A deputada democrata-cristã Erika Steinbach causou uma confusão nesta semana na Alemanha ao tuitar: “O Partido Nazista era de esquerda. Esqueceram? Partido Nacional SOCIALISTA dos TRABALHADORES Alemães”. As maiúsculas fazem parte da ênfase que Erika quis dar aos elementos supostamente de esquerda da legenda nazista. Pouco depois, a deputada disse que era apenas uma provocação, a propósito de um debate sobre os extremismos de esquerda e de direita. A Spiegel ouviu historiadores para comentar o assunto, dada a repercussão que causou.
Heinrich August Winkler, da Universidade Humboldt de Berlim, disse que os nazistas eram contra tudo o que fosse de esquerda e que era impossível ser tão de direita quanto eles, ao promoverem “uma negação radical do Iluminismo”. Michael Kohlstruck, do Centro de Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim, disse que “o Partido Nazista tinha ‘socialismo alemão’ no programa, claro, mas não era internacionalista, e sim baseado na perseguição, na exclusão e no extermínio”. Para ele, considerar o “socialismo” contido no nome do Partido Nazista como semelhante ao dos movimentos de esquerda é um “truque historiográfico”. “Dizer que o Partido Nazista era de esquerda é um disparate.”
Leitores do Twitter de Erika provocaram a deputada, dizendo que, se a questão é de nomenclatura, então seu partido, a conservadora CDU (União Democrata Cristã), é socialista, porque tem a palavra “União”, assim como a “União Soviética”.
Um anúncio para vender o aplicativo de um canal de TV israelense para o tablet Galaxy, da Samsung, enfureceu parlamentares iranianos. Estrelada por um grupo de humoristas de Israel, a peça mostra agentes do Mossad em Isfahan, sul do Irã, conversando sobre as vantagens do aparelho e do aplicativo. Um deles aciona acidentalmente o dispositivo que faz explodir uma usina de enriquecimento de urânio. “O que? Outra explosão misteriosa no Irã?”, diz um deles, em referência às recentes explosões em instalações iranianas, atribuídas por Teerã ao Mossad.
Sem nenhum senso de humor, os parlamentares consideraram que o anúncio é uma maneira de mostrar a “superioridade” dos israelenses sobre os iranianos e defenderam o boicote aos produtos da Samsung – que logo tratou de se desvincular do comercial.
Abaixo, o vídeo com o anúncio – a introdução explica as piadas.
Em sua já famosa entrevista em Cuba, a presidente Dilma Rousseff não se limitou a singularizar os EUA quando resolveu criticar a situação dos direitos humanos “no mundo”, poupando a adorada ditadura cubana. Mais adiante, ela acusou os americanos de impedir a chegada de alimentos a Cuba. Após criticar o embargo dos EUA à ilha, Dilma disse na entrevista:
“O Brasil hoje participa, aqui em Cuba, de várias iniciativas que eu considero importantes: a primeira, que é uma política de alimentos. É impossível se considerar que é correto o bloqueio de alimentos para um povo”.
A presidente está mal informada. Como explicou o professor de Relações Internacionais Mauricio Santoro à GloboNews (veja a íntegra aqui), os EUA não só não bloqueiam alimentos para Cuba como são o terceiro maior exportador de alimentos para a ilha, graças a uma das várias brechas do embargo. Apesar disso, o bloqueio a Cuba, uma bobagem mantida graças à força do lobby dos exilados cubanos na Flórida, continua servindo à propaganda antiamericana barata – como Dilma acaba de confirmar.
Enfim, a criatura emulou seu criador. Dilma, que até então marcara importantes diferenças em relação a Lula no que diz respeito à defesa dos direitos humanos, decidiu repetir os piores momentos do cinismo lulista em sua visita a Havana. A presidente disse que criticar a repressão tirânica à oposição em Cuba seria equivalente a usar a questão de direitos humanos como “arma política”.
Como vítima de uma ditadura, Dilma sabe muito bem o quanto dói o silêncio do mundo diante da brutalidade de um regime de exceção. Jimmy Carter é tratado como herói pela resistência ao regime militar brasileiro justamente por ter atuado com vigor contra a tortura no Brasil, no momento em que era presidente dos EUA. Carter não se importou em melindrar os generais daqui e não renunciou à sua tarefa como estadista de uma democracia.
Já Dilma preferiu a mediocridade do discurso segundo o qual não se pode “atirar a primeira pedra” quando se trata de discutir direitos humanos. É medíocre porque, como representante de uma democracia supostamente saudável, Dilma deveria considerar inaceitável que cubanos sejam presos por delito de opinião. Mas ela não só passou ao largo do tema como aproveitou a oportunidade para dar uma cotovelada ideológica nos EUA, citando especificamente o caso de Guantánamo. Ou seja: o Brasil se diz olímpico sobre a questão dos direitos humanos, mas, quando decide tocar no assunto, poupa Cuba, que é uma ditadura, e não os EUA, que são uma democracia.
Ademais, quando ainda era diferente de Lula, Dilma criticou valentemente a situação dos direitos humanos no Irã. Ou seja, atirou a pedra no telhado de Teerã sem se preocupar nem um pouco com o “telhado de vidro” brasileiro. Mas a equação, aqui, é muito fácil de entender: enquanto os aiatolás são elementos exóticos do distante Oriente Médio, a ilha dos irmãos Castro é a utopia assassina da qual a presidente e outros militantes esquerdistas brasileiros se sentem românticos tributários.
A recente ação policial para a reintegração de posse de um terreno no bairro Pinheirinho (São José dos Campos), brutal ainda que respaldada pela Justiça, foi classificada de “barbárie” pela presidente Dilma Rousseff. A expressão não saiu diretamente de sua boca, em razão de empecilhos políticos – ela está se aproximando do governador Geraldo Alckmin, chefe supremo da PM paulista. Mas a presidente certamente autorizou sua disseminação, uma forma de marcar posição em relação aos direitos humanos, que é um tema tão caro ao governo federal e a seus simpatizantes à esquerda, e ao mesmo tempo serve para dar uma canelada eleitoral nos tucanos.
No entanto, esse mesmo governo consegue dizer que a situação dos direitos humanos em Cuba “não é emergencial” – e a esquerda radical, tão eficiente na hora de reagir à “barbárie” da PM sob governo tucano, silencia a respeito da barbárie, sem aspas, da ditadura cubana – isso quando não encontra justificativas para a prisão de dissidentes políticos, em nome da “resistência contra o imperialismo”, ou mesmo quando nega a própria existência desses presos. Mas o importante, como fez o chanceler Antonio Patriota nesta segunda-feira, é dizer que “todos temos progressos a fazer” no que diz respeito aos direitos humanos, construindo absurda equivalência moral entre o estado permanente de mentira e repressão sob a ditadura cubana e as eventuais violações em países democráticos – normalmente denunciadas por seus próprios cidadãos, graças à liberdade de expressão.
Em defesa de Dilma, registre-se que ela teve a coragem de dar visto de entrada para uma famosa dissidente cubana, Yoani Sanchez, arriscando-se a melindrar os gerontocratas castristas habituados à adulação dos lulistas, criativos quando se trata de inventar argumentos para proteger notórios criminosos travestidos de “líderes revolucionários” cubanos. Com isso, Dilma revela uma importante diferença em relação a seu antecessor, cuja grande marca na relação com Cuba foi ter comparado os opositores da tirania dos Castros a bandidos comuns.
Meus caríssimos amigos
Saio hoje para um curto período de férias, na aprazível Ubatuba. Não terei condições de liberar comentários, porque celular não pega lá. Só praia, mar e pinga de Paraty. Espero vê-los na volta, dia 1 de fevereiro, com os assuntos amenos de sempre.
Um grande abraço a todos!
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A Mercedes Benz usou uma imagem de Che Guevara para ilustrar o lançamento de um aplicativo, chamado “Car Together”, que facilita encontrar carona. “Alguns colegas ainda acham que dividir o carro beira o comunismo”, disse Dieter Zetsche, diretor da Mercedes, em sua animada apresentação em Las Vegas. “Bom, se é assim, viva la revolución!”
Ato contínuo, exilados cubanos iniciaram uma campanha contra a Mercedes. A empresa imediatamente se desculpou, dizendo que não pretendia, ao usar a imagem de Che, “perdoar as ações dessa figura histórica ou a filosofia política que ele defendia”.
Um vídeo colocado recentemente na internet mostra fuzileiros navais americanos urinando em cadáveres de afegãos. O governo dos EUA identificou pelo menos dois marines, reconheceu a autenticidade das imagens e as classificou como “repugnantes”. O degradante episódio ensejou o habitual cinismo do Taleban, para quem o vídeo prova o padrão de desrespeito das forças dos EUA em relação aos afegãos. “Isso não é uma ação humana. É uma ação selvagem, vergonhosa demais para que falemos dela”, disse um porta-voz do Taleban, o mesmo grupo que extirpou a humanidade dos afegãos, por meio de tortura, perseguição e assassinatos brutais, para transformá-los em zumbis religiosos.
O caso ocorre no momento em que o governo americano quer retomar o diálogo com o Taleban, como informou o Washington Post. Aliás, parece que a milícia fundamentalista islâmica, a despeito das bravatas, prefere conversar com a Casa Branca a falar com o presidente Hamid Karzai, que recentemente abandonou as negociações com o grupo. A aposta de Washington é que uma parte do Taleban está tão cansada da guerra quanto os EUA – cujo alto comando militar sabe que uma vitória no Afeganistão até 2014, prazo final da retirada das tropas ocidentais, é simplesmente impossível.
(Post atualizado com a informação de que o vídeo foi considerado autêntico pelo governo americano e que dois dos marines foram identificados.)
É uma pena que, quando enfim o Estado resolveu aparecer na cracolândia, a ação esteja visceralmente contaminada por interesses eleitoreiros e econômicos. Essa promiscuidade obnubila o fato de que, sim, era necessário tomar alguma providência para acabar com um dos símbolos mais impressionantes da patologia da sociedade paulistana – que se emociona com um cachorro que apanhou de sua dona, mas não tem a mesma consideração por pessoas destituídas de sua humanidade.
Hoje sabe-se que os governos estadual e municipal decidiram agir para acabar com a cracolândia porque o governo federal já planejava fazê-lo – e, claro, tudo isso está no contexto da eleição para a prefeitura de São Paulo. Drogas e viciados perambulando por aí são um tema central para eleitores normalmente conservadores como o paulistano. Atacar o problema, mesmo com truculência e precipitação, deve render votos preciosos. Ademais, um dos projetos mais significativos do prefeito Gilberto Kassab – e de seus simpatizantes do setor imobiliário – é reformar justamente a região onde fica a cracolândia. Visto dessa perspectiva, o problema é claramente de higienização social, para satisfazer eleitores e empreiteiros.
Nada disso, porém, deveria descaracterizar a urgência do problema, que é de saúde pública, de segurança e de direitos – os dos viciados e também os das pessoas comuns que não conseguem circular por uma parte de sua própria cidade. A politização da ação estatal na cracolândia, tanto por parte dos governantes quanto por parte de seus críticos, não ajuda a colocar o drama em sua justa dimensão.
No limite, mesmo atabalhoada, a Operação Cracolândia era necessária e inadiável, e seus resultados, ainda que parciais ou mesmo eventualmente violentos, deverão servir para balizar futuras ações – gerando um necessário contraponto ao discurso ingênuo segundo o qual o problema da cracolândia pode ser combatido com sopão noturno e compaixão cristã.
O PIB é a medida da riqueza de um país – e ultimamente tem assanhado os apóstolos lulistas, encantados com a notícia de que o PIB brasileiro vai superar o do Reino Unido. No entanto, parece cada vez mais claro que o valor dessa medida não é significativo quando se trata de observar os avanços sociais, econômicos e de infra-estrutura de um país em relação aos demais.
O caso japonês é típico, como mostra o jornalista Eamonn Fingleton em artigo no New York Times. Invocado nos EUA desde os anos 90 como exemplo do que acontece com um país quando sua economia entra em estagnação, o Japão, pelo contrário, atravessou as chamadas “décadas perdidas” sofisticando sua indústria, aprimorando sua infra-estrutura e melhorando substancialmente a qualidade de vida de seus cidadãos, que em muitos aspectos é bastante superior à dos americanos. Os avanços em tecnologia, marca do domínio americano desde os anos 50, têm sido mais acentuados no Japão. Mas nada disso aparece nas medições quantitativas do PIB, segundo as quais os EUA cresceram mais que o Japão no período e, portanto, ficaram “mais ricos” que os japoneses.
O mesmo poderia ser aplicado ao caso brasileiro, cujo PIB nos coloca como o gigante do Hemisfério Sul, dono da oitava economia do mundo, à frente da França e, como se sabe, pau a pau com o Reino Unido. Já se disse que, embora com PIB equivalente, o Brasil está muito longe de ter uma qualidade de vida semelhante à dos britânicos e franceses – o próprio ministro Guido Mantega, que é um otimista, disse que isso só vai acontecer daqui a uns 20 anos. Então, poderíamos comparar o Brasil com a Argentina, que é nosso vizinho júnior e aparece no distante 23º lugar do ranking dos PIBs, ou com o Chile, que é o 45º. Mesmo nesses casos, porém, a comparação seria desastrosa para nós: o Brasil tem uma rede de água e esgoto que cobre apenas 77% do país, contra 85% na Argentina e 97% no Chile; a taxa de alfabetização brasileira é de 90%, contra 97% na Argentina e 95% no Chile – em números absolutos, o Brasil é o oitavo do mundo em número de analfabetos; no Índice de Desenvolvimento Humano, o Chile é o latino-americano mais bem colocado (44º), seguido da Argentina (45º), e o Brasil aparece num distante 84º lugar, abaixo de Barbados, Antígua e Barbuda e Trinidad e Tobago.
Dizer que somos a sétima ou sexta economia do mundo pode ser bom para inflar egos governistas, empenhados em pirotecnias eleitorais e demagógicas, mas está longe de representar a realidade dramática de um país que, não obstante suas aspirações de superpotência, apresenta ainda deficiências tão profundamente primárias.
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