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Marcos Guterman

Em seu último ato como presidente, Lula decidiu não extraditar o terrorista italiano Cesare Battisti. O argumento é que o governo brasileiro tem “razões ponderáveis” para supor que Battisti, condenado à prisão perpétua pela Justiça italiana por quatro assassinatos, pode ser “submetido a atos de perseguição e discriminação” na Itália em razão de sua “opinião política”. Esse é o teor da letra “f”, do item 1, do artigo 3 do Tratado de Extradição entre Brasil e Itália, invocado por Lula para embasar sua decisão. Ou seja, para Lula, a Justiça da Itália, um país em que vigoram plena democracia e o Estado de Direito, vai “perseguir” Battisti por causa de sua militância política de esquerda – os assassinatos pelos quais ele foi condenado foram cometidos enquanto ele integrava o grupo terrorista Proletários Armados Pelo Comunismo.

Ocioso dizer que a decisão de Lula foi objeto de fortes críticas na Itália, à esquerda e à direita. O jornal La Reppublica, que não tem nenhuma simpatia pelo governo de Silvio Berlusconi, opinou que manter Battisti no Brasil configura uma “ofensa ao Estado de Direito na Itália”. Já o Il Giornale, de propriedade de Berlusconi, apontou a hipocrisia lulista ao dizer que o presidente brasileiro que ora manifesta preocupação com as instituições judiciais italianas é o mesmo que felicitou Mahmoud Ahmadinejad por sua contestada reeleição presidencial no Irã, enquanto dissidentes do regime eram espancados e assassinados. “As questões humanitárias e o sofrimento daqueles que lutam por uma causa justa sempre agitaram o nobre coração desse presidente libertário e democrático”, ironizou o jornal.

Antes da decisão de Lula, o governo italiano já havia dito que a eventual concessão de asilo a Battisti seria vista como uma ofensa. Em nota oficial, declarou que Lula teria de “se explicar não só ao governo, mas às famílias das vítimas” do terrorista. A resposta brasileira não tardou: a nota do Planalto sobre Battisti afirma que os termos do comunicado italiano causaram “profunda estranheza”, em particular “a impertinente referência pessoal ao Presidente da República”.

Ao insultar os italianos, Lula não deveria se queixar da suposta “impertinência” de Roma. Embora cercado de pareceres técnicos e rapapés jurídicos, o presidente tomou sua decisão levando em conta somente compromissos políticos e ideológicos com a militância de esquerda que vê em Battisti um “herói”, ignorando olimpicamente as legítimas demandas italianas.

Na Itália, porém, Battisti é simplesmente um assassino – e vê-lo solto no calçadão de Copacabana é uma ofensa difícil de absorver.

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O governo Lula chega ao fim hoje. É cedo ainda para julgar que lugar ele terá na história, a despeito da pressa apaixonada tanto de seus simpatizantes quanto de seus detratores. Se o legado de Getúlio Vargas ainda é objeto de intenso debate, meio século depois da morte do caudilho, não parece prudente propor rótulos definitivos para a Presidência de Lula quando este nem passou a faixa a sua sucessora. Há sinais, porém, de que uma pequena revolução foi operada no Brasil durante o governo lulista. O principal deles é o diagnóstico de que parte da classe média brasileira sofre de um mal ainda ausente dos dicionários nacionais: a aporofobia.

Definida no final do século passado, a aporofobia é uma aversão especial aos pobres. É mais do que indiferença ao destino dos miseráveis; é o medo de que eles possam, de alguma maneira, perturbar a suposta paz social e econômica. A aporofobia pode significar, entre outras coisas, intranqüilidade em relação à manutenção daquilo que é tido como privilégio próprio de uma classe. E a ascensão social de um crescente número de brasileiros pobres, vistos como meros apadrinhados de um presidente demagogo e intrinsecamente despreparados para usufruir de sua nova condição, pode ser considerada como o foco central desse sentimento de desconforto. A reação pode incluir franca hostilidade, diante da perspectiva de desequilíbrio e de mudança do status quo.

Os aporofóbicos temem sobretudo uma “contaminação” de seu mundo por essa legião de pobres alçados, de uma hora para outra, à categoria de “consumidores” dos mesmíssimos bens outrora reservados à “velha” classe média. Os aeroportos tumultuados e o excesso de carros nas grandes cidades parecem ter se tornado os elementos simbólicos dessa guerra.

Em novembro, um comentarista da TV RBS de Santa Catarina chegou a atribuir o alto número de acidentes automobilísticos ao fato de que, “hoje, qualquer miserável tem um carro”. E foi mais longe: “O sujeito jamais leu um livro, mas tem um carro na garagem”. Também em novembro, um colunista da Folha escreveu que detesta aeroportos e “classes sociais recém-chegadas a aeroportos, com sua alegria de praças de alimentação”. Para ele, “viajar, hoje em dia, é quase sempre como ser obrigado a frequentar um churrasco na laje”.

Essas reações indicam que, para a “velha” classe média, os novos “consumidores” atingiram essa condição não por meio de seu esforço pessoal, mas por causa do paternalismo do governo Lula, que deu a essa gente a chance ilusória de abrir um crediário, viajar de avião e comprar um carro. Por esse motivo, eles não teriam educação e cultura suficientes para gozar adequadamente de sua nova (e, esperam alguns, apenas provisória) condição social. Falta-lhes, segundo esse raciocínio, o estofo que somente a boa educação e o esforço individual são capazes de fornecer; portanto, quem não tem a “velha” classe média em seu DNA certamente vai tumultuar aeroportos porque jamais saberá fazer um simples check-in.

Pior: a “nova” classe média significa a ascensão de um novo padrão estético, diluindo os conceitos de beleza e cultura considerados até agora como a mais confortável fortaleza da elite em relação aos pobres. Os desdentados com poder de compra vieram para confundir essas certezas, e o “churrasco na laje” ameaça até se tornar moda. Eis, até aqui, o maior legado de Lula.

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O governo do Irã mandou bloquear o acesso ao site do El País, depois que o jornal publicou um documento americano, vazado pelo site WikiLeaks, em que se relata um suposto desentendimento entre o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o chefe da Guarda Revolucionária, Ali Safari – consta que Safari chegou a estapear Ahmadinejad.

Em defesa do Irã, diga-se que Ahmadinejad nunca teve grande apreço pelo WikiLeaks, considerando o vazamento uma “orquestração” do governo americano contra o regime de Teerã. Diga-se, também, que os documentos vazados reúnem apenas versões dos fatos, narradas por diplomatas nem sempre bem-informados.

Por outro lado, muita gente que festeja o WikiLeaks como a quintessência da democracia, por supostamente desmoralizar o “império americano”, provavelmente minimizará o conteúdo dos documentos referentes ao Irã, como já havia feito em relação ao Brasil. Um exemplo é o presidente Lula, que se solidarizou com o WikiLeaks por “desnudar a diplomacia” dos EUA, mas, por outro lado, considerou “insignificantes” as menções ao Brasil, que diziam respeito a corrupção em seu governo.

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24.dezembro.2010 20:00:48

Uma folguinha

Amigos, ganhei uma folga até o próximo dia 30. Não haverá post novo até lá, mas vou liberar os comentários, sempre na medida do possível.

Um grande abraço a todos!

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Com o fim do mandato de Lula, multiplicam-se avaliações apressadas sobre o valor de seu legado. Os críticos consideram que é muito cedo para julgar se a herança lulista é bendita ou maldita, sem falar da generalizada sensação de que o esgarçamento institucional é aceitável, desde que, em troca, haja progresso material. Já os admiradores parecem não conter a euforia.

Nos últimos dias, Lula foi considerado superior a Getúlio, a JK e, pasmem, até a Espártaco, heróico líder de uma revolta de escravos na Roma Antiga. Para quem já disse ter feito o que “nem D. Pedro” fez e que é a “encarnação do povo”, porém, a criatividade hagiográfica do presidente provavelmente ainda está longe de se esgotar.

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O WikiLeaks não tem nada de democrático; é, na verdade, equivalente a uma ditadura. A opinião é do escritor e cineasta francês Yann Moix, em artigo publicado na revista La Règle Du Jeu. Essa ideia contraria a essência da noção construída em torno do WikiLeaks, a de que o vazamento de informações confidenciais produzidas pelo Estado contribui para aperfeiçoar a democracia.

Para Moix, a demanda pela “transparência” que emana do WikiLeaks não é democrática, e sim “uma obsessão totalitária”. “A palavra totalitarismo, de fato, expressa perfeitamente essa idéia: tudo é igual a tudo, tudo deve ser conhecido de todos, tudo deve ser conhecido em todos os momentos.’’ Moix considera que uma ditadura busca “fazer com que os seres sejam indistinguíveis’’, ou seja, promove ‘‘o primado da massa sobre o indivíduo’’, por meio da “transparência”.

Se houvesse transparência em todos os momentos, se a vida fosse sem mentiras e segredos, sem privacidade, argumenta Moix, ela seria um ‘‘inferno’’. A essência da política, diz ele, é saber equilibrar o segredo e a transparência, em nome do bem público. Moix lembra que ‘‘a soma das vontades individuais não constitui a vontade geral’’, de modo que, numa democracia, cada indivíduo aceita a liberdade ‘‘possível’’, alienando parte dela ao Estado, tendo em troca a garantia de que o Estado saberá administrá-la melhor do que os indivíduos isoladamente.

O WikiLeaks, sob esse aspecto, “quebra o contrato, aquele de Rousseau, do Iluminismo”, diz Moix. “É antidemocrático, porque, de repente, um homem, uma organização, um homem-organização decide parar de cooperar, decide desistir da ‘farandole’ (dança coletiva). Sem a permissão (ou a legitimidade) daqueles que nos governam, mas também nos representam, o WikiLeaks está se colocando acima deles. Ao fazer isso, o WikiLeaks não está insultando o Estado, mas o povo representado por esse Estado. Somos nós os insultados – em nossa democracia, em nossa liberdade.”

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O Yad Vashem, instituição de Israel responsável pela preservação da memória das vítimas da Shoah, anunciou que já identificou 4 milhões de judeus mortos pelos nazistas e seus associados durante a Segunda Guerra. Obter os nomes dos assassinados é essencial para restituir-lhes justamente aquilo que Hitler tentou lhes tirar: o sinal de sua própria existência como seres humanos, como indivíduos, como detentores de uma história pessoal. É nessa ausência de sinais que se baseiam os negacionistas do genocídio, em sua nefasta tentativa de tirar desses judeus o direito de ter reconhecida sua própria morte.

O Yad Vashem informou que, na última década, cerca de 1 milhão de nomes foram adicionados ao banco de dados, graças a novos testemunhos e a documentos recentemente liberados pela Rússia. O Yad Vashem espera obter pelo menos mais 1 milhão nos próximos anos – a estimativa é que 6 milhões de judeus tenham sido mortos.

O trabalho, porém, é muito difícil, como explica o presidente do Yad Vashem, Avner Shalev: “Espero que possamos reunir muito mais nomes, mas de algumas vítimas tudo desapareceu, inclusive a memória sobre eles. É possível que sejamos capazes de completar os nomes dos assassinados na Europa Ocidental. A investigação se torna mais complicada à medida que nos deslocamos para o leste da Europa, onde povoados inteiros foram destruídos. Desses, não há listas de transporte, nem registros, nem familiares sobreviventes, nada”.

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Não é só Barack Obama que está desembarcando da Guerra do Afeganistão. A imprensa americana já fez isso há tempos, mostra um levantamento do Pew Research Center. Segundo esse estudo, comentado no New York Times, as pautas sobre o Afeganistão representaram apenas 4% do noticiário total no início do mês, embora tenha várias mortes por dia e ainda seja um dos principais desafios da política externa americana. E, quando noticiada, a guerra vem acompanhada de perguntas como “por que ainda estamos no Afeganistão?”.

Tony Maddox, da CNN, resumiu a dificuldade de transformar o importante em interessante no caso afegão: “Nos EUA, a audiência já está sofrendo de fadiga de guerra”.

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21.dezembro.2010 11:04:51

O nosso Irã

Intelectuais franceses se mobilizaram para protestar contra a prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi, condenado pelo regime teocrático do Irã por ter feito “propaganda contra a república islâmica”.

Já entre os intelectuais brasileiros que apóiam a aproximação do Brasil com o Irã, silêncio.

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Na década de 90, durante dois anos, o então ditador do Iraque, Saddam Hussein, dedicou-se a uma macabra rotina: uma enfermeira retirava-lhe sangue, e com esse sangue um calígrafo transcrevia o Corão. Foram 27 litros de sangue para os 114 capítulos. Desde a queda do ditador, os iraquianos vivem o dilema do que fazer com o livro sagrado do islã escrito nessas condições, relata o Guardian.

Por um lado, o governo iraquiano, xiita, não quer que um símbolo tão forte do regime do sunita Saddam seja exposto; por outro, os sunitas temem ser perseguidos se reverenciarem o livro.

As páginas do volume seguem guardadas, longe dos olhos do público. Apenas três pessoas têm acesso a elas. Destruí-las, obviamente, está fora de questão. Há quem diga que os iraquianos nem querem vê-las mesmo, por serem muito perturbadoras, e que elas devem preservadas como o símbolo da loucura de um ditador.

Uma coisa é certa: como bom líder totalitário, Saddam tinha noção intuitiva de como se perpetuar, como um monstro onipresente, na memória coletiva de seu país.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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