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Marcelo Rubens Paiva

 

O escritor Iain Gately, que estudou Direito em Cambridge (UK), gosta de provocar teses sensíveis à saúde pública, com dados empíricos e muita pesquisa.

Em seu primeiro livro, A Cultural History of Alcohol, escreveu que os pileques dos nossos antepassados fariam os de hoje parecerem festinhas em conventos.

Desde que se descobriu que o álcool tem ação inibidora sobre neurônios dopaminérgicos do sistema límbico, o porre tem assento cativo na história do mundo ocidental e oriental.

No segundo, Tobacco: A Cultural History of How an Exotic Plant Seduced Civilization, prova que apesar de ser banido em todas as cidades, locais públicos e privados, a planta foi responsável pelo desenho geopolítico do mundo moderno.

Ingleses colonizaram a América para plantar tabaco.

Em 1612, graças ao colonizador John Rolfe, encontraram o que fazer em vasto território.

Ele trouxe mudas de tabaco, que começou a cultivar na recém-instalada colônia da Virgínia.

Rolfe se casou com a princesa índia Pocahontas. O Dia de Ação de Graças, em que colonos e índios fazem as pazes e assam um peru, ocorreu em fogueiras em torno de chácaras cercadas por plantações de tabaco.

 

Don Draper

 

Há anos que ele é “fonte” da revista SUPERINTERESSANTE, e mesmo assim seus livros continuam inéditos no Brasil.

Inalar fumaça é repulsivo para outros animais. Mas não entre nós.

E me lembro que conheci um casal refugiado da guerra em Sarajevo. Nadka, jornalista, e Deso, médico.

Contaram do drama de viver numa cidade sitiada e bombardeada diariamente. A única coisa que funcionava sem parar? Uma fábrica de cigarros nos subterrâneos de um conjunto habitacional.

Foi com a descoberta da América que o tabaco passou a rechear cigarros, cachimbos e charutos.

“Na América, diz ele, as folhas eram fumadas, cheiradas na forma de rapé (tabaco em pó), mascadas e até usadas como supositório. A principal razão para o consumo era mística: o tabaco permitia um contato com espíritos.”

Mas outras funções eram atribuídas a ele.

Efeito algésico e anti séptico eram indicados para dores de dente ou feridas. Marcava os eventos sociais, como as guerras.

O hábito era considerado uma selvageria. O navegador espanhol Rodrigo de Jerez, primeiro europeu a fumar, de volta à Europa, fumou em público e foi preso 3 anos. Colombo era contra a planta. Seus marinheiros, não.

O diplomata e médico Jean Nicot levou sementes para Catarina de Médici, rainha da Franca. Daí vem o nome Nicotiana. Em pouco tempo, virou remédio para tudo.

Em 50 anos, tinha até samurai no Oriente fumando.

Até no islamismo e países árabes, onde o álcool é proibido. foi liberada a sua circulação.

Na Espanha, a Tabacalera, indústria estatal que chegou a ter o maior prédio industrial do mundo, contratava ciganas para fabricar charutos. D|aí veio a associação tabaco – sexo.

No calor mediterrâneo, elas trabalhavam com poucas roupas, suadas, enrolando charutos entre as pernas.

Em 1880, com a invenção da máquina de fazer cigarros, James Buck Duke inovou o comércio e o marketing. Gastava 20% de seus lucros em propaganda.

Surgiu a American Tobacco Company, que Duke presidiu, e deu lucro até à agência Sterling Cooper Draper Pryce, de MADMEN

 

 

Quanto à birita, foi em 8000 a.C na China que o primeiro “mé” foi encontrado, um drinque de arroz, mel, uvas e cerejas fermentadas.

Os sumérios inventaram a “breja”, que a elite bebia com canudinhos de ouro.

É sabido que cada peão que erguia as pirâmides do Egito ganhava em média 5 litros de cerveja por dia.

Em qualquer achado arqueológico existem mais garrafas de bebida do que moedas. Tutancâmon, faraó da 18ª dinastia, foi sepultado com uma bela máscara de ouro e 26 jarras de vinho.

Os gregos tinham 60 variedades da bebida.

Os romanos passaram a produzir e distribuir em larga escala. Soldados romanos ofereciam vinho “de presente” aos inimigos, para dominá-los na ressaca.

Qualquer leitor de Asterix conhece o truque.

 

 

Sem fazer proselitismo, sabe-se que o alcoolismo é um grave problema de saúde pública.

Mas lembre-se que a bebida já foi considerada remédio, e que a revolução americana foi liderada por um fabricante de uísque, George Washington, que também plantava tabaco.

Sem contar que a Declaração da Independência foi escrita num boteco da Pensilvânia e que  Thomas Jefferson, signatário, era um fazendeiro de tabaco.

Se você conseguiu chegar até o final deste texto, beba com moderação. É bom lembrar, se for beber não dirija. E cigarro mata!

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A arte de beber.

Sim, álcool faz mal, e existe arte no ato de beber.

 

 

Cada bebida tem o copo apropriado, a temperatura ideal, o ritual a ser cumprido, assinatura do fabricante e história.

Algumas regras devem ser seguidas, para que uma noite de celebração não estrague os sóbrios dias seguintes.

Apesar de tentador, evite falar verdades que estão há tempos entaladas no gogó.

Risque do mapa as palavras exorcizar, desabafar.

Não é preciso, naquele momento em que o pileque começa a agir, ser verdadeiro e sincero.

Beba, fique alto, continue sorrindo, fale o mínimo possível e concorde com tudo. Especialmente se o patrão estiver por perto.

Aos carentes: na segunda dose, dê o celular para um amigo guardar, para não mandar mensagens com resoluções definitivas, provas de amor absoluto, arrependimentos tardios. Nem tente telefonar de madrugada para uma paixão desfeita que, a essa altura, assinou em cartório uma declaração de convívio marital com outra pessoa, faz planos de viagens longas para países exóticos e pesquisa em qual escola próxima matricularão a prole que será responsável pela mudança da categoria do veículo familiar de sedam para minivan.

É na adolescência que o primeiro porre é experimentado.

No estágio em que abandonamos o luditismo infantil, em que nos apontam as responsabilidades e decisões que virão, descobrimos que o álcool pode nos deixar soltos, inconsequentes, divertidos, sem o domínio do corpo e da mente.

Quando não somos mais crianças, talvez bebamos para voltar a ter a irreverência e espontaneidade de uma.

Há milênios que se descobriu que a fermentação de frutas e cereais dá barato.

Cerveja e vinho foram inventados antes das tampinhas, rolhas, rótulos e enólogos chatos, que demoram mais tempo cheirando e olhando a bebida contra a luz do que sorvendo.

Muito tempo depois, os árabes inventaram os destilados.

Nasceu o porre homérico. Que não se sabe se foi relatado na Ilíada ou Odisseia.

Fazemos bebida de tudo: milho, trigo, cevada, cana, uva, alcachofra, batata, arroz, anis, maçã, combustível de carro, lancha e avião.

O vinho talvez seja a bebida mais cultuada. Bíblica, não se deve tomar um porre dela. Melhor apreciar, degustar. Ou você deseja acordar com a língua colada no céu da boca e uma sede que o Delta do Nilo não mataria?

Suas variações, champanhe, vinho branco, prosecco, apesar de populares em casamentos, deveriam vir acompanhadas por dipirona sódica em gotas. Dores de cabeça são comuns aos que as ingerem em excesso.

O remédio que se deve tomar um antes e outro depois ajuda a diminuir os efeitos físicos de uma ressaca.

Porém, a ressaca moral e a sensação de que até uma ária de um quarteto de cordas de Bach faria a sua cabeça explodir continuam. Já vi Engov como brinde em banheiro de casamento. Poderiam incluir o hidróxido de alumínio, ácido acetilsalicílico e maleato de mepiramina, princípios ativos do remédio, nos bem-casados que costumamos afanar.

Mas o profissional tem uma técnica infalível para beber, continuar bebendo e não dar trabalho: alterna uma taça com um copo de água.

Bebe com a disciplina de um jogador de xadrez. Pensa nos próximos lances com bastante antecedência.

E ouve muito mais do que fala.

 

 

É no Retorno de Saturno, fenômeno astrológico que serve de desculpa para as irresponsabilidades juvenis, que ocorre a cada 28 anos, que se descobre que não bastam, como antes, apenas algumas horas de sono para curar uma ressaca.

Sim, envelhecer é aprimorar o desejo de que a vida imite a arte e, como num filme da Lars Von Trier, um planeta se choque com a Terra, depois de se acordar duma noite daquelas.

No segundo Retorno de Saturno, quando a vítima completa 56 anos, só se toma um porre se está em dia com o plano de saúde e próximo a hospitais conveniados.

Cada pessoa tem seu nível de tolerância.

Alguns enxugam uma garrafa de uísque e mantém a irritante lucidez de um comentarista econômico em tempo de crise cambial.

Outros tomam dois chopes e se comportam como líderes de uma facção criminosa associada a uma torcida organizada que chefia a bateria de uma escola de samba.

Há mais coisas em comum num pileque do que rege os alertas do Ministério da Saúde.

Porre de uísque deixa o bebum inteligente. Acompanhado de muita água, acorda bem se o armazenamento do mesmo durou 12 anos ou mais. A não ser, claro, que tenha sido destilado, engarrafado e envelhecido em toneis paraguaios, produzido pelas águas das nascentes do Chaco.

Não existe melhor porre que o de tequila. É a bebida da alegria. Nos sentimos vibrantes, felizes, como solistas de um grupo mariachi. Sua ressaca, porém, nos remete ao sofrimento dos inimigos dos Maias, cujas cabeças rolavam por suas pirâmides.

O melhor porre não necessariamente implica em maior ressaca. Mojito tem a fórmula mágica de juntar as delícias do rum com o frescor tropical do hortelã. Como nossa caipirinha, consegue refrescar e abastecer de vitaminas. O problema é a vontade de dançar salsa sozinho no banheiro.

Caipirinha, símbolo pátrio, é a prova de que nossa miscigenação é ampla: pode ser de saquê do oriente, vodca eslava ou cachaça nacional; pode ser açucarada, adoçada, light ou diet; qualquer fruta, doce ou amarga, se casa com o sabor do destilado de alto teor alcoólico; e, enfim, vem em cores exuberantes como as do kiwi ou frutas vermelhas, que deixariam um impressionista impressionadíssimo.

Dry Martini é a bebida mais conflituosa, pois não existe uma receita universal. O que mais se escuta em balcões: barman exaltando sua fórmula secreta. A discussão sobre a receita original do Dry Martini é mais polêmica do que a tese de que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Pode vir com a entrada; uma azeitona, ou cebolinha. Seu copo é exclusivo da bebida. É gelado, mas esquenta. Tem um efeito psicotrópico prolongado. Alterna o estado da consciência, sem dar muito trabalho aos amigos.

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07.maio.2012 11:49:27

Da pá virada

Primeiro, descobrimos como ALEX ATALA é pop.

Sua galinhada atraiu bem mais do que o esperado no Minhocão e simbolizou o sucesso [ou desorganização] da Virada Cultural deste fds.

Segundo… Como o novo brasileiro tem fome voraz pelo consumido pelas “zelites”!

Não só nos aeroportos e roteiros turísticos.

Um prato simples até atrai uma multidão, gera filas e confusão.

São Paulo fica diferente na Virada.

Parece atacada por zumbis com sede de cultura.

Todos ganham.

O jeito é, por que não, passar uma madrugada acordado e zelar pelo celular [a colunista Nina Lemos teve o seu roubado 5 minutos após pisar na Virada].

E noia mesmo é área VIP na região da cracolândia.

Noias foram outro destaque da Virada.

Achei ótima ideia parte da Virada ser no território deles.

Forçar o contato entre a população e aqueles que só conhece por fotos nos jornais.

Quem não tem o hábito te ir ao Centro viu que eles existem aos montes e são cidadãos respeitáveis, que merecem atenção.

O tempo ajudou e a lua cheia brindou como a cereja do bolo [a maior lua em 18 anos].

E conheci o novo Sesc Bom Retiro, na verdade no bairro de Campos Elísios, charmoso de doer, que pode ser o começo da renovação da região com tanta história.

Em cuja lanchonete se paga R$ 1 pelo pão de queijo, R$ 3 pela sopa, R$ 3,50 pelo sunday.

E em cujo teatro você pode ver peça baseada no roteiro nunca filmado de Fellini, A VIAGEM DE G MASTORNA.

Cony escreveu na ILUSTRADA desta sexta:

Fellini, que fazia caricaturas para uma revista, sonhava filmar uma história de Dino Buzzati, com o estranhíssimo título de “A Viagem de Giuseppe Mastorna”. Foi processado pelo produtor, Dino De Laurentiis, porque nunca rodou uma única cena.

Isso não impediu que Fellini fizesse outros filmes, inclusive “Oito e Meio”, que conta exatamente o drama do artista que persegue uma grande obra, começa a embromar o produtor e exige locações absurdas, como uma praça medieval com um Boeing no meio, e algumas instalações que parecem rampas de foguetes espaciais. Ele não acredita que a produção consiga o absurdo, mas o produtor arranja dinheiro e leva o diretor para ver o cenário e dar uma entrevista à imprensa internacional.

O diretor desmaia ao ver o que foi feito, tem de dar alguma explicação aos jornalistas. “Eu paguei um dinheirão a todos eles, diga qualquer coisa sobre o filme, invente!”. O produtor está furioso. Uma repórter alemã grita para os jornalistas: “Ele não tem nada a dizer!”.

“Oito e Meio” é em parte o que restou de “Giuseppe Mastorna”: um filme sobre um filme que jamais seria feito. Na última entrevista que deu, Fellini confessa que todos os seus filmes são pedaços do projeto inacabado, projeto que ele perseguiu por toda a vida sem conseguir realizar.

Filme que virou lenda [ou maldição].

E hoje, no ESTADÃO, matéria assinada por FLÁVIA GUERRA:

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,peca-teatral-se-inspira-em-roteiro-inedito-do-diretor-de-cinema-federico-fellini,869722,0.htm

 

Peça teatral se inspira em roteiro inédito do diretor de cinema Federico Fellini

Marcelo Rubens Paiva adaptou texto que começou a ser filmado nos anos 60, mas não foi concluído

07 de maio de 2012 | 10h 21
Flavia Guerra – O Estado de S.Paulo

 

Cena da peça 'Il Viaggio' - José de Holanda/Divulgação
José de Holanda/Divulgação
Cena da peça ‘Il Viaggio’

“A única preocupação permitida ao homem é de não se preocupar” , diz a aeromoça ao violoncelista Giuseppe Mastorna em cena da peça Il Viaggio. E tudo que o tal violoncelista faz em cena, e na vida, é burlar seu próprio direito, preocupando-se quase à exaustão com seu destino.

Destino esse que já começa desviado na primeira cena, quando o avião que o levava para um concerto em Firenze é forçado a fazer um pouso de emergência em uma cidade desconhecida. Pode ser uma cidade real, pode ser um sonho, pode ser a morte. E assim começa a viagem de Mastorna por esse universo de sonho e pesadelo, em que vida e morte confundem as certezas dele, que queria ser um grande compositor, mas tornou-se cidadão comum. 

Livre adaptação do roteiro inédito de Federico Fellini, Il Viaggio di G. Mastorna, concebido por Helena Cerello e dirigido por Pedro Granato, o espetáculo estreou sábado no Sesc Bom Retiro em plena Virada Cultural. Em clima onírico, transporta a plateia ao universo felliniano. “A referência a Fellini é claríssima. Fomos fieis à essência do roteiro, que ele começou a filmar nos anos 60 com Marcello Mastroianni, mas nunca concluiu”, explica Marcelo Rubens Paiva. 

Convidado pela atriz e produtora Helena Cerello a adaptar o texto para o teatro, Rubens Paiva conta que, apesar de ter incluído várias cenas, situações e diálogos, manteve a estrutura principal proposta pelo diretor italiano. “Priorizamos a jornada do músico que desejava ser grande compositor, e se distanciou desse ideal com o passar dos anos.”

Mastorna transformou-se num sujeito comum. Ou quase. Em sua vontade de ser ‘normal’, o músico se torna ridículo. E frustrado. Pois ao realizar sua viagem interna, descobre memórias que o fazem rever a vida e questionar se o universo caótico em que se encontra é a tão almejada vida eterna. 

Para criar o universo de sonhos, pesadelos e de comicidade – humor nonsense, e circense, bem ao gosto de Fellini-, o diretor Granato e equipe optaram por soluções criativas. O desafio de levar ao palco a história inicialmente pensada para o cinema fez com que elementos cênicos como um avião vire portaria de um hotel, uma cama, uma casa… “Não tivemos de abrir mão das ideias do texto para dar a ele uma linguagem teatral. Assumimos que o avião se desmembra. A partir desse cenário, vão se construindo os espaços citados no roteiro”, explica Granato. “Do desastre em diante, tudo se cria para aguçar a imaginação.” 

Imaginação foi o que Rubens Paiva e Helena tiveram ao trabalhar o texto. “Há pouca indicação de cenas no roteiro. Interessante é observar que as explicações são poucas e muito frouxas. Talvez por isso ele nunca tenha filmado. Isso torna o processo mais complexo, mas deixa livre para criar também”, comenta o dramaturgo. 

Vale lembrar que o texto original foi traduzido por Helena, que descobriu a história na Itália. Isso porque Fellini transformou o roteiro em um livro. “Justamente por ter sido pensado para o cinema, tinha muitos diálogos e até story board. Já tínhamos escrito a peça quando descobrimos uma carta de Fellini ao produtor Dino de Laurentiis, com indicações de filmagem. Isso mudou nossa concepção da história. Então, frases dessa carta foram incluídas na peça”, conta. 

Além das soluções cênicas, de frases e diálogos, Granato, Helena e Rubens Paiva deram à peça um caráter político. “Há cenas inteiramente novas. Mas destaco esses detalhes, como o discurso do papa, o autoritarismo…” .

Destaque também para o elenco acertado. Esio Magalhães (Mastorna), Bete Dorgam, Paula Flaiban, Paulo Federal, Ed Moraes encarnam as figuras fellinianas com verdade e graça. São esses clowns, ora engraçados, ora líricos, e outras vezes melancólicos, que de fato conduzem Mastorna ao seu destino final.

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04.maio.2012 19:18:05

hackeadas

Essas meninas ficam mais bonitas nas suas fotos hackeadas.

Sem maquiagem. Solitárias.

Sei que é crime, uma invasão absurda.

Um já pagou a pena – Christopher Chaney foi indiciado em 2011 e condenado por acesso não autorizado a computadores e escutas telefônicas. Foi preso como parte de uma investigação do FBI que durou 1 ano de hackers de celebridades, como Scarlett Johansson.

Não à quebra da privacidade a que todos temos direito.

Porém, já está na rede, maldita rede que desqualifica a privacidade como um direito.

Como fã, admirador, me encanta vê-las nos bastidores da vida, na intimidade, atrizes que só conhecemos produzidíssimas.

Lindas. Espontâneas.

Há tanta poesia num auto-retrato.

E há tantas questões que vêm do fundo da alma:

1. É assim que queríamos que nos vissem?

2. Ou queremos ver o que tantos nos pagam para sugerir, quase mostrar?

Sugerem.Imaginamos. E são tão humanas… Como nós, se divertem em espelhos de banheiro.

Sem querer, dão aulas a muitos fotógrafos e designers.

Solidão roubada.

A começar por Simone de Beauvoir, a musa das musas:

 

 

 

 

 

 

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04.maio.2012 14:13:58

anexos

Hj, amanhã e domingo no RIO.

Agora com Juliana Schalch:

 

 

 

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Amanhã em SP [junto com a Virada Cultural].

Minha autoria. Direção de Pedro Granato.

Com a deliciosa e talentosa HELENA CERELLO, quem bolou todo o espetáculo.

Nossa coelhinha de Junho de 2011 [texto no calendário de MÁRIO BORTOLOTTO:

 

 

 

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Nesta semana nas bancas. VIÚVA NEGRA.

Para ler as entrevistas:

 

 

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Ontem no Palácio do Governo, jurados do PRÊMIO JOVEM LIDERANÇA [vai curintxia!]:

 

 

 

 

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No meu aniversário, negociando com a PM [fotos do J Procópio] na Rua Rodésia, Vila Madalena:

 

 

 

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O único erro no roteiro do filmaço TROPA DE ELITE 1: quando o aspirante André Mathias  vai a uma festinha com seus amigos universitários da PUC, “os maconheiros”, como generaliza o Capitão Nascimento, dança com Maria, a mais gatinha da classe [Fernanda Machado], e um invejoso pede para o DJ colocar “Polícia” dos TITÃS.

A pista urra, e o neo gambé se chateia.

Além de polícia, era negro. Os playbas não iam deixar barato.

 

 

A cena é engraçada. Mas na real os tiras gostam desta música. Se divertem.

Conheço alguns.

Como jornalista e boêmio, cruzei com muitos deles por aí. Da PF, Civil, PM, delegados.

Polícia, jornalista, puta, trafica e rapaziada da classe teatral vão todos beber no mesmo bar, bater o mesmo rango e dançar nas mesmas boates desde que Gutemberg revolucionou o mundo e inventou a prensa em 1449.

Pode haver sintonia ética entre as profissões. Mas não quero ofender meus colegas.

O lance é que largamos o batente no mesmo insano horário do começar da madrugada; jornais fecham às 23h; peças de teatro encerram neste horário; e os criminosos agem muito neste horário.

Me dou bem com alguns PMs. Especialmente se não estou fazendo nada errado.

Tem de tudo: leitores, amantes de teatro, bebuns, fãs de rock. Poucos lembram os brutamontes que reprimem manifestações sociais. Sem gozação, até parecem seres humanos normais.

Mas, basta se juntarem, ou uma ocorrência ocorrer…

Entendi no meu aniversário a lógica da PM.

Enquanto comemorava com amigos num boteco da VILA MADALENA, vimos 1 PM entrar armado e tirar um sujeito de dentro do bar.

Logo encostaram duas viaturas. Não era um assaltante. Apenas um maconheiro que engolira seu baseado na abordagem do outro lado da calçada.

Fui até eles, pensando em se tratar de 1 amigo. Nunca vi o “meliante” na vida. Mas fiquei indignado com o raciocínio kafkiano que se seguia e com o poder de uma “otoridade” sobre 1 cidadão.

Eram 4 PMs. Apenas um dele estava nervoso e queria enquadrar o réu.

Com os outros 3, havia diálogo, estavam calmos, falaram seus nomes, papeamos e entendiam o exagero da ação, numa cidade em que acabou de se anunciar o aumento e muito de casos de homicídio, roubo, num bairro que é vítima de arrastões.

A 50 metros dali, um restaurante japonês, TANUKI, sofreu arrastão. A cem metros, um prédio idem. Nossas amigas temem ir a pé até o metrô.

O que duas viaturas faziam ali, enquanto a cidade tem medo?

 

eu negociando com a pm

 

Fumar maconha ainda é crime. Mas se assina um termo na delega, cumpre-se, e quando, uma pena alternativa. Tem até ex-presidente pedindo a sua descriminalização. Logo logo o Congresso aprova. O Supremo julga.

É notório e quase uma unanimidade que reprimir o usuário é perda de tempo. Como disse a revista The Economist, A GUERRA FOI PERDIDA.

Estávamos todos chegando a um acordo, o PM mais nervoso parecia ter sofrido uma lavagem cerebral, repetia códigos, artigos e condutas como numa prova oral da Academia de Polícia, e nem conseguia visualizar o ridículo da ação.

Seu olhar estava em transe. Tinha ódio do réu que engolira a prova. Tinha uma ideia fixa, queria prendê-lo, e a alternativa era a acusação de desacato à autoridade.

A namorada histérica do sujeito quase estragou tudo. Pois quando ela se exaltava, eles se uniam.

Corporativismo realçado.

Outros amigos vieram me acudir. Finalmente acalmamos o PM furioso, e partiram para o verdadeiro combate ao crime.

Lembrou-me a estúpida ação na USP no final do ano passado.

Soube também que na Praça do Pôr do Sol, pracinha ponto de encontro de jovens da ZO desde quando sou adolescente, no entardecer, a PM aparece para prender maconheiros. Vão com faróis desligados, como se estivessem à caça de perigosos marginais.

Será que estão atrás de extorsão, já que citei bairros de classe média alta, ou é uma política da Secretaria de Segurança de repressão total contra jovens maconheiros?

Ambas as hipóteses são provas da falência da Segurança Pública no Estado.

Está faltando foco. E comando.

Sei que o leitorado mais conservador dirá, nem precisa se dar ao trabalho. Conhecemos a sua opinião.

Mas a pergunta é: a PM não tem mais o que fazer? Outras prioridades?

É a minha opinião.

Afinal, dizem que ela existe pra ajudar e defender…

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27.abril.2012 12:36:15

quando alguém diz…

Quando alguém diz:

“Não vai doer nada…” É porque vai doer muito.

“É rapidinho.” É porque será demoradíssimo.

“Vou e volto.” É porque vai voando, mas volta rastejando.

“Sem ofensas.” É porque já ofendeu.

“Nada pessoal…” Porque é claro que é pessoal,

Uma resposta ideal:

“Ó, só vou falar uma coisa.” Então fale, mas apenas uma coisa!

“Me dá um segundinho.” Você não prefere um segundão? Quer um pequeno? Então já dei.

Quem diz:

“Sem querer ser chato…” É chato, e por querer

“Sem querer me meter…” É porque já está se metendo.

Quando alguém pergunta:

“Posso fazer o papel de advogado do diabo?” E ele precisa? Intimações chegam lá no inferno?

“Posso ser sincero?” Deve. Aliás, desde quando entrou aqui. Não faça como em outras ocasiões em que você não foi sincero.

“Posso falar a verdade?” Por que, antes você só mentia?!

Quando receber:

Um twitter da Cleo Pires com uma foto anexada escrito “I’m in instagr…”, entende-se porque pagaram 1 bi por este aplicativo.

 

 

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Mística pessoal do ano terminado em 2. Meus livros:

FELIZ ANO VELHO faz 30 anos.

BALA NA AGULHA faz 20 anos.

MALU DE BICICLETA faz 10 anos.

Curiosamente, são meus 3 livros que foram adaptados para o cinema.

Corrigindo, BALA NA AGULHA está em pré-produção.

Aliás, estrelado e co-produzido pelo meu alter-ego MARCELO SERRADO, que agora é também conhecido como o CRÔ da novela.

Que protagonizou MALU e chegou a fazer teste para FELIZ ANO VELHO – O FILME.

E ainda fará NO RETROVISOR – O FILME, baseado na minha peça NO RETROVISOR. Que estreou em que ano? 2002.

Nós nos perseguimos. O 2 e o BIRUNDA [apelido carioca do Serrado]. Ele me sufoca…

Só não desmunheco igual. Nem ele desmunheca tanto assim.

Bem, 2012 vem o quê?

Além do filme E AÍ, COMEU?, que está para estrear, um livro que se chamará…

Ops, não poso falar.

Que seja bom como os outros anos.

 

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Uma curiosidade. Sabia que o livro BALA NA AGULHA é resultado de uma brincadeira que eu e CAIO FERNANDO ABREU fizemos com o editor CAIO GRACO?

Fãs de romance policial [RAYMOND CHANDLER, DASHIELL HAMMETT, RUBEM FONSECA], apostamos quem entregaria antes os originais de um romance no mesmo formato.

Ele ganhou. Publicou ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA? semanas antes.

Aliás, as capas são parecidíssimas.

CAIO DE ABREU ganha em breve um documentário feito pelo amigo CANDÉ.

Espero que fique claro que ele não é este autor de aforismos de auto-ajuda em que usuários do FACE tentam transformá-lo.

A obra de CAIO vai além, é ampla.

Quando sacralizam a literatura, ela perde o ponto de partida para entendê-la: o contexto.

Outra curiosidade. BALA NA AGULHA quase virou minissérie da GLOBO.

Chegaram a anunciar, roteirizar [o noveleiro JOÃO EMANUEL CARNEIRO, de AVENIDA BRASIL, e EUCLYDES MARINHO].

Daniel Filho iria dirigir.

Mas a GLOBO entrou em crise, entrou MARLUCE pra botar ordem nas finanças da casa, cortaram as despesas e as minisséries.

Pena.

 

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Trecho do livro BALA NA AGULHA:

 

 

O grunhido:

— Ex? Ex? Ex?

O sujeito perguntava a quem passasse à sua frente cruzando a Washington Square, porta de entrada do Village. A primeira vez que o vi, imaginei que se tratasse de mais um michê alugando o corpo para uma trepada:

— Sex? Sex? Sex?

Não. Um reles traficante oferecendo uma viagem de ácido por dez dólares:

— Acid, acid, acid…

Há um bom tempo eu morava no Village. O bairro e eu, uma dupla. Atravessar a Washington Square era rota obrigatória para voltar para casa. O traficante me conhecia. Assim que me via, e mesmo sabendo que eu nunca parava, declamava, insistindo:

— Acid, acid, acid…

Eu amava sua persistência, sinal do regresso, prova de que eu continuava vivo. Talvez eu fizesse durante toda minha vida aquele percurso. Ele estaria sempre no mesmo lugar, oferecendo ácido, a despeito das transformações do mundo. Bom e ruim. Bom porque, na minha profissão, era agradável, harmônico, o alerta diário de que eu estava vivo. Ruim porque, na minha vida, não havia transformações, como se a história fosse o encontro de repetições. Talvez um dia eu pare e compre aquele maldito ácido.

16h30

Verãoem Nova York. Muitagente nas ruas, muito calor, tudoem excesso. Voltando para casa, o soneto:

— Acid, acid, acid…

Hino do regresso, eu estava vivo, e nada tinha mudado, e pela primeira vez, depois de anos, desejei que algo de muito sério me acontecesse, me tirasse do círculo. Que parassem de girar! Uma mudança.

Ao abrir a porta de casa, um número foi o prenúncio da transformação. A luz vermelha no visor da secretária eletrônica. Um número digital reluzindo. Seis. Um mau pressentimento. Não era comum ter seis recados gravados na secretária e eu sabia, por experiência, que o excesso tinha um significado perturbador: alguém estava ansioso atrás de mim, atrás de uma presença.

O número seis brilhando, eu, na dúvida se ouvia os recados, se ignorava, quando o telefone tocou. Seria o sétimo se eu não atendesse.

— Porra, caralho, estou o dia inteiro atrás de você!

Era a voz de Marcos de Sotto, do outro lado da linha, assessor de não-sei-o-quê do consulado brasileiro em Nova York. Deduzi que era ele o cliente ansioso.

— Onde você está? — perguntei num tom cordial, procurando ganhar tempo. Não fazia a menor diferença saber onde ele estava. A prática tinha me ensinado: a relação traficante e usuá­rio é mais que comercial, é sobretudo paternal. Numa negociação, a sede de consumo, a desconfiança e a paranóia estão abertamente envolvidas (fraturas expostas). Nós, traficantes, temos de frequentemente esfriar os ânimos de certos clientes ansiosos.

— Estou no Plazza e já te liguei uma porrada de vezes!

O nome Plazza me deu calafrios e quase me fez desligar. Quem podia pagar a diária desse hotel e procurava cocaína com tal urgência, certamente era brasileiro e do poder. Marcos de Sotto, claro, sempre a postos para satisfazer os desejos urgentes de um brasileiro do poder. Vender cocaína para esse tipo de gente é um risco, risco que normalmente eu não correria.

 

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E hj tem estreia no RIO.

Com festinha depois [show de MIRANDA KASSIN e ANDRE FRATESCHI].

Andrezinho, que tb fez FELIZ ANO VELHO, a PEÇA. Com a mãe, DENISE DEL VECCHIO.

Este mundo é uma noz.

Nós numa noz.

 

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Dia 5 de maio, no SESC BOM RETIRO, estreamos a peça IL VIAGGIO.

Direção de Pedro Granato. Texto meu. Quer dizer, adaptação.

Baseado no roteiro inédito de FELLINI, de 1965, “IL VIAGGIO DI D. MASTORNA”.

Famoso exatamente por nunca ter sido filmado ["Il film non realizzato più famoso della storia del cinema", segundo o escritor Vincenzo Molica].

E por ser uma espécie de testamento do diretor, já que A MORTE é a medula que conduz a trama espinhal.

Por que não foi filmado?

Ecco…

O ator [Marcello Mastroianni] brigou com Diretor, que brigou com produtor.

O filme virou uma maldição. Rodaram apenas a primeira cena:

http://www.youtube.com/watch?v=AllOMgJ-_vM

E então foi romanceado, saiu livros com desenhos [story board], cultuado:

http://www.youtube.com/watch?v=eksVqGzU4xM

Uma espécie de MacBeth de Fellini [tragédia de Shakespeare que dá azar só em pronunciarmos o nome].

Sim, estreamos na VIRADA CULTURAL.

Bora?

 

 

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Depois de uma temporada no OI FUTURO e uma passada pelo FESTIVAL DE CURITIBA, reestreamos a peça DEUS É UM DJ.

Sexta agora no TEATRO CAFÉ PEQUENO, no LEBLON.

Com atriz nova no elenco, JULIANA SCHALCH, conhece?

Deveria.

Ficamos 2 meses. Bora?

Olha ela aí:

Fez TROPA DE ELITE 2, OS 3, MORDE E ASSOPRA, O BRADO RETUMBANTE.

 

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23.abril.2012 12:10:18

Tocou Raul?

Algum músico que já era lenda antes de morrer tem recorrentemente o nome gritado em shows de outros músicos?

Algum músico tem uma composição pedida rotineiramente quando, numa aglomeração, o silêncio se faz, apesar de ter morrido há 23 anos?

Algum político ou artista brasileiro tem um dia dedicado a ele, em que fãs se fantasiam como ele, circulam pelo centro de São Paulo e cantam numa manifestação essencialmente popular e espontânea?

Não só em shows, mas em casamentos, baladas, batizados, passeatas, no intervalo entre músicas, na indecisão de como animar uma festa, o grito é sempre entoado, como um ato de rebeldia e desobediência:

Toca Raul!

A obra de Raul Seixas sobrevive, continua contemporânea, e pode ser revista no documentário O Início, O Fim e O Meio, de Walter Carvalho.

O legado de Raulzito não é apenas a mistura do pensamento maquiavélico (“o fim justifica os meios”). É bem mais profundo e perspicaz.

Apesar de ele ter anunciado: “Eu não sou besta pra tirar onda de herói. Sou vacinado, eu sou cowboy. Cowboy fora da lei. Durango Kid só existe no gibi. E quem quiser que fique aqui. Entrar pra história é com vocês.”

Mas entrou, ao fundir o rock com o baião, sem as sutilezas dos seus conterrâneos tropicalistas. Raul foi a tropicália que tocou no rádio.

Propôs reflexão e sublevação no quartinho da empregada, na tela da TV, no Chacrinha e nos shows em ginásios.

Fundiu o alcance vocal de Elvis com o de Luiz Gonzaga e provou a semelhança entre o produto da corte e a improvisação da colônia, entre deus e sua cria.

A primeira grande aparição foi no Festival Internacional da Canção (1972), provocando a bossa nova e o utopismo messiânico da época: “Let me sing my rock’n'roll. Não vim aqui tratar dos seus problemas, o seu Messias ainda não chegou. Eu vim rever a moça de Ipanema e dizer que o sonho terminou.”

Depois, Mosca na Sopa (1973), quando a ditadura brasileira unificada combatia em todos os fronts.

Quem não entendia a ameaça debochada do roqueiro maluco, dançava como um alucinado nas festinhas infantis, que era o meu caso: “Eu sou a mosca que perturba o seu sono, eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar.”

Opositores no pau de arara. Jornais e revistas enquadradas pela censura. Artistas silenciados pelo exílio e ameaças. E o roqueiro entortava a cabeça da repressão política: “Não adianta vir me dedetizar, pois nem o DDT pode assim me exterminar. Porque você mata uma, e vem outra em meu lugar.”

Desta vez, a mistura era o samba de roda baiano, o canto para os orixás e afoxé, com rock pesado.

No mesmo disco, a música Ouro dos Tolos, o maior deboche do projeto Brasil Grande e do Milagre Brasileiro, um alerta existencialista à classe média emergente brasileira.

“Eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês.”

O regime conseguia o selo de excelência de 100% de autoritarismo- resistência armada dominada, opositores silenciados. O empresariado e a população de bolsos cheios pareciam felizes. Médici tinha altos índices de aprovação.

Não restava nada no campo da contestação: quem sobreviveu estava fora do País ou de si, dopado, maluco beleza.

Quando o Regime entulhou as TVs com propagandas de Brasil Grande, difundindo os feitos do crescimento recorde, em que o dinheiro emprestado do exterior estava barato, e o País criou infraestrutura suficiente para a importação de parques industriais, ele compôs:

“Eu devia estar feliz, porque consegui comprar um Corcel 73… Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida. Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa.”

Perguntado se ele fazia música de protesto, respondia de bate pronto: “Faço raulseixismo.”

O verso que Caetano canta de boca cheia do documentário, palavras que propositalmente não cabem na melodia, um pré-rap, contém o mais profundo dos sentimentos literários, a falta de sentido da vida: “Eu devia estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos. Ah!, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã. Eu acho tudo isso um saco…”

A maior ironia é que a música foi composta em cima de acordes de Detalhes, do neo conformista Roberto Carlos, artista que deixava a irreverência do rock para se acomodar nas plumas de uma causa mais romântica.

 

 

Em 1974, os ideais libertários de Maio de 68 desembocaram num fracassado projeto armado de terrorismo isolado. Baader Meinhof, Brigadas Vermelhas, ETA, IRA, OLP confundiam e assustavam a juventude mais do que agregavam. A utopia foi questionada.

Raul lançou com Paulo Coelho a Sociedade Alternativa, uma terceira via, que defendia o direito de ter riso e prazer. No manifesto, pregavam:

“O espaço é livre. Todos têm direito de ocupar seu espaço. O tempo é livre. Todos têm que viver em seu tempo e fazer jus às promessas, esperanças e armadilhas. A semente é livre. Todos têm o direito de semear suas ideias sem qualquer coerção da inteligência ou burrice. Não existe mais a classe dos artistas.”

“Todos nós somos capazes de plantar e colher. Todos nós vamos mostrar ao mundo e ao Mundo a nossa capacidade de criação. Todos nós somos escritores, donas de casa, patrões e empregados, clandestinos e careta, sábios e loucos. E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.”

O governo Geisel não entendeu muito bem o que propunha esta sociedade com pinta de subversiva, prendeu os dois e os mandou para o exílio.

Ele preferia ser uma metamorfose ambulante a ter opinião sobre quase tudo. Mas não conseguia deixar de ver, pensar, propor e rediscutir os rumos da arte e da política do seu País.

Com metafísica, espiritismo, antropofagia, de mãos dadas com o povo, ele era o nosso sacrifício, a placa de contramão, a vela que acende, a luz que se apaga, a beira do abismo, o tudo e o nada, raso, largo, profundo, os olhos do cego, e a cegueira da visão.

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