ir para o conteúdo
 • 

Marcelo Rubens Paiva

23.março.2009 11:04:30

Rádio Cabeça

Eu estava ontem entre as 30 e tantas mil pessoas que viram Radiohead na Chácara do Jockey. Cheguei em cima da hora, sem trânsito, sem chuva, sem ver a volta de Los Hermanos (eu não aguentaria ficar das 18h até a madrugada) e Kraftwerk (banda que eu já achava chata nos anos 80, quanto mais agora…).

Radiohead é a minha banda de estrada. Não pego uma Dutra sem tê-la estourando nos altofalantes. Combina com a solidão das seis horas de estrada e suas sutilezas, curvas, serras e retões. Ela se encaixa em meus dias tristes e introspectivos- nas paixões mal acabadas, nas noites em que não se quer sair de casa, abrir um livro, atender um telefone.

O cenário- espécie de néos de 15 metros de altura, que mudavam de cor de acordo com os acordes e o clima da música-, a performance impecável e o som eram de arrepiar. Cada um vai dizer: “Puxa, não tocaram Airbag”. Eu também não ouvi todas as minhas preferidas. O show começou mesmo no bis (e foram 4), em que eles abriram a mão e concederam: tocaram hits.

Fui com o amigo Paulo Ricardo, e nos lembramos dos Stones, que improvisam, tocam só sucessos, nada conceitual: puro rock and roll. Tem banda que é assim, programa computadores e toca exatamente como nos discos, prefere divulgar as músicas do último CD e eventualmente percebe que tem público à frente. Então, por que fazer um show para mais de 30 mil? Tudo bem, vai…

Comprei o ingresso pela internet no ano passado. Não aguentaria esperar um convite VIP ou me credenciar como IMPRENSA. Depois, eu soube que não tinha área VIP, o que aumentou a minha simpatia pela banda- aquele espaço enorme entre o pagante e o palco, em que se acotovelam os convidados da produção. Nada que pudesse promover um esbarrão a menos de 250 metros entre Dado e Luana, ou o novo namorado de Suzana Vieira, ou o recente eliminado do BBB. Dessa vez, nós, vampiros de promoters, tivemos de colocar a mão no bolso e, como todos os mortais, pagar.

Isso me lembrou um trecho do meu romance mais recente, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, aqui na versão não editada:

Você nunca entendeu a essência da minha crise pessoal, vulgo “ansiedade”, doencinha contemporânea e corrosiva: a frustração de um jornalista é incurável, ou, para usar um termo que entrou em moda, está no DNA.
Na maioria das vezes, é apurada a notícia que vende. Aderimos à ideologia que agrada ao consumidor. Temos interesses comerciais? Ideais e convicções? Temos. Mas… Tá bom, nossa moral está comprometida pela substância que nos alimenta: o cachê. Nunca me iludi, baby.
Mas se o ingresso de um show imperdível está esgotado, eu saco a minha carta na manga, ou melhor, minha carteira de jornalista do bolso, a minha credencial, meu crachá, e dou uma “carteirada” para encerrar impasses e abrir portas. Por que não? E você pode vir comigo, meu amor. Tenho sempre direito a “mais um”- um acompanhante.
Ariela, a bela, não quer mais ser acompanhante do ma-ri-di-nho dela?
Buscamos ainda os caminhos que nos levam à área VIP, baby, onde a bebida e a comida costumam ser fartas, de graça e de melhor qualidade. Que se danem os mortais não-jornalistas. Somos a elite do público. Nos querem em suas festas e eventos. Você vai deixar a Corte, chuchu?
Nos pedem por favor para escrever sobre eles, eles, os incomuns, sobre seus produtos, sobre os seus feitos e eventos, livros e peças, filmes e perfumes, bebidas e jóias, até sobre a cor do vento e o sabor da água.
Nos pedem nota, matéria, canto de página, capa, uma foto, uma ponta, uma linha, qualquer palavra.
Minha branquinha, você sabe muito bem, jornalistas são endeusados e mimados. Só os otários não se aproveitam. Os otários e os éticos, como você, paixão, atributos que não correspondem com a descrição da maioria das ocupações citadas e clasificadas.
Enquanto a massa se aperta, apesar de ter pago caro por um ingresso, o jornalista esperto como eu leva a esposa para a área VIP, diante do palco. Temos banheiros limpos, tratamento diferenciado, manobristas, sem precisar desembolsar um tostão.
Ariela, paixão, vai sair fora?

comentários (14) | comente

14 Comentários Comente também
  • 23/03/2009 - 11:27
    Enviado por: Suelen

    Faltou comentar o lugar com péssimo acesso, trânsito caótico, sem lugar decente para ponto de táxi.
    Te carregaram? Pq impossível subir aquela rampa com pedrinhas molhadas de cadeira de rodas. Eu de tênis escorreguei.

    Tudo pra ver Los Hermanos, estava morrendo de saudades deles, pena que você não viu, ia gostar!

    show para 30 mil tem seus percalços.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 11:51
    Enviado por: Daniele

    Perdi o show.
    Sem um puto no bolso.
    Sem carteirola de imprensa (nem sou do ramo…)
    Uma pena. MESMO!!

    Respondendo minha própria pergunta do post anterior, voltando (e finalizando, tomara) ao assunto Dolabela X Piovani – caso ela sofresse um acidente, ele estivesse por perto e não ajudasse, ele seria preso por omissão de socorro, e não por estar a menos de 250m. Anyway…

    Porque você bloqueou os comentários no post passado?
    Te pedi em casamento no meu blog. Aceita?

    por quê, por quê, nem casamos e vc ja esta me cobrando, kkkkk? seu comentario esta la, sim. abs

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 13:52
    Enviado por: maluco

    faz parte da mentalidade delas cobrar…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 16:16
    Enviado por: Nanda Alvarenga

    Uma semana fora e perdi dois shows de coração, tsc tsc tsc. Já aproveitei as mordomias da Produção/ imprensa, mas quer saber? Não troco a vibração que os fãs de verdade liberam na pista. Com cotovelos, pisões no pé, vozes desafinadas.. mas tudo batendo no ritmo da música. Me desculpa, mas em alguns casos, dispenso o glamour… rsrsrsrs.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 16:21
    Enviado por: Daniele

    Me referi ao post sobre sua peça, mas tudo bem.
    Relaxa, também não sou da área de cobrança…rsss….. Perguntei por perguntar…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 16:40
    Enviado por: Luciana

    Ei Marcelo, tudo bem?
    Comprei ingresso para assistir à sua peça, no último sábado da temporada. Não vejo a hora! Vou estar na primeira fila. rsrsrs
    Você se esqueceu do meu livro?!
    Beijo,
    Luciana

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 18:06
    Enviado por: Silvia

    Realmente as credenciais e áreas vips tem sido muito abusadas. Chega a ser absurda a área vip em show gratuitos em parques, por exemplo.
    Mas nenhum jornalista é de ferro…
    E aí? Tem algum convite vip pra sua peça? Guarda e vende um pouco antes, já devem estar valendo bastante, os próximos fins de semana estão com os ingressos esgotados…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 18:51
    Enviado por: Joyce Farias

    Que pena que não viu o show dos Los Hermanos, foi bonito de ver. Acompanhei tudo(menos aqueles caras dos computadores :P ) pelo Multishow, muito bom isso. Infelizmente, nem eles nem o Radiohead chegaram aqui em Brasília…
    E por falar em chegar em Brasília, espero que sua peça chegue também!

    Beijão Marcelo!

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 19:37
    Enviado por: Rodrigo

    E quanto a organização do show como foi Marcelo?
    Se foi organizado da mesma maneira que o show do Iron, um terror.
    Ainda mais pelo fato de ser cadeirante também.
    É claro que quando a banda esta no palco deixamos essas coisas para trás.
    Mas na volta pra casa é que tem a nova aventura e ficar sem xingar os organizadores não é difícil.

    abraços

    Rodrigo

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 20:35
    Enviado por: Joyce Farias

    Você vem? Já dá pra saber isso?

    aonde?

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 20:35
    Enviado por: ana luiza

    já perdi little joy, los hermanos…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 23/03/2009 - 23:59
    Enviado por: Flávio Rodriguez

    E o seu Corinthians, hein…
    Abs.. meu caro…

    Flavio

    responder este comentário denunciar abuso

  • 24/03/2009 - 06:54
    Enviado por: Claudia G

    Isso me faz lembrar quando fui a um show no Palmeiras do David Bowie. Esperei por uma música que ele não tocou. Acabou o show, fiquei plantada na chuva esperando ele voltar e cantar a música e ele não voltou…
    Saí com uma sensação meio estranha. Deixamos o carro na Vila Romana na casa de um amigo e tive que ouvir a tiração de sarro do pessoal até chegarmos lá. Bons tempos!
    Clau

    responder este comentário denunciar abuso

  • 24/03/2009 - 09:04
    Enviado por: Joyce Farias

    Em Brasília com sua peça…
    Beijoo!

    responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário:

Arquivo

Seções

Tags

Blogs do Estadão