Parece fácil fazer juízo de valor sobre eventos depois que eles acontecem. Mesmo nessas circunstâncias, porém, é preciso ter algum cuidado. O ex-chanceler Celso Amorim, por exemplo, escreveu artigo no qual diz que a hipótese de que fundamentalistas islâmicos haviam cometido os atentados na Noruega foi disseminada no dia dos ataques graças a “preconceito”. Ou seja: ele sugeriu que a imprensa se deixou levar pela suspeita graças a algum tipo de prevenção em relação aos muçulmanos. O fato, porém, é que a versão sobre os fundamentalistas islâmicos era óbvia, ante o histórico dos atentados no mundo nos últimos anos, sobretudo na Europa.
Os muçulmanos são mesmo os suspeitos de praxe, mas eles não são os únicos. Amorim deveria ter lembrado o caso do “massacre de Jenin”, em que o Exército de Israel foi acusado de matar centenas de inocentes num campo de refugiados palestino em 2002; ou então o dramático caso do menino palestino Mohammad Al-Dura, morto em tiroteio em Gaza, em 2001, supostamente por soldados israelenses; ou ainda do famoso Relatório Goldstone, que atribuiu a Israel indizíveis crimes de guerra na última campanha militar em Gaza. Posteriormente, comprovou-se que não houve massacre nenhum em Jenin, que Al-Dura foi morto por balas palestinas e que o Relatório Goldstone foi feito com informações parciais, tendo sido rejeitado pelo próprio autor. O padrão, em todos os episódios, foi o mesmo: a imprensa e os ativistas pró-palestinos apontaram imediatamente o dedo acusador para Israel, porque, afinal, Israel só pode ser o culpado.
Assim, Celso Amorim tem razão: vivemos mesmo na era do preconceito. Boa parte dos críticos do comportamento da imprensa a respeito dos muçulmanos no caso da Noruega costumeiramente é a mesma claque raivosa que acusa Israel até pela existência de crateras na Lua. Israelenses e americanos, na opinião preconceituosa dessa turma, não são dignos do benefício da dúvida. É com esse humanismo seletivo que se constrói a retórica cínica do altermundismo.
O caso do terrorista norueguês Anders Breivik tem suscitado análises angustiadas sobre um suposto renascimento, na Europa, de um clima propício à difusão de ideias semelhantes às que moveram a gangue de Hitler rumo ao poder na Alemanha.
Um dos textos mais recentes a tratar do assunto dessa forma foi o de Elio Gaspari na Folha de 27 de julho (aqui, só para assinantes). Nele, o comentarista sugere que não se pode descartar Breivik como um sintoma da ressurgência do espírito nazifascista. “Crise econômica, desemprego, nacionalismo, xenofobia, antiliberalismo, antimarxismo e anti-intelectualismo eram parte do cotidiano de uma forma de pensamento político na primeira metade do século passado e ressurgiram, tanto na Europa como nos Estados Unidos. (Os brasileiros estão no topo da lista de viajantes impedidos de entrar em países europeus pelos serviços policiais dos aeroportos.) Onde havia antissemitismo, está hoje o anti-islamismo e a estigmatização dos imigrantes, extensiva aos descendentes”, escreveu Gaspari. Para ele, portanto, o caldo ideológico que favoreceu Hitler estaria de novo em voga.
É um óbvio exagero. Hitler só se converteu de um obscuro cabo do Exército em ditador do país mais poderoso da Europa por uma infeliz combinação de circunstâncias excepcionais. Ele teria se diluído nos grupelhos de extrema direita antissemitas que empesteavam a Europa sem causar grandes estragos não fosse, primeiro, pela tibieza do mundo político conservador alemão. Em nome da luta contra o marxismo, a elite de centro e de direita no país conspirou para acabar com a República de Weimar, que prometia ser uma das mais vibrantes democracias que o mundo já produziu.
Hitler soube fazer a leitura do apelo nacionalista e apresentou-se como um líder político ousado o bastante para gritar aquilo que os conservadores apenas murmuravam. Sua “plataforma”, porém, era incrivelmente vazia – perto dela, o manifesto de Breivik é quase um tratado clássico de ciência política. As “propostas” de Hitler limitavam-se à ideia de reerguer a Alemanha, vingar-se pela derrota na Primeira Guerra e limpar o país dos elementos considerados “traidores” e “fracos”. Para a classe média alemã, não havia necessidade de mais nada: bastava o cântico da ordem e do orgulho nacional para embalar os sonhos de renascimento. Junte-se a isso a extrema disciplina das gangues nazistas, o terror e a propaganda deslavadamente mentirosa e tem-se o caldo que fez de Hitler a única opção viável dos conservadores para dar um golpe e “salvar” a Alemanha da esquerda.
Uma vez no poder, Hitler foi bafejado pela sorte de ter adversários fracos e indispostos ao confronto. Ao rasgar o Tratado de Versalhes, rearmando a Alemanha à luz do dia e reocupando territórios perdidos na guerra, e ao anexar a Áustria e a Tchecoslováquia sem oposição significativa, Hitler sentiu-se um infalível instrumento da Providência. Enamorado pelo som de sua própria voz, ele começou a acreditar em sua própria mentira – a de que dependia de sua “vontade” impedir a “degeneração” da Alemanha e da Europa. Como Hitler, muitos pensavam assim; mas foram fatores totalmente alheios a ele que permitiram que Hitler se sentisse à vontade para passar da teoria à prática, cujo símbolo maior são as câmaras de gás.
Por mais que emule Hitler, gente como Breivik não tem e provavelmente não terá as condições históricas para revivê-lo ou representá-lo. A extrema direita europeia pode ganhar as manchetes e algumas cadeiras no Parlamento, mas o contexto atual nem de longe lembra o que favoreceu Hitler. Não existe o mais remoto sinal de que algum país, liderado por um sósia de Hitler, teria a liberdade de atuação que teve o Führer da Alemanha, entre outras razões porque a Europa unificada significa uma série de compromissos de manutenção da ordem econômica, diplomática e democrática que inexistiam na época da ascensão do nazismo.
Por fim, não se pode dizer, como faz Gaspari, que o antissemitismo foi substituído pela islamofobia como motor da suposta ameaça de renascimento nazifascista. Antes de mais nada, o antissemitismo não desapareceu; pelo contrário, ele está moralmente renovado, tendo agora como alvo a “entidade sionista” e seus “tentáculos de poder”, imagem que nada mais é do que a reedição do mito do excepcional poder judaico. Em segundo lugar, a população islâmica na Europa é majoritariamente formada por imigrantes, ao passo que os judeus perseguidos eram, em sua maioria, cidadãos estabelecidos na Europa havia gerações. O centro do antissemitismo é justamente a hostilidade não ao estrangeiro real, mas a um estrangeiro imaginário, o judeu “desenraizado”, que não pertence a lugar nenhum e que entra no corpo nacional, fingindo dele fazer parte, para parasitá-lo e destruí-lo.
Aquilo a que se dá o nome genérico de “islamofobia”, usado muitas vezes de maneira exagerada, deve ser visto, portanto, no contexto da imigração real, e não imaginária. A reação à presença crescente dos muçulmanos – que na Europa têm uma relação potencialmente conflituosa com o Estado secular, porque tendem a elevar sua doutrina religiosa à categoria de lei civil – talvez não se deva especialmente a racismo. O que provavelmente está em jogo é um sentido de proteção dos valores ocidentais, sobretudo quando confrontados com o discurso islâmico radical e com seus seguidores que justificam o martírio suicida e a ordem baseada na sharia. Não é à toa que Angela Merkel e outros líderes europeus consideram o multiculturalismo um rotundo fracasso. Tal posição não é “islamofóbica” em si, a não ser na opinião da histérica militância antiocidental – que, esta sim, tem clara vocação fascista.
Muita ênfase tem sido colocada sobre o fato de que Anders Behring Breivik, o terrorista que matou mais de 70 pessoas na Noruega, é “de direita”. É um fato: Breivik é um cristão ultranacionalista anti-islâmico e anticomunista que deixou rastros suficientes por blogs direitistas para que o mundo soubesse de seus predicados. Ademais, cometeu suas atrocidades baseado nas crenças mais caras à extrema direita europeia, sobretudo a hostilidade ao multiculturalismo, que é o traço social mais marcante da Noruega – em seu manifesto, ele critica o “modelo brasileiro” de mistura racial. Logo, não parece fora de propósito vincular seus atos a essa plataforma político-ideológica. No entanto, o que chama a atenção é que o caso Breivik parece ter sido feito sob medida para demonizar toda a direita, e não apenas sua ala doentia.
A direita europeia tem crescido de maneira exponencial. Seu mantra é a crítica à fraqueza do mundo político ante os imigrantes, à venalidade do Parlamento e à inação em relação à crise econômica. Embora seu discurso não poupe virulência contra muçulmanos, imigrantes e esquerdistas, a maioria dos direitistas da Europa não prega a eliminação física dos seus desafetos nem sai explodindo bombas por aí. Mas isso é irrelevante: para comentaristas de esquerda, Breivik representa o “clima pesado” que a direita “semeou” na Europa (aqui, aqui e aqui). Houve até quem classificasse Breivik como “a cara do terror cristão”.
Esse tipo de raciocínio não serve para esclarecer, apenas para confundir. É até possível dizer que Breivik tenha se sentido motivado pelo discurso da extrema direita institucionalizada; mas apontar nessa relação um nexo causal – ou seja, argumentar que, sem o discurso da direita, não teria havido o ataque – é uma generalização cínica. Além disso, a direita é muito mais do que os enunciados de ódio que infestam o texto de alguns de seus líderes mais histriônicos. É sobretudo o lugar do pensamento liberal-democrático e defensor dos direitos do indivíduo ante o arbítrio do Estado. Fazer de Breivik o “símbolo” da direita é o mesmo que transformar Stálin e Pol Pot nos “símbolos” da esquerda ou Osama bin Laden e os aiatolás iranianos nos “símbolos” do islã.
Acabou a hipocrisia: o tal estádio do Corinthians será mesmo uma arena bancada para a Copa com dinheiro público – federal, estadual e municipal – para uso exclusivo de uma entidade privada. O evidente despropósito dessa situação, porém, não será objeto de escrutínio real, salvo dos chatos de sempre – a tal “imprensa golpista”, essa que insiste em ficar aborrecendo a vanguarda da transformação do Brasil em potência interplanetária.
O mais curioso é que provavelmente os próprios corintianos, salvo honrosas exceções, tampouco se incomodarão com o fato de que o dinheiro de seus impostos também está no cofre ora arrombado para custear o Itaquerão (que já pode ser chamado de “Isentão”). Pelo contrário: vão qualificar os críticos de invejosos, já que há uma acentuada indistinção entre a vida do time de futebol e a vida pessoal do torcedor. “Loucos”, por definição, são incapazes de refletir sobre o objeto de sua “loucura”.
Se quisessem mesmo contribuir para a construção de seu estádio, os corintianos poderiam repetir o exemplo dos vascaínos, que, na década de 20, passaram o chapéu entre torcedores ricos e pobres para arrecadar fundos e erguer São Januário. Seria honesto – e não tungaria o dinheiro de contribuintes que não são corintianos ou nem sequer se interessam por futebol.
Mas isso, como dizem os céticos, é coisa do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça. Hoje, um século depois, o futebol não é para crianças. E em países de frágil tradição democrática e com notável inclinação ao populismo, como o Brasil, clubes como Corinthians e Flamengo são agentes políticos poderosos. Ao mesmo tempo em que é generosamente amparado pelos impostos do contribuinte brasileiro, o Corinthians, como uma estatal ousada, se dispõe a pagar fábulas para tentar contratar jogadores como Tevez e Neymar – e pouca gente parece se espantar com isso.
O advogado americano Mike Godwin é o autor de uma máxima (a “Lei de Godwin”) segundo a qual quase todas as discussões na internet em algum momento vão virar feira e um dos contendores chamará outro de “nazista”. A brincadeira mostra que, aparentemente, não existe xingamento maior do que “nazista”, pelo menos entre os palavrões publicáveis. No entanto, raras são as vezes em que o sentido adequado do termo é conhecido tanto por quem ofende quanto por quem é ofendido. Fica-se na superfície da palavra, no significado consagrado pela literatura barata e pelo sensacionalismo cinematográfico. Isso se dá mesmo em situações nas quais os protagonistas têm reconhecida capacidade intelectual, como foi o caso do embate entre o curador da última edição da Flip, Manuel da Costa Pinto, e um de seus principais convidados, o cineasta Claude Lanzmann. Como se sabe, Costa Pinto disse que a atitude de Lanzmann, ao recusar-se a responder a uma pergunta sobre seu filme Shoah, era “coisa de nazista”. A intenção do curador foi denunciar uma suposta postura anti-intelectual do cineasta.
De fato, o nazismo é um movimento que tem no combate à capacidade reflexiva um de seus pilares. No entanto, isso não deveria transformar em “nazista” qualquer debatedor que se recuse a responder uma pergunta. Por que Lanzmann não foi comparado, por exemplo, a Pol Pot, que mandava matar quem usava óculos porque isso sinalizava atividade intelectual? Por que ele não foi comparado a Stálin, que transformou intelectuais em alegres avalistas da barbárie? Melhor: por que ele não foi somente criticado por se recusar a debater, em vez de ser colocado no mesmo patamar de seguidores de uma ideologia genocida?
O problema todo é que Lanzmann é judeu e teve sua vida diretamente ligada ao combate ao nazismo, tanto como resistente francês como quanto artista. Ligá-lo a um suposto comportamento “nazista” é, portanto, uma dupla ofensa, reação muitos graus acima do razoável nesse caso. Não se quer dizer que Costa Pinto tenha feito isso de propósito, nem que Lanzmann não merecesse ser admoestado por sua grosseria. Mas o escorregão do curador da Flip reitera a apavorante banalização do nazismo, menos de sete décadas depois de seu fim oficial.
(Entrevista de minha autoria publicada no caderno Sabático de 16 de julho.)
O desencantamento do mundo ocidental, em que a laicidade reina absoluta, pode facilitar a volta de “demônios do passado”. Para Luc Ferry e Lucien Jerphagnon, a única forma de evitar a reedição de tragédias e de olhar o futuro com otimismo é reconhecer a herança religiosa cristã como parte indissociável da cultura europeia. Em debate na Sorbonne transformado no livro A Tentação do Cristianismo, que chega agora ao Brasil pela editora Objetiva, os dois filósofos franceses mostram que não se pode dissociar a religião da cultura, como fazem os fundamentalistas, nem se pode entender a cultura sem pensar em religião, como querem os secularistas. A mensagem de Cristo revolucionou o mundo grego e romano ao unir as duas pontas, trazendo a fé para o plano da história. Deus encarnado em Cristo representou uma espécie de emancipação do homem, e a grande novidade do cristianismo – sua “tentação” – é o amor.
Ao contrário dos gregos, que consideravam o amor uma impossibilidade diante do caráter transitório do homem em razão da morte, os cristãos deram-se ao luxo de amar sem moderação graças à promessa da ressurreição. “A mensagem do amor continua atual no cristianismo, e inclusive mais atual do que nunca”, diz Luc Ferry em entrevista ao Sabático. Para ele, “além do ideal das Luzes, dos direitos do homem e da razão, uma segunda idade do humanismo está prestes a nascer”.
Pergunta – Para o sr., a sabedoria é condição da salvação, “provavelmente do medo da morte”. Mas o medo da morte não estaria ligado justamente ao fato de que sabemos que iremos morrer?
Luc Ferry – Evidente, mas a filosofia, desde sua origem na Grécia, não pretende apenas nos libertar do medo da morte, ela pretende nos “salvar” de todas as angústias que pesam sobre a vida humana. Quando somos tomados pela angústia, perdemos, na realidade, a liberdade de pensar, mas também nos tornamos egocêntricos. Fundamentalmente, a vida humana está cercada ou oprimida por três tipos de medo que nos impedem de ter uma vida boa, de encontrar a serenidade, a liberdade, a generosidade, a abertura para os outros. Em primeiro lugar, começando pelo mais superficial, há os medos sociais ou sociológicos: quando somos originários de um ambiente social modesto, nós os experimentamos fisicamente. Empalidecemos, enrubescemos, ficamos com a garganta seca quando precisamos fazer as apresentações em um jantar chique porque não nos sentimos à vontade, porque temos de falar em público e não estamos acostumados ou simplesmente porque encontramos uma personalidade que ocupa socialmente “um lugar de maior destaque” e ficamos embaraçados. Em seguida, estão os medos psíquicos, muito mais profundos, notadamente as famosas fobias de que fala Freud: quase todo mundo tem ou teve medo do escuro, e quantas pessoas na idade adulta ainda têm medo de aranhas, de ficar preso num elevador quebrado. Mas na verdade, por trás de todas essas angústias, há o terceiro medo, o grande medo, o que fascina os filósofos gregos: o medo da morte, evidentemente. Epíteto disse ao seu discípulo, em seu famoso Manual, que o filósofo “deve consagrar a ele todos os seus pensamentos”. Isso mesmo: todos. Quanto a Lucrécio, no início do seu poema De natura rerum, declara também que é preciso começar vencendo o medo do Acheron, o rio do inferno, o que teremos de atravessar quando morrermos e, para tanto, os familiares colocaram moedas sobre os olhos do falecido para pagar o remador. É desse medo que a filosofia, originalmente, na Grécia, queria libertar os humanos – libertar não no sentido de acabar com ele, o que é impossível, mas no sentido de tentar transformá-lo pelo menos numa coisa positiva.
Pergunta – O sr. afirma que, em dado momento, a razão, quando se trata da salvação, deve ceder o lugar à fé. Parece que até o genial Leonardo Da Vinci, descrito por Paul Valéry, também desistiu de encontrar a resposta no mundo físico. Existe um limite para a razão, superado apenas pela fé, como sugeriu Santo Tomás de Aquino? O sr. afirma também que a filosofia sempre foi a “secularização de uma religião”. A filosofia seria então uma forma de espiritualidade sem ilusões e, portanto, “serviria” à fé?
Ferry – A verdade é que todas as grandes filosofias, sem nenhuma exceção, são antes de tudo “doutrinas da salvação”, tentativas de definir a vida feliz, e eu acrescentaria inclusive que são doutrinas de salvação sem Deus. Por não privilegiarem a fé, ao contrário, opõem-se totalmente a ela. Contrariamente às grandes religiões, na realidade, a filosofia promete aos que querem consagrar-lhe a própria vida que poderão se salvar por conta própria e por meio da razão, enquanto as grandes religiões nos prometem que, com certeza, poderemos alcançar a salvação, mas mediante um Outro (mediante Deus, e não por nós mesmos) e mediante a fé (e não pela lucidez da razão). É aí que está, na minha opinião, a única verdadeira diferença entre filosofia e religião. O que significa salvar-se? Salvação, segundo os dicionários, pelo menos em francês, é “ser salvo de um grave perigo ou de uma grande infelicidade”. De que grave perigo ou de que grande infelicidade filósofos como Epíteto ou Epicuro pretendiam ajudar os seus discípulos a se salvar? Resposta: a questão é, antes de mais nada, como dizia antes, salvar-se dos medos que ameaçam a nossa existência, que a cerceiam e, talvez melhor dizendo, a “encurralam”. A ideia que move o desejo de sabedoria, a busca da serenidade é a convicção de que, enquanto formos encurralados pelos medos, será impossível para nós o acesso a uma vida boa, impossível chegarmos à serenidade, e, portanto, impossível termos uma mente livre, assim como é impossível abrir-nos aos outros, sermos generosos: quando temos medo, nós nos sentimos encurralados, ou seja, ao mesmo tempo não livres e fechados em nós mesmos. Para alcançar a serenidade, é preciso pois conseguir vencer os medos, e a filosofia, contrariamente aos grandes monoteísmos, nos promete que podemos alcançá-la com nossas próprias forças, pela razão, e não mediante um Outro e pela fé.
Pergunta – De acordo com o seu ponto de vista, o amor cristão induz a pensar que Deus se retirou para deixar lugar aos homens. Será esta uma forma de emancipação humana?
Ferry – Uma grande filósofa cristã, Simone Weil, evoca a propósito do amor do ágape, que se supõe Deus experimentasse pelos homens, a famosa teoria judaica do Tsimtsum, da criação do mundo. Deus teria criado o mundo por amor, não por uma forma de superpotência, para declarar uma força infinita que transbordaria dele, por assim dizer, na criação dos homens e do universo, ao contrário, para permitir que existisse alguma coisa de exterior a ele. Deus teria deixado de ser para que houvesse o ser. É o ágape e, se refletirmos melhor, frequentemente é assim que nos comportamos com os nossos filhos. Às vezes, estamos dispostos a nos retirar para deixá-los em paz, ou, mais simplesmente contar uma experiência sem dúvida mais comum, a nos privar para dar a eles, economizar para que eles possam gastar.
Pergunta – O cristianismo, analisa o sr., quebrou a hierarquia rígida do “mundo perfeito” grego, refletido na sociedade deles. Por outro lado, não é esse mesmo mundo cristão que criará sua aristocracia, com a ideia de uma divisão da sociedade feudal por estamentos (bellatores, oratores, laboratores)?
Ferry – Em primeiro lugar, não devemos confundir a mensagem de Jesus e o que a Igreja como instituição política fez dessa mensagem ao longo de toda a Idade Média – e mesmo ainda hoje. É possível imaginar, por exemplo, Jesus como torturador chefe na Inquisição? Voltemos à mensagem original, e principalmente à magnífica parábola dos talentos, que encontramos no Evangelho de Mateus e pode servir de fio condutor ideal para compreender o que a revolução judaico-cristã nos oferece ainda hoje no plano ético. É sem dúvida o texto mais simples, talvez também o mais profundo, que nos permite compreender perfeitamente a convulsão radical que o cristianismo, na esteira do judaísmo, instaurará em relação à moral aristocrática dos gregos. Ele conta, em resumo, a história de um senhor que, ao partir para uma viagem, confia três somas de dinheiro diferentes a três dos seus servos. Cinco talentos ao primeiro, dois ao segundo, um ao terceiro – a palavra talento (talenta em grego) designava moedas de prata, mas simbolizava também os dons naturais que recebemos ao nascer. Ao regressar ele quer a prestação de contas. O primeiro servo devolve dez talentos, o segundo quatro e o terceiro que teve medo e enterrou a moeda, devolve-a intacta, sem que a tenha feito frutificar. O patrão o escorraça insultando-o e, ao mesmo tempo, felicita-se em termos iguais com os outros dois. O que significa essa parábola? Em primeiro lugar, e antes de mais nada, o seguinte: ao contrário do que pretende a visão moral aristocrática, a dignidade de um ser não depende dos talentos que ele recebeu ao nascer, mas do que ele fez com esses talentos, não da natureza e dos dons naturais, mas da liberdade e da vontade, quaisquer que sejam as dotações iniciais. Evidentemente, existem entre nós desigualdades naturais. Seria inútil querer negar esse fato em nome de um igualitarismo mal compreendido. Nós não podemos interferir a esse respeito: alguns são de fato mais fortes, mais belos e mesmo mais inteligentes do que os outros. Quem pode negar que Einstein ou Newton eram mais inteligentes do que a média, do que uma criança com síndrome de Down? É um fato, assim como é um fato que o primeiro servo tem cinco talentos enquanto o segundo tem apenas dois. E então? O que isso importa no plano ético? Resposta cristã: nada. Porque o que importa é o que cada um fará com a soma. É o trabalho que valoriza o homem, e não a natureza. E é preciso compreender bem o alcance moral incomparável dessa simples afirmação. Em um universo ainda impregnado de ética aristocrática, ela representa um verdadeiro sismo, uma revolução de que precisamos estar a par. Ela introduz a ideia moderna de igualdade, mas mais ainda talvez, ela deve servir para fazer compreender aos nossos filhos que, apesar de todas as suas imperfeições, eles estão num mundo em que, apesar de tudo, aquele que trabalha realmente e que não cede ao medo acaba sempre sendo bem-sucedido. É essa definição naturalista e aristocrática da virtude que o cristianismo fará literalmente voar em pedaços. Sua argumentação é muito simples e encontraremos sua versão secularizada em todas as nossas doutrinas morais republicanas e humanistas, por exemplo, nas primeiras páginas dos Fundamentos da Metafísica dos Costumes, de Kant: certamente os talentos naturais – a inteligência, a força, a beleza, a memória, etc. – constituem qualidades. No entanto, nada têm a ver com a virtude. A prova disso é que basta refletir o fato de que todos os talentos e os dons naturais, e sem a menor exceção, podem ser colocados tanto ao serviço do bem quanto do mal.
Pergunta – A promessa cristã da salvação, segundo o seu livro, quando cremos nela, é verdadeiramente superior à promessa da salvação filosófica, e esse seria o motivo pelo qual “o cristianismo venceu”. Mas ele “venceu” afinal em que sentido?
Ferry – A vitória do cristianismo sobre a filosofia é evidente ao longo de toda a Idade Média: a filosofia será reduzida ao que chamamos de “escolástica”, ou seja, ela praticamente deixará de ter o direito de se interessar pela questão da vida boa e da salvação, que se tornará monopólio absoluto da religião. A filosofia será reduzida a uma vulgar análise de conceitos, mas não será mais, como no tempo das grandes escolas gregas, um exercício concreto de aprendizagem da vida. Será preciso esperar o século 17 para que a filosofia retome aos poucos, principalmente graças a Espinoza, o projeto grego de definir a sabedoria e a vida bem-aventurada…
Pergunta – Embora o sr. não seja um crente, admite que o Evangelho de João é o livro que levaria para uma ilha deserta. É uma rendição à “tentação do cristianismo”?
Ferry – É evidente que a mensagem do amor continua atual no cristianismo, e inclusive mais atual do que nunca. É ela que é, ousaria dizer, “tentadora”. Porque é uma evidência que cega de tão óbvia, que atravessa e subverte continuamente nossa vida privada e no entanto, como se fôssemos tímidos, mal ousamos falar a seu respeito fora da intimidade: é o amor que dá sentido a nossa vida. Todo mundo sabe, todo mundo percebe. O que é menos evidente é que esse poder dos sentimentos nem sempre foi supremamente importante. Como mostro no meu último livro, Révolution de L”Amour, na verdade, ela está ligada a uma história ainda desconhecida: a da invenção, na Europa, do casamento por amor. Sob o efeito da passagem das uniões arranjadas para as uniões escolhidas, o ideal da paixão substituiu paulatinamente as fontes tradicionais de sentido e os antigos valores que foram sacrificados. Em termos filosóficos, o sagrado não é tanto o oposto do profano quanto aquilo pelo qual poderíamos nos sacrificar, dar a nossa vida. E, de fato, os ocidentais partiram para a guerra em nome da religião, da nação e da revolução. Mas quem gostaria ainda hoje em dia, pelo menos entre nós, de morrer por Deus, pela pátria ou pelo comunismo? Ninguém ou quase ninguém, felizmente. Mas, para os que amamos, estaríamos dispostos a tudo. Além do ideal das Luzes, dos direitos do homem e da razão, uma segunda idade do humanismo está prestes a nascer. Ela subverte a vida privada e a coletiva. Não é mais a glória do império, nem mesmo a da pátria que agora inspira a política moderna, mas uma questão totalmente diferente: a das gerações futuras, ou seja, dos nossos filhos, e do mundo que vamos querer deixar-lhes como herança.
A camareira que acusa o ex-diretor-geral do FMI Dominique Strauss-Kahn de estupro mentiu em parte de seu depoimento à Justiça e tem possíveis ligações com tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Com isso, Strauss-Kahn foi liberado, porque o caso esmaeceu. Muita gente anda dizendo, porém, que a perda de credibilidade da acusadora não é suficiente para cravar que ela não foi estuprada de fato – e Strauss-Kahn só está livre, segundo essa visão, porque, afinal, ele é homem, branco e rico. Por outro lado, a camareira é mulher, negra e pobre. Logo, mesmo ante a fragilidade do processo, Strauss-Kahn só pode ser culpado.
Mas podemos inverter a equação: como a camareira é mulher, negra e pobre, e Strauss-Kahn é homem, branco e rico, é virtualmente impossível vê-lo como vítima, porque ele jamais será a parte fraca do caso – de acordo com a visão de que mulheres negras pobres serão sempre as vítimas e os homens brancos ricos serão sempre os algozes.
Strauss-Kahn foi tratado como culpado desde o primeiro minuto do episódio justamente porque não dava para presumir sua inocência ante uma vítima tão caracterizada como tal. Assim, destruir a vida de Strauss-Kahn pode ser visto como um ato de expiação de culpas coletivas seculares, por causa da escravidão negra e da marginalização de negros, pobres e mulheres na sociedade, mas nada teve a ver com Justiça de fato.
2012
2011
2010
2009
2008