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Marcos Guterman

Passou em primeira votação na Câmara de São Paulo o projeto que dá isenção fiscal de R$ 420 milhões ao Corinthians para construir seu estádio, apelidado de “Itaquerão”. A base do prefeito Gilberto Kassab deve fazer o texto passar com folga. Isso significa que os contribuintes do município, independentemente do time para o qual torcem ou mesmo se gostam ou não de futebol, vão ajudar a financiar o estádio do Corinthians, um clube privado. O argumento de Kassab, descrito no projeto enviado à Câmara (que, curiosamente, não cita o Corinthians nem no texto nem na justificativa), é que o empreendimento trará grande desenvolvimento à zona leste. A questão, como mostra o blog de economia Dr. Money, é que daria para construir um estádio municipal com esse dinheiro, se isso fosse realmente de interesse público. Mas não se tem certeza nenhuma de que o empreendimento compensará a renúncia e, em caso de prejuízo, quem arcará com ele será o Estado, e não o Corinthians. Já o ganho com o estádio propriamente dito, pelo contrário, ficará somente para o clube do coração do ex-presidente Lula, responsável direto pela “forcinha” para que o “Itaquerão” saia do papel.

O lulismo criou grandes oportunidades para todo tipo de oportunista, a partir do discurso segundo o qual esse capitalismo de compadres gera desenvolvimento. O “Itaquerão” é só um caso mais, digamos, folclórico – tal como a isenção fiscal dada pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, a motéis e padarias. Cabral, aliás, é um lulista clássico, porque não teve a menor vergonha de usar o jato particular do bilionário e amigo Eike Batista para ir a uma festança do empreiteiro e amigo Fernando Cavendish – e ambos, surpresa!, têm gordos contratos com o governo do Rio. Flagrado graças a um acidente, Cabral agora diz, candidamente, que precisa mesmo “rever” sua conduta.

Contudo, há casos bem menos carnavalescos, como a injeção de até R$ 4,5 bilhões do BNDES na eventual fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour. O argumento é que é preciso impedir que estrangeiros dominem o setor, já que o grupo francês Casino está em vias de controlar o Pão de Açúcar – com a fusão, o Casino perderá força. Na prática, tratou-se o Pão de Açúcar como uma empresa estatal, por suposto interesse estratégico, e o resultado do negócio é uma brutal concentração de mercado nas mãos de um empresário privado. Em 1989, dizem que a polícia obrigou os sequestradores de Abilio Diniz, dono do Pão de Açúcar, a vestir camisetas do PT; agora talvez seja o caso de o próprio Diniz usar uma delas.

O episódio do Pão de Açúcar lembra outro, muito mais caro: o da injeção de R$ 7,5 bilhões do BNDES no frigorífico JBS Friboi. O esforço do lulismo em criar potentes “multinacionais brasileiras” ignorou o fato óbvio de que a escolha de uma única empresa para receber bilhões em créditos oficiais em detrimento de outras é nociva a todo o sistema produtivo. Os danos colaterais desse modelo chinês de economia dirigida foram explicados pelo presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos, Péricles Salazar: “O BNDES pôs um volume colossal de dinheiro para criar uma multinacional sem diagnosticar bem a cadeia produtiva. E criou uma empresa assim, que pode fazer o preço do boi e da carne. Impossível competir”.

Mais importante que isso, porém, é que o lulismo não se contentou em fazer o PT abandonar sua luta histórica contra as privatizações; ele deu um passo adiante e adotou o modelo no qual o Estado entra como aquele sócio magnânimo que assume a tarefa de cobrir os prejuízos, enquanto os demais investidores contabilizam apenas os lucros, sem que precisem se esforçar nem para obter financiamento. Pior: o crédito que o BNDES distribui fartamente aos amigos do lulismo – no Brasil e nos países “bolivarianos” – tem um custo muito menor do que aquele que é pago pelo Tesouro para captar os recursos que cobrem o caixa do BNDES. Essa diferença é paga pelo desavisado contribuinte brasileiro.

Como mostrou o historiador Tony Judt em seu último livro, “O Mal Ronda a Terra”, só uns poucos “amigos do Estado” ganham com esse sistema – em que o risco de perda é zero, o mercado é garantido e os interesses privados são defendidos como se fossem públicos.

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No exato momento em que os sírios contam mais de mil mortos pela covarde repressão realizada pelo ditador Bashar Assad, “ativistas” de várias partes do mundo mobilizam recursos e energia para organizar uma nova “flotilha da liberdade” e “denunciar” o bloqueio de Israel a Gaza.

Enquanto o sangue de pessoas inocentes corre nas ruas sírias, o caso do bloqueio a Gaza é bem menos premente: Israel ampliou consideravelmente a lista de materiais que podem ser desembarcados no território palestino, e o Egito abriu sua fronteira com a região. Logo, embora o cerco israelense persista, movido pela ameaça terrorista representada pelo Hamas, o atual cenário em Gaza não se compara, em urgência humanitária, à desesperadora situação dos dissidentes da Síria. Donde se conclui que a nova “flotilha” tem utilidade meramente política, assim como sua antecessora: provocar Israel para que o país, ao reagir, “prove” sua natural “beligerância”. Não é por outra razão que, entre os “humanistas” a bordo, há alguns ligados ao grupo terrorista Hamas, o mais interessado em constranger Israel.

Apesar das evidências de que uma nova armadilha está sendo montada para Israel, o governo israelense insiste em dar importância a quem não tem. Se deixasse a tal flotilha chegar a Gaza, nada aconteceria (o porto local nem comporta os navios que estão chegando), e o caso cairia rapidamente no esquecimento – salvo para meia-dúzia de obcecados que veriam no episódio uma “vitória” contra Israel. Mas os israelenses já avisaram que vão abordar os barcos e chegaram a ameaçar jornalistas – um evidente tiro no pé. O lamentável enfrentamento do ano passado, que ajudou a isolar Israel ainda mais ante a opinião pública internacional, mostra que só um lado tem algo a perder nessa história.

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O historiador Alvin Rosenfeld, da Universidade de Indiana, acredita que a Shoah (Holocausto), o extermínio sistemático dos judeus europeus na Segunda Guerra, corre o risco de desaparecer da memória. Em seu lugar, está sendo construída uma imagem distorcida do genocídio, alimentada pelo cinema e pela literatura popular, que mais esconde do que mostra o Holocausto histórico. Com isso, diz Rosenfeld, o próprio termo “Holocausto” acaba servindo para qualificar qualquer coisa, do aborto à morte das baleias, e isso pode ser pior até mesmo do que a negação da Shoah.

Em seu livro “O Fim do Holocausto”, recém-lançado, Rosenfeld sustenta que a diluição do Holocausto no universo pop permitiu que se forjasse a ideia segundo a qual todos foram vítimas de Hitler, inclusive os alemães. O sofrimento dos civis alemães bombardeados pelos Aliados, como em Dresden, seria comparável ao dos judeus nos campos de extermínio. Capitaneada pela esquerda alemã, essa relativização do Holocausto espantou os melhores cronistas do genocídio, como Primo Levi, ele mesmo de esquerda. Ao comentar sobre a dura tarefa de relembrar a Auschwitz real no livro “Os Afogados e os Sobreviventes”, Levi desabafou: “O problema é que as pessoas que lerem e entenderem este livro não precisam dele, e os que precisam dele não o entenderão”.

Havia, claro, questões políticas importantes que ajudaram a criar esse “Holocausto” fácil para consumo das massas, em detrimento do Holocausto histórico e suas complexidades. Para os EUA, a memória do genocídio era vista como um entrave nas relações com a Alemanha; logo, era preciso “superar” o episódio e “seguir adiante”, nas palavras de Reagan.

Rosenfeld é particularmente duro com as representações artísticas do Holocausto. Para ele, com raríssimas exceções, não há livro, romance ou peça de teatro à altura histórica da tragédia; pelo contrário: em sua opinião, essas produções servem unicamente para tentar dar um “sentido” redentor inexistente no genocídio. A partir da conclusão de que o Holocausto é absolutamente único e irredutível, Rosenfeld desqualifica “paralelos” como o genocídio armênio e o massacre de Ruanda, o que obviamente é um exagero; afinal, a história é feita também de comparações.

Rosenfeld diz que é preciso lutar para “reconectar” o Holocausto à história. Mesmo o Diário de Anne Frank tem de ser lido em seu contexto adequado – qual seja, o de que foi editado para se adequar à demanda por uma mensagem de esperança, tão desejada pelos leitores comuns que enfrentam o tema. Como diz Rosenfeld, porém, é muito difícil ter qualquer esperança quando se está diante do verdadeiro Holocausto.

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No post anterior, publiquei um texto em que um coronel sírio fala sobre a brutal repressão aos dissidentes no país. O primeiro comentário, de um leitor que se apresenta como “De passagem”, foi revelador. “Não acredito em nada do que esses golpistas vendidos dizem”, escreveu ele, em letras maiúsculas, para afirmar sua indignação. Para “De passagem”, a versão do coronel só pode ser mais uma invenção no enorme complô ocidental contra os pobres árabes. Não houve, da parte do comentarista, nenhuma mísera palavra de solidariedade ao povo sírio. Como explicar tamanha insensibilidade de gente que se posiciona à “esquerda” e que, portanto, deveria ter como valor primordial a solidariedade aos oprimidos – qualquer oprimido?

Essa “esquerda” tornou-se cinicamente seletiva a partir de Stálin e nunca mais se recuperou. Como se sabe, o antissemitismo travestido de “antissionismo” é invenção stalinista, depois que ficou claro que o Estado de Israel não se alinharia a Moscou, mas aos EUA, apesar dos sionistas socialistas. Stálin, que sempre foi antipático aos judeus e queria aproveitar para fazer mais um de seus expurgos, deflagrou campanha contra o “cosmopolitismo” judaico, inimigo do Estado, o que resultou em prisões em massa e falsos julgamentos. Graças à subserviência de intelectuais esquerdistas de vários países europeus e latino-americanos a tudo o que vinha da URSS, resultou também na disseminação da ideia de que o Estado de Israel era parte de um plano global de dominação capitalista no Oriente Médio. A propaganda soviética afirmava ainda que o sionismo e o nazismo se equivaliam, que os sionistas detinham o poder econômico e midiático internacional e, enfim, que conspiravam secretamente para destruir a liberdade dos povos. Como se vê, todos os elementos do antissemitismo clássico dos séculos 19 e 20 estão presentes no “antissionismo” soviético, alegremente adotado como discurso pela militância esquerdista do século 21.  

A “solidariedade” desse socialismo distorcido, desde então, só se manifesta se for para apoiar supostas vítimas dos inimigos de sua “causa”, resumida no tal “outro mundo possível”, slogan totalitário que divide o mundo entre bons e maus. Já as vítimas dos tiranos árabes, vistos como “heróis” da “luta anticolonialista”, essas não contam.

Nesse contexto, o “outro mundo possível” só se interessa pelo cruel Ocidente, cuja representação máxima é os EUA. O Ocidente é visto por essa militância como o motor da desumanização, da busca do prazer e do consumo e da destruição do “outro”, vinculando suas relações exclusivamente ao dinheiro. Não existe a possibilidade de virtude no Ocidente, que produz apenas seres individualistas, incapazes de engajar-se num projeto coletivo. Os virtuosos são somente os eleitos do “outro mundo possível”, sobretudo sua vanguarda revolucionária.

O desdobramento em Israel é óbvio: trata-se da ideia de que a modernidade representada pelo Estado judeu é uma intromissão violenta nas tradições árabes e islâmicas, uma ameaça de ruptura inaceitável, o símbolo da opressão contra os indefesos palestinos, um ser estranho no meio do deserto – exatamente como os judeus eram considerados seres estranhos à sociedade alemã mais “pura” e “tradicional”, porque representavam o perigoso espírito cosmopolita e contestador. Eram as bactérias a infectar o corpo germânico, conforme elaboraram os panfletários antissemitas e, depois, o próprio Estado alemão.

Não é mera coincidência que o sentimento antiocidental que alimenta a rua árabe islâmica e nutre ódio mortal pelos judeus tenha se inspirado na Alemanha, e a partir da mesmíssima matriz do nazismo, que é o Romantismo do século 19 – uma espécie de “Contra-Iluminismo”, como definiu Isaiah Berlin. Sati Husri, ideólogo do nacionalismo árabe, era leitor dos filósofos românticos alemães Herder e Fichte e visualizava um mundo árabe unificado sob o signo da völkisch, a ideia de uma sociedade “orgânica” radical, sem espaço para o indivíduo e o livre arbítrio, como preconizava o fascismo. Além disso, com a retomada da noção de solidariedade de “sangue árabe”, completou-se o circuito de combate nacionalista sem trégua ao Ocidente e seus rótulos fáceis: colonialismo, imperialismo e sionismo.

A defesa do “sangue e da terra” (Blut und Boden) ante as ameaças externas, alimentada pelo Romantismo alemão e adotada pelo nacionalismo árabe, criou uma ideologia deletéria, cujos seguidores aprenderam rapidamente o valor do “tudo ou nada” na construção de sua mitologia, traduzida pela valorização da morte heroica – dos kamikazes e dos homens-bomba – e da eliminação física do outro. Na ideologia Blut und Boden, a convivência com o diferente é obviamente uma impossibilidade, razão pela qual a existência de um Estado judeu – o “diferente” por excelência na mentalidade antissemita – foi imediatamente rechaçada pelos nacionalistas árabes. (Ironicamente, os judeus israelenses, que aceitam os árabes em seu Estado, é que são acusados de racismo e de “apartheid”, vejam só.)

Assim, os militantes anti-Ocidente escolhem defender “causas” que, em sua opinião, simbolizam essa impossibilidade de conciliação, tão útil na construção de uma atmosfera de “tudo ou nada”. A causa palestina é perfeita para isso: em meio a uma história complexa, slogans simplistas sobre a miséria palestina em contraponto à opulência israelense, patrocinada pela plutocracia judaica que “manda” na Casa Branca, são a propaganda perfeita para disseminar não a verdade, que é irrelevante, mas a mensagem de ódio ao Ocidente. Pior: em sua tarefa de demonizar Israel, os militantes anti-Ocidente não se importam com mais nada – nem com os dissidentes sírios, nem com a minoria não-islâmica sudanesa, nem com os muçulmanos da China. Nem mesmo com os palestinos, que são, como vimos, apenas um pretexto.

O que importa é combater Israel sem trégua, como o Mal Absoluto. Israel tem mil utilidades e adjetivos. É sempre invocado quando se quer fazer equivalência moral com algum líder árabe socialista corrupto amigo do Brasil lulista ou da Venezuela chavista. Israel é, ainda, “ladrão de terras”, um “câncer”, um “protetorado dos EUA” encravado no mundo árabe “a serviço do grande capital”. É – suprema comparação – a reencarnação da Alemanha nazista, como esbravejou Stálin. Não há como conceder existência a um monstro desses.

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O coronel Hussein Harmoush desertou do Exército sírio após 22 anos de carreira. Motivo: ele não suportou o grau de barbárie da repressão contra os dissidentes do regime de Bashar Assad – aquele que conta com a simpatia do Brasil contra a imposição de sanções do Conselho de Segurança da ONU. “Demorei demais para tomar essa decisão. Sinto-me responsável pela morte de cada mártir na Síria”, disse Harmoush à revista Time.

“Eu vi soldados atirando indiscriminadamente em pessoas como se estivessem caçando. Eles queimaram suas plantações, derrubaram suas oliveiras. Não houve resistência nas cidades. Eu vi pessoas em fuga sendo abatidas pelas costas”, relatou. Segundo Harmoush, a imprensa síria, controlada pelo governo, mente descaradamente sobre o que acontece no país.

Questionado sobre qual foi o pior momento de tudo o que testemunhou, o coronel não resistiu e desabou em lágrimas: “Eu apelo às pessoas de consciência, às pessoas com humanidade, por favor, ajudem o povo da Síria”.

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A presidente Dilma Rousseff vai patrocinar uma alteração no projeto de lei aprovado na Câmara que prevê o fim do sigilo eterno para documentos oficiais considerados “ultrassecretos”. Com isso, alguns documentos permanecerão bem longe da vista do público para sempre ­– uma excrescência inventada no governo FHC.

A decisão contradiz promessas de transparência feitas por Dilma, herdadas de um governo Lula que chegou a fazer campanha a favor do WikiLeaks, aquele site que se jacta de destruir o sigilo de documentos dos EUA. Ou seja, transparência nos documentos dos outros é refresco.

É fácil entender a posição de Dilma. Ela responde a pressões de Sarney e Collor, que muito têm a esconder. Como o atual governo agora é refém dos “aliados” no Senado, graças ao escândalo Palocci, não resta alternativa a Dilma senão se dobrar, mais uma vez, ao que há de mais atrasado neste país.

Ademais, é possível também que o tal “sigilo eterno” sirva para proteger mais alguém além de Sarney e Collor.

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O Fórum de Jornalismo da Argentina defende a aprovação de lei que crie uma “cláusula de consciência” para os jornalistas. Com essa cláusula, segundo o projeto apresentado, os jornalistas poderão recusar-se a fazer determinado trabalho se julgarem que houve atentado a sua “independência e integridade moral, deontológica e profissional” por parte do empregador. Segundo o fórum, o objetivo não é somente proteger os jornalistas; é também “garantir o direito dos cidadãos de receber uma informação veraz e adequada”.

Para invocar a “cláusula de consciência”, diz o texto, é preciso que tenha havido “mudança notável da linha editorial” do veículo em que o jornalista trabalha, afetando “gravemente a liberdade de consciência do profissional”. A cláusula permite também ao jornalista pedir para retirar sua assinatura de reportagem cujo sentido original tenha sido alterado na edição. O jornalista pode também se recusar a publicar reportagens que, na verdade, sejam “publicidade encoberta”. Pode, ainda, manter suas fontes em sigilo.

O contexto da reivindicação dos jornalistas argentinos é a cada vez mais intensa batalha entre governo e imprensa, com troca violenta de acusações de corrupção e truculência. A Sociedade Interamericana de Imprensa já manifestou diversas vezes sua preocupação pelo que chamou de “escalada” contra a liberdade de informação na Argentina. Na Presidência, o casal Kirchner – o falecido Néstor e Cristina – vetou a presença de repórteres do Clarín e do La Nación em eventos do governo e vinculou os dois jornais ao antigo regime militar, além de tentar minar os negócios do grupo Clarín. Diante disso e da feroz reação dos meios afetados, a margem para um jornalismo independente ficou drasticamente reduzida.  

A “cláusula de consciência” tenta criar uma situação de segurança moral e ética para os jornalistas. “Nesse sentido, deve-se entender que os meios estatais não devem ser considerados como usinas de propaganda governamental”, diz o texto do fórum. “E os meios privados não podem ser entendidos somente a partir da lógica dos interesses econômicos, corporativos ou de qualquer índole. Em ambos os casos, deve-se priorizar o direito do público de ter informação veraz e completa dos fatos acontecidos – e o direito do jornalista de cumprir esse mandato social que a cidadania depositou em seu trabalho.”

(via @Rosental)

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O Palácio do Planalto informou que a agenda da presidente Dilma Rousseff está aberta somente a chefes de Estado e de governo, razão pela qual ela não pôde abrir espaço para receber a iraniana Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz e ativista de direitos humanos. De fato, desde que assumiu, Dilma só se encontrou com importantes chefes de Estado, como dá para ver nas fotos abaixo:

 

Dilma com a presidente da Shakirolândia

 

Dilma com o primeiro-ministro da Yutchulândia

 

Dilma com a rainha da Martalândia

 

 

Se Ebadi ao menos soubesse rebolar ou jogar bola, ela teria mais chances com Dilma. Mas, como só quer saber de denunciar violações dos direitos humanos no Irã, teocracia que o Brasil lulista corteja em seu projeto megalomaníaco internacional, Ebadi pode ir cantar em outra freguesia.

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Defensores dos direitos dos muçulmanos nos EUA pediram ao Comitê Olímpico do país que interviesse no caso de uma levantadora de peso muçulmana, a americana Kulsoom Abdullah, banida de torneios porque insiste em competir usando o hijab, tradicional roupa feminina islâmica que cobre boa parte do corpo da mulher.

Para esses grupos, a lei impede que entidades esportivas discriminem atletas “com base em raça, cor, religião, sexo, idade ou origem nacional”. O mesmo argumento foi usado para defender que a seleção feminina de futebol do Irã pudesse jogar de hijab as eliminatórias olímpicas, o que a Fifa vetou.

Trata-se de um falso problema, criado pela violenta premissa segundo a qual as leis religiosas devem necessariamente se sobrepor às normas civis. Qualquer entidade esportiva que pretenda organizar competições deve estabelecer regras específicas para a disputa, e uma delas, está claro, é o tipo de uniforme. No caso da Fifa, que tem todo o interesse de incluir o maior número possível de países em seus campeonatos, a entidade fez até várias concessões para os times de mulheres muçulmanas, permitindo alguma forma de vestimenta para cobrir a cabeça. Isso, no entanto, parece não ter sido o bastante para a seleção iraniana, que violou até mesmo essa norma leniente, razão pela qual foi excluída.

As entidades muçulmanas não perderam tempo para qualificar essa decisão de “islamofóbica”, o que é um óbvio absurdo: essas mulheres não puderam competir simplesmente porque infringiram o regulamento sobre os uniformes, e não porque são muçulmanas. Mas esse raciocínio é irrelevante quando se está em plena campanha de constrangimento para que grupos religiosos possam se colocar acima da lei.

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O terrorista italiano Cesare Battisti está livre e já pode tomar sorvete no calçadão de Copacabana, assim que o tempo melhorar. O Supremo Tribunal Federal, principal instância judicial do Brasil, entendeu que não pode opinar sobre o caso, nem mesmo sobre qual sabor de sorvete Battisti deve escolher. Tudo isso significa que consideramos a Itália um país medieval, incapaz de julgar seus cidadãos adequadamente por crimes cometidos em seu território. Já a Justiça brasileira, como sabemos, é exemplar.

Tirante os rapapés togados, resta a decisão política de criar uma crise diplomática com a Itália apenas para proteger um criminoso cujo álibi é ser ideologicamente alinhado com apaniguados do lulismo. Sua libertação será tratada como grande vitória da “justiça” por parte dos profetas do “outro mundo possível” – um mundo em que crimes são transformados em atos heroicos se forem cometidos em nome da “libertação dos povos”.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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