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Marcos Guterman

Meus queridos amigos

 

Esta é minha “segunda morte”. A primeira foi há alguns anos, quando tive de encerrar este blog porque ele havia sido tomado por antissemitas, e o sistema não permitia que eu os barrasse. Agora, estou encerrando as atividades por um motivo bem mais agradável. Vou assumir outra função no Estadão, muito nobre e reservada e, por essa razão, inconciliável com a manutenção deste espaço opinativo, em que me exponho pessoalmente.

Digo que é uma “segunda morte” porque vou sentir muita falta disso aqui. O blog funcionou como uma sala de aula para mim. Aprendi demais com todos vocês, inclusive (e sobretudo) com aqueles que de mim discordaram – muitas observações feitas por esses respeitáveis “adversários” me fizeram refletir e, eventualmente, mudar de ideia. Aprendi que as guerras são feitas por gente rigorosamente coerente, o que me levou a valorizar cada vez mais a contradição.

Não quero ser piegas no meu último post, mas é difícil me despedir desse negócio tão pessoal sem uma nota de tristeza. Não posso deixar de mencionar alguns dos meus fieis amigos nesses anos todos: Carolina, alexb, Rogério, Carlos 3m, João Só, Justo, Marcio, Kracker, Ben, Bueno de Taubaté, Ciro, o Persa, Ezequiel-SP, Mario de Sampa, Jakob Ibrahim, Fabio de Israel, Glúon, Censurado, Marcelo-SP, Fey, Sutter, Cláudia, Rone, Corregedor, Edgard Loepert, Doido Veio, Victor e todos aqueles que eu sei que liam o blog frequentemente sem fazer comentários.

Quero agradecer a todos e a cada um de vocês pela presença aqui e pelas lições que me deram e espero sinceramente que vocês tenham se divertido.

Um grande abraço a todos.

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A propósito da crise no Paraguai, topei hoje com um texto fantástico. Divulgado em vários blogs “progressistas”, o artigo sugere que os EUA estão por trás do que ele chama de “golpe” no Paraguai.

Mas isso não é tudo. Segundo o texto, os EUA estão por trás também da denúncia do mensalão. E tem mais: ele sugere que Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira são meros agentes a serviço do serviço secreto americano para desestabilizar o Brasil.

Poucos artigos resumiram com tanta precisão a que ponto chega a obsessão de parte da esquerda brasileira com os EUA. Se os americanos não existissem, esse pessoal trataria logo de inventar.

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O governo de Dilma Rousseff foi rápido em qualificar como “golpe” a deposição constitucional de Fernando Lugo da Presidência do Paraguai, mais rápido até do que o processo que levou à queda do ex-bispo. Em meio ao desencontro de informações, a presidente, sem saber exatamente o que havia ocorrido, já falava em sanções contra Assunção, invocando a cláusula democrática do Mercosul para o caso de ruptura institucional e negando-se a permitir que o novo presidente tivesse voz na Unasul. Com isso, seguiu a histeria dos parceiros “bolivarianos”, isto é, Venezuela, Equador e Bolívia, que retiraram seus embaixadores do Paraguai e não reconheceram o novo governo. O Brasil, ao menos nesse aspecto, limitou-se a chamar seu embaixador “para consultas”, o que é visto, no mundo diplomático, como uma censura. Mas tamanha pressa em punir o Paraguai, por uma situação ainda obscura, mostra que o Brasil realmente leva a sério o respeito à democracia como elemento central de sua agenda internacional, certo? Errado.

Tomemos como exemplo a questão síria. Vários países retiraram seus embaixadores de Damasco para demonstrar insatisfação com a crescente crueldade do regime ditatorial sírio na repressão aos dissidentes. O Brasil não. O Brasil decidiu manter seu embaixador lá sob alegação de que não poderia “fechar as portas ao diálogo”. No Paraguai, no entanto, o Itamaraty considerou adequado dificultar o contato diplomático num momento em que o diálogo com um parceiro de longa data, com empreendimentos conjuntos cruciais, como é o caso de Itaipu, era absolutamente necessário.

Outro exemplo relevante é Cuba. O Brasil defendeu o ingresso de Cuba na Organização dos Estados Americanos a despeito do fato de que a entidade, assim como o Mercosul, tem uma cláusula democrática. Mais do que isso: o então presidente Lula chegou a dizer que a OEA devia “desculpas” a Cuba por tê-la excluído. Ou seja: uma notória ditadura ganha apoio de Brasília para entrar num organismo multilateral, mas uma democracia – que, ademais, reitere-se, é parceira relevante do Brasil, diferentemente do desimportante regime cubano – é ameaçada de suspensão e de expulsão.

Não se espera que o Brasil tome a democracia como condição primária para escolher com quem deve fazer diplomacia; por outro lado, preterir democracias por causa de eventuais rupturas, enquanto mantém intactos os canais diplomáticos com ditadores, é pelo menos estranho.

É fato que o processo que resultou no impeachment de Lugo merece ser estudado, porque houve um insólito rito sumário para a destituição, mais próximo do que ocorre no parlamentarismo. Mas não é alinhando-se ao cinismo dos afilhados do chavismo – que criticam a suposta ruptura democrática no Paraguai enquanto são, eles mesmos, ameaças à democracia, ao concentrar poder e perseguir a imprensa – que o Brasil fará justiça a seu histórico de bons serviços prestados à diplomacia regional.

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A presidente Dilma Rousseff sugeriu que o Paraguai fizesse um acordo político para que o presidente esquerdista Fernando Lugo ficasse no poder até o final de seu mandato. Fico aqui imaginando o que Dilma e os petistas diriam se algum governante estrangeiro, digamos o americano, sugerisse um “acordo político” para manter o direitista Fernando Collor na Presidência.

De qualquer maneira, Lugo não é mais presidente do Paraguai, destituído estritamente segundo as leis do país. No entanto, tem gente dizendo que foi “golpe” apesar de ter “amparo legal”.

Então é isso: a América Latina, pródiga em realismo fantástico, acaba de inventar o “golpe que respeita a lei”.

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Ainda há o que dizer sobre o histórico aperto de mão entre Lula e Maluf, mas, sobretudo, ainda há muito a dizer sobre a defesa que a vanguarda petista fez desse gesto. O argumento mais usado é que os tucanos também queriam a aliança com Maluf; logo, se o PSDB pode se rebaixar a esse ponto, por que o PT não poderia? Outro argumento é ainda mais impressionante: o afago em Maluf é algo “natural”, uma vez que o PP já está na base do governo de Dilma, e ademais faz parte da estratégia petista de “ampliar o arco de alianças” para ganhar o poder em São Paulo, de modo a implantar aqui o revolucionário projeto salvacionista de Lula.

Todo esse esforço retórico mal esconde o colapso moral da política brasileira, que se tornou definitivo com a rendição do PT, antes orgulhoso de sua retidão, à desmoralização das alianças ideológicas ou programáticas. Mas não foi apenas isso: o lulismo transformou aquilo que deveria ser exceção em regra, ao sugerir que o crime de corrupção, de que Maluf é símbolo máximo, é a norma no Brasil. Ora, estão a dizer os petistas, se todos são corruptos, por que o PT não pode abraçar o maior deles?

Trata-se de uma estratégia manjada. Ao se generalizar a culpa, chega-se à conclusão de que ninguém pode ser responsabilizado por nada, de modo que a corrupção se “naturaliza”, como se fosse um dado incontornável da realidade. Ao tentar convencer os brasileiros a aceitar o “mal menor”, isto é, a aliança com notórios corruptos, em nome de um projeto nacional, o lulismo quer abrir caminho para que se aceite o mal em si mesmo, em qualquer dimensão. Nesse cenário, Lula é o Líder que a todos redime – é ele que aperta a mão de Maluf, pessoalmente, sacrificando-se para que seus seguidores possam manter intacta a sua “higiene moral”. É ele, Lula, quem assume toda a responsabilidade pelo trabalho sujo da política.

Ao agir de acordo com sua consciência e abandonar a chapa lulo-malufista à Prefeitura de São Paulo, a deputada Luiza Erundina tentou recolocar as coisas em termos morais, renunciando ao “mal menor”, simplesmente porque não poderia conviver consigo mesma se aceitasse a companhia de Maluf. Ela lembrou que Maluf não poderia estar numa chapa da esquerda progressista porque ele representa todos os crimes que essa chapa deveria, por princípio, combater. Foi o bastante para que a deputada fosse considerada irresponsável pela tropa petista – isto é, à luz da narrativa histórica do lulismo, era Erundina que estava cometendo um crime, ao prejudicar a manutenção do projeto redentor de Lula. O mesmo se aplica à imprensa que expõe a roubalheira e é, por essa razão, tratada como “golpista”.

Sob o lulismo, a corrupção é considerada não só aceitável, como legal; inaceitável e ilegal é denunciá-la. Gente supostamente bem informada aceita alegremente esse postulado e empresta seu verniz intelectual para cristalizá-lo como verdade eterna, reduzindo os códigos morais a letra morta. É como se nada do que sabemos sobre o certo e o errado tivesse mais valor.

O “nunca antes”, portanto, não é uma piada. É precisamente a essência desse colapso ético, sustentado pela falácia de que a popularidade do Grande Eleitor a tudo justifica.

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As acrobacias retóricas que os petistas estão fazendo para justificar o aperto de mão entre Lula e Maluf, nos jardins da casa daquele que um dia foi o maior inimigo do PT, talvez sejam piores do que a aliança em si. “O Brasil mudou”, disse o presidente do PT, Rui Falcão, referindo-se à parte do Brasil que se contenta com uma geladeira nova e, por flagrante ignorância, não está nem um pouco preocupada com o que fazem em seu nome, muito menos com a desmoralização da política. Como a demonstrar que nem todo o Brasil mudou, porém, José Dirceu, em seu blog, ordenou que os militantes petistas indignados (parece que eles existem, sim) discutam a questão na “coordenação e na direção política da aliança e da campanha de Fernando Haddad”. Ou seja, no melhor estilo do centralismo democrático, o comissariado petista não quer que os companheiros exponham sua vergonha em público, para, nas palavras de Dirceu, não “dar chumbo ao adversário”.

Esse contorcionismo lembra muito o que os comunistas foram obrigados a fazer, por dever partidário, para justificar o pacto entre Stálin e Hitler em 1939 – talvez o momento mais infame da história da diplomacia mundial.

Stálin achava que estava ganhando tempo – pelo menos é isso o que os stalinistas festivos alegam até hoje, para dizer que o pacto foi um movimento brilhante do Chefe da Humanidade Progressista. Na verdade, o que os stalinistas não dizem é que, por conta do pacto, Stálin, o Esperto, facilitou de tal maneira a vida de Hitler que a marcha nazista só foi interrompida às portas de Moscou. Logo, como se vê, quem ganhou tempo com o acordo foi Hitler, e não Stálin.

Não se trata de comparar o pacto entre Stálin e Hitler, pivô da Segunda Guerra Mundial, com a aliança “estratégica” entre Lula e Maluf por um punhado de minutos eleitorais na TV, porque uma coisa obviamente não tem nada a ver com a outra. Trata-se apenas de lembrar que a esperteza, quando é grande demais, engole o esperto.

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“Paranoico, prepotente, sectário, praticou e estimulou entre seus aliados abusos e ilegalidades, como se eles estivessem acima do que se aplicava aos mortais devido à grandiosidade das missões de que estavam imbuídos.”

A descrição acima, feita em texto de Carlos Eduardo Lins da Silva na Folha desta segunda-feira (aqui, só para assinantes), diz respeito a Nixon, mas poderia servir, sem retoques, para se referir a Lula – com a diferença que, nos EUA, Nixon teve de deixar o poder, enquanto no Brasil Lula é carregado pelas massas.

Como se sabe, o lulismo e seus associados, com sua missão de salvar o Brasil, se consideram acima de julgamentos terrenos, ao mesmo tempo em que autorizam alianças políticas corruptas que violentam a base e a história do PT e embaralham a política, ao ponto de tornar irreconhecíveis os partidos, inclusive os da oposição. Agora, como a coroar essa putrefação do mundo político brasileiro, Lula, na tentativa de sacramentar sua hegemonia nacional, inventou uma chapa à Prefeitura de São Paulo que diz representar o “novo”, mas que tem Paulo Maluf no palanque.

“Tenho conversas com todo mundo, todas muito elegantes. Não há mais esquerda e direita, o que há são segundos de TV”, justificou o neopetista Maluf, com uma honestidade incomum – afinal, não há por que esconder os motivos pelos quais ele se juntou ao PT e a Lula, numa aliança que, de esdrúxula, não tem absolutamente nada.

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Fila em banheiro público de Mumbai: eles não pagam

 

Mumbai, a maior cidade da Índia, tem cerca de 10 mil banheiros públicos. Em boa parte deles, os homens podem urinar de graça, mas as mulheres têm de pagar. Contra essa discriminação, um grupo de ativistas começou uma mobilização para que as indianas possam urinar de graça – e que tenham banheiros adequados às suas necessidades, já que a maioria deles é imunda.

“Cada vez mais mulheres trabalham fora de casa, mas a maioria evita ir aos banheiros devido à sujeira”, explicou a ativista Minus Gandhi, da ONG Apnalaya, segundo o jornal El Mundo. “Elas são obrigadas a segurar o dia inteiro, com todo o estresse que isso provoca, além do risco de infecções.” Trata-se de um “direito humano”, disse ela ao New York Times.

Na Índia, país celebrado como modelo por sua economia em crescimento, metade das casas não têm banheiro. Boa parte dos indianos faz suas necessidades no mato ou nas ruas – as mulheres o fazem em grupo, para evitar eventual assédio sexual.

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Que o atual governo dos EUA não gosta do atual governo de Israel, e vice-versa, não é segredo para ninguém. Basta lembrar que, após o primeiro encontro entre o presidente Barack Obama e o premiê Binyamin Netanyahu, o israelense confidenciou a amigos que não ficou particularmente impressionado pelo intelecto do colega americano. Depois, ficou furioso com a insistência de Washington de exigir o congelamento dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, dizendo que “Jerusalém não é um assentamento, é nossa capital”. No ano passado, Bibi e a secretária de Estado Hillary Clinton trocaram um violento telefonema, no qual o premiê se queixou do plano americano de endossar um Estado palestino nas “fronteiras anteriores a 1967”.

Mas os sinais de distanciamento parecem mais evidentes, apesar das tradicionais juras de amor e dos panos quentes. Primeiro, Obama já está terminando seu primeiro mandato e, embora já tenha ido a vários países do Oriente Médio e cortejado o mundo árabe e islâmico, ainda não visitou Israel. Agora, os EUA lançaram o Fórum Global de Contraterrorismo, um espaço para que países atingidos por terrorismo possam discutir estratégias conjuntas de combate, e não convidaram Israel – um dos países que mais sofreram com o terror árabe e que só conseguiram interromper a espiral de violência graças a uma combinação de inteligência, reforço de vigilância e a construção de uma barreira para dificultar a entrada de terroristas.

A desculpa da Casa Branca é que os EUA já mantêm contato com Israel a respeito do tema e que outros países que são alvo do terror também não foram convidados. Mas o que se sabe é que a Turquia, que integra o Fórum, não quis a presença de Israel, e a exigência foi atendida pelos EUA.

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O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lançou nesta segunda-feira mais uma candidatura à reeleição, cumprindo sua missão espiritual de tentar ficar para sempre no poder. Acometido de um câncer, o caudilho fez questão de aparecer em carreata no evento da oficialização de seu nome na chapa do PSUV, projeto de partido único.

Entre outras coisas, Chávez disse que respeitará o resultado das urnas – como se essa garantia fosse necessária em uma democracia de verdade – e aproveitou para tratar seus opositores do modo republicano de sempre: “São filhinhos de papai. Eles nunca estudaram. Seria bom perguntar quantos livros leram. Eles são como papagaios, que me perdoem os papagaios. Eles repetem o que diz o império”.

O mise-en-scène da animação chavista foi intensificado para provar que ele tem condições de continuar na Presidência, apesar de estar à beira da morte. O melhor momento do discurso foi quando ele comparou o capitalismo ao socialismo: “É preciso construir a partir do amor, a partir da fraternidade. O capitalismo semeia o ódio, no capitalismo impera o ódio. Está comprovado que o capitalismo produz infelicidade”.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Marcos Guterman

    Marcos Guterman é jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.
    Contato: marcos.guterman@grupoestado.com.br

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