Bem que eu queria ir
Este é o nome do livro de Allen Shawn, que a editora Companhia das Letras me mandou pelo correio: Bem Que Eu Queria Ir. Se queria, por que não foi? Porque o subtítulo explica: Notas de Uma Vida Fóbica.
Me assustou a editora mandar justamente esse. Por quê? Notam que sou perturbado, leem as minhas colunas, me veem por aí e intuem que sou fóbico? Tudo bem que meu lema é na dúvida continue em dúvida. Mas sou um fóbico sem admitir ou sem saber?
Está nas entrelinhas do que escrevo os medos mais variados? Tirando receio de avião, animais peçonhentos [já fui atacado], alguns críticos de teatro [os peçonhentos], pau no Windows, acordar sem pasta de dente, sem jornal na porta e considerando uma leve hipocondria, como desconfiaram? Sou neurótico ou fóbico? A fobia é uma espécie de neurose? Será que também enviaram o livro para o Contardo? Ele escreverá sobre fobias? Mandaram pro Jabor? Pra quem mais mandaram? Tenho fobia de livros sobre fobias?
Claro que abri o livro no minuto seguinte. Allen, que assume que não é especialista, mas vítima, pesquisou tudo sobre o assunto. Revelou sua desesperadora agorafobia, fobia de espaços, considerada uma “neurose de ansiedade”, que herdou do pai, mas que consegue controlar através do trabalho criativo.
Chegou a conhecer uma mulher que, ao dirigir, era incapaz de fazer curvas para a esquerda. Para evitar a ansiedade, ela dava um jeito de chegar aos lugares só com curvas à direita. Maluca…
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Editoras me mandam livros. Caridade? Numas. Sou um veterano já em jornalismo cultural [25 anos].
Meus primeiros empregos foram varrer quintal do vizinho por cinco cruzeiros e dar aula particular de Física para alunos do Pio XII, colégio da elite campineira.
Para sustentar meus vícios universitários, que eram poucos e baratos.
A vontade mesmo era de enforcar cada aluno que não entendia as leis de Newton e a minha didática anárquica [ou a minha nenhuma didática], que mais parecia um conto de Joyce. Apesar de todos da minha família trafegarem pelo meio acadêmico, eu não nasci para dar aulas. Sou adotado?
Vendi artesanato de prata com dois peruanos que moravam comigo, fiz espionagem industrial para um tio que mexia com portos e containers, toquei violão em praças e barzinhos, já traduzi uma peça em alemão sem saber falar uma palavra dessa língua, mas me encontrei e comecei a trabalhar pra valer na imprensa escrita.
Aos 22 anos de idade fui crítico literário da revista Leia Livros, do falecido editor Caio Graco, quem depois me encomendou um livro [que nomeou]: Feliz Ano Velho.
Aos 23 anos a Veja me contratou. Apesar de alertá-los que eu não tinha idade nem para ser comentarista de jogo de botão. Mas era isso que queriam, sangue novo, espírito juvenil. E seduzia a minha linguagem coloquial e despretensiosa, a única que eu dominava.
Eu ainda frequentava o curso de Comunicações da USP, quando resenhei livros de Anatole France, Dalton Trevisan, Dionélio Machado, J. J. Veiga. Uma heresia. Daí, chega-se à conclusão que a crítica jornalística não é séria. E não é mesmo. Porque não parei mais.
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Eu tinha um defeito grave. Não conseguia falar mal de um livro. O que era notado em reuniões de pauta. Ninguém nas redações me levava a sério.
Por conhecer o mercado literário, as dificuldades pelas quais passavam os autores, e o tempo que gastavam em busca de um estilo, uma trama, as palavras exatas, desenhando conflitos e personagens, eu tinha pena de detonar o trabalho de anos. Crítico com pena é como um pombo sem asas.
No mais, diante da pilha de lançamentos que as editoras me enviavam, eu escolhia os que gostava. Meus princípios eram simples e lógicos: por que escrever [e indicar] ao leitor, nosso consumidor, sobre o livro que não valia a pena, se na mesma pilha havia outros que valiam?
O mais enigmático era entender por que os departamentos de divulgação das editoras me enviavam tais e tais livros. Sim, numa reunião semanal, os divulgadores apontam: “esse livro é a cara do Marcelo”, “esse é a cara do Bira”, “esse aqui vamos mandar pro Contardo”…
Alguns até telefonam: “Cara, estamos lançando um livro que é a sua cara.” Esse gesto já alimenta a curiosidade daquele que tem dezenas de livro ao lado e espaço para falar de um ou dois apenas. Ou será que dizem isso para todos? Profissionais sacam o gosto da maioria dos colunistas e críticos, pesquisam sobre eles?
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Depois que virei colunista dessa página que já foi de Raquel de Queiroz [já faz cinco anos, negão], fiz poucas resenhas e exercitei as minhas muitas neuroses. As editoras pouco a pouco deixaram de me mandar livros. Como qualquer cidadão digno, eu os compro agora.
No entanto, a Cia. das Letras me mandou o exemplar de Bem Que Eu Queria Ir, escrito por um compositor- filho de William Shawn, lendário editor da New Yorker, e irmão do dramaturgo Wallace Shawn. Um cara que nunca tinha escrito um romance, mas que, aconselhado por amigos, resolveu delatar as suas fobias, que não eram poucas.
Ele cresceu em Nova York e admite que adquiriu diversos medos urbanos. Não dirige por autoestradas, apenas pelas vicinais. Ao dirigir numa estrada vazia, ele cai sem perceber num estado semelhante ao de um sono, no qual a passagem de tempo fica dolorosamente lenta.
Não gosta de altura, estar na água, atravessar estacionamentos, parques ou campos abertos, evita pontes e túneis, quando vai ao teatro se senta no corredor, evita o metrô e elevadores, até os museus causam problemas. Tem medo de espaços abertos e fechados e de qualquer forma de isolamento. Que mala. Como diria John Milton, “a mente é seu próprio lugar, e em si própria pode fazer do inferno um paraíso, do paraíso um inferno.”
Allen descobriu que, como a dor, o medo é um sinal; um sinal de que há algo errado. Para ele, uma fobia é uma dor na alma.
Lembra fóbicos notórios, como Freud [medo de viajar de trem], Darwin [que adquiriu no Brasil Doença de Chagas], Emily Dickinson ["eu pisava de tábua em tábua, um caminho lento e cauteloso, sentia as estrelas perto da cabeça, o mar perto dos pés"] e o ator Richard Burton, que não podia ficar num cômodo em que tivesse um pote de mel.
Enumera algumas das mais de 500 fobias, como por estrelas [siderofobia], nudez [gimnofobia], sexo [genofobia], desorganização [ataxofobia], som da própria voz [fonofobia], espelhos [isotreofobia], ficar parado [estasifobia], ficar sentado [tasofobia], compulsão de arrancar os cabelos [tricotilomania].
E, para o cúmulo do movimento cíclico, o medo de adquirir fobias [fobofobia]. Ôpa, achei a minha.
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Estreia hoje aqui no Rio minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. No TEATRO POEIRA, em Botafogo. Ficamos terças e quartas, 21h, durante 6 semanas. Rola uma fobiazinha de ninguém aparecer. Essa não tem cura.
rolava uma fobia da peça não vir pro rio. agora que ela veio, ufa! relaxei e vou ao teatro poeira.
Fobias!!!Acho que a maioria das pessoas já tiveram uma, eu mesma tive agorafobia[medo de deixar lugares seguros] mas hj está bem melhor. Má,[posso te chamar de Má, né?] estou passando pra te desejar uma magnífica estréia, pena que não vou poder ver, mas aguardo a peça em Sampa juntamente com você!! Adoro você e tudo que você faz!!! Pedidos: por favor comente ou me mande 1 email que seja, me deixaria muito feliz!!:D
Bjs querido!!! Muita MERDA pra você!!
Deixou a curiosidade tomar conta aqui. Vou procurar o livro!
** Sempre um prazer ler teus textos.
Boa tarde, Marcelo!
Descobri que você tinha blog há uns 10 minutos, quando joguei seu nome no Google, pra saber mais sobre a sua vida. Eu tenho um podcast sobre livros e o meu convidado dessa semana pediu para que comentássemos “Blecaute”. Eu já li “Feliz Ano Velho”, exemplar esse que não possuo mais pois presenteei alguém especial com ele. E estou devorando “Blecaute”. E já favoritei essa página aqui. Quando crescer, quero escrever tão bem como você.
Se a crítica literária no Brasil é séria ou não, quem sou eu para avaliar. Mas creio que ficou enormemente engrandecida com o seu trabalho.
Sucesso!
Abraços de uma fã do interior.
Ja pensou se tu tivesse tasofobia? rs
Desejar ‘merda’ apesar de normal pra vcs, acho muito feio…então: SORTE, SUCESSO, ÓTIMA TEMPORADA, ÓTIMAS NOITES, RESSACAS LEVES, ÓTIMAS BALADAS, SEM BALAS PERDIDAS, TD DE BOM…ETC…
Se voltassem pra Sp, veria de novo…
Suas fobias são até razoávez caro Marcelo, e elas podem até se tornar adoráveis em alguns casos…mas a quem elas incomodam, são super tratáveis.
E muuuuuuuuuita merda na estréia da peça
Um beijo
:*
Ô! Qual o problema de ter fobia?
Quem tem Ass….. Tem Fear!
Adorei o comentário de hoje!
Como um ser humano normal que sou, também tenho algumas fobiais, tais como: avião (muita!!!!), bichinhos peçonhentos (embora adore a natureza) e a pior de todas… fobia de político corrupto e safado!!!!!
A Marieta Severo estava linda na estréia da peça no Rio, hein? Exemplo de que não precisa dar uma de piriguete na terceira idade, basta manter a naturalidade e o charme vem.
difícil ficar chovendo no molhado…
mas tudo o q vc escreve é muito foda… fmz mesmo!
mas, afinal:
quando a peça volta pra sampa???
beijos.
E em que momento a fobia se transforma em TOC? Sim, porque outro dia soube que o Roberto Carlos (o Rei do TOC) também tinha essa de jamais dobrar à esquerda, o que deixava qualquer motorista maluco, obviamente. Eu acho que fobia só se cura enfrentando. Tive fobia de soltar os cabelos até os 13 anos, quando um belo dia soltei, e foi algo assim como se tivesse parido uma nova exemplar de mim.
Só nao vou na tua peça porque moro na Argentina, senao, estaria lá, sem fobia de corredor nem de nao gostar da peça.
Un abrazo!
Olá Marcelo…
Cara, é bobagem, eu sei! NA verdade só quero falar que a sua forma de escrever me serve muito. E eu gosto e me prendo nela. Serve pra me fazer bem e mal, tudo junto. Eu, um operador de telemarketing seis horas por dia, não me formei em nada e estou com 24 anos, eu aspirante a dramaturgo que consegui entrar num grupo de estudos de dramaturgia e me sinto muito perdido no meio de tanta gente boa na escrita e com grana o suficiente pra fazer da dramaturgia o que bem entenderem. Só um desabafo besta de quem te curte pra caralho… Forte abraço.
E lá se vão longos 15 anos que acompanho as coisas (sérias ou não) que você escreve e continua sendo uma delícia de te ler.
Tô louca para aparecer na sua peça.
A propósito, o que achou do livro?
Um beijo.
Nuossa, que sucesso hein!!!
Casa cheia, e cheia de artista….rs
Ja tem umas fotos no entretenimento do msn, aliás o fotografo é muito, muito…muito bom!!!
Conseguiu te deixar bonitinho!
(Ps: Pra não perder o habito, e pela peça estar na terra da Elô:-P)
Parabéns!!!
Você escreve muito bem: uma fluência adorável, senso de humor, ironia fina, ri de si mesmo sem o menor pudor.
Maravilha.
É um leitor contumaz, uma pessoa culta, um cara de bem com a vida.
Seria perfeito, mas tem um pé no tucanato.
Bad service, bad servica.
Devido à falta de tempo (para coisas importantes), li esta coluna em duas etapas, e ao fim, depois de três dias… Nenhum comentário. Seria uma fobia de pegar fobia lendo sobre fobia. Uma, talvez “literafobifobia”?
Esse seu post vai fazer vc virar o próximo garoto propaganda da Nextel !!
Olá! Marcelo,li o seu livro feliz ano velho é quando vc lancava ele eu vinha embora de Sao Paulo,mais coincidencia vc comenta dois nomes conhecido meus,Santos Dias e Irma Passoni,padrinhos de minhas irmas se puder responder muito obrigado,abraços meu e-mail e penhaheinrik@hotmail.com
eu bem comprei ingresso para assistir na terça. agora resta a dúvida: em um teatro de arena qual o melhor lugar para assistir a peça?
Sua peça é perfeita, como vc. Só não tive coragem de falar com vc, mas tbm nem dava né? Alguém deixa? rsrs fui embora com o coração apertado, mas deixo aqui os meus parabéns.
Vem morar no Rio, deixa SP kkkk
SP tem vc demais!!
beijos
(desculpe a tentativa anterior de entrar no seu blog, é que nao conseguia)
Marcelo, vi hoje no site do Globo (por que o do Estado nao mostra também ?) seu depoimento sobre o desaparecimento de seu pai, prisioneiro político, e que me deixou muito emocionada. Dignidade humana é isso, e que falta a muita gente nesse país. Palavras na medida certa…
Tive uma parente desaparecida pelos mesmos motivos que outros jovens e pais que deixaram órfãos na pior, e sei o quanto é doloroso falar sobre eles. Minha solidariedade com você e todos os familiares de desaparecidos, torturados e mortos do Brasil, na época de ‘chumbo’ militar. Brasil que é, infelizmente, também meu país.
Abraços !
Que tal fobia de enfrentar a vida?… Evitar a chuva pra não se molhar… Que triste, hein? Ficamos tentando conversar com alguém que nos alivie… Adoro seus textos…
Também não ia gostar de publicar uma resenha minha detonando o livro de alguém. Afinal, como você disse, o cara levou meses ou até anos para finalizar o seu livro. Até hoje o meu único trabalho que exigiu muito tempo, muita pesquisa e muita dedicação foi a minha monografia. Imagine como seria se fosse um livro, um trabalho mais longo e árduo, mas prazeroso, do que uma monografia. Valeu, Marcelo, gostei de conhecer o seu ponto de vista, essa interação entre o jornalista e o livro que vai fazer a resenha.
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