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Marcelo Rubens Paiva

22.julho.2009 14:30:51

trecho

Trecho do livro MALU DE BICICLETA [EDITORA OBJETIVA, 2003], o preferido do amigo cineasta MAURO LIMA, e que não está no roteiro do filme.

Claro que a ortografia é de antes da Reforma. Quer que eu fique aqui, enquanto o sol carioca brilha, corrigindo? Se liga. Vou pra praia, nego.

Meu avô tinha uma pequena firma de importação numa rua perto da Augusta que, com os anos, virou ponto de putas. Meu avô era um sujeito pra lá de insuportável: autoritário, ranzinza. Italiano. Provavelmente, fascista reprimido. Não sei como nunca foi preso. A família o evitava. E ele odiava a família, chamava meu pai e meu tio de dementes-cretinos, que se casaram com duas víboras, que só lhe deram netos burros. Não respeitou uma só pessoa na vida, nem a minha avó, morta há tempos, a quem chamava de gorda siciliana inútil. Mas eu gostava dele, apesar de me colocar no mesmo nível de meus irmãos, primos e tios dementes e cretinos. Era muquirana. Mas pagava o meu colégio caro. Para não elevar minha cretinice e demência?
Fui forçado a trabalhar, como todos em casa. Ele era a minha única fonte. Eu tinha 16 anos, estudava de manhã e era seu boy às tardes. E escutava. Como ele se fez sozinho, imigrante italiano que chegou à terra prometida de mãos abanando. E como seus dois filhos eram incompetentes para os negócios, de quem ele queria distância. E como aquele bairro se deteriorava, abarrotando-se de mulheres de vida fácil. E por que ele não saía de lá, seu reduto, seu hábito. Eu tirava cópias de documentos, ia a cartórios, distribuía correspondência, ia ao banco, ganhava pouco, mas o suficiente para gastar naquela mesma rua caso fosse o caso, com aquelas mulheres de vida nada fácil que assim que me viam sugeriam:
“Qué metè?”
Algumas perguntavam:
“Qué fazê nenê?”
Me deprimia a segunda proposta: seria gerar um literal filho da puta, e não estava nos meus planos gerar um; o mundo já é cheio deles. Preferia as que sugeriam carinhosamente, sinceramente, honestamente, glamourosamente, poeticamente:
“Qué metè?”
Nunca meti com elas [ou seria "nelas"?]. E passava por elas perto da noite, quando eu largava o trabalho, ligeiramente surpreso porém orgulhoso com tal proposta, me perguntando se queriam metè comigo por causa do meu dinheiro ou porque me achavam irresistível? Com tamanha incerteza, voltando pra casa numa segunda-feira, cedi à tentação, quer dizer, aceitei a convocação de uma delas, a mais baixinha, novinha:
“Quero. Tudo bem. Quanto é?”
Ela disse o preço e a o que eu tinha direito. Eu tinha como pagar e achei a negociação justa para ambas as partes. Pegou a minha mão, abriu o portão da casa em frente, e entramos, uma casa térrea comprida com vários ambientes. Suas colegas na sala assistiam à TV. Algumas me cumprimentaram. A maioria ignorou. Entramos por um corredor de muitas portas. Atravessamos toda a casa, saímos por uma porta de fundo, depois da cozinha, e caímos num quintal abandonado. Ao final, um barraco de madeira, como o de uma favela. Era o seu escritório. Lugar agradável, apesar do exterior. Me senti bem dentro dele. Ainda um pouco de luz do sol entrando pelas frestas, raios laranjas, muitas almofadas, uma cama aconchegante. Uma pia. Ela abriu o zíper das minhas calças, tirou o meu pau pra fora, encostou-o na pia, abriu a torneira e o lavou com um sabonete barato. Fez isso com uma delicadeza que me comoveu. Era como se lavasse algo importante, algo seu, algo que ela apreciava, tinha carinho. A comoção imediatamente se transformou numa bela ereção, o que a deixou mais satisfeita. Pegou uma toalha ensebada e perguntou o que eu queria fazer. Pedi para lavar de novo. Me encostei melhor na pia. Abriu mais a torneira, untou o meu pau com o sabonete e ficou esfregando com os dedos, com a mão, com a mão fechada em torno dele, com força, com mais força, para cima e para baixo, apertando e soltando, quase esmagando e quase resvalando, alternando energia e suavidade. Gozei naquela pia, encerrando o encontro negociado, incompleto, sim, mas é assim, fim.

Na terça, no mesmo horário, na mesma calçada, a mesma menina me convidou para entrar, e entrei, cruzei a mesma sala, as mesmas pessoas me cumprimentaram, e as mesmas me ignoraram. Ainda no corredor, interrompi a caminhada, perguntando se não podia chamar uma amiga para fazermos em três.
Lá fomos nós, eu, a minha proponente e uma amiga, para o barraco no fundo do quintal. Desta vez, meu pau foi lavado por quatro mãos. Era muita mão venerando, e, claro, gozei novamente sem desencostar da pia.

Ainda vieram a quarta, a quinta e a sexta-feira. Colégio de manhã, trabalho com o avô às tardes e uma lavagem completa e troca de óleo no fim do expediente. O ritual, o mesmo. As mãos, não. Todas daquela casa participaram do banho celestial. Às vezes, em quatro mãos, às vezes, em seis. Me tornei objeto de culto, porque uma delas, que tinha dores no rim esquerdo, afirmou que foi curada depois de uma lavagem. A notícia se espalhou. Boatos: diziam que meu pau curava dor de coluna, pedra no rim, era bom para azia e má digestão, debelava ressacas e acarretava sorte. Meninas de outras casas me perguntavam, quando eu passava por elas:
“Qué lavá?”
Meu pau passou a ser idolatrado naquela rua, como se, esfregando-o numa pia, promessas fossem realizadas. Já não me cobravam pelo serviço. E, se eu passasse a cobrar, elas me pagariam, como um dízimo. Perdi a conta de quantas mãos estiveram nele. Foi liberada, pela primeira vez, a entrada de meninas de outras casas naquela uma. Uma paz foi selada numa antes concorrida praça de compra e venda. Rancores foram esquecidos. Meu pau reaproximava as pessoas, sanava antigas desavenças. Só uma coisa não mudava. Tinha de ser naquele quarto, com aquela luz de fim de tarde entrando pelas frestas, naquela pia. Ele gerava uma ciumeira danada. Cheguei a presenciar discussão entre as putas, que brigavam para ver quem seria a premiada do dia, lutando por uma bênção, pela hóstia consagrada. Quando me enchi daquilo. Eu estava diante da pia. A torneira, aberta. Havia quatro meninas querendo lavá-lo, disputando a honra. Mas, enquanto brigavam pelo sabonete, eu disse, interrompendo a celeuma, o que jamais deveria ser dito por um ícone, com a voz solene dO Salvador:
“Hoje, não. Hoje, quero metè.”
Foi como se eu tivesse revelado uma farsa. Descobriram o charlatão. Todas me desprezaram. Me expulsaram daquele templo. Nunca mais falaram comigo. E negariam três vezes que me conheceram. E, mesmo se eu oferecesse todas as moedas de ouro, não encostariam mais em mim.

comentários (15) | comente

15 Comentários Comente também
  • 22/07/2009 - 14:51
    Enviado por: Camila

    Como, não está no roteiro???
    …mas também como estaria? rs
    Bj

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  • 22/07/2009 - 15:10
    Enviado por: Daniele

    O final desse trecho é ótimo.

    Na praia? Inveja de vc, Paiva…rs…
    Fico aqui com meu bronzeado de escritório.

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  • 22/07/2009 - 16:37
    Enviado por: Bruna Amaral

    Tô indicando adoidado esse livro!! quando falo que tah virando filme as pessoas se interessam mais ainda!!

    Por que o “Nao es tu Brasil” nao virou filme tb? uma puta historia!!li quando tava na 6º serie, e fiz até um trabalho na escola sobre o Carlos Lamarca!! rs..

    fiquei te devendo um 10!! kk

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  • 22/07/2009 - 16:41
    Enviado por: Flavio de Oliveira Lima

    Legal mesmo hehe. Ja que não entrou no filme, da um belo curta!

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  • 22/07/2009 - 17:00
    Enviado por: claudio ribeiro

    muito legal…

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  • 22/07/2009 - 21:54
    Enviado por: Jefhcardoso

    Cara, tô rindo pra caramba! Que texto maluco, cara. Que infelicidade em deixar de ser o mito para ser “o homem que tem fome de carne”!
    Noto que os comentaristas pouco falaram do texto. Engraçado. Teve um cara que lhe tirou, falou que daria um curta. Entendeu a tirada do cara? Brincadeira brother, cada um com seus pobrema.
    Eu não tenho lido tais coisas. Entrei na facú com 19, até ali, tinha lido pouca coisa além do que a escola exige. Na facú de fisio é fisiologia, anatomia e o resto você sabe. Eu gosto destes textos também, acho a fisiologia poética, de certa forma. Vez ou outra eu lia algo para dar uma relaxada, para mudar um pouco de leitura, eram revistas, um jornalzinho, de vez em quando algum livro errante que chegasse ao meu alcance.
    Depois mergulhei em leituras bíblicas. Sou presbiteriano, mas sou light, disse presbiteriano e não leia puritano. E por último, quando começaram a dizer que eu levava jeito para escrita, pensei: “caramba, preciso ler os caras que fizeram as obras clássicas!” Fiz uma releitura de Machado, coisa que eu tinha lido na escola e alguma coisinha após. Sempre gostei do cara. Mas dessa vez foi diferente. Eu li com a alma, e assim passou a ser tudo que eu lia, com a alma.
    Ando lendo Kafka, Sheakepeare, Mitologia Grega e Romana, um monte de textos que chegam até mim, e outras cositas mas (gosto do Marcelino Freire). Porém, esse seu texto, foi fantástico. És o mestre do cinismo, meu amigo! Com todo respeito, cara.
    Abraço!

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  • 23/07/2009 - 10:34
    Enviado por: Kel

    Marcelo, lembrei agora, não sei pq, que tenho um problema renal que me atormenta e nenhum médico encontra tratamento…
    Rs…
    Se bem que acho que a medicação oral pode ser mais eficiente.

    Bjs,
    Kelli (depois, em outro post, eu comento o trecho do livro)

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  • 23/07/2009 - 11:32
    Enviado por: Cláudia

    Olha aqui que bela iniciativa. Tudo a ver com aquele post sobre pirataria, na minha opinião. Já que os proprietários da cultura não abrem mão de seus preços leoninos, que se subsidie a cultura então, desta vez do lado do consumidor.

    http://www.brasil.gov.br/noticias/em_questao/.questao/EQ851a/

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  • 23/07/2009 - 17:17
    Enviado por: poeta

    very funny story…

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  • 23/07/2009 - 22:49
    Enviado por: vera

    adorei !
    seria um belo curta mesmo !

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  • 23/07/2009 - 23:52
    Enviado por: Vanessa Rutkowski

    Marcelo, puta prazer achar seu blog… não sabia que vc tinha um… Sei que vc ta cansado de ouvir (ler) isso, mas, cara, eu sou alucinada pelos teus livros!
    Já viciei pelo menos umas 7 pessoas em seus escritos… hehehehe
    Malu é realmente muitooo bom, assim como todos os outros.
    Não sabia que vc alterava o conteúdo dos seus livros, ruim pra mim que agora vou começar a ficar me coçando pra ler os modificados… hahaha
    Um super abraço.

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  • 23/07/2009 - 23:56
    Enviado por: Vanessa Rutkowski

    Marcelo, puta prazer achar seu blog… não sabia que vc tinha um… Sei que vc ta cansado de ouvir (ler) isso, mas, cara, eu sou alucinada pelos teus livros!
    Já viciei pelo menos umas 7 pessoas em seus escritos… hehehehe
    Malu é realmente muitooo bom, assim como todos os outros.
    Não sabia que vc alterava o conteúdo dos seus livros, ruim pra mim que agora vou começar a ficar me coçando pra ler os modificados… hahaha
    Um super abraço.

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  • 25/07/2009 - 22:10
    Enviado por: Benê

    O Pau sagrado! Tô rindo até agora…..hahahahahaah
    Gênial!!

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  • 28/07/2009 - 21:38
    Enviado por: Linderson

    Chorei de rir! Não vejo a hora do filme sair, o ruim que é que as melhores partes sempre são cortadas e ainda dissem que a ditadura acabou… Ainda leio o livro Malu de Bicicleta!

    nada a ver seu comentário, eu que cortei, não cabe tudo num filme

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  • 29/07/2009 - 11:18
    Enviado por: Mano das Quebrada

    Aí Sêo Marcelo, pela ordi ? O pessoal das quebrada me bateu qui o cumpadi escrevi livro.Legal.O que tá escrito foi o Senhor qui escreveu ? Legal a parte que a mina tem o maior carinho lavando o instrumento de trabalho…Sabe Sêo Marcelo, a vida ensina pra nóis que o pobrema não é as *uta , tem umas legal.O pobrema são as gentes filha das *uta que sacaneia os otro.Té mais.

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