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Marcos Guterman

27.dezembro.2011 17:36:08

“Jesus era muçulmano”

O britânico Anjem Choudary é uma das principais lideranças do islamismo radical no Reino Unido. Ele defende a adoção da sharia (lei islâmica) no país, foi um dos que elogiaram os terroristas do 11 de Setembro e já pediu a execução do papa e de Obama. Em sua mais recente mensagem, a propósito do Natal – que ele chama de “festa pagã”, associada a “promiscuidade, abuso de álcool, violência doméstica e todos os tipos de crimes” -, Choudary disse que “Jesus, de fato, era muçulmano” e se fosse vivo hoje estaria ao lado dos muçulmanos “em sua luta para liberar suas terras e para implementar a lei de Deus”.

 

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A Carta Maior informa que a deputada Luciana Santos (PC do B-PE) propôs a criação de uma subcomissão na Câmara para buscar “formas de garantir a sobrevivência financeira de veículos de comunicação que fazem parte da chamada imprensa alternativa, como rádios comunitárias, portais e blogs na internet”. Como já dá para perceber, essa “garantia” viria na forma de financiamento com dinheiro público.

Luciana diz que a ideia é ir além da distribuição de publicidade oficial – a verba seria destinada diretamente à produção de conteúdo. O objetivo, afirma a deputada, é “aumentar a capilaridade da comunicação no país e ajudar a democratizá-la”.

Para mostrar que o tema é “suprapartidário”, a reportagem diz que a presidência da subcomissão foi entregue a Júlio Campos (MT), que é do DEM e tem “forte ligação com a imprensa tradicional” – foi dono de um grupo de comunicação no Mato Grosso, mas perdeu o negócio.

Atribui-se à “mídia alternativa” o poder de romper o suposto monopólio da informação mantido pelas grandes empresas de comunicação. Mas é difícil imaginar que essa “mídia alternativa”, uma vez financiada com dinheiro público, consiga ser crítica ao governo que lhe garante os recursos. O fato de haver apoio de gente da oposição à iniciativa não significa que ela tenha mais valor. Isso prova somente que o trabalho da chamada “grande imprensa”, mesmo com todos os seus erros, incomoda os políticos em geral, e não só os governistas.

É uma obviedade ululante, mas, num país em que os valores estão sendo propositalmente embaralhados para transformar em “golpistas” os jornalistas que investigam o governo, não custa lembrar: uma imprensa verdadeiramente livre é aquela que não depende do Estado que recolhe impostos, mas do leitor que paga pela informação.

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Agora, como de hábito, uma porção de gente está dizendo que “já sabia” que o Barcelona atropelaria o Santos na final do Mundial de Clubes. Mesmo um ou outro comentarista que antecipou uma fácil vitória do time espanhol, porém, jamais poderia imaginar o que se viu no domingo que passou.

De tempos em tempos algo acontece no futebol que muda seus paradigmas. O Brasil em 1938, por exemplo, mostrou aos europeus que era possível misturar futebol e dança, o “foot-ball mulato” descrito por Gilberto Freyre, que marcaria a identidade desse esporte no Brasil até os anos 90. Depois, em 1954, veio a Hungria. Liderada por Puskas, a equipe treinada por Gustav Sebes antecipou o Carrossel Holandês e o Barcelona atual ao ter jogadores de grande preparo físico que não guardavam posição fixa – o centroavante Hidegkuti, por exemplo, jogava recuado, vindo de trás, como Messi, o “falso” centroavante do Barça. O Santos da década de 60 ganhou mais de 20 títulos em dez anos, um feito inigualável, utilizando uma tática que poderíamos batizar de “tsunami”, atacando com até cinco jogadores ao mesmo tempo e marcando gols em proporções bíblicas. Em 1974, veio o Carrossel Holandês, de clara inspiração húngara, que encantou o mundo do futebol unindo extrema eficiência e graça.

De lá para cá, adotou-se a mediocridade como padrão – salvo, talvez, no brevíssimo caso da seleção brasileira de 1982. Os times todos passaram a jogar do mesmo jeito, privilegiando a defesa e apostando em lances fortuitos, como bolas lançadas na área e cobranças de falta.

Mas então apareceu esse Barcelona, que retomou o encanto húngaro e holandês, com uma diferença fundamental: ao contrário das seleções de Puskas e de Cruyff, que tropeçaram contra a Alemanha respectivamente em 1954 e em 1974, o Barça de Messi é goleador e também vencedor – como era o incrível Santos de Pelé. No time catalão, vários espíritos mágicos da história do futebol parecem convergir, dando a sensação de que algo novo e imprevisível está sendo gestado.

Ver meu time jogar contra esse fenômeno foi um privilégio.

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Vende-se como pão quente na internet, em blogs e sites alinhados ao governo petista, a versão segundo a qual os grandes jornais do país estão boicotando o livro “A Privataria Tucana” (Geração Editorial), do jornalista Amaury Ribeiro Júnior. O motivo seria óbvio: como o livro trata de corrupção e desmandos de tucanos, a imprensa, obviamente classificada de “tucana”, decidiu “silenciar” sobre “a reportagem da década”, como a definiram alguns dos entusiastas do trabalho de Amaury. Eis o cenário ideal para aqueles que vêem os grandes jornais como a vanguarda da oposição “golpista”. É um cenário tão ideal, mas tão ideal, que dá até para desconfiar.

“A Privataria Tucana” foi lançado no dia 9 de dezembro. Segundo o próprio jornalista Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, nenhuma redação de jornal recebeu o livro antes do lançamento. “Nós tínhamos receio de alguma ordem judicial que impedisse a distribuição. E não mandamos para nenhuma redação”, disse Emediato ao site Brasil247. Ou seja, aqueles que acusam a imprensa de “silenciar” sobre o livro queriam que os jornais falassem dele sem que seus jornalistas tivessem a chance de lê-lo.

Como sabe qualquer jornalista que se dedica a resenhar livros, um trabalho com mais de 300 páginas, como o de Amaury, requer pelo menos uma semana de leitura, que deve incluir verificação de dados e informações para enriquecer a crítica. Estamos na terça-feira, apenas quatro dias depois do lançamento, e uma porção de gente militante viu nessa “demora” o sinal evidente de que houve má vontade com o livro.

Mas a estratégia foi ainda mais inteligente. Segundo Emediato, uma única redação recebeu o livro antes do lançamento: a da revista Carta Capital, também alinhada ao governo. Ato contínuo, em sua edição que circulou no dia 9, a publicação trouxe em sua capa “O escândalo Serra”, reportagem sobre o livro de Amaury. Pronto. Estava criada a sensação segundo a qual só a imprensa “progressista” se interessara pelo livro, enquanto a imprensa “golpista” permaneceu em silêncio, sinal evidente de sua cumplicidade com Serra e os tucanos.

Melhor marketing do que esse, impossível.

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Newt Gingrich é o sujeito que nos últimos dias ganhou terreno na disputa pela candidatura republicana para enfrentar Obama nas eleições do ano que vem. Suas credenciais em política externa foram expostas em duas declarações recentes.

Na primeira, disse que os palestinos não têm direito a um Estado:

“Lembre-se, a Palestina não existia como Estado. Era parte do Império Otomano. Inventamos o povo palestino, que na verdade são árabes e são historicamente parte do povo árabe, e eles podem ir para muitos lugares. Por uma série de razões políticas, sustentamos essa guerra contra Israel desde os anos 40, e acho que isso é trágico”.

 Na segunda, abordou a crise entre Irã e Israel em termos apocalípticos:

“Temos de entender que, para Israel, um ataque nuclear do Irã seria um novo Holocausto. Seria o fim do judaísmo”.

É por esse tipo de idiotice que os próprios conservadores americanos querem ver Gingrich pelas costas. Um deles, Michael Savage, chegou a oferecer US$ 1 milhão para que ele desista da candidatura.

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O premiê da Rússia, Vladimir Putin, mandou seu porta-voz dizer que está “ouvindo” a voz das ruas, referindo-se aos protestos contra a fraude nas eleições parlamentares que favoreceram escandalosamente o partido do autocrata russo. É uma concessão e tanto para um homem habituado a ditar em vez de ouvir. Mas isso não deve ser interpretado como abertura real ou mesmo como democracia. Putin não é dado a isso. Quando muito, seu ato deve ser lido como uma constatação de que, sim, os protestos foram grandes e representativos o bastante para que ele não os ignorasse. Pela primeira vez na história política russa, manifestações foram organizadas fora do âmbito político – gente de classe média intelectualizada, ligada em redes sociais, se indignou com a fraude eleitoral, e agora Putin tenta se mostrar flexível.

Mas isso é tudo. Entre os que orbitam o centro do poder russo, sabe-se que Putin acena com negociações apenas para ganhar tempo até que os protestos enfraqueçam, dando-lhe tranqüilidade para a eleição presidencial, daqui a cerca de três meses, quando deverá retomar o cargo do qual nunca saiu.

Se Putin é o novo Mubarak, só o tempo dirá, mas há sinais de que essa comparação pode não ser tão estapafúrdia. O próprio Putin parece ter percebido que não pode se isolar, como fez o seu colega ditador egípcio, e essa é uma das razões para encenar essa “abertura” ao diálogo – a ordem de não reprimir o protesto do sábado dá o tom de sua preocupação.

Um dos trunfos de Putin sempre foi o de dar a sensação aos russos de que recolocou o país entre os mais importantes do mundo, e isso depende em larga medida de sua imagem internacional, agora francamente ameaçada pela fraude eleitoral e pela subseqüente mobilização da oposição. Os EUA, por meio de Hillary Clinton, vocalizaram duras críticas ao golpe da autocracia liderada por Putin. Não chega a ser um gesto de ruptura do governo Obama, que permanece comprometido com o “restart” nas relações com Moscou, mas indica tempos difíceis pela frente.

Assim, o endurecimento externo e interno mostra que Putin, para não ter o mesmo destino de Mubarak, precisa mais do que simplesmente “ouvir” a voz rouca das ruas. Deve dar a impressão de que vai levá-la realmente a sério.

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O brasileiro Carlos Latuff é um cartunista conhecido pelo seu engajamento na causa palestina e também por suas críticas aos EUA, razão pela qual ele é adorado pela militância anti-Israel e anti-Ocidente. Um de seus últimos trabalhos, porém, teve repercussão bastante negativa entre os muçulmanos. O desenho, que pode ser visto aqui, representa a vitória do partido ligado à Irmandade Muçulmana nas eleições egípcias. Como quase todas as charges de Latuff, esta não tem nenhuma sutileza: é uma espada que sai de uma urna, com a palavra “islamitas” em sua lâmina.

Como noticiou o Correio Braziliense, foi o bastante para que seu Twitter fosse tomado por críticas e ameaças de muçulmanos e egípcios. “Latuff deve morrer” foi uma das reações, muito semelhantes às palavras de ordem contra chargistas europeus que ousaram abordar o fundamentalismo islâmico num passado recente.

Latuff negou que sua intenção fosse criticar o islã. Ao Correio, disse, no entanto, que entendia a ira dos muçulmanos: “O mundo islâmico tem recebido ataques do Ocidente, especialmente após as charges do profeta Maomé. É de se esperar que os muçulmanos, islamitas ou não, estejam na defensiva diante de uma charge”.

A tentativa de justificar a reação histérica e ameaçadora de radicais, atribuindo a culpa por sua violência à própria vítima, lembrou um episódio que envolveu o célebre jornalista inglês Robert Fisk. Logo após a invasão americana do Afeganistão, Fisk foi ao Paquistão e acabou espancado por refugiados afegãos pelo simples fato de que era um ocidental. Em lugar de observar que essa violência era totalmente descabida – resultante de uma visão distorcida sobre o Ocidente, alimentada pela propaganda de regimes brutais e corruptos interessados em desviar a atenção –, Fisk contorceu-se para justificar a atitude de seus algozes. E saiu-se com esta pérola:

“Eu não quero que isso seja visto como uma multidão muçulmana linchando sem razão um ocidental. Eles tinham todos os motivos para estarem com raiva. Se eu fosse eles, eu teria me atacado.”

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Eric Bolling é âncora do programa “Follow the Money”, na Fox. Há alguns dias, ele “debateu” com outros luminares do pensamento conservador americano a tese segundo a qual os Muppets são esquerdistas – tudo porque, em seu último filme, o vilão é um magnata do petróleo, chamado “Tex Richman”.

Para o pessoal da Fox, o filme é parte de uma campanha contra o capitalismo, promovida pelos “vermelhos” de Hollywood. “É incrível o quão longe a esquerda consegue ir para manipular nossas crianças”, esbravejou Dan Gainor, que faz parte do Media Research Center, grupo que se dedica a esculhambar a “imprensa liberal” nos EUA. “Hollywood, a esquerda, a imprensa, todos eles odeiam a indústria do petróleo. Eles odeiam a América empresarial.”

Para Gainor, não é à toa que existem movimentos como o “Ocupe Wall Street”, cujos manifestantes, segundo ele, “foram literalmente doutrinados, durante anos, por esse tipo de coisa”.

 

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O poeta palestino Najwan Darwish, de 33 anos, recusou-se a participar de um evento em Marselha (França) que incluía o escritor israelense Moshe Sakal, de 35. O debate era sobre a chamada “primavera árabe”, série de eventos que supostamente apontam para a abertura democrática nos países árabes.

Darwish disse que aceitou o convite para o evento com a condição de não dividir a mesa com nenhum israelense. Segundo Sakal, o palestino o acusou de “expulsá-lo de casa” e disse que os judeus de origem árabe – a família de Sakal é síria e egípcia – particularmente odeiam os palestinos.

O escritor israelense, que se retirou da conferência, lamentou a atitude de Darwish, sobretudo porque o palestino parece não conhecer seus pontos de vista – Sakal é crítico das atitudes xenófobas de parte da sociedade israelense e defensor do diálogo com outras culturas. Em entrevista ao Haaretz, em março passado, ele declarou:

“Temos (os israelenses) de decidir se queremos uma cultura separatista, um tipo de cultura monolinguística, uma autarquia monocultural dentro de um círculo estéril, fechado e isolado, que vai necessariamente levar a uma arte xenófoba, obcecada pela perseguição; ou se vamos buscar uma cultura orgulhosa que preserva sua singularidade, mas também sabe olhar ao redor e que não tenha medo de buscar contato com as culturas do mundo”.

Talvez a mesma indagação possa ser feita pelos artistas palestinos, sobretudo os jovens como Darwish, a respeito do que eles querem para seu futuro Estado. Mas a atitude de Darwish é um mau presságio.

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05.dezembro.2011 17:51:49

Eu e o Doutor

Tive o privilégio de conhecer Sócrates pessoalmente em maio do ano passado. Eu, modesto autor de um livro que tem a pretensão de contar a história da república brasileira pela via do futebol, fui convidado a debater o assunto com ele, no Sesc de Curitiba. Sócrates mereceu em meu livro um alentado trecho, sobre sua liderança na construção da chamada “Democracia Corintiana” e sua participação na campanha das Diretas Já. No primeiro caso, ele ajudou a formar a ideia segundo a qual os jogadores de futebol podiam ser responsáveis por si mesmos, sem que fosse necessária a tutela do clube em que jogam – tutela cuja melhor tradução é a famosa “concentração” antes dos jogos. Para Sócrates, uma noite de sexo com a mulher era melhor para o desempenho do jogador do que ficar num hotel olhando para a cara de um bando de marmanjos. Essa bandeira foi empunhada por Sócrates também na vida política nacional, ao juntar-se ao coro dos que lutavam para encerrar a era paternalista dos generais, que julgavam os brasileiros incapazes de escolher seus governantes. Assim, ele teve a coragem de se expor, usando sua condição de ídolo, para derrubar diversas ditaduras.

A “concentração” dos times de futebol ainda existe, e os brasileiros continuam elegendo picaretas, mas nada disso significa que Sócrates tenha lutado em vão. No meu encontro com o Doutor, tive a certeza de que sua inspiração eletrizante bastava para, ao menos, fazer pensar. Não era preciso concordar com suas ideias – aliás, o fato de ele ter dado a um de seus filhos o nome de Fidel dá bem o tom de alguns de seus delírios ideológicos. Mas sua energia era o bastante para incomodar o mais cético dos céticos. E só uma conspiração de deuses podia ter tido a inteligência de plantar um homem com essas qualidades no meio da torcida que, com inequívoca justiça, se intitula “do povo”. Como se Sócrates tivesse a missão de iluminar, com o calcanhar e com suas palavras, gente sedenta de cidadania.

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