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Marcos Guterman

31.janeiro.2011 00:15:41

Julian Assange é fedido

O New York Times lança hoje um livro sobre o WikiLeaks intitulado “Open Secrets: WikiLeaks, War and American Diplomacy”. O trabalho mostra a relação do polêmico site de Julian Assange com o jornal. No prefácio, antecipado na semana passada, o editor-executivo do New York Times, Bill Keller, dá detalhes da aproximação com Assange e de como os documentos oferecidos por ele foram trabalhados antes da publicação.

Há detalhes curiosos, como quando um repórter do jornal presente a um dos primeiros encontros com Assange diz que ele “fedia como se não tivesse tomado banho há dias”.

Mas o mais importante é que, como mostra Keller, o WikiLeaks e seu dono fedorento foram tratados pelo Times e pelos demais jornais envolvidos na operação como simples fontes, e não como parceiros jornalísticos. Para Keller, Assange “tinha claramente uma agenda própria”, e o material oferecido por ele tinha de ser tratado com ceticismo e responsabilidade.

O rompimento do Times com Assange, conta Keller, ocorreu quando o jornal se recusou a dar link para o WikiLeaks em suas reportagens, com o argumento de que o site, ao disponibilizar os documentos vazados sem o cuidado necessário, estava colocando vidas em risco. Furioso, Assange ligou para Keller e cobrou: “Onde está o respeito?”.

Para Keller, a despeito de todo o furor em torno do assunto, “o impacto do WikiLeaks em nossa cultura provavelmente foi exagerado” e o site não representa “o triunfo cósmico da transparência”, porque as maiores revelações feitas por ele partiram de um único sujeito, um soldado raso do Exército.

Mas nem todos os envolvidos no WikiLeaks perderam o senso do absurdo, diz Keller. Um advogado de Assange enviou um cartão de Natal que dizia: “Queridas crianças, Papai Noel são mamãe e papai. Com amor, WikiLeaks”.

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29.janeiro.2011 00:29:34

O vexame americano

O presidente dos EUA, Barack Obama, pronunciou-se sobre a crise no Egito. Em sua declaração, ele citou uma única vez a palavra “democracia”. Pior: nessa única vez, Obama disse que Hosni Mubarak, um ditador implacável, prometeu uma “democracia melhor” – como se houvesse alguma democracia hoje no Egito para ser “melhorada”.

Assim, na ânsia de proteger um tirano que atende aos interesses geoestratégicos imediatos dos EUA no mundo árabe, Obama insulta a inteligência daqueles que preferem a democracia à ditadura e trai o próprio espírito americano.

Um vexame, enfim.

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Gil Meche era, até semana passada, jogador do time de beisebol Kansas City Royals. Seu contrato previa que ele ganharia, neste ano, US$ 12 milhões. Com um problema crônico no ombro, Meche não poderia jogar – mas, mesmo assim, ele deveria receber cada centavo do salário, conforme previsto nas regras da liga americana de beisebol. Na semana passada, porém, ele anunciou sua aposentadoria. Disse que prefere parar de jogar a ganhar dinheiro sem entrar em campo.

“Quando eu assinei meu contrato, meu objetivo principal era fazer por merecê-lo”, explicou Meche. “Quando eu comecei a perceber que eu não estava merecendo meu dinheiro, eu me senti mal. Eu estava ganhando uma quantidade absurda de dinheiro para nem mesmo pisar no campo. Honestamente, eu não achava que estivesse merecendo. Eu não quero ter esse tipo de sensação de novo.”

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A onda de protestos no mundo árabe está dando oportunidade a todo tipo de especulação. A Arábia Saudita, por exemplo, considera que o Irã está por trás dos tumultos, porque tem interesse em desestabilizar esses países para neles instalar regimes ligados a Teerã, como no Líbano. Já os iranianos entendem que os eventos são uma reação contra governos alinhados aos EUA e a Israel. Nos dois casos, trata-se de uma óbvia tentativa de seqüestrar os protestos para alimentar agendas político-ideológicas próprias. Seja como for, a atual crise contribui decisivamente para mostrar que o discurso segundo o qual o principal problema do mundo árabe se chama Israel não passa de um mito, que só ajuda ditadores e teocratas.

Sobre o caso específico do Egito, por outro lado, Obama está pisando em ovos porque o ditador Hosni Mubarak é aliado estratégico. Num primeiro momento, seu governo se limitou a pedir “calma” e a dizer que o governo de Mubarak é “estável”. É o mesmo entendimento que tem Israel ­­– que não se manifesta publicamente sobre o assunto, mas, reservadamente, considera que Mubarak não corre risco de cair, porque seu poder é fortemente garantido pelo Exército.

No entanto, com a violenta dinâmica dos acontecimentos – e a volta ao Egito do Nobel da Paz Mohammed ElBaradei, disposto a usar sua credibilidade para liderar a mudança de regime –, o presidente americano viu-se obrigado a arriscar-se um pouco mais no campo da retórica. Agora, Obama diz que esta é a oportunidade para “reformas” no Egito. Não significa mudança de regime, mas alguma abertura (o vice-presidente americano, Joe Biden, conhecido por suas gafes, disse que nem considera Mubarak um ditador). O problema dos EUA é que há o risco de que a alternativa a Mubarak seja a Irmandade Muçulmana, imenso grupo fundamentalista de oposição. O primeiro sinal do problema apareceu quando a Irmandade, após silenciar sobre a crise, anunciou que participará dos protestos previstos para hoje.

Assim, como não há nenhuma garantia de que o incipiente movimento árabe pela democracia resulte em democracia efetiva – a tumultuada desintegração da URSS é um exemplo histórico desse possível impasse –, ainda é muito cedo para sabermos que tipo de regime emergirá de toda a confusão. As perspectivas, porém, não são animadoras, porque, na maioria desses países, a oposição democrática ou é fraca demais ou foi inteiramente destruída, abrindo caminho para a substituição de uma autocracia por outra.

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27.janeiro.2011 15:52:25

Então tá

“Eu fui acusado de ter proibido a abertura do arquivo por 50 anos. Aquilo ocorreu no meu último dia (no governo) e alguém colocou um papel para assinar lá. Eu sou contra isso. Temos sim de abrir os arquivos.”

 

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ao tentar justificar por que vetou a abertura de arquivos da ditadura quando era presidente, mesmo sendo a favor. É o caso de se perguntar o que mais o presidente-sociólogo assinou sem ler durante seu mandato.

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O New York Times está estudando a possibilidade de adotar um sistema para receber mais facilmente documentos vazados, informa o blog The Cutline. O modelo seria o usado pela Al Jazeera – a empresa catariana criou uma central para recepção de informações anônimas, isto é, seu próprio WikiLeaks. Como resultado, já obteve centenas de documentos sobre as negociações entre palestinos e israelenses.

Para o New York Times, a vantagem evidente desse sistema é se livrar do ególatra Julian Assange, o dono do WikiLeaks. Já há quem veja na ideia o início de uma espécie de “corrida armamentista” no mundo jornalístico para obter documentos sigilosos de modo rápido e eficiente.

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Em seu Discurso sobre o Estado da União, nesta terça-feira, o presidente Barack Obama deu a entender que os EUA correm o risco de ficar em desvantagem diante da ascensão de potências ultracompetitivas como China e Índia.

Ele sugeriu que é preciso melhorar a qualidade dos gastos públicos para retomar os investimentos em educação e criação de tecnologia, “encorajando a inovação americana”.

“Nenhum de nós pode prever com certeza qual será a próxima grande indústria ou onde os novos empregos serão gerados”, discursou Obama. “Há 30 anos, não podíamos saber que uma coisa chamada internet levaria a uma revolução econômica. O que podemos fazer – e é isso o que a América faz melhor do que qualquer um – é incentivar a criatividade e a imaginação de nosso povo. Somos uma nação que põe carros em estradas e computadores em escritórios; a nação de Edison e dos irmãos Wright; do Google e do Facebook. Na América, inovação não apenas muda nosso cotidiano. É como ganhamos a vida.”

Obama lembrou o caso do Sputnik – satélite soviético lançado em 1957, que fez a URSS sair na frente na corrida espacial. “Não tínhamos ideia de como os derrotaríamos. Mas, depois de investir em pesquisa e educação, nós não apenas superamos os soviéticos; nós deflagramos uma onda de inovação que criou novas indústrias e milhões de novos empregos”, disse Obama.

Para recuperar os EUA e fazer o país liderar novas revoluções tecnológicas, Obama sugeriu que os americanos façam o que “fazem há mais de 200 anos: reinventar-se”.

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Ainda é cedo para avaliar a extensão dos protestos no Egito. Para Washington, porém, o governo do ditador Hosni Mubarak é “estável”. Parece mais um desejo do que uma tradução racional dos fatos – afinal, Mubarak é um elemento-chave no jogo americano no Oriente Médio.

Tanto é assim que a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, não defendeu reformas democráticas no Egito, diferentemente do que Obama fez em relação à Tunísia. Ela se limitou a dizer que os egípcios têm o direito de protestar – e, cinicamente, afirmou que Mubarak está “buscando formas” de atender às demandas populares.

O papel dos EUA é fundamental para o sucesso de uma eventual revolta contra Mubarak. Sem que Washington retire seu apoio ao velho ditador, fica difícil imaginá-lo fora do poder, razão pela qual ele terá mãos livres para “manter a ordem”, como sugeriu Hillary.

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Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) foi o sujeito que, em 1937, disse que não combateria Hitler para ajudar os judeus. Em relação ao premiê francês da época, o judeu Léon Blum, ele escreveu: “Prefiro uma dúzia de Hitlers a um todo-poderoso Blum. Hitler, pelo menos, eu consigo entender, enquanto com Blum é perda de tempo, ele sempre será o pior inimigo, absolutamente odioso”. Esse mesmo cavalheiro seria celebrado nesta semana pelo governo francês como uma das grandes personalidades da história do país. Pressões de grupos judaicos, porém, levaram o ministro da Cultura da França, Frederic Mitterrand, a retirar Céline da homenagem.

Céline é um dos grandes escritores contemporâneos. Sua obra mais importante, Viagem ao Fim da Noite, é um retrato impactante de uma sociedade em transformação, no mergulho da loucura da guerra e da industrialização frenética, em nome do racionalismo. Cheio de cinismo, o livro é um dos marcos da literatura do século 20, justificando a homenagem que lhe seria feita.

A julgar pela reação dos grupos judaicos e do próprio governo da França, porém, a genialidade artística de Celine não é suficiente para que se relativize seus pecados. Exige-se dele o que não se exigiu do antissemita Dostoiévski, por exemplo, ou de Gabriel García-Marquez, amigo íntimo do ditador Fidel Castro.

É compreensível que a figura de Céline cause repulsa por causa de seus panfletos. Mas, como brincou o presidente Nicolas Sarkozy tempos atrás, “pode-se amar Céline sem ser um antissemita, assim como pode-se amar Proust sem ser um homossexual”.

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De novo, como tudo o que tem se relacionado ao vazamento de documentos sigilosos nos últimos tempos, a publicação de papéis com detalhes sobre as negociações dos palestinos com Israel, feita no domingo pela Al Jazira, tem tudo para dar em nada – a despeito da histeria com que foi tratada pela emissora catariana e pelo jornal The Guardian.

Os documentos mostram as ofertas feitas pelos palestinos em relação aos assentamentos judaicos na Cisjordânia, aos refugiados e a Jerusalém. Para a Al Jazira, eles mostram que as lideranças palestinas fizeram concessões excessivas e se relacionaram com os israelenses e os americanos de modo “vergonhoso”, nas palavras de Tariq Ali.

A leitura dos documentos, porém, revela poucas novidades capazes de efetivamente comprometer a imagem dos líderes palestinos e de causar algum tipo de golpe contra eles – apesar dos esforços do Hamas.

Pelo contrário: os documentos podem ser lidos como a prova de que Israel exagera ao dizer, como faz há anos, que não há interlocutores com quem negociar do lado palestino. Aparentemente, os interlocutores não só existem como são capazes de fazer concessões importantes.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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