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Marcelo Rubens Paiva

27.abril.2009 12:28:57

Não salva um?

Agora é a grande Daniela Thomas quem pede para divulgar a campanha que, pelo visto, vem do Rio. Desiludidos pela distribuição de passagens a amigos/familiares feita pelo Gabeira, o último ético?

Não sei se concordo com ela. Não acho que o problema seja pessoal, mas estrutural. Tirem os 500 e tantos, e virão outros 500 e tantos com os mesmos vícios e privilégios, vivendo numa ilha de fantasia de orçamento sem controle e ilimitado. E escolheríamos corretamente os 500 e tantos da próxima eleição? Se não escolhemos na anterior, por que seria diferente?

Poder é entorpecente. Gabeira e tantos outros vivem viajandão, dopados por um poder que dissipa a fronteira entre certo e errado, moral e amoral. Os gabinetes fechados e a gastança histérica os trasformam em seres mutantes, semideuses, que se afastam de nós.

Aliás, não fomos nós quem os colocamos lá? Bem, não tenho moral alguma. Votei no Zé Dirceu em 2002. Fritarei no inferno.

O problema do Brasil é que os 3 Poderes não têm fiscais. Onde eles estão? Ah, sim, somos nós, o povo. Quem escolhe nossos líderes. E somos inelegíveis. Não se vota em nós, o povo. Não podem nos trocar a cada 4 anos. Essa matemática não fecha: executivo + judiciário + legislativo = povo.

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26.abril.2009 15:43:06

A arte salva

Nosso porta-voz DOMINGOS OLIVEIRA pede que DIVULGUEMOS este manifesto que escreveu. Quando ele pede, a gente obedece. Concordo 100%. Aliás, como sempre, quando se trata de DOMINGOS OLIVEIRA.

CARTA ABERTA AOS ARTISTAS DE VERDADE OU OS OPERÁRIOS DA CATEDRAL

Se você tem certeza que é um artista de verdade, que sua razão de ser é a Arte, que sem a Arte você morreria, leia isso: É um chamado, uma convocação. Pouca gente sabe o que é a Arte. E, no poder, quase ninguém. Por isso acontecem absurdos como essa badaladíssima discussão. Juca Ferreira versus Lei Rouanet. E a coisa da OS (Organizações Sociais). São movimentos atuais que em resumo consistem em entregar o dinheiro disponível para a Cultura, através de várias Leis e processos, para o Governo. Aumentar o Poder do Governo, confiando em seus critérios para julgar. De que modo deve ser usado o dinheiro público (isenção de impostos ou outras coisas).. É claro que os destinos do cinema e teatro brasileiros não devem continuar sendo regidos por diretores de departamentos de marketing (embora eles tenham se comportado, até hoje, razoavelmente bem). Como este ponto é indubitável, J Ferreira ganha sempre as discussões, posto que está com a razão. O dinheiro público deve ter a tutela do governo, para que possa ser aplicado no bem comum. E nesse tipo de teoria, perdemo-nos todos em reuniões infindavelmente monótonas e vazias de conteúdo. Claro que o dinheiro da Arte e da Cultura deve ser comandado pelo Governo. A propósito, deve ser dito que já é. Posto que os maiores patrocinadores são estatais (Petrobrás e outras). Não é importante saber se o dinheiro fica com o Juca Ferreira ou com a Petrobrás. O importante é saber o que eles vão fazer com isso. E eis que chega a pergunta que ninguém faz, por falta de coragem:
- Que tipo de filme ou peça o ministro JF acha que deve ser produzido? Quem vai levar o dinheiro? É isso que interessa. O ministro imediatamente argumentará que essa decisão não é dele, e sim das comissões que constituirá. Será uma inverdade quando ele disser isso. Perigosa inverdade. As comissões são controladas por quem as nomeia. Sendo sempre altamente manipuláveis. De modo que é preciso saber qual é o gosto pessoal do Juca. Que concepção ele tem da Arte e da Cultura. Observemos que começa aqui a fatal confusão. A Arte faz parte da Cultura, mas não é a Cultura. É maior e mais importante que a Cultura, ou pelo menos pertence a outro departamento. Cultura é Educação. É uma coisa que se preocupa, que aprende, que bebe na fonte do passado. A Arte é a locomotiva da Cultura. É o arauto que anuncia o futuro. A Arte diz respeito àquilo que não existia ainda, e está sendo criado. A Arte defende a humanidade.
Quando escrevo essas palavras estranhas, pressinto a incompreensão. São transcendentes, confesso. A Arte é transcendente. É a mais forte arma de comunicação, recurso didático para tornar os homens civilizados. A Arte ensina aos homens seus maiores valores. O amor, a dignidade, a honra, o patriotismo, a cidadania, a solidariedade. Por causa deste nobre alcance, a Arte jamais é citada em debates públicos. A massa burguesa da maioria encarregou-se nos últimos séculos a desmoralizar a palavra Arte. Segundo estes tolos, a Arte é uma coisa desnecessária, fútil, em geral exercida por gente que não gosta de trabalhar. Quando, na verdade, a Arte é o único trabalho verdadeiro. Se você não entende essas palavras ou se elas irritam, pare de ler esse artigo já. Ele não é pra você. Você pode ser um bom sujeito e até um pensador lúcido, mas não é um artista.
Juca Ferreira é um homem forte. De um carisma notável, eloqüência, e, por que não dizê-lo, simpatia irresistível. É preciso saber de um homem desses o que ele entende por Arte.
Repito. Que filmes e peças deveriam ser feitos com o dinheiro público, segundo a opinião pessoal dele?
Para exigir a resposta dessa pergunta, convoco meus pares, os artistas, a repercutir esse artigo. Faz anos que preconizo a existência de um Ministério da Arte. Todos tem medo de mim e preferem me achar ridículo, pensar que estou brincando. Não estou. Penso que a Arte é o que sustenta a Cultura, o que a leva para frente. Não existiria o cinema e o teatro brasileiro sem Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. É o artista que tem que ser protegido pelos governos.
Não pensem que puxo a sardinha. Os bons artistas, como eu e muitos, sobreviverão de qualquer jeito. Com Ministério ou sem, não importa as reuniões de Juca Ferreira.
É a Arte que vai abrir os mercados internacionais. É a Arte que nos dará o respeito do público. A Arte é o retrato do país. Um país pobre como o nosso não pode gastar dinheiro público com filmes e peças ruins. Somente devem ser feitos peças e filmes bons! E quem vai decidir o que é bom ou ruim, pergunta o leigo incauto. Ele responde: Isto não pode ser posto em Lei, é subjetivo. Engano fatal. O único que pode julgar a arte é o artista. E não é difícil reconhecer um artista, a primeira vista. É aquele que ama realmente a humanidade e constrói uma obra sobre esse amor.
Atualmente, a palavra “diversidade” sacralizou-se. Quem duvidar disso, morre. Concordo com a diversidade. Mas ela está abaixo do critério da Arte.
Todas as comissões propostas são mistas: minoria dos artistas, maioria de burocratas ou técnicos interessados no assunto ou no prestígio. Isto está errado. Os verdadeiros artistas devem ter a maioria de qualquer comissão, porque somente eles entendem o que é a Arte. É pretensão de outros querer julgar a atividade artística.
Enfim, as palavras cansam.
Sei que somente serei entendido pelos artistas de verdade. Para eles que escrevo e peço que não me deixem sozinho e repercutam, a seu modo, esse meu artigo. Tenho certeza que vocês concordarão, sendo artistas verdadeiros.
Na prática, confesso que sou a favor do Juca e das OSs. Um homem deve lutar pela Lei correta. E depois lutar, mais agressivamente ainda, contra aqueles que aplicam mal a Lei. Essa é uma briga que vem depois. Apesar de que eu, artista, não tenho tempo pra isso. Minha obra me espera. Tenho pouco tempo. A eternidade seria pouco…
Somente a Arte salva, sem a Arte não há salvação.
“Oh, minha alma! Não aspira a vida imortal, porém esgota o campo do possível” (Píndaro)
Por favor, repercutam, companheiros.

Com todo respeito ao ministro, e até confiança,
Domingos Oliveira.

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23.abril.2009 22:46:51

Equilíbrio?

Dois filmes mexeram comigo nessa semana.

1. SYNECDOCHE, NEW YORK, o primeiro longa do roteirista que arrasta admiradores, Charlie Kaufman (QUERO SER JOHN MALKOVICH, BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS), que decidiu acabar com intermediários e arriscar na direção.

Cadem (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro hipocondríaco. Sua mulher parece entediada. A filha assimila o pânico do casal. Ele dirige uma peça de teatro (A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE, de Arthur Miller), colocando dois atores jovens para fazer papéis idosos. Ela pinta quadros minúsculos. Pouco a pouco, doenças aparecem nele. Sua pupila indica problemas neurológicos. Passa a não salivar nem a produzir lágrimas. Depois, tem espasmos e apnéia.

A mulher se manda com a filha para Berlim, abandona o cara, não dá notícias e vira celebridade. Cadem recebe uma grana para criar um espetáculo de grandes proporções. Escala um elenco gigantesco, se instala num armazém e passa o resto da vida ensaiando uma peça hipernaturalista, que fala de todos os momentos da sua vida, inclusive das duas recentes separações e do seu caso sem fim com uma bilheteira de teatro, que mora numa casa sempre em chamas.

O filme foi mal recebido pela crítica. Eu esperava encontrar um cinema vazio. Mas abarrotou- voltava gente. Muitos curiosos para ver mais uma trama desse roteirista que sempre surpreende, fala dos dilemas humanos como poucos e traz um protagonista que procura, até a velhice, entender porque seu primeiro casamento, “o casamento”, não funcionou.

O filme é longo e pretensioso. A trama dá um nó. Mas vale a pena. Sou suspeito. Porque me identifiquei do começo ao fim. Como Cadem, sou hipocondríaco, tive uma vida amorosa incomum [eu ia escrever "atribulada", mas qual vida amorosa não é?] e escrevo sobre a minha vida ou uma simulação dela, buscando naturalismo, explicações, maneiras de me desculpar.

Outro dia, conversando com uma amiga atriz recém-separada, nos perguntamos se o comum é estar casado com a namorada da faculdade, ter filhos e uma aposentadoria planejada, ou viver como a maioria das pessoas com quem convivo, que tem muitos casamentos, profissões de risco, de altos e baixos, que prefere abandonar um casamento do que mergulhar numa crise em busca de soluções. Sim, invejo casais casados há mais de 20 anos. Sou um romântico abestalhado. Apesar de viver no [e do] caos. Quem está certo, se é que ele existe? Ando piegas pacas… É a idade. Ou o inferno astral. Bem, quem fala “pacas”, tem uma bem avançada.

E adoraria ter um mega elenco representando todos os passos conturbados que vivi, para me exibir meus sentimentos contraditórios, complexos e doloridos. E ensaiá-lo até o fim da vida. Eita ego… Kaufman mergulhou na própria carreira, para entender o sentido do que faz. Vive da sua vida. Isso é ser escritor: viver da vida.

2. O outro filme foi O EQUILIBRISTA, de James Marsh, vencedor do Oscar de documentário de 2009, que relembra a aventura do francês Philippe Petit, artista de rua performático, que há 35 anos se equilibrou sobre um cabo de aço estendido entre as torres gêmeas do World Trade Center (Nova York).

Planejou a empreitada assim que soube que os dois prédios seriam construídos. Arregimentou amigos, foi diversas vezes a NY, falsificou documentos, burlou a segurança, treinou (já tinha andado sobre um cabo em Paris, na Notre Dame, e numa ponte de Sidney). Era uma operação de guerra, quase um atentado sem vítimas contra o empreendimento destruído no 11 de Setembro.

E pra quê? Ele mesmo não soube explicar, indagado pela imprensa depois do feito. Não queria chamar a atenção para nenhuma causa, não vendia um produto; ao contrário, gastou uma grana para apenas andar sobre um cabo de aço a 450 metros do solo, num símbolo da engenharia e de um País. Até o guarda que o prendeu se maravilhou com o feito. E pra quê? Pra se equilibrar, arriscando a própria vida. Algo que nos toca, nós é comum, nos remete à liberdade, como uma travessura infantil. É uma provocação contra a normalidade, o equilíbrio sobre o desequilíbrio.

Tenho um ENORME quadro em casa chamado O Equilibrista, pintado para mim pela minha amiga de infância Cacau. Ela disse que o quadro é a minha cara. Almoço todos os dias diante dele, me perguntando se sou realmente um. Quem não é?

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22.abril.2009 11:21:20

Afinal, acaba?

Minhas amigas atrizes Lua e Cacá me pediram uma crônica, para enquadrarem assinada e leiloarem na exposição BRUTAL, que abre hoje em São Paulo no Coletivo Galeria (Rua dos Pinheiros, 493). Me senti honrado e curioso. Alguém comprará?

Ela faz parte de um projeto mais amplo: montagem a peça BRUTAL, de Mario Bortolotto (direção Marco Loureiro). A lista dos colaboradores é grande, de cartunistas, poetas, fotógrafos, atores, desenhistas a escritores: Kitagawa, Carcarah, Daniel Galera, Pereio, Mutarelli, Bortolotto, Xico Sá. Ale Youssef deixa temporariamente seu STUDIO-SP de lado para discotecar. A noite promete; até a polícia ou o PSIU aparecerem.

Quando me pediram a crônica, pensei logo numa que escrevi há uns anos e que repercutiu, O AMOR NÃO ACABA, uma resposta otimista e apaixonada [não muito convicta, confesso] à famosa crônica O AMOR ACABA, de Paulo Mendes Campos, que foi citada enquanto eu levava um surpreendente, desesperador, aviltante, torpe e indigno pé-na-bunda. O paradoxo dos paradoxos aconteceria se ELA aparecesse e comprasse o quadro!!!

Diz o original de Mendes Campos: “O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos…”

Cá está minha versão resumida, para caber numa lauda:

O amor não acaba

O amor acaba? O cara disse. Numa esquina, num domingo, depois do teatro e do silêncio, na insônia, nas sorveterias, como se lhe faltasse energia. Ele não volta? Não deixa rastro ou renasce? Na esquina em que se beijaram uma vez, lá está, na sombra apagada pela luz, na poeira suspensa, na revolta da memória inconformada. Na solidão, lá vem ele, volta, com lamento, um quase desespero, e penso nos planos perdidos, que vida sem sentido… Na insônia, o amor cai como uma tonelada de lápide, e se eu tivesse feito diferente, e se eu tivesse sido paciente, e se eu tivesse insistido, suportado, indicado, transformado, reagido, escutado, abraçado? Na sorveteria, ele volta, o amor, em lembranças. Porque aquele sabor era o preferido dela, aquela cobertura era a preferida dela, aquela sorveteria era a preferida dela, aquela esquina, aquele bairro, aquele clima, aquela lua, aquele mês, aquela temperatura, aquela raça de cachorro, aquele programa de fim de tarde e aquele horário sem planos… No elevador, quantas saudades daqueles segundos em silêncio, presos na caixa blindada, vigiados por câmeras camufladas, loucos para se agarrarem, rirem, apertarem todos os botões, tirarem a roupa, escreverem ao lado do Atlasado: “Eu te amo”. Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se amou. O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dela, me preocupo com ela, torço por ela, e se sonho com ela, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ela ou sem a esperança de revê-la, até a chance de tê-la de volta, não vejo a paz. Ela é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ela. Amá-la me faz bem. Mesmo que ela não me ame, amo amá-la. Continuei amando desde o dia em que terminou. Passei meses amando como se não tivesse acabado. Ficaria anos amando mesmo se não tivesse voltado. O amor não acaba, muda. O amor não será, é. O amor está. Foi. Nas tantas músicas que ouvimos, que dançamos colados, trilhas das noites frias em que você sentava em mim nua, enquanto os meus braços imobilizavam os seus. Amor. O não-amor é o vazio. O antiamor também é amor. Eu te amava quando você respirava no meu ouvido. Lembra do meu dedo dentro de você? Amo-te, amo-te, amo-te. Instante secreto, sua boca incha, seus olhos apertam, suas unhas me arranham e você diz: Eu te amo! O amor acabou quando você se foi? Você sentiu saudades das minhas paredes, das cores das minhas camisas, da umidade da minha boca, do cheirinho do meu travesseiro, da minha torrada com mel, das noites pelados assistindo à tevê, dos vinhos entornados no lençol, do café da manhã com jornal, você sentiu falta de atravessar a avenida comigo de mãos dadas, de correr da chuva, de eu te indicar um livro, do cinema gelado em que vimos o filme sem fim, torcendo para acabar logo e ficarmos a sós, você sentiu falta da minha risada, inconveniência, de eu ser seu amante, noivo, amigo e marido, dos meus olhos te espiando, dos meus dentes mordendo e mastigando, ficou tanto tempo longe e pensou em nós especialmente bêbada ou louca, queria me ligar, me escrever, meu cheiro aparecia de repente, meu vulto estava sempre ali, acaba? Diz que acaba. Como acaba? Não acaba. Diz, não acaba. Repete. Falei? Não acaba. Pode virar amor não-correspondido. Pode ser amor com ódio, paixão com amor. Tem o amor e o nada. Ah, mais uma coisa. Antes que eu me esqueça. O amor não acaba. Vira. Se acabar, não era amor.

Será?

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19.abril.2009 15:34:03

Os acasos

Sou aterrorizado pela ideia de que muitas coisas que nos acontecem são obras do acaso. Toda a evolução da espécie pode ter sido obra do acaso. Uma bactéria que sofreu mutação. Um peixe que resolveu caçar na praia. Um asteróide que eliminou os dinossauros e abriu espaço para o domínio dos mamíferos. O macaco que fez de um osso uma arma. Hitler que não conseguiu desenvolver a Bomba Atômica antes dos americanos.

O Universo pode ter sido obra do acaso: forças gravitacionais e quânticas se romperam numa grande explosão, o Big Bang, e cá estamos nós, numa escada rolante do metrô, na fila do bilhete único, discutindo se este disco do Caetano é melhor ou pior do que o anterior.

Minha avó Cecy conheceu meu avô Paiva num trote. Ele gostou da voz da inoportuna, que ligou no meio do expediente, e cá estou, em dúvida entre o Halls azul e o preto.

Conheci minha primeira mulher numa lanchonete, Frevinho. Se ela não estivesse lá naquele dia, eu não teria convivido 9 anos com ela.

NO DESERTO MOJAVE

Fui fazer teatro no CPT, porque encontrei um amigo da escola na Avenida Paulista, que me sugeriu fazer um curso de dramaturgia com o Antunes Filho. Meu primeiro livro foi uma encomenda de um editor. Se ele não tivesse me sugerido, sabe-se lá o que eu estaria fazendo.

O acaso e a sorte deu origem ao novo filme do meu amigo cineasta-surfista Mauro Lima. Há anos, trocamos e-mails com roteiros, peças, livros, opiniões e sugestões anexadas. É a tal amizade em que um lê a obra ainda inacabada do outro, para palpites.

Há dez anos, ele me mandou um dos seus roteiros engavetados, REIS E RATOS, um história policial divertida que se passa às vésperas do Golpe de 64. Há meses, ele teve a ideia de filmá-lo, aproveitando os cenários e figurinos de outro filme, BEM AMADO, de que foi co-produtor e se passa na mesma época. Só que tinha perdido o roteiro.

Me ligou desesperado. Não estava mais no meu computador nem no dele; diferentes dos de dez anos atrás. Busquei nos meus disquetes antigos. Encontrei-o casualmente num disquete de 3″1/2 jogado num fundo de gaveta. Mandei para ele.

O filme foi rodado em 13 dias (com Selton Mello, Rodrigo Santoro e outros), em preto e branco, com externas e cenas de estúdio, aproveitando a produção anterior de Guel Arraes. Mauro brincou comigo: “Você foi literalmente o script doctor desse filme…” Ou o script saver. A vida não é séria… Você também é vítima dos acasos decisivos?

DUAS PRIMEIRAS PÁGINAS DO ROTEIRO

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18.abril.2009 02:08:50

Os tais ingressos

Descobri que quase sempre sobra lugar na peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. O SESC bloqueia alguns ingressos, mas nem sempre seus convidados vão. Hoje, havia 9 lugares vagos na platéia. A lotação é em termos. Portanto, rola, se der sorte. Minutos antes, tais ingressos são colocados a venda. Ou então nos vemos no ESPAÇO PARLAPATÕES a partir de 9 de junho.

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17.abril.2009 13:58:56

Onde estou?

Só minha ex-mulher acertou. Ex-mulher tem um olho…

Aproveitando…

Muitos leem que A NOITE MAIS FRIA DO ANO não tem mais ingresso. É verdade. Não sei como aconteceu. Na segunda semana de estreia, esgotaram os ingressos. E ficamos até maio. Eu nunca tinha visto isso. Deve ser o prestígio do elenco e o preço do SESC.


Mas a partir do dia 9 de junho ficaremos em cartaz às terças e quartas no ESPAÇO PARLAPATÕES, 21h. Ingresso a R$ 30 e R$ 15 (meia, que é como 80% das pessoas pagam). Então, é só chegar chegando, aqueles que quiserem assistir.

Para aqueles que reclamam que só falo da programação cultural de São Paulo. A produtora-curadora Melina Valente está há um mês lá no fim do mundo preparando esta Bienal do Fim do Mundo, INTEMPERIE, que será exibida até na Antártica, onde tem mais pinguins do que gente.

Brinquei com ela que nem será preciso pedir que apareçam de black-tie na abertura. Se você passar por lá…

Já minha amiga Luciana Burlamaqui ficou 7 anos acompanhando a história da Sophia Bisilliat, que foi voluntária 20 anos no sistema carcerário e empresária do grupo de rap 509-E, formado na cela 509 do Carandiru. O resultado é o documentário ENTRE A LUZ E A SOMBRA, que será exibido sábado dia 25/04 no CCBB-SP.

Assisti ao material bruto. É imperdível. Uma história de amor sem precedentes.

E o filme FIEL já teve até ontem 20.963 pagantes. Esse fim-de-semana será muito importante, com a entrada de praças grandes como Santos, São Bernardo e São José do Rio Preto e o aumento do número de salas na capital. Todas as salas em que o filme estreou no estado de SP ficarão por mais essa semana, sinal de que o filme pegou.

A lista atualizada do circuito em que o fime está em cartaz está disponível no site:

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16.abril.2009 20:19:25

Onde está Marcelo?

Meu amigo Max, colega da Unicamp do final dos anos 70, me mandou esta foto através do Joca e jurou que estou nela. Tirada em 1979, numa ida a um congresso de estudantes a Campina Grande (PB) de busão. Foram 3 dias de viagem. Violão e pinga. Cruzando o sertão. Tudo para lutar contra a ditadura e pelo fim da repressão. “Abaixo a repressão, mais justiça e feijão!”, gritávamos.

Esses encontros eram as oportunidades para se conhecer o País, cruzar ideias e criar laços. Esses encontros existem ainda. Eu queria saber contra ou a favor do que eles lutam.

Demorei para me encontrar nesta foto. Irreconhecível. Magro, como um bambu. Onde estou?

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15.abril.2009 00:15:26

Os Cometas da Memória

A pedidos. Juntei duas crônicas publicadas recentemente do Estadão. Deu nisso.

Lucila tinha cabelos encaracolados. Era sorridente e mais baixa do que o normal. Desde que a conheci, no primário em São Paulo, fiquei apaixonado. Pensava nela quando subia na jabuticabeira de casa, para observar o suicídio das frutas maduras que se atiravam aleatoriamente dos galhos, enquanto minhas irmãs corriam pelo quintal.
Havia um canto debaixo da escada da garagem. Era o meu canto. Por que adoramos tocas? O darwinismo deve explicar nosso encanto por cantos. Mas faz parte da seleção natural os amores platônicos?
Meu pai decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Quando me comunicaram a notícia, sofri antecipadamente de saudades. Lucila… Como seria a vinha vida sem ela? Que desgraça! A primeira coisa em que pensei foi fugir de casa, para marcar posição e o meu protesto.
Fui corrompido pela oferta de uma enorme festa só minha. Toda a escola seria convidada. Lucila então conheceria minha casa, minha árvore, meu canto. Correria pelo quintal. Brincaríamos.
Apareceu uma multidão. A casa parecia uma quermesse. Teve palhaço e mágico. Eu nem sabia que tinha tantos amigos. A maioria eu não conhecia. Era difícil se locomover entre tanta gente. Não encontrava a minha amada. Me lembro que, num certo momento, me escondi na garagem, sufocado, estressado.
E ela apareceu para se despedir, com aquele cabelo dourado cacheado, como molas. Lucila era a fim de mim também, eu tinha certeza. Ficamos juntos conversando. Toda a escola respeitou nossa privacidade. Nos demos as mãos e fomos ver outro número do palhaço. Passamos o resto do dia grudados. Foi uma única vez em que demos vazão para o nosso amor.
Se eu não tivesse que me mudar, eu sabia, seríamos o casal mais feliz da cidade, eu, com 6 anos, e ela, com 5. Como a vida atrapalha histórias de amor… Que lição meu pai me dava, ao me amputar a paixão.

Me mudei para o Rio. Meu pai fugia do estigma de paulista comunista inimigo da ditadura. Cassado e exilado dois anos antes, no Golpe de 64, voltou para o Brasil clandestinamente e imaginava ter menos visibilidade e mais oportunidades na Guanabara.
Moramos no Leblon, a três quadras da Favela do Pinto. Na época, o bairro não tinha o status de hoje. Havia a favela dentro e um conjunto popular que assustava a elite, a Cruzada, o primeiro do gênero- criado por Dom Hélder Câmara. Bacana era morar em Copacabana e Ipanema.
Jogávamos futebol na rua. Eventualmente, o jogo era interrompido: “Olha o carro.” A regra era parar imediatamente. Cada rua tinha um time, com moradores da favela. A maior glória era jogar no campinho de terra da Cruzada. Lá, havia torcida e o campeonato definitivo.
Minha rotina era de uma paz que nunca mais encontrei. Vivia na ex-capital do País, mas era como se eu estivesse numa pacata vila.
Aos oito anos, eu pegava ônibus para ir à escola, Colégio Andrews, em Botafogo. De camisa de abotoar e bermuda azul de algodão, um sapato desconfortável preto e meias brancas escondendo as canelas, eu cruzava a favela. Invejava os amigos que não tinham aula e jogavam o dia inteiro.

Vivi no Rio com saudades. Pensava, sonhava, imaginava. Lucila. Lá, reencontrei meu melhor amigo, Edu, outro paulista exilado. Estudamos na mesma classe. Ele já estava enturmado, o que me ajudou no convívio. Ele também tinha irmãs. Tinha diálogo com as cariocas.
Ficamos amigos de Roberta e Isabel, duas morenas amadas por toda a escola.
Nas aulas, dividíamos as mesas com elas. Eu com Roberta, ele com Isabel, conhecida como Isaboa. Ou vice-versa. Passávamos os recreios com elas, para a inveja coletiva. Nas aulas de música, tocávamos triângulo, elas, coco. Ou vice-versa. Ficávamos juntos, fora do ritmo, tocando uma outra música, só nossa.
Havia um obstáculo para o desenvolvimento de paixões. As duas eram maiores do que eu. Se não me engano, Roberta era a mais alta de todas. Para um moleque, é um entrave que afugenta o amor. Especialmente aos 8 anos.
Apesar de toda a escola achar que namorávamos as duas, era pura amizade. E eu não me esquecia de Lucila e seus cachos malucos. Um dia, eu iria reencontrá-la.

Eu circulava pelo bairro de bicicleta. Muitas vezes, tinha que parar para cumprimentar e papear com os amigos. Nunca fui assaltado. Nunca sofri qualquer tipo de violência. Psicopatia social não estava em nossos dicionários.
Pulávamos o muro do Clube Paulistano, para jogar bola. Depois, dividíamos o milkshake com os que não tinham dinheiro. Enfiávamos vários canudinhos num mesmo copo e contávamos até três. Sorte daqueles que, com bons pulmões, conseguiam sugar mais rapidamente o sorvete.
No domingo, lotávamos uma Kombi para ir ao Maracanã, assistir ao Flamengo de Fio Maravilha, time do bairro. Os pais se revezavam. O meu nos levou certa vez. Ficou surpreso com a quantidade de palavrões que conhecíamos.

Num dia de semana, a praia amanheceu apinhada. Toda a favela correu para lá. Estavam chamuscados. Crianças choravam. Carregavam seus pertences. Na água, bonecas com fuligem. A favela tinha pegado fogo. Foram os militares, diziam. Até hoje pairam dúvidas. Viram helicópteros do Exército sobrevoando a favela na noite da tragédia.
O tumulto durou uns dias. Certa manhã, tomávamos café, e um grupo de moleques invadiu a nossa casa. Não falaram nada. Foram pra geladeira e comeram com as mãos o que encontraram. Nem nos levantamos da mesa.
Enfim, foram removidos. O filme Cidade de Deus começa com os favelados chamuscados chegando à sua nova morada, coincidentemente recém-inaugurada.
O terreno abandonado foi aterrado em tempo recorde. Em meses, subiram prédios de até 17 andares. Os apartamentos foram comprados exclusivamente por militares, que receberam empréstimos descontados diretamente da folha de pagamento (soldos). O condomínio, que se estende por grandes quadras, com uma praça no meio, recebeu o apelido de Selva de Pedra, em homenagem à novela da Globo que fazia sucesso.
A especulação imobiliária expulsou o democrático futebol de rua. Enviaram os pobres para os guetos. E o convívio pacífico virou poeira.

Toda a molecada do bairro fazia uma conexão no Central-Gávea, ônibus 174- o mesmo sequestrado por Sandro Nascimento décadas mais tarde. Descíamos, depois da escola, para assistir a filmes de arte.
Educação Sexual naquele tempo era uma piada, quando havia. O que aprendíamos estavam nos livros de Medicina Legal, no catecismo do Zéfiro, vendido clandestinamente nas bancas, e nos filmes proibidos para menores.
Instalado na Rua Jardim Botânico, na rota dos ônibus que vinham de Botafogo, o Cinema Floresta, inaugurado em 1922, que em 1960 mudou o nome para Jussara, educou uma geração.
Não sabíamos a diferença entre Nouvelle Vague e Cinema Novo. Nem que aquelas imagens causavam uma revolução da linguagem. Godard, Truffaut, Glauber? Não guardávamos os nomes dos diretores. Lotávamos a sala, pois o porteiro não pedia carteirinha, e queríamos ver mulheres nuas.
Talvez a curiosidade tenha formado uma geração de cinéfilos. Muitos sonharam com Norma Bengell, nua em pelo, correndo em direção à câmera, numa praia deserta, como se suplicasse pelo nosso carinho- inesquecível cena de Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Norma, Joana Fomm, Odete Lara, Leila Diniz foram nossas primeiras paixões.
Admirávamos os franceses, com suas lindas atrizes, despudoradas, que não se intimidavam diante das câmeras e ainda por cima ganhavam prêmios. Sonhávamos com as personagens volumosas e pálidas de Roma, de Fellini.
As incongruências do regime se ampliaram- que endurecia e censurava, empastelava e prendia, proibia peças e livros, mas não a pornochanchada.
O pequeno cinema conhecia o seu nicho. Dedicou-se ao gênero que deu sobrevida ao cinema nacional, porém arranhou por décadas o seu prestígio. Todas ficavam peladas. Até as estrelas das novelas.
Na tevê, Lucélia Santos botava nossas mães para chorar no dramalhão Escrava Isaura. Na sala do cinema cheio de baratas, nos apertávamos para vê-la nua em Não Se Faz Amor Como Antigamente.
Os nomes provocavam a nossa imaginação, como Eu Dou O Que Elas Gostam, E O Que Elas Gostam Não É Mole, ou o clássico de Carlos Imperial, A Ilha das Cangaceiras Virgens.

Passei para o ginasial, mudei de prédio, na Praia de Botafogo. Recepcionamos novas turmas e conheci Carla, loirinha enigmática, linda como a vista do recreio, o Pão de Açúcar. Do meu tamanho. Nutri por ela uma paixão secreta. Quando ela passava, minhas pernas tremiam. A timidez era na mesma proporção que a minha admiração. Nunca ouviu a minha voz. Puro amor platônico.
A maioria de nós compreendia o que significava o amor platônico e já vivera o seu, idealizara uma garota e sofrera por causa de uma timidez revoltante. Apesar de a maioria não ter ideia de quem foi Platão, nem de que seu amor foi definido na Renascença, baseado nos diálogos do filósofo, que apontavam que o amor mistura fantasia e realidade pelo ser perfeito, e a essência desse amor é a idealização. O amor platônico é comparado a um amor à distância, sem envolvimento e contato, que os inseguros alimentam especialmente na adolescência.
Carla despertava o amor platônico em todo Colégio Andrews. Para nos confundir, ela era filha do nosso maior ídolo, Carlos Niemeyer, do Canal 100, telejornal que revolucionou a linguagem, era exibido antes dos filmes, e terminava com imagens em câmera lenta, com câmeras na beira dos gramados, de lances do último clássico de futebol, sob uma trilha sonora marcante. Queríamos Carla e conviver com a sua família, sermos convidados para ver os jogos de perto e termos em mãos aquele acervo.
A ditadura apertou o cerco. Edu se exilou em Londres. Me mandava cartas perguntando de futebol e Carla. Eu mentia. Dizia que estávamos namorando. Que ficávamos na casa dela nos pegando, apesar dos 11 anos de idade.

Meu pai foi preso e morto naquele ano. Me fechei. Meu olhar ficou triste, como o de um cachorro molhado. Muitos passaram a me evitar. Afinal, eu era filho de um terrorista que atrapalhava o desenvolvimento do país, aprendiam com alguns pais, professores, liam na imprensa, viam nos telejornais.
Ficava muito tempo sozinho no banco da escola. Aos poucos amigos, eu tentava explicar que meu pai não era bandido. A maioria não tinha ideia do que se passava nos porões. A censura e o milagre brasileiro cegavam.
No meio do ano, minha família foi obrigada a sair do Rio. Na festa de São João, comuniquei a mudança. Muitos vieram se despedir. Eu estava numa barraquinha comprando doces, quando Carla se aproximou, para se despedir. Minhas pernas tremeram, como sempre. Fiquei sem ar. Ela disse o meu nome, Marrrcelo, com aquele sotaque carioca delicioso. Me beijou. “Você vai embora, Marrrcelo”? Eu não disse nada. Mais um amor era deixado pra trás. E por instantes perdoei o meu pai por não ter se exilado, como a maioria, para salvar a pele.

Quando voltei para São Paulo em 1974, conheci a versão paulista do pulgueiro do Jardim Botânico: o Cine Bijou, na Praça Roosevelt.
O Jussara fechou em 1976. O Bijou virou um teatro. A internet nasceu. E a ingenuidade foi perdida. O saudosismo é a desculpa de quem não se transforma. O Brasil não era melhor nem pior do que é hoje. Era apenas outro País.
Reencontrei Lucila no colégio de São Paulo. Não tinha mais os cachos. Continuava um encantada. Relembramos o passado. Para ela, eu também representava o primeiro namorado. Fui gentil. Mas havia uma baixinha do meu ano, misteriosa, secreta, apaixonante, de poucas palavras e muitos fãs. Que nem sabia da minha existência e nunca reparou nos meus olhos tristes.
Reencontrei Carla no ano passado. Aliás, coincidentemente, na Livraria Argumento, do meu amigo Edu. Ela se apresentou. Sabia das cartas, em que eu mentia sobre o nosso amor. Não sabia que era tão idolatrada assim. Rimos das maluquices platônicas. São os cometas da memória.

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13.abril.2009 21:47:15

+ 1

Me vejo obrigado a postar aqui o texto que o grande Xico Sá publicou no seu blog: http://carapuceiro.zip.net/

“Se beber não passe email. As chances de dar merda, ora, são enormes. Pedir alguém que você mal viu em casamento, desmanchar o namoro dos sonhos, sabotar os projetos em andamento, escrever pornografia para a madre superiora do Colégio das Damas, xingar o amigo, zoar o freguês, desonrar o(a) parceiro (a), desmerecer os carinhos, atordoar os sentidos, desmascarar os ímpios, passar óleo de peroba na cara dos eventuais incorruptíveis, desmoralizar o ombudsman, entregar as Bovarys e os dons Juans com farta distribuição na rede de fotinhas digitais…
Ao sair para beber, deixe o computador desligado, travado, imploda as tomadas, faça uma barreira na porta do escritório, ponha um rastro de cascas de bananas para que você desabe no chão antes de alcançar a máquina de alta periculosidade. Faça tudo, amigo(a), que dificulte a volta [do boteco] direito para o outlook da insensatez, o gmail das perdições, a pororoca de um spam cardíaco, a irrecuperável ressaca moral dos itens enviados.”

Ultimamente, tenho cometido esta gafe. Fiz concessões, dei conselhos tortuosos, sugeri separações que não se concretizaram, propus o inatingível. Desabafei, me abri, me declarei por e-mail. Sob o comando de algumas doses de uísque. Às vezes, assistindo ao nascer do sol.

Xico tem razão. Todos sabem muito bem. Eu sei. Mas como se controlar? É irresistível. Bebida abre o coração reprimido. Muitos escritores são alcoólatras. Pois desarma, abaixa a guarda- tudo o que é preciso para se escrever com verdade e precisão. Sensatez serve aos cientistas, não aos artistas. Ao menos, eu aviso nas últimas linhas que estou bêbado. Adianta?

Agora, junte tudo isso a uma falta de reflexos na hora de clicar “enviar para”. Então, comete-se a gafe maior de todas: enviar de porre um e-mail para a pessoa errada. Dá uma merda…

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