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Marcos Guterman

16.janeiro.2012 20:52:17

Férias

Meus caríssimos amigos

Saio hoje para um curto período de férias, na aprazível Ubatuba. Não terei condições de liberar comentários, porque celular não pega lá. Só praia, mar e pinga de Paraty. Espero vê-los na volta, dia 1 de fevereiro, com os assuntos amenos de sempre.

Um grande abraço a todos!

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A Mercedes Benz usou uma imagem de Che Guevara para ilustrar o lançamento de um aplicativo, chamado “Car Together”, que facilita encontrar carona. “Alguns colegas ainda acham que dividir o carro beira o comunismo”, disse Dieter Zetsche, diretor da Mercedes, em sua animada apresentação em Las Vegas. “Bom, se é assim, viva la revolución!”

Ato contínuo, exilados cubanos iniciaram uma campanha contra a Mercedes. A empresa imediatamente se desculpou, dizendo que não pretendia, ao usar a imagem de Che, “perdoar as ações dessa figura histórica ou a filosofia política que ele defendia”.

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Um vídeo colocado recentemente na internet mostra fuzileiros navais americanos urinando em cadáveres de afegãos. O governo dos EUA identificou pelo menos dois marines, reconheceu a autenticidade das imagens e as classificou como “repugnantes”. O degradante episódio ensejou o habitual cinismo do Taleban, para quem o vídeo prova o padrão de desrespeito das forças dos EUA em relação aos afegãos. “Isso não é uma ação humana. É uma ação selvagem, vergonhosa demais para que falemos dela”, disse um porta-voz do Taleban, o mesmo grupo que extirpou a humanidade dos afegãos, por meio de tortura, perseguição e assassinatos brutais, para transformá-los em zumbis religiosos.

O caso ocorre no momento em que o governo americano quer retomar o diálogo com o Taleban, como informou o Washington Post. Aliás, parece que a milícia fundamentalista islâmica, a despeito das bravatas, prefere conversar com a Casa Branca a falar com o presidente Hamid Karzai, que recentemente abandonou as negociações com o grupo. A aposta de Washington é que uma parte do Taleban está tão cansada da guerra quanto os EUA – cujo alto comando militar sabe que uma vitória no Afeganistão até 2014, prazo final da retirada das tropas ocidentais, é simplesmente impossível.

 

(Post atualizado com a informação de que o vídeo foi considerado autêntico pelo governo americano e que dois dos marines foram identificados.)

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É uma pena que, quando enfim o Estado resolveu aparecer na cracolândia, a ação esteja visceralmente contaminada por interesses eleitoreiros e econômicos. Essa promiscuidade obnubila o fato de que, sim, era necessário tomar alguma providência para acabar com um dos símbolos mais impressionantes da patologia da sociedade paulistana – que se emociona com um cachorro que apanhou de sua dona, mas não tem a mesma consideração por pessoas destituídas de sua humanidade.

Hoje sabe-se que os governos estadual e municipal decidiram agir para acabar com a cracolândia porque o governo federal já planejava fazê-lo – e, claro, tudo isso está no contexto da eleição para a prefeitura de São Paulo. Drogas e viciados perambulando por aí são um tema central para eleitores normalmente conservadores como o paulistano. Atacar o problema, mesmo com truculência e precipitação, deve render votos preciosos. Ademais, um dos projetos mais significativos do prefeito Gilberto Kassab – e de seus simpatizantes do setor imobiliário – é reformar justamente a região onde fica a cracolândia. Visto dessa perspectiva, o problema é claramente de higienização social, para satisfazer eleitores e empreiteiros.

Nada disso, porém, deveria descaracterizar a urgência do problema, que é de saúde pública, de segurança e de direitos – os dos viciados e também os das pessoas comuns que não conseguem circular por uma parte de sua própria cidade. A politização da ação estatal na cracolândia, tanto por parte dos governantes quanto por parte de seus críticos, não ajuda a colocar o drama em sua justa dimensão.

No limite, mesmo atabalhoada, a Operação Cracolândia era necessária e inadiável, e seus resultados, ainda que parciais ou mesmo eventualmente violentos, deverão servir para balizar futuras ações – gerando um necessário contraponto ao discurso ingênuo segundo o qual o problema da cracolândia pode ser combatido com sopão noturno e compaixão cristã.

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O PIB é a medida da riqueza de um país – e ultimamente tem assanhado os apóstolos lulistas, encantados com a notícia de que o PIB brasileiro vai superar o do Reino Unido. No entanto, parece cada vez mais claro que o valor dessa medida não é significativo quando se trata de observar os avanços sociais, econômicos e de infra-estrutura de um país em relação aos demais.

O caso japonês é típico, como mostra o jornalista Eamonn Fingleton em artigo no New York Times. Invocado nos EUA desde os anos 90 como exemplo do que acontece com um país quando sua economia entra em estagnação, o Japão, pelo contrário, atravessou as chamadas “décadas perdidas” sofisticando sua indústria, aprimorando sua infra-estrutura e melhorando substancialmente a qualidade de vida de seus cidadãos, que em muitos aspectos é bastante superior à dos americanos. Os avanços em tecnologia, marca do domínio americano desde os anos 50, têm sido mais acentuados no Japão. Mas nada disso aparece nas medições quantitativas do PIB, segundo as quais os EUA cresceram mais que o Japão no período e, portanto, ficaram “mais ricos” que os japoneses.

O mesmo poderia ser aplicado ao caso brasileiro, cujo PIB nos coloca como o gigante do Hemisfério Sul, dono da oitava economia do mundo, à frente da França e, como se sabe, pau a pau com o Reino Unido. Já se disse que, embora com PIB equivalente, o Brasil está muito longe de ter uma qualidade de vida semelhante à dos britânicos e franceses – o próprio ministro Guido Mantega, que é um otimista, disse que isso só vai acontecer daqui a uns 20 anos. Então, poderíamos comparar o Brasil com a Argentina, que é nosso vizinho júnior e aparece no distante 23º lugar do ranking dos PIBs, ou com o Chile, que é o 45º. Mesmo nesses casos, porém, a comparação seria desastrosa para nós: o Brasil tem uma rede de água e esgoto que cobre apenas 77% do país, contra 85% na Argentina e 97% no Chile; a taxa de alfabetização brasileira é de 90%, contra 97% na Argentina e 95% no Chile – em números absolutos, o Brasil é o oitavo do mundo em número de analfabetos; no Índice de Desenvolvimento Humano, o Chile é o latino-americano mais bem colocado (44º), seguido da Argentina (45º), e o Brasil aparece num distante  84º lugar, abaixo de Barbados, Antígua e Barbuda e Trinidad e Tobago.

Dizer que somos a sétima ou sexta economia do mundo pode ser bom para inflar egos governistas, empenhados em pirotecnias eleitorais e demagógicas, mas está longe de representar a realidade dramática de um país que, não obstante suas aspirações de superpotência, apresenta ainda deficiências tão profundamente primárias.

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07.janeiro.2012 11:42:34

A tentação de Mussolini

Embora se pareça com uma biografia, Mussolini, de Pierre Milza, que acaba de sair pela Editora Nova Fronteira, está longe de ser um mero retrato do fundador do fascismo. O livro é, sim, uma detalhada radiografia do funcionamento de um regime cuja memória ainda inspira sentimentos controversos na democrática Itália, com ecos em várias partes do mundo – afinal, como lembra Milza, em certo momento dos anos 30 o modelo mussoliniano foi visto na Europa e mesmo nas Américas como uma solução entre a leniência da democracia e os perigos do comunismo.

Milza declara que seu objetivo é tentar fazer uma interpretação “justa” do fenômeno Mussolini (1883-1945), que “suscitou, com o passar do tempo, todas as nuances possíveis de idolatria e ódio”. Para isso, o historiador francês, especializado em fascismo, decidiu voltar aos documentos – como os arquivos da secretaria particular do Duce – para entender como funcionava o cotidiano do que ele chama de “sistema Mussolini” e como o ditador manipulava os homens que o cercavam, explorando seus antagonismos para emergir como o centro do poder.

A ideia, diz Milza, é tirar Mussolini da mitologia da insanidade, locus comum dos tiranos totalitários do século 20, e colocá-lo na história. Com isso, o autor polemiza, pois mostra que os crimes de Mussolini não foram especialmente graves se comparados aos dos demais ditadores europeus e também aos “excessos” das democracias francesa e britânica em suas guerras coloniais.

Milza nega que faça “revisionismo” das trágicas pegadas do fascismo e diz que seu objetivo é somente “focalizar um destino que marcou incontestavelmente o século 20 na Europa”, isto é, a consolidação de uma mentalidade autoritária. De todo modo, o Mussolini que surge da complexa caneta de Milza é um homem menos cruel e sanguinário do que sua imagem consagrada faz supor, se colocado ao lado de Hitler, Stalin e Franco. No entanto, ao fazer sua revisão historiográfica, o autor refuta a tese de Hannah Arendt segundo a qual o fascismo de Mussolini não era totalitário, e sim uma ditadura clássica.

Para Milza, o totalitarismo do Duce nada devia ao nazismo em termos de domínio ideológico da sociedade – com a diferença fundamental de que, no fascismo, o poder convergia para o Estado, e não para o Partido, e em cujo regime o líder “não tentará desmantelar o que subsiste de estado de direito e não criará um verdadeiro estado policial”. A censura era um dos pilares do fascismo, mas, na prática, o que havia era autocensura. Além disso, o regime afrouxou o controle sobre o cinema, tornando-o estrategicamente mais próximo de Hollywood do que da estética nazista, para satisfazer a “clientela pequeno-burguesa”.

Na Itália fascista, havia uma “diarquia”, com a presença de um monarca ao lado do Duce. Mussolini dizia que os italianos não estavam prontos para a república e que a monarquia, afinal, havia aberto as portas ao fascismo, o que, segundo o autor, era uma “visão realista das coisas”. Milza qualifica o totalitarismo italiano como “ideológico” em vez de político. Nesse sistema, que sobreviveria sem grandes acidentes de 1922 a 1936, o Exército era a garantia de estabilidade – monarquistas, os generais aceitavam que somente o rei e o Duce por ele sacramentado interferissem em sua área. Ademais, o governo se nutriu de tecnocratas, acomodados a um regime que garantia a ordem e os privilégios do capital, regulando o mercado com esse fim. Não houve, portanto, uma ruptura, mas uma acomodação de forças.

Jornalista de talento, Mussolini conhecia o poder da comunicação para a formação da opinião pública e jogou boa parte de sua energia na modelagem de sua imagem perante os italianos. Cultivou um perfil de multiatleta e de homem de modos rudes e honestos, como um “galo da aldeia”, que o identificava com a massa de camponeses italianos. Era também o ditador que “trabalhava”, isto é, que se interessava obsessivamente pelos detalhes de governo, em parte porque não confiava em seus assessores. Desse modo, seu perfil diferenciava-se do de Hitler, que odiava o cotidiano administrativo, e aproximava-se do de Salazar, o ditador-gerente de Portugal. Galeazzo Ciano, seu genro e chanceler, dizia, enfastiado: “Com esse homem não se pode dormir nem comer; ele lê tudo, sabe tudo”.

O Duce se dizia “a mula nacional”, como se o poder fosse um fardo, e não uma realização pessoal, e nisso ele se igualava aos demais tiranos da Europa: via-se como um messias, com um destino fora de série e que toma decisões baseado em seu instinto. Cria-se uma espécie de “religião patriótica”, em que Mussolini aparece como guia incontestável, às vezes como o próprio Deus – uma “tradição semântica própria da extrema esquerda italiana”, isto é, “a personificação de um socialismo intransigente, portador das esperanças do proletariado”, como diz Milza.

Na construção de sua imagem, Mussolini não desautorizava a disseminação de histórias sobre seu vigor sexual – um camareiro relata como o Duce concedia dez minutos de seu tempo para cada uma das mulheres que o visitavam diariamente e eram tratadas como objetos descartáveis. Era um amante brutal e rápido, sem nenhum romantismo. “O donjuanismo mussoliniano fazia parte da panóplia de sinais, aos olhos do povo italiano, da imagem do super-homem”, escreve Milza, numa lição que parece ter sido entendida ao pé da letra por Silvio Berlusconi quando era premiê da Itália e se envolveu em seguidos escândalos sexuais – em sua defesa, Berlusconi chegou a declarar que “gostar de belas garotas é melhor do que ser gay”.

O regime tratou ainda de criar um “estilo fascista”, que deveria ser seguido para cumprir o objetivo de formar o “novo homem”. O líder dessa tarefa era Achille Starace, secretário do Partido Nacional Fascista, que estabeleceu normas às quais todo italiano deveria atentar, submetendo o país inteiro a uma ridícula “revolução cultural” – que incluiu a abolição da pasta, alimento “amolecedor” da raça. “É um cretino”, dizia Mussolini sobre Starace, “mas é um cretino obediente.”

Apesar da fantasiosa visão de mundo fascista e da violência do Estado, o regime de Mussolini ganhou amplo apoio popular e mesmo entre os intelectuais, cooptados para difundir a imagem do Duce como “renovador da cultura nacional”. Muitos intelectuais, como Pirandello, aderiram por oportunismo, diz Milza, e pouquíssimos se arriscaram a desafiar o regime de frente, como Benedetto Croce. O projeto fascista ganhou apoio também dos principais líderes da Igreja Católica, e só houve alguma crise entre o papa e o Duce porque o governo queria controlar a educação e a juventude, seara normalmente dominada pelos padres na Itália profunda – e então a Igreja acusou Mussolini de violar seus “direitos sobrenaturais” ao tentar “sacralizar o Estado”.

Milza descreve os italianos daquela época como um povo “não familiarizado com a cultura da democracia liberal” e que se considerava satisfeito com a ditadura, do ponto de vista material e patriótico – sobretudo depois das sanções impostas pela Liga das Nações à Itália após a invasão genocida da Etiópia, em 1935. O autor diz que a historiografia marxista é incapaz de admitir que pode ter havido consenso em torno de Mussolini sem a necessidade do terror. Hoje, afirma ele, os historiadores não discutem mais se houve adesão ao regime, e sim se essa adesão foi passiva, apática ou entusiasmada, uma problematização semelhante à que tem sido feita em relação ao nazismo na Alemanha.

Admirado por Churchill e Roosevelt, cortejado por Gandhi, contratado por Hearst para escrever em seus jornais nos EUA, elogiado por Kipling e por Bernard Shaw, o Mussolini que enfrentou o comunismo em nome do delirante “renascimento” do Império Romano foi o herói de uma elite fascinada com um projeto que, em meio às profundas incertezas dos anos 30, oferecia a tão desejada paz social. Sob a perspectiva de Milza, fica claro por que a tentação do fascismo na Europa parece mais viva do que nunca.

 

(Resenha de minha autoria publicada no Sabático de 7 de janeiro de 2012.)

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No último sábado, judeus ultra-ortodoxos fantasiaram-se de prisioneiros de campos de concentração nazistas, em Jerusalém, para protestar contra o que veem como incitação ao ódio contra eles em Israel, motivado pela sua exigência de observância estrita das normas religiosas no país. O choque causado pela imagem talvez encubra o fato de que essa tensão está na própria raiz da Israel estabelecida em 1948.

Essa Israel tenta se apresentar como algo diferente da “terra santa”  – e, no entanto, encontra-se desde sua fundação embebida em interdições religiosas. Ben Gurion, para garantir o aspecto judaico do novo Estado, essencial para justificá-lo, acertou com os ortodoxos, inclusive com os antissionistas militantes, uma espécie de “concordata” para a fundação de Israel liderada pelo sionismo – e não pelo Messias, como queriam os ultra-religiosos. Esse acordo viabilizou a arriscada aventura de juntar, num mesmo país, judeus de vários extratos ideológicos, o que, em se tratando de judeus, é receita certa para confusão. Mas mostra também como o nacionalismo sionista – embora laico e com a pretensão de criar um “novo judeu”, um “judeu musculoso”, como contraponto ao judeu vulnerável dos milênios de perseguição que redundaram na Shoah (Holocausto) – nutriu-se da matriz religiosa e deu força decisiva aos ortodoxos para interferir na política do país, principalmente a partir do final dos anos 70.

Essa interdependência fez do judaísmo em Israel um ente híbrido que se equilibra entre o vigor da liberdade intelectual e o risco permanente de retorno ao estado de isolamento característico do mundo ortodoxo, constrangendo o aspecto secular adquirido pelo judaísmo europeu no século 19 e que o tornou elemento vital na narrativa da história do Ocidente contemporâneo. Os ultra-ortodoxos (haredim) se consideram os únicos legítimos judeus, porque a secularização é vista como o fim dos judeus como “povo escolhido”. No limite, trata-se de uma tentativa de sequestro do judaísmo, que tanto aborrece os judeus laicos, queixosos da autoridade e dos privilégios estatais dados aos ortodoxos em uma Israel orgulhosamente secular.

Agora, na ânsia de afirmar suas certezas morais absolutas diante dos desafios modernos, os ultra-ortodoxos querem seqüestrar a Shoah, nada menos que a maior tragédia da história do povo judeu. Ao explorar a imagem da Shoah, alegando que estão sofrendo um “Holocausto espiritual”, os extremistas haredim reafirmam sua disposição de não ceder terreno aos seculares em Israel, jogando com o sentimento de culpa – como fazem todos os religiosos. É ainda mais vil, porém, justamente porque uma parte dos judeus ortodoxos atribui aos judeus seculares, sobretudo aos sionistas, a culpa pelo Holocausto. Em sua visão, a catástrofe que se abateu sobre o povo judeu foi conseqüência de seu afastamento da vida estritamente religiosa e da interferência política no destino ditado pela Providência. É como se dissessem que, se todos se comportassem como eles, afastando-se da aventura nacionalista e vivendo exclusivamente segundo a Torá, Deus não teria enviado os nazistas para castigá-los. Pior: para os ultra-ortodoxos, os judeus não devem nem se defender se mais alguém resolver eliminá-los no futuro; em sua visão, os judeus serão protegidos por Deus, se assim merecerem.

Agora, porém, os extremistas haredim foram muito mais longe. Ao vestirem-se como prisioneiros de campos de concentração, eles transferiram aos judeus laicos o papel de “nazistas”, que estariam eliminando os “verdadeiros judeus” e, com isso, desafiando o próprio Deus. É um passo além do aceitável nessa guerra santa obscurantista dos ultra-ortodoxos em Israel, esbofeteando a mesmíssima moral que eles dizem tão ardorosamente defender.

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27.dezembro.2011 17:36:08

“Jesus era muçulmano”

O britânico Anjem Choudary é uma das principais lideranças do islamismo radical no Reino Unido. Ele defende a adoção da sharia (lei islâmica) no país, foi um dos que elogiaram os terroristas do 11 de Setembro e já pediu a execução do papa e de Obama. Em sua mais recente mensagem, a propósito do Natal – que ele chama de “festa pagã”, associada a “promiscuidade, abuso de álcool, violência doméstica e todos os tipos de crimes” -, Choudary disse que “Jesus, de fato, era muçulmano” e se fosse vivo hoje estaria ao lado dos muçulmanos “em sua luta para liberar suas terras e para implementar a lei de Deus”.

 

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A Carta Maior informa que a deputada Luciana Santos (PC do B-PE) propôs a criação de uma subcomissão na Câmara para buscar “formas de garantir a sobrevivência financeira de veículos de comunicação que fazem parte da chamada imprensa alternativa, como rádios comunitárias, portais e blogs na internet”. Como já dá para perceber, essa “garantia” viria na forma de financiamento com dinheiro público.

Luciana diz que a ideia é ir além da distribuição de publicidade oficial – a verba seria destinada diretamente à produção de conteúdo. O objetivo, afirma a deputada, é “aumentar a capilaridade da comunicação no país e ajudar a democratizá-la”.

Para mostrar que o tema é “suprapartidário”, a reportagem diz que a presidência da subcomissão foi entregue a Júlio Campos (MT), que é do DEM e tem “forte ligação com a imprensa tradicional” – foi dono de um grupo de comunicação no Mato Grosso, mas perdeu o negócio.

Atribui-se à “mídia alternativa” o poder de romper o suposto monopólio da informação mantido pelas grandes empresas de comunicação. Mas é difícil imaginar que essa “mídia alternativa”, uma vez financiada com dinheiro público, consiga ser crítica ao governo que lhe garante os recursos. O fato de haver apoio de gente da oposição à iniciativa não significa que ela tenha mais valor. Isso prova somente que o trabalho da chamada “grande imprensa”, mesmo com todos os seus erros, incomoda os políticos em geral, e não só os governistas.

É uma obviedade ululante, mas, num país em que os valores estão sendo propositalmente embaralhados para transformar em “golpistas” os jornalistas que investigam o governo, não custa lembrar: uma imprensa verdadeiramente livre é aquela que não depende do Estado que recolhe impostos, mas do leitor que paga pela informação.

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Agora, como de hábito, uma porção de gente está dizendo que “já sabia” que o Barcelona atropelaria o Santos na final do Mundial de Clubes. Mesmo um ou outro comentarista que antecipou uma fácil vitória do time espanhol, porém, jamais poderia imaginar o que se viu no domingo que passou.

De tempos em tempos algo acontece no futebol que muda seus paradigmas. O Brasil em 1938, por exemplo, mostrou aos europeus que era possível misturar futebol e dança, o “foot-ball mulato” descrito por Gilberto Freyre, que marcaria a identidade desse esporte no Brasil até os anos 90. Depois, em 1954, veio a Hungria. Liderada por Puskas, a equipe treinada por Gustav Sebes antecipou o Carrossel Holandês e o Barcelona atual ao ter jogadores de grande preparo físico que não guardavam posição fixa – o centroavante Hidegkuti, por exemplo, jogava recuado, vindo de trás, como Messi, o “falso” centroavante do Barça. O Santos da década de 60 ganhou mais de 20 títulos em dez anos, um feito inigualável, utilizando uma tática que poderíamos batizar de “tsunami”, atacando com até cinco jogadores ao mesmo tempo e marcando gols em proporções bíblicas. Em 1974, veio o Carrossel Holandês, de clara inspiração húngara, que encantou o mundo do futebol unindo extrema eficiência e graça.

De lá para cá, adotou-se a mediocridade como padrão – salvo, talvez, no brevíssimo caso da seleção brasileira de 1982. Os times todos passaram a jogar do mesmo jeito, privilegiando a defesa e apostando em lances fortuitos, como bolas lançadas na área e cobranças de falta.

Mas então apareceu esse Barcelona, que retomou o encanto húngaro e holandês, com uma diferença fundamental: ao contrário das seleções de Puskas e de Cruyff, que tropeçaram contra a Alemanha respectivamente em 1954 e em 1974, o Barça de Messi é goleador e também vencedor – como era o incrível Santos de Pelé. No time catalão, vários espíritos mágicos da história do futebol parecem convergir, dando a sensação de que algo novo e imprevisível está sendo gestado.

Ver meu time jogar contra esse fenômeno foi um privilégio.

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