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Marcos Guterman

30.setembro.2010 19:19:02

Dilma não é o diabo

Como costuma acontecer, a campanha eleitoral brasileira chegou a sua reta final cheia de “denúncias” desenhadas para desmoralizar quem está na frente nas pesquisas. Dilma Rousseff está sendo pintada agora como o próprio diabo, graças a seu suposto apoio ao aborto. Há poucos dias, a mulher do tucano José Serra, Mônica, não deixou por menos: “Ela é a favor de matar as criancinhas”.

Em geral, quando estratégias de campanha não funcionam, resta apelar para a criação de fantasmas – um verdadeiro desserviço ao espírito republicano, como aconteceu com Fernando Henrique Cardoso na eleição de 1985, quando foi acusado de ser “ateu”, e com Barack Obama na eleição de 2008, quando foi acusado de não ser nem americano.

Uma coisa é discutir se Dilma tem uma biografia que a qualifique como presidente, se sua passagem pelo governo foi boa ou ruim, se ela sabia e se omitiu sobre os escândalos na Casa Civil. Há gente muito boa que considera a petista excelente ou péssima para o cargo, o que oxigena a democracia.

Outra coisa, muito diferente, é atribuir-lhe qualidades que, verdadeiras ou falsas, servem somente para diminuir-lhe a estatura e para desviar o verdadeiro foco do debate, que deveria ser o futuro do país. No entanto, como eleição é um evento muito menos racional do que deveria, os petistas se preocuparam bastante com a confusão sobre o aborto, temendo perder votos. Lula foi à TV para dizer que Dilma está sendo vítima do “submundo da política” e que sua candidata, como ele, “respeitará a vida”. Dilma, por sua vez, reuniu líderes religiosos cristãos para assegurar que não é a favor do aborto, e obteve em troca um manifesto em que eles repudiam a “boataria cruel e mentirosa” contra a petista.

Finalmente, resta lamentar que um tema tão importante como o aborto seja tratado de forma tão leviana – e isso numa eleição que tem, entre seus três protagonistas, duas mulheres. Feita de forma clandestina no Brasil, a interrupção da gravidez mata 250 mulheres por ano. A maioria das mulheres não aborta por luxo. Ademais, como mulher, Dilma certamente sabe que a proibição é uma forma de controle masculino sobre o corpo feminino. Não é à toa que não havia uma única mulher, além de Dilma, na reunião com os líderes cristãos.

Justamente por se apresentar como “mulher” na campanha, Dilma deveria ter tido mais coragem para enfrentar um problema que diz respeito diretamente a seu gênero. Pelo jeito, porém, as conveniências políticas foram mais importantes e, mesmo que Dilma vença, não será ainda desta vez que as mulheres chegarão de fato ao poder no Brasil.

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Diversos colaboradores do WikiLeaks – famoso por divulgar documentos secretos na internet – abandonaram o site por discordar da política de Julian Assange, seu fundador e herói da turma dos antiamericanos. A gota d’água foi o acordo entre Assange e alguns veículos para publicar, em outubro, 392 mil documentos americanos sigilosos sobre a Guerra do Iraque, informa a Wired.

Segundo os colaboradores, Assange resolveu vazar esses papéis sem ter dado tempo a sua equipe para apagar os nomes dos informantes americanos no Iraque. A medida era necessária para proteger a vida dessas pessoas. O mesmo ato irresponsável foi cometido pelo WikiLeaks no vazamento de documentos sobre a Guerra do Afeganistão, em julho.

Ironicamente, uma troca de e-mails entre Assange e um de seus colaboradores vazou e permitiu perceber o nível do comportamento do sujeito. Cobrado sobre suas atitudes, Assange respondeu: “Sou o coração e a alma desta organização, seu fundador, filósofo, porta-voz, organizador, financiador e tudo o mais. Se você tem algum problema com isso, caia fora”.

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30.setembro.2010 00:01:26

Mulheres não são notícia

Análise sobre mais de 1.300 veículos de comunicação em 108 países (Brasil incluído), feita pelo Global Media Monitoring Project, concluiu que, neste ano, os homens foram protagonistas de 76% das notícias publicadas. Houve melhora modesta no destaque dado às mulheres: passou de 17% para 24% em 15 anos (no Brasil, chegou a 35%). No que diz respeito ao poder político, as mulheres foram centrais em apenas 28% das notícias.

A julgar pela imprensa, diz o texto do estudo, “as mulheres são um anexo de uma humanidade masculina”.

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O dedo médio em Milão: arte pura

Por aqui, uma série de desenhos do artista plástico Gil Vicente na Bienal, em que ele aparece matando personalidades como Lula e FHC, levou até o presidente da OAB-SP – entidade comumente associada a movimentos pela liberdade de expressão – a pedir censura. Se estivesse em Milão, provavelmente esse mesmo censor teria tido um enfarte: a título de sacanear o mercado financeiro, o escultor Maurizio Cattelan mandou colocar diante da Bolsa de Valores da cidade italiana um dedo médio de 11 metros de altura.

Como dá para imaginar, a obra causou controvérsia – para uns, uma praça pública não é lugar para tal “provocação”. Já a autoridade cultural de Milão, Massimiliano Flory, disse ao Telegraph que o trabalho de Cattelan “questiona nossa época, oferecendo-se como um espelho, embora partido, de nosso presente”.

Cattelan, por sua vez, reagiu dizendo que sua escultura não é nada excepcional: batizada de “L.O.V.E”, ela é “sobretudo algo sobre a imaginação”.

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Teste feito pelo Pew Forum on Religion and Public Life nos EUA concluiu que os ateus e agnósticos americanos sabem mais sobre religião do que os próprios religiosos no país.

Os descrentes acertaram mais questões num quiz sobre diferentes religiões proposto pelo instituto. Entre os que se dizem religiosos, os mais bem colocados foram os judeus e os mórmons. Na rabeira ficaram os católicos hispânicos.

Quase metade dos católicos consultados não sabia que, segundo a tradição de sua igreja, o pão e o vinho da comunhão representam a carne e o sangue de Cristo. E a maioria dos protestantes nem desconfiava que Martinho Lutero foi o líder da Reforma que gerou sua igreja.

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O Triestina, de vermelho, atrai multidão fake

Para o Triestina, da Segunda Divisão da Itália, a torcida é tão importante que a direção teve uma ideia para encher as arquibancadas de seu estádio, vazias por causa da campanha modesta do time: mandou pintar torcedores em cartazes e os espalhou, para criar a impressão de casa cheia.

“Na TV, parece impressionante”, ironizou o Wall Stret Journal. O presidente do Triestina, Marco Cernaz, foi mais romântico: “Fizemos de tudo para atrair torcedores, mas a verdade é que não conseguimos. Então tentamos criar uma atmosfera, um pouco de teatro”.

Setenta por cento dos rendimentos do Triestina vêm da TV.

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28.setembro.2010 21:00:27

Obama, o cristão

O presidente dos EUA, Barack Obama, é frequentemente confundido com um muçulmano, segundo pesquisas (e por causa do “Hussein” como nome do meio). Parece que isso tem causado desconforto na Casa Branca, razão pela qual Obama decidiu assumir em público que é “cristão por opção”, informou o Huffington Post.

Ele disse que foi levado ao cristianismo já na idade adulta, porque os preceitos de Jesus lhe pareceram adequados para a vida que ele projetava para si mesmo – isto é, ver Deus nos outros e fazer o melhor para ajudá-los. Por isso mesmo, para Obama, estar no serviço público é uma expressão de sua fé cristã.

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O episódio do falso moralismo envolvendo Neymar não foi, definitivamente, um fato isolado. Mais uma prova de que o futebol está ficando careta, no pior sentido, foi dada no México, onde 13 jogadores da seleção foram punidos por participar de uma festinha que eles fizeram depois de um amistoso da equipe contra a Colômbia – consta que participaram do convescote prostitutas e travestis.

Os atletas agora ameaçam boicotar a seleção, informou o capitão do time e líder dos rebeldes, Rafa Marquez. Para ele, houve exagero por parte do coordenador da seleção, Nestor de la Torre, que puniu alguns jogadores com suspensão de até seis meses e outros com multas de quase US$ 4 mil.

“Ninguém gosta de De la Torre”, desabafou Cuauhtemoc Blanco, veterano de três Copas.

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A imagem das Forças Armadas americanas atuando no Haiti após o devastador terremoto de janeiro foi, até agora, o máximo que os EUA conseguiram deixar para o desgraçado país como ajuda. O prometido socorro de US$ 1,15 bilhão para a reconstrução haitiana ainda não chegou lá, graças a “burocracia, desorganização e falta de sentido de urgência” dos políticos em Washington, mostra reportagem da Associated Press.

Os EUA não estão sozinhos. Cerca de 50 países e organizações prometeram US$ 8,75 bilhões para o Haiti, mas apenas US$ 686 milhões foram entregues, nove meses depois.

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27.setembro.2010 20:10:54

Os limites do chavismo

A oposição venezuelana corrigiu seu erro histórico de 2005, quando boicotou as eleições legislativas, e saiu-se bem das urnas na votação de anteontem. O bloco, que não é tão unido quanto parece, obteve cadeiras suficientes para tirar dos chavistas a possibilidade de aprovar emendas constitucionais sem negociar com ninguém. Diante disso, comprovaram-se os limites do chavismo em sua própria casa, mesmo com um processo eleitoral que incluiu mudanças legais para dar aos governistas mais cadeiras mesmo que tivessem menos votos. A dúvida, agora, é saber como Hugo Chávez reagirá a seu enfraquecimento – de resto previsível ante o desastre de sua administração de perfil cubano, que nem em Cuba funciona mais.

Em seu twitter, Chávez já avisou que os resultados da eleição o animam a “aprofundar a revolução”. É a senha para tentar manter unido o bloco governista, formado por todo tipo de oportunista ideológico que se abrigou sob as asas do “comandante” para usufruir das benesses da máfia corrupta instalada no Palácio Miraflores. Não é improvável que esses partidos, percebendo que a maré chavista pode virar até a eleição presidencial de 2012, abandonem o barco. Como a eleição de domingo mostrou, Chávez não é o líder invencível que se supunha. Pelo contrário: ele é um ditador desgastado por anos de promessas não cumpridas, de enfrentamento interno e externo e de destruição da economia do país. As rachaduras em sua base de poder podem acabar expondo divisões que se julgavam controladas.

Por enquanto, pelo menos publicamente, Chávez não dá sinais de que sentiu o golpe. Mas sua serenidade pós-eleitoral contrasta com seu habitual histrionismo em vitórias passadas, obtidas depois de enorme pressão da máquina chavista contra os limites da democracia.

Por essas razões, mesmo o governo brasileiro, tão leniente em relação aos desmandos do chavismo, reconheceu que foi “um avanço” o fato de Chávez “respeitar o resultado” das eleições, como disse Celso Amorim. E nosso chanceler se permitiu uma concessão que deveria servir tanto para os chavistas quanto para os simpatizantes do lulismo: “A oposição às vezes é muito incômoda. Mas é importante (que ela exista) para discutir e dialogar”.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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