Fã da série THE TUDORS, que abordou a Reforma e a atribulada vida sexual e amorosa de HENRIQUE VIII, pai de RAINHA MARY, católica fanática, e ELIZABETH, a rainha virgem, que transformou a INGLATERRA no país mais poderoso do mundo e sem deixar herdeiros, o que terminou com a dinastia da família amaldiçoada, acabei fazendo um tour-TUDORS.
E eis que encontro esta armadura de HENRIQUE VIII na TORRE DE LONDRES.
Uma gozação, claro.
O cara no fundo era um azarado no amor.
A primeira mulher, CATARINA DE ARAGÃO, era do seu irmão, que morreu.
Católica fervorosa, mais velha, não lhe dava herdeiros. Apenas MARY. Uma maldição bíblica, ele acreditava. Morreu envenenada.
A segunda, ANA BOLENA, mãe de ELIZABETH, foi decapitada. Tinha fama de vadia. Suspeita-se que pulava a cerca até com o irmão.
A terceira, JOANA SAYMOUR, morreu no parto. Pobrezita…
Depois, ANA DE CLEVES, a maior baranga da Alemanha, cujo retrato foi adocicado.
A quinta, CATARINA HOWARD, uma ninfeta vadiazinha que dava até para o camareiro dele. Foi também decapitada.
Na sexta, CATARINA PARR, ele já era um obeso, manco, desencantado com as mulheres.
Apesar da fama de mulherengo, na verdade era aquele tipo de cara que escolhia as esposas pensando com a outra cabeça.
Talvez por isso a armadura incomum.
Por outro lado, na tumba de ELIZABETH, na ABADIA WESTMINSTER, a vingança foi comida fria.
Seu corpo está sobre o da irmã MARY, que a humilhou, prendeu e quase a decapitou.
Isso sim era família problema.
O escritor ucraniano Mikhail Bulgákov era um dissidente dentro da própria União Soviética.
Morava em Moscou e vivia cercado por outros intelectuais censurados, críticos do regime.
Por ser considerado contrarrevolucionário, não conseguia montar a maioria das suas peças ou publicar quase nada.
Pedia para se exilar, mas era proibido pelo próprio Stalin, fã de uma das suas únicas peças exibidas, o drama Dni Turbinykh (Os Dias dos Turbins). O ditador a viu 15 vezes. Mais tarde, o empregou num pequeno teatro de Moscou e como roteirista do Teatro de Bolshoi,em que Bulgákov não conseguiu emplacar nada.
Em 1938, o escritor recebeu a visita da polícia secreta, NKVD, e um pedido inusitado: Stalin confiou a ele a missão de escrever uma peça sobre a juventude do ditador, para celebrar seu sexagésimo aniversário.
Naqueles dias, os pedidos de Stalin não podiam ser recusados.
Assim começa a peça Collaborators, que estreou há um mês em Londres, de John Hodge, roteirista parceiro de Danny Boyle (Trainspotting, A Praia), sobre a estranha relação entre o dramaturgo e o ditador.
Ambos passam a se encontrar periodicamente.
Stalin aparece frágil, sempre carregando muitas pastas e com urgência para tomar decisões.
Dele, depende a vida de milhões e o desenho geopolítico de um mundo às vésperas de mais uma guerra.
Aos poucos, eles trocam de papel. Stalin passa a escrever a peça sobre ele mesmo, e Bulgákov analisa documentos, despacha ordens e toma decisões. Pergunta se deve assinar tais despachos.
“Se eu posso, qualquer um pode”, ironiza Stalin
O autor ganha privilégios que deixam os amigos desconfiados, como água quente, café, bananas, um carro com motorista, luxos da época, e se vê curioso para entender os mecanismos do regime que critica, enquanto Stalin romantiza a sua vocação pré-revolucionária, seus atos de coragem, sua juventude heroica, num texto bobo e tendencioso.
Num dado momento, Bulgákov, na posição de burocrata, se vê diante do pedido estatal para confiscar grãos de trigo de pequenos fazendeiros, que reclamam que são fundamentais para o plantio da próxima safra.
Stalin diz:
“Você decide. Este é um dos nossos dilemas. Alimentar amanhã milhões de camponeses ou deixá-los passar fome até a colheita dos fazendeiros no ano que vem?”
Stalin sabe muito bem que, desde os Césares, os humores de um povo dependem do nível de trigo dos silos oficiais. Bulgákov não só assina o confisco como defende o polêmico ato diante dos seus amigos dissidentes, reproduzindo literalmente o mesmo argumento de Stalin.
Trata-se do controverso episódio conhecido como “Holodomor”, a Fome Soviética, que levou a morte de6 a8 milhões de pessoas nos anos 30.
Alguns afirmam que o confisco foi provocado deliberadamente por Stalin, para forçar a coletivização das áreas agrícolas. Uma estupidez macroeconômica.
O número de vítimas da fome entrou na lista de vítimas do stalinismo. Incluindo os que morreram nos Gulags, trabalhos forçados, penas de morte e na grande deportação, ou “Transferência Populacional”, mais de 20 milhões morreram dos erros e comandos de Stalin.
A peça é inspirada em fatos históricos, com a licença poética que a dramaturgia exige. A macabra e surreal relação vai da comédia ao drama. Até o autor interferir com uma fala de Stalin:
“Matar meus inimigos é fácil. O desafio é mudar o jeito que eles pensam, controlar as mentes deles. E eu acho que controlei a sua muito bem. Nos anos que virão, poderei dizer: ‘Bulgákov? Sim, nós também o treinamos. Ele desistiu. Viu a luz. Se nós o doutrinamos, podemos doutrinar qualquer um.’ É o homem contra o monstro. E o monstro sempre vence.”
Stalin transformou um país que arava a terra com tração animal numa potência nuclear. Sem ele e sua teimosia, obstinação em mandar para o sacrifício seus conterrâneos, e não entregar Leningrado e Stalingrado, cercadas pelos nazistas, o resultado da guerra poderia ser outro.
No entanto, seu estilo é comparado ao de Hitler. E seu nome encabeça a lista dos maiores genocidas da História. O monstro não venceu.
Vê-se a construção da sua paranoia, que está no DNA de todo ditador. Ele acredita que há conspirações em toda parte. Isola-se com medo dos traidores. Elimina possíveis concorrentes, como Trotsky, e, o mais inacreditável, Zhukov, o genial marechal que comandou a tomada de Berlim, herói de guerra que foi enviado ao ostracismo.
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A peça pode ser vista também como uma alegoria dos compromissos e humilhações que afligem os artistas perante o poder. Muitos são seduzidos a largar seus ideais em favor das políticas de mercado.
1. Dramaturgos que “se vendem” para a teledramaturgia ou para o gosto comum.
2. Escritores que viram marionetes de diretores de marketing para obter incentivos para suas obras.
3. Romancistas que cortam páginas de livros para não aumentarem os custos de editores.
4. Intelectuais que contratam relações públicas para “estar na mídia”.
Personagem tão comum no cenário cultural brasileiro, organizado por um estatuto e controle que tem, opa, não me escapa o adjetivo, inspiração stalinista.
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Bulgákov morreu cego em 1940. Agora, é comparado a Maiakovski como um dos pilares da renovação da literatura russa de Gogol.
Seu livro mais famoso, O Mestre e Margarida (Alfaguara Brasil), que levou mais de doze anos para escrever, só foi publicado pela primeira vez em russo em 1966, depois da sua morte.
Narra a chegada do diabo na Moscou comunista dos anos 1930, numa tarde de primavera. Satanás e seu séquito decidem visitar a cidade e encontram poetas, editores e pessoas comuns tentando se virar sob as amarras da burocracia comunista.
O apartamento do autor em Moscou, onde passa parte da trama, virou local de culto. Foi transformado no Museu Bulgákov no final da década passada.
Moral da história? O homem venceu. Nele, com suas fraquezas, acreditamos. E esperamos que todo artista possa, antes de um banho quente, ou depois das bananas, ter tempo para criar o que interessa.
Era começo dos 80, quando recebi uma camisa autografada por todo time do Corinthians escrita: “Ao exemplo da raça corintiana”.
Não havia logo de uma empresa, já que patrocinadores temiam o movimento que ocorria no Parque São Jorge, a Democracia Corintiana.
Foi quando WASHINGTON OLIVETTO bolou o símbolo da DC no formato da Coca-Cola, empresa que patrocinava a maioria dos times brasileiros, sugerindo que a democracia deveria ser consumida como 1 produto de massa.
Era este logo que estava impresso nas costas da minha camisa, acima das assinaturas.
Com as DIRETAS JÁ, me aproximei dos meus ídolos, SÓCRATES, CASÃO, WLADIMIR.
A amizade ficou.
Especialmente com o DOUTOR, que me chamava de MARCELINHO.
E com quem tomei algumas em bares da boemia profissa, da classe teatral, em SP ou em RIBEIRÃO.
Nosso último encontro foi há 3 meses, na casa dele, em Alphavile.
Um jantar marcado antecipadamente.
Me perdi pelo bairro. Liguei para ele, que me passou as coordenadas. Entrando em ruelas que pareciam as mesmas, vejo um sujeito magro, alto, me acenando no meio do asfalto. Era ele, que foi me resgatar a pé.
Pizza, vinho, papo e papo.
Que não acabava mais.
Cara afetuoso, simples, concentrado, irônico.
Contou de viagens recentes ao exterior.
Num momento, perguntei se ele ainda era lembrado como grande craque.
Me surpreendeu ao dizer que era mais lembrado por suas posições políticas.
Saí de madrugada de lá. Com a promessa de voltar.
SÓCRATES era único.
Jogador com diploma de médico.
Comemorava o gol com o punho esquerdo levantado.
Usava a barba dos revolucionários.
Tinha um passe preciso. Usava muito o calcanhar, porque dizia que era mais simples do que virar o corpo.
Nos encontrávamos em muitos shows, com os irmãos RAÍ e RAIMAR.
Como sempre, parecia um sujeito comum, que gostava dos agitos da cidade.
Lá se vai o MAGRÃO, cedo demais.
Tinha muitos planos, como programas de TV.
Queria investir no jornalismo, para denunciar.
INQUIETO.
Perdi 1 amigo.
E o Brasil perdeu 1 herói.
Tentei vender segredos aos russos.
Me ignoraram completamente.
Ninguém me atendeu.
Acho que meus segredos não valem muito.
Minha vida de espião não teve sucesso.
E não farão um filme sobre mim, com trilha do BOWIE.
Em Nova York, no primeiro semestre, todos me diziam: “Você precisa ver a peça WAR HORSE.”
De Michael Morpurgo.
Na bilheteria do teatro, me informaram com aquele ar blasé que fazem com um sucesso nas mãos:
“Ingressos só para daqui a três meses.”
Agora, descobri que ela estava em cartaz em Londres.
Fui tentar comprar o ingresso, e, ah-ha, esgotadíssimos.
Até ver pela TV o piegas trailer do filme WAR HORSE a ser lançado no dia do Natal; adaptação da peça.
De quem? Claro, de Spielberg.
Não sei por quê, mas perdi totalmente o interesse pela peça.
Mais ainda depois de cruzar com este monumento que homenageia os cavalos que participaram das guerras dos homens.
THEY HAD NO CHOICE, diz no canto do monumento.
Não tiveram escolha?
Claro que não.
Nem eles nem os moleques enviados ao front.
Como diz o funk de Edwin Starr [depois regravado por Bruce Springsteen]:
Essa arte moderna…
Que tal uma galeria só de quadros brancos?
E juro que numa noite de baita frio, tinha uma nega olhando a vitrine.
Que tal um jogo de palavras inexplicável?
Zona do Euro: original batatas francesas da Alemanha.
A mostarda e o molho de tomate [eles não falam ketchup] ficam ao gosto do freguês.
Que tal um futiba misto?
Tempos modernos na tarde ensolarada do parque.
E não era só num campinho não, mas em todos eles.
Juro. Esta centroavante jogava um bolão, e nos 15 minutos em que assisti fez um golaço.
E maloqueiro não pode torcer à distância na Corte?
Amy já pertence à História.
O clube em que tocava virou o “clube da Amy”.
Decorado com fotos dela. E fila na porta.
O pub que frequentava, Hawley Arms, no coração de Camden Town, vive lotado.
Na praça em que morava, muitos vão lá levar oferendas: flores e bebidas.
Tem morador chiando e planejando se mudar.
Seus passos já entram na rota turística de LONDRES.
Nem 1 ano faz…
Sempre são os doidões que causam esta idolatria depois da morte.
Como o túmulo de JIM MORRISON em Paris.
Nos emocionam, porque foram fundo nos poucos anos de vida.
É no fundo do poço que está a poesia.
Quem quer saber dos caretas?
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A sinceridade londrina é comovente.
Como o cartazinho do bar.
Vão direto ao assunto ["favor ficar de olho nos seus pertences que tem ocorrido recentemente alguns roubos no café"]:
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E no BRASIL.
Começam as filmagens da minha peça E AÍ, COMEU?
Olha os bandidos aí.
Rapaziada criou até um blog.
Nele dá para acompanhar as filmagens dia a dia.
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Também em produção o documentário DEMOCRACIA EM PRETO E BRANCO, sobre a DEMOCRACIA CORINTIANA + DIRETAS + ROCK BR.
O promo está na rede:
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E no Rio, últimas semanas:
2012
2011
2010
2009