Marcos Guterman

Mohamed Morsi, favorito para se tornar presidente do Egito, é da Irmandade Muçulmana. Ele anunciou que sua plataforma política, intitulada “O islã é a solução”, é transformar o país numa república islâmica, informa o New York Times.

Ele defende que mulheres sejam impedidas de chegar à Presidência. Ele quer que a sharia (lei islâmica) seja a base da lei egípcia e que o Parlamento tenha um conselho de especialistas muçulmanos a assessorá-lo. Morsi diz que um dos principais objetivos do governo é “disseminar e proteger a religião de Allah”, razão pela qual, segundo essa visão, um não-muçulmano jamais poderá ser presidente do Egito.

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Mais de 70 milhões de cliques transformaram o vídeo acima, de uma ONG americana chamada “Invisible Children”, no mais visto da curta história da internet. É um fenômeno por pelo menos duas razões: tem meia hora de duração, e não alguns segundos, o que contraria o padrão dos virais da web; e supostamente colocou os conflitos em Uganda no mapa das preocupações das pessoas comuns ao redor do mundo. Para quem ainda não sabe (e parece que o mundo inteiro já sabe), o vídeo faz uma campanha para que Joseph Kony, um senhor da guerra ugandense, seja preso. Ele seqüestra crianças para usá-las como soldados. A ONG pede que os internautas dêem “RT”, ou seja, passem o vídeo adiante, e comprem o kit “StopKONY” por US$ 30 para ajudar a financiar a campanha. Na lógica da “Invisible Children”, quanto mais “RTs”, maior será a pressão para que os dirigentes façam alguma coisa. “O mundo não será mais o mesmo” depois disso, diz a ONG, sem nenhuma modéstia. O feito da campanha é inegável, mas talvez seja prudente moderar o entusiasmo.

Não é o caso nem de dar grande importância à constatação de que o vídeo tem problemas factuais importantes. O maior deles é que Kony já não é o poderoso “senhor da guerra” que era há dez anos – hoje ele está enfraquecido e acuado. O problema maior é a mensagem de que o Ocidente é o salvador dos pobres negros africanos trucidados em guerras entre si. É o “fardo do homem branco”, que esteve em voga no século 19 e inspirou as missões imperialistas europeias naquela ocasião. A imagem de um punhado de soldados americanos enviados como “conselheiros” para ajudar a capturar Kony é constrangedora.

Junte-se a isso a enorme simplificação do conflito – o autor do vídeo convida seu filho pequeno a decidir quem é “bom” e quem é “mau” – e então temos uma tocante história que pode até ajudar a mobilizar pessoas, mas não serve como informação.

Assim, o vídeo sobre Kony é revelador não das mazelas africanas, mas das mazelas da internet. Muito se fala sobre a “revolução” que a web está operando nas relações entre as pessoas, mas é precipitado dizer que a ampla conexão virtual tem tornado o mundo mais consciente, sobretudo por causa da baixa qualidade da informação que circula intensamente e é tomada como sendo a “verdade”.

Por ora, nada mudou efetivamente. O que temos, no caso de Kony, é a internet apenas a serviço do alívio virtual de consciências.

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Na histórica eleição na Tunísia, a primeira desse país árabe, um partido islâmico moderado, o popular Ennahda (renascimento),  saiu-se como o grande vencedor.

Ao votar, o líder do Ennahda, Rashid al-Ghannushi, foi hostilizado por eleitores endinheirados que preferem uma transição rumo a um regime de inspiração ocidental – ou seja, laico e liberal. Pode ser o prenúncio de um choque cultural, agravado pelo fato de que os pobres, maiores eleitores do Ennahda, não estão preocupados com democracia ou liberdades, mas com emprego. Mas o Ennahda se comprometeu a respeitar a democracia e os direitos das mulheres, e os tunisianos já mostraram do que são capazes quando seu governo não cumpre o que promete.

A sensação generalizada, portanto, é de orgulho. O ex-dissidente Moncef Marzouki resumiu o momento:  “Os tunisianos mostraram ao mundo como fazer uma revolução pacífica sem ícones, sem ideologia, e agora vamos mostrar ao mundo como construir uma verdadeira democracia”. Se ele estiver certo, cairá por terra a presunção segundo a qual o mundo árabe não tem preparo cultural para a democracia. E isso pode ter efeitos devastadores para as tiranias da região, mais do que a imagem do cadáver de Kadafi exibido num freezer de shopping.

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Mussolini e sua amante, Clara Petacci, após execução sumária e linchamento: perto deles, Kadafi teve tratamento VIP

 

Ninguém discute que Muamar Kadafi deveria ter sido preso e levado a julgamento pelos crimes que cometeu na Líbia. É assim que funciona em sociedades civilizadas. Mas é claro também que interessa aos cínicos de sempre transformar a morte do ditador numa oportunidade para tentar desmoralizar o Ocidente.

Segundo essa turma, foi a ação militar da Otan que franqueou aos rebeldes líbios a deixa para transformar a caçada a Kadafi em vingança bárbara – considerando-se que o tirano tenha mesmo sido executado, o que ainda é mera especulação. É quase como se o “imperialista” Obama, sedento de petróleo, tivesse empunhado a pistola que apagou o ditador.

O mundo desse pessoal é de uma simplicidade tocante. Há os “maus” (EUA, Israel, Europa) e os “bons” (árabes, índios e altermundistas em geral, sempre tratados como inocentes vítimas da desumanidade dos “imperialistas” e moralmente superiores a eles). Nesse mundo binário, não existe zona cinzenta. Se Kadafi foi capturado vivo e apareceu morto, é lógico que ele foi covardemente executado – e isso, na visão poética dos altermundistas, é sinal de que a transição líbia “começou mal” e pode indicar, até, que o futuro do país será ainda mais sangrento que o presente.

No entanto, se Kadafi foi realmente assassinado, isso não quer dizer grande coisa sobre o futuro. É conveniente lembrar que o ditador Benito Mussolini foi barbaramente executado e teve seu corpo pendurado de ponta-cabeça por partisans italianos – liderados pelos comunistas, aparentados daqueles que hoje se “horrorizam” com o tratamento supostamente desumano dado a Kadafi. Nem por isso a Itália desceu à barbárie depois da guerra – dos escombros, pelo contrário, vieram a república, um forte crescimento econômico e um país que se tornaria uma das grandes potências globais.

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20.outubro.2011 19:03:22

O mundo respira melhor hoje

Muamar Kadafi foi capturado vivo, como dá para ver neste vídeo. Convenientemente, logo depois, já estava morto. Do ponto de vista dos novos donos do poder na Líbia, manter o ditador vivo e eventualmente levá-lo a julgamento teria o potencial de prolongar a guerra civil. Agora, esse cenário não faz sentido.

Para os rebeldes, o importante agora é apressar a transição e construir uma narrativa que lhes pavimente o caminho para a aceitação nacional do novo regime. Isso já começou. Espalham-se relatos de que Kadafi estava escondido num cano de esgoto, como um bom rato que era; essa imagem, verdadeira ou falsa, servirá para alimentar o retrato que os rebeldes querem construir de seu inimigo. Nada de novo aí: tudo isso faz parte do processo de reconstrução do país a partir da ruptura com o passado.

O futuro, porém, é mais nebuloso. Kadafi se foi, mas os líbios que foram leais a ele – quer porque o temessem, quer porque acreditassem nele – ainda estão no país e não podem ser simplesmente expurgados. No Iraque, foi isso o que aconteceu após a queda de Saddam Hussein, e o resultado foi a polarização sangrenta de uma sociedade já naturalmente dividida.

Mas a “nova” Líbia parte de uma condição melhor do que o “novo” Iraque. Sem ter sido alvo de sanções nos últimos anos, a economia líbia produziu uma infra-estrutura bastante razoável e que não foi tão afetada pela guerra como a iraquiana. Para aproveitar essa oportunidade, será necessário que o novo governo construa um consenso em torno de como administrar a frágil situação atual rumo à estabilidade. O papel do Ocidente, neste caso, não pode se encerrar na participação militar – será necessário apoiar com vigor a transição, inclusive em termos de segurança e de investimentos, para que não restem dúvidas sobre seu compromisso com o futuro pacífico do país.

Seja como for, o importante é que a Líbia se livrou de um ditador sanguinário, um dos mais bárbaros da história contemporânea. O mundo está respirando melhor hoje.

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Pode-se considerar, para todos os efeitos, que Muamar Kadafi não existe mais. Diante disso, começam as especulações sobre o futuro imediato da Líbia, em cujo subterrâneo jaz petróleo da melhor qualidade. Os rebeldes já mandaram avisar que os países da Otan, a aliança militar que os auxiliou na derrubada do ditador líbio, serão “premiados” com os melhores contratos de exploração. Já os países do chamado “Brics” (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que não deram apoio à imposição de sanções contra Kadafi, podem ficar a ver navios.

“Não temos problemas com países ocidentais como Itália, França e Reino Unido”, disse Abdeljalil Mayouf, gerente da companhia líbia de petróleo Arabian Gulf, que financiou os rebeldes. “Mas temos algumas pendências políticas com Rússia, China e Brasil”, afirmou ele ao jornal sul-africano Business Day.

Segundo o diário, há 75 companhias chinesas operando na Líbia, com 36 mil funcionários em 50 projetos. A Rússia tem suas gigantes Gazprom e Tatneft atuando no país. O Brasil está lá com a Petrobrás e a Odebrecht.

“Perdemos a Líbia completamente”, lamentou Aram Shegunts, da Câmara de Comércio Rússia-Líbia. “Nossas companhias vão perder tudo porque a Otan vai impedir que façamos negócios na Líbia.”

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Um grupo de economistas lançou um projeto que visa a facilitar o envio de ajuda em dinheiro diretamente para os pobres na África, sem nenhuma contrapartida e sem intermediários. Ou seja: o programa não condiciona a doação, e o receptor pode dispor do dinheiro da maneira que achar melhor.

O GiveDirectly acredita que os pobres sabem o que fazer com o dinheiro, contrariando o senso comum segundo o qual os miseráveis “beberiam” a ajuda se não fossem obrigados a fazer algo para justificá-la, como colocar os filhos na escola ou arranjar um trabalho.

O site do projeto justifica: “Ter respeito significa tratar as pessoas que ajudamos como gostaríamos de ser tratados: como seres humanos capazes de tomar decisões importantes por nós mesmos”.

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Dezenas de milhares de somalis já morreram de fome, e meio milhão de crianças podem ter o mesmo destino se nada for feito para forçar a guerrilha islâmica Shabab, que controla parte da Somália, a permitir a entrada imediata de ajuda humanitária no país.

O Shabab, que declarou sua aliança com a Al Qaeda, decidiu banir música ocidental, roupas ocidentais, livros ocidentais e, também, alimentos doados por entidades ocidentais. Além disso, os guerrilheiros roubam água de vilarejos miseráveis e extorquem dinheiro de agricultores, como mostra o New York Times. Para piorar, o Shabab tenta impedir que os flagelados deixem a região, obrigando-os a viver o terror da fome, como num campo de concentração.

Investigação da ONU mostra que o Shabab é apoiado pelo Hizbollah – mais de 700 de seus guerrilheiros integraram o esforço de guerra do grupo fundamentalista libanês contra Israel em 2006 e boa parte deles permaneceu no Líbano para receber treinamento militar avançado. Como reconhecimento pela ajuda do Shabab, o Hizbollah intermediou financiamento do Irã e da Síria para o grupo somali.

Talvez isso explique por que as entidades especializadas em despachar “Flotilhas da Liberdade” para denunciar o “campo de concentração de Gaza” ainda não tenham organizado uma flotilha dessas para enviá-la à Somália. Afinal, como se sabe, as “Flotilhas da Liberdade” têm apoio entusiasmado do Hizbollah – e seu objetivo, como já deu para perceber a esta altura, não é mesmo humanitário.

 

(A foto é do New York Times. Mais imagens podem ser vistas aqui.)

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O chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, disse nesta segunda-feira que a coalizão militar em ação na Líbia está interferindo na guerra civil do país, ao atacar as forças do ditador Muamar Kadafi, permitindo o avanço rebelde. Para Lavrov, isso “não é avalizado pela resolução do Conselho de Segurança da ONU” que autorizou a ofensiva. O texto da ONU, diz ele, tem como único propósito “garantir a proteção da população civil”.

Trata-se de uma leitura apressada da resolução. Em seu parágrafo 4, o texto aprovado (sem veto da Rússia) diz que estão autorizadas “todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e áreas de população civil sob ameaça de ataque na Líbia”. Isso significa que a coalizão deve proteger os civis da “ameaça” de ataque, e não de ataques propriamente ditos, o que pressupõe uma ação preventiva contra a capacidade militar de Kadafi, que é precisamente o que está acontecendo.

Se o ataque às forças do ditador está facilitando a vida dos rebeldes, trata-se de um “efeito colateral” da resolução – que, obviamente, sempre esteve na cabeça dos estrategistas militares ocidentais. Afinal, EUA, Reino Unido e França já disseram que Kadafi deve deixar o poder, por bem ou por mal. Nem por isso, todavia, pode-se falar em violação dos termos da resolução.

Noves fora as tecnicalidades jurídicas, Moscou continua querendo faturar politicamente em cima da óbvia rejeição que causaria uma intervenção ocidental de fato na Líbia – não porque o governo russo tenha especial apreço pela vida de civis (os tchechenos que o digam), mas porque vê na situação mais uma oportunidade para exercitar o habitual populismo barato contra os ocidentais.

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A robusta operação militar ocidental e árabe na Líbia deflagrada no sábado passado parece estar próxima de atingir um dos objetivos previstos na resolução da ONU que a autorizou, isto é, estabelecer uma “zona de exclusão aérea” no país. A ideia é impedir que o ditador líbio, Muamar Kadafi, possa usar sua aviação para atacar “civis”. A questão, porém, é saber se isso é o bastante, o que nos leva à pergunta crucial: qual é o objetivo final da operação?

Se o objetivo final é “proteger os civis”, só a zona de exclusão aérea não basta. Kadafi está massacrando civis em terra mesmo. Logo, pode-se supor que a “zona de exclusão aérea” possa servir para dar cobertura a um avanço rebelde contra as forças de Kadafi – ou seja, trata-se de uma interferência direta na guerra civil, e não numa maneira de “proteger civis”.

A esta altura, porém, é difícil saber quem são os “civis” que devem ser protegidos. Fica a sensação de que “civil”, na definição dos líderes da operação militar multinacional, é aquele que está pegando em armas para depor Kadafi. Ademais, na hipótese de que os rebeldes também ataquem civis (se é que isso já não está acontecendo), a coalizão militar estrangeira também atuará para contê-los? Provavelmente não.

Se o objetivo, porém, é derrubar Kadafi, como já sugeriu o presidente dos EUA, Barack Obama, dois problemas surgem de imediato. Primeiro: a resolução da ONU autoriza essa intenção? De certa forma sim, porque usar “todos os meios necessários” para impedir que Kadafi massacre civis significa, em última análise, permitir tirá-lo do poder se os demais instrumentos fracassarem. Isso nos leva à segunda questão: tirar Kadafi do poder resolveria os problemas imediatos da Líbia e transformaria o país automaticamente numa democracia? A história mostra que não.

Um aspecto central dessa estratégia de “mudança de regime” é que democracias de verdade não surgem desse modo. Democracias são fruto de longas lutas internas. A interferência externa tende a distorcer o caráter dessas lutas e alimentar autocratas associados às potências estrangeiras que derrubaram o ditador anterior. O resultado é que, em vez de resolver a guerra civil, a interferência externa tende a criar condições para a próxima.

Por todos esses motivos, tem havido grande confusão sobre o comando da operação militar – os EUA não querem saber de outro Iraque, e a Otan não sabe dizer até onde está disposta a ir.

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