A eleição de Dilma Rousseff foi uma prova da enorme força política do presidente Lula. Ele não apenas fez sua sucessora; ele inventou uma, construindo sua candidatura do nada, a partir da constatação de que todos os quadros petistas com potencial de substituí-lo haviam sido devorados por escândalos. Lula colocou sua formidável biografia e sua inédita popularidade a serviço de uma completa anônima, talvez com o único e simples objetivo de mostrar que podia criar um presidente de acordo com sua vontade. O grau de personalismo envolvido na sucessão, aliado ao fato de que o conhecimento que temos sobre a capacidade administrativa de Dilma é bastante limitado, obriga a analisar as perspectivas do próximo governo pela régua do lulismo e sua obsessão pela unanimidade. E todo o discurso que começou a ser construído há mais de dois anos, quando Lula lançou Dilma mesmo quando a lei não permitia, sugere que a minoria – isto é, aqueles brasileiros que não comungam das ideias do presidente-messias – será vista somente como um bom argumento para consolidar o exercício da tirania da maioria.
O conceito de tirania da maioria nas democracias foi elaborado por John Stuart Mill em sua obra “Sobre a Liberdade” (1859). Para ele, a liberdade estaria ameaçada não por causa do governo, mas pela maioria da sociedade alinhada ao governo, que enxerga a minoria dissidente como um risco permanente. O problema de Stuart Mill não era criar qualquer forma de proteção, em princípio, à minoria, mas sim garantir que a maioria fosse ao menos tolerante com a opinião que lhe fosse contrária. No limite, significava que a liberdade não podia ser tratada como uma “concessão” da maioria para quem se enquadrasse, mas como um direito assegurado a todos, mesmo aos dissidentes.
Sob a tirania da maioria, diz Stuart Mill, “a sociedade pode, e executa, seus próprios mandatos; e, se expede mandatos equivocados no lugar dos corretos, ou quaisquer mandatos a respeito de coisas nas quais não deveria interferir, pratica uma tirania social mais temível do que muitas espécies de opressão política, uma vez que, muito embora nem sempre venha sustentada por penalidades extremas, penetra mais profundamente nos detalhes da vida, escraviza a própria alma, deixando poucas vias de fuga”.
No Brasil atual, os arvorados porta-vozes da maioria, isto é, dos brasileiros que aprovam Lula, consideram ser sua missão obter a unanimidade total em torno do lulismo. A “escravização da alma” significa manter a sociedade sob o transe da “transformação do Brasil”, enquanto as contas públicas não fecham e o Estado é rateado por corruptos, nepotistas e autoritários de toda sorte.
A “escravização da alma” só pode ser feita por meio da desmoralização do contraditório, que ameaça a percepção do real que o regime quer construir. Só se entrega de corpo e alma aquele que é “protegido” da realidade e aceita a lógica oferecida pelo discurso da “maioria”, verbalizado por seus iluminados representantes – entre os quais jornalistas e intelectuais que gozam de benesses oficiais. Nesse contexto, os dissidentes não são tratados somente como “oposição”, como queria Stuart Mill. Eles se transformam em “golpistas” – de acordo com esse raciocínio, quem denuncia os desvios éticos e morais do governo, como faz a imprensa, torna-se parte de uma “conspiração” para minar o projeto mais amplo, e moralmente inatacável, de “transformação” da sociedade.
Os regimes de vocação totalitária funcionam assim. Durante o governo de Stálin na URSS, não havia opositores, havia “inimigos do povo”, vistos como sabotadores do “novo mundo” que estava sendo criado. A despeito dos conhecidíssimos horrores do stalinismo contra os milhões de “inimigos do povo”, muitos intelectuais ocidentais apoiaram Stálin de modo entusiasmado. Mas estes pelo menos tinham a desculpa de viver fora da URSS e desconhecer a realidade local em sua totalidade. No entanto, mesmo intelectuais russos respeitados aceitaram o stalinismo e sua brutalidade como parte do processo. Boris Pasternak, por exemplo, escreveu em 1935: “A verdade é que, quanto mais vivo, mais firmemente acredito no que está sendo feito (na URSS), apesar de tudo. Boa parte disso pode parecer selvageria, mas as pessoas nunca olharam tanto para o futuro, e com uma autoestima tão alta, e com motivos tão bons, e por razões tão vitais e lúcidas”.
Do mesmo modo, a autoestima dos brasileiros nunca esteve tão alta, segundo a avaliação dos lulistas, e isso parece ser bom o bastante para ignorar a corrupção e a destruição da ética ou então para relativizá-las, como se fossem um preço menor a pagar pelo desenvolvimento do país. Os brasileiros que discordam disso são constrangidos a se manter calados. “A opinião pública somos nós”, bradou Lula, para não deixar dúvidas sobre quem determina o pensamento no Brasil. Em outras palavras, a oposição que não puder ser comprada deve ser desmoralizada (ou “extirpada”, nas palavras do presidente).
Do ponto de vista dos brasileiros que não se alinham ao lulismo, portanto, as perspectivas não são nada boas. Em seu Twitter, Dilma (ou alguém em seu nome) escreveu neste domingo eleitoral: “De novo, sem palavras para agradecer a todos os que estiveram a meu lado nessa caminhada. Hoje é #13neles”. Por que “#13neles”? Neles quem? Nos “inimigos do povo”?
Dilma, porém, reservou palavras menos hostis quando comentou, em entrevista em Porto Alegre, sobre como pretende governar: “É exigido que as pessoas que assumam a direção do país tenham sentido republicano e tenham compromisso de governar para todos. Agora, a minha coligação, a que me trouxe até aqui, é a coligação com a qual eu vou governar. Eu governarei para todos”.
Que assim seja.
O Conselho Nacional de Educação recomendou que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a escolas públicas ou, se for, que venha acompanhado de um aviso de que se trata de obra “racista”, informa a Folha desta sexta-feira. Segundo o parecer, o racismo estaria caracterizado no tratamento de Tia Nastácia e de animais como urubu e macaco, cuja menção, diz o texto do conselho, é “revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”. Para o CNE, os professores da rede pública não estão preparados para lidar com esse tipo de mensagem em sala de aula. O autor da denúncia, o mestrando em relações raciais da UnB Antonio Gomes da Costa Neto, acredita que o livro de Lobato “deixou para trás as regras de políticas públicas para as relações etno-raciais” e tenha o potencial de “ensinar a criança a ser racista”.
Quando Monteiro Lobato é considerado danoso para as crianças, por supostamente conter mensagens ou estereótipos de caráter racista, perdeu-se completamente a noção da importância dos clássicos para a formação intelectual. “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram”, explica Italo Calvino em seu livro “Por Que Ler os Clássicos”. Ou seja, um livro desse porte não é apenas texto; é uma revelação.
A obra, como toda a saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, é exatamente isso. Publicado em 1933, “Caçadas de Pedrinho” sofreu de fato alguma influência do pensamento racial de sua época – em que o racismo não era considerado necessariamente negativo. Mas não é possível qualificar de “racista”, por causa de um punhado de frases descontextualizadas, um autor que criou protagonistas negros tão bondosos e formidáveis como Tia Nastácia e Tio Barnabé.
Ademais, esse não é, nem de longe, o aspecto central de sua obra – tanto é assim que milhares de crianças a leram e certamente não se tornaram racistas por causa dela. Em primeiro lugar, os pequenos leitores são apresentadas de modo bem humorado e excitante ao universo rural brasileiro, com seu rico folclore. Enquanto Dona Benta relata as aventuras da ficção como tal, as crianças do Sítio são, elas mesmas, personagens de suas fantasias, convidando os leitores a abstrair-se e entrar em suas epopeias. Mas o que torna “Caçadas de Pedrinho” uma obra significativa – e atual – é a crítica feroz aos excessos da burocracia estatal.
Para relembrar: a segunda parte de “Caçadas de Pedrinho” relata a divertida história de Quindim, um rinoceronte que escapou de um circo carioca. Diante disso, o governo cria um “Departamento Nacional de Caça ao Rinoceronte”, um monstro burocrático com um chefe e 12 auxiliares, muito bem remunerados, além de “um grande número de datilógrafas e encostados”. Todo esse pessoal se esforça ao máximo para não encontrar o bicho, uma vez que, se isso acontecesse, todos eles perderiam a boquinha.
Quindim acaba se incorporando à família do Sítio, como parceiro das crianças e em desafio ao Estado que o caça. Ao ousar colocar os meninos como protagonistas dessa “rebeldia”, a obra de Lobato chegou a ser classificada de “comunista” pelo padre jesuíta Sales Brasil, em 1959. O livre pensamento e a fantasia a serviço da reflexão política e social são os piores inimigos da “ordem” de um Estado crescentemente hostil à crítica.
Assim, não admira que haja burocratas no Estado brasileiro que, a título de impedir o “racismo” de “Caçadas de Pedrinho”, queiram evitar que as crianças o leiam.
O juiz Paul Wooten, da Suprema Corte Estadual em Manhattan, considerou que a menina Juliet Breitman, hoje com 6 anos de idade, pode ser processada por ter atropelado com sua bicicleta de rodinhas uma mulher de 87 anos na calçada. Juliet tinha 4 anos na época dos fatos, e ela é acusada de negligência.
Segundo o New York Times, Juliet e um outro garoto, Jacob Kohn, andavam de bicicleta supervisionados por suas respectivas mães, Dana Breitman e Rachel Kohn. Lá pelas tantas, os meninos acertaram Claire Menagh, que sofreu uma fratura na bacia. Foi operada, mas morreu três semanas depois.
As crianças e suas mães foram então processadas pelos herdeiros de Claire. A defesa de Juliet alegou que a menina é muito nova para ser responsabilizada judicialmente por seus atos e que estava sob supervisão da mãe. “Tribunais têm considerado que uma criança com menos de 4 anos é, de modo conclusivo, presumivelmente incapaz de negligência”, afirmou a advogada.
O juiz Wooten, porém, considerou que Juliet é bastante velha para ser processada. Como a menina estava a apenas três meses de completar 5 anos, disse ele, a regra dos 4 anos, invocada pela defesa, não se aplica. Ademais, a presença da mãe por perto não exime a menina: “Só a presença da mãe não dá a uma criança carta branca para se envolver num comportamento arriscado, como correr pela rua”, escreveu o juiz. Para ele, a mãe da menina “não teve nenhum papel ativo” no incidente, razão pela qual a menina deve ser responsabilizada.
Wooten considera que qualquer criança com o perfil de Juliet, “inteligente e madura”, teria levado em conta “o risco de dirigir uma bicicleta na direção de uma senhora idosa”.
Barack Obama já é o presidente que mais nomeou funcionários gays na história americana, informa a Associated Press. São mais de 150, superando os 140 de Bill Clinton. “Eles querem fazer disso parte de seus esforços pela diversidade”, comemorou Denis Dison, do Gay & Lesbian Leadership Institute.
Para Michael Cole, da Human Rights Campaign, Obama não merece tanto louvor assim. Ele diz que contratar gays para a administração pública “é uma simples afirmação do ideal americano de que o que importa é como você desempenha seu trabalho, e não quem você é”.
Como dimensionar o significado da morte do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner? Ele construiu uma imagem de herói da luta anticorrupção, mas seu patrimônio pessoal multiplicou-se por 12 desde 2003. Ele foi o artífice da recuperação econômica argentina, mas a dobradinha com Cristina fez o país caminhar para o desastroso populismo de perfil bolivariano.
Duas reações, porém, resumem tudo:
1) O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lamentou no Twitter: “¡Cuánto dolor! Que gran pérdida sufre la Argentina y Nuestra América. ¡¡Viva Kirchner para siempre!!”
2) Já o mercado financeiro festejou: as ações de empresas argentinas subiram dois dígitos em Wall Street logo depois do anúncio da morte, indicando otimismo dos investidores quanto a mudanças de rumo na economia do país. Afinal, como diz o Clarín, “os mercados têm sua própria lógica, que não conhece sentimentos nem ideologias”.
Eric Schmidt, o chefão do Google, considera que as crescentemente complexas conexões tecnológicas de comunicação se transformaram em instrumentos de ativismo político e que esse fenômeno vai marcar o século 21, ao ponto de alterar as relações entre os indivíduos e o Estado.
Em artigo publicado pelo New York Times, Schmidt acredita que “as novas tecnologias e o desejo de maior liberdade já estão mudando a política nos lugares mais improváveis”. Para ele, “nem todos os governos vão administrar a turbulência do declínio da autoridade estatal do mesmo jeito” – e as democracias sólidas ou mesmo autocracias sólidas, como a China, estão em boa posição para enfrentar esse desafio.
Em países emergentes, por outro lado, diz Schmidt, a conexão tecnológica está criando novos espaços, deixando governos já frágeis em posição ainda mais vulnerável. “Numa era em que o poder individual e de grupos cresce diariamente, os governos que dominarem a onda tecnológica estarão claramente mais bem posicionados para garantir sua influência e trazer os outros para sua órbita. Aqueles que não dominarem estarão em conflito com seus cidadãos.”
O bilionário George Soros publicou artigo no Wall Street Journal em que defende a liberação da maconha, proposta em plebiscito na Califórnia. “Nossas leis sobre maconha estão claramente fazendo mais mal que bem. A criminalização da maconha não impede que ela seja a substância ilegal mais usada nos EUA e em outros países. Mas disso resultam custos altos e conseqüências negativas”, escreveu Soros.
Como bom investidor, sua questão inicial é, claro, econômica. Segundo ele, o contribuinte americano paga bilhões de dólares para fazer cumprir uma lei que é largamente ignorada. Ao mudar a lei, será possível economizar esse dinheiro, além de reduzir o crime e a corrupção associados ao mercado de drogas. “A polícia poderá se concentrar em crimes mais importantes”, argumentou.
Mas há outras questões envolvidas. Uma delas é racial. Soros diz que os negros não fumam mais maconha do que os demais americanos; no entanto, os negros aparecem como suspeitos preferenciais da polícia quando se trata de prender alguém por porte de maconha. O investidor lembra que a legislação que proíbe a maconha nos EUA surgiu no início do século 20 para incriminar imigrantes mexicanos que fumavam a erva.
Segundo Soros, quem ganha mais com a legislação sobre a maconha são os cartéis de narcotraficantes, razão pela qual, ele diz, gente respeitável como Fernando Henrique Cardoso alinhou-se à tese da descriminalização nas Américas.
É bobagem, diz Soros, acreditar que a descriminalização da maconha facilitará o acesso dos jovens à droga – para ele, os jovens já têm acesso facílimo à maconha, tanto quanto ao álcool. O fundamental é investir em educação, mostrando os riscos do consumo.
A Suprema Corte da Índia decidiu que mulheres mantidas em casa apenas para satisfazer o homem sexualmente não têm os mesmos direitos que uma cônjuge, informa o Telegraph.
Para os juízes, o status dessas mulheres é equivalente ao de empregadas domésticas.
Um grupo de historiadores alemães concluiu um estudo que mostra a extensão da colaboração do Ministério das Relações Exteriores do país na Shoah – o extermínio dos judeus da Europa. O levantamento foi feito a pedido do então ministro Joschka Fischer, em 2005, a título de estabelecer o tamanho do envolvimento dos diplomatas alemães, porque ele não queria que ex-nazistas convictos fossem homenageados. O resultado não é nada abonador.
Segundo a comissão, citada pela revista Der Spiegel, o extermínio dos judeus era uma “área de atuação” da diplomacia, em toda a Europa. “O ministério era uma organização criminosa”, disse o líder das pesquisas, Eckart Conze, usando um termo normalmente associado à SS, a tropa de elite nazista que executou a Shoah.
Além disso, diplomatas que atuaram no pós-guerra tinham muito mais ligação com o massacre do que podiam admitir. O chanceler Konrad Adenauer permitiu que eles permanecessem no ministério mesmo sabendo disso. “Diplomatas com passado nazista foram enviados a países árabes e à América Latina, onde não seriam criticados publicamente”, diz a Spiegel.
A revista, porém, afirma que o trabalho dos historiadores tem algumas falhas importantes, como generalizar o envolvimento “dos diplomatas”, como se fossem a maioria. Faltam, ainda, provas desse envolvimento em muitos casos citados. De qualquer maneira, o Ministério das Relações Exteriores alemão se disse feliz com o resultado, porque não pode haver espaço para nenhum tipo de concessão histórica no que diz respeito ao nazismo. Como diz a Spiegel, porém, outros ministérios até hoje não fizeram esse mergulho doloroso em seu passado.
Dois grandes produtores de frango nos EUA, Bell & Evans e Mary’s Chickens, anunciaram um novo sistema para matar os bichos, de maneira mais “humana”. Segundo o New York Times, dióxido de carbono é liberado para deixar as aves inconscientes. Em seguida, elas são penduradas de ponta-cabeça e degoladas, mas sem estresse.
O modo, digamos, bárbaro de abater as galinhas é alvo de críticas há tempos. Por essa razão, o novo método tende a melhorar o marketing dos frangos – o problema, como diz o Times, é como falar sobre esse assunto com o consumidor. “A maioria das pessoas não quer pensar sobre como o animal foi morto”, diz David Pitman, da Mary’s Chickens.
O rótulo do frango pode vir com informações como “morto de forma humana”, “humanamente processado” ou “manuseado humanamente”. A ideia é mostrar que as aves não sofreram “dor ou desconforto extra nos últimos minutos de sua vida”.
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