“Por que tem luzinhas no céu, são estrelas?”
“Cada luzinha que brilha é uma estrela.”
“Mas o que é uma estrela?”
“Uma bola de fogo grande, que nem o sol.”
“Se são grandes, por que parecem pequenininhas?”
“Porque estão longe. Olha aquele cara gordo correndo lá no lago. Não parece pequenininho? Mas é maior que você. É enorme. Um monstro.”
“Entendi. Se são grandes, por que não caem lá do céu?”
“Tem a gravidade.”
“Tem?”
“É.”
Ela volta a comer a sua pipoca colorida. Não dá dez segundo, e, lógico, pergunta, com a boca cheia.
“Tio, o que é gravidade?”
“Eu sabia que você ia perguntar.”
Ela ri, tímida.
“Como você sabia?”
“Intuição.”
“O quê?”
“Nada. Adivinhei.”
“Eu também adivinho muita coisa.”
“Eu também.”
“É? Adivinha no que tô pensando agora?”
Ela abaixa as sobrancelhas, aperta os olhinhos, faz um bico e o encara firme.
“Adoro quando você faz essa carinha.”
Ela sorri e faz de novo. Ele faz uma careta pra ela. Ela faz outra pra ele, que faz outra mais exagerada. Ela abre a boca, coloca a língua pra fora com pipoca mastigada. Ele faz cara de nojo. Ela ri e engasga. Ele bate nas costas dela. Ela tosse. Continua a dar tapinhas nas costas dela, até ela parar.
“Bebe a Coca.”
Ela o olha com os olhinhos lacrimejados e vermelhos, enfia o canudinho na boca e bebe tudo num gole só. Suspira aliviada, com gosto. E sorri. Ele aproveita, dá um gole no uísque da garrafinha de bolso e acende um cigarro.
“Éca, que nojo!”
Ela abana a fumaça e faz uma extravagante cara de nojo.
“Por que você fuma?”
“Porque eu gosto.”
“Mas fede.”
“Você também é fedida.”
“Não sou, não.”
“É sim.”
“Não sou.”
“É”
“Você que é fedido.”
“Você que é.”
“É você.”
“É você.”
“É você.”
“É você.”
Ficaram nesse jogo até ele terminar o cigarro, encaixá-lo entre o dedão e o indicador, pressionar e jogar a bituca na grama, longe. Ela olha a bituca acesa na ponta voar como um cometa até se espatifar no gramado e espalhar minúsculas brasas ao redor. E exclama:
“Uau! Como você faz isso.”
“Muito treino.”
“Faz de novo.”
“Teria que acender outro cigarro.”
“Acende.”
“Não quero fumar agora.”
“Mas você disse que gosta.”
“Quer outra Coca?”
“Não.”
“Quer mais pipoca?”
“Não.”
“Quer saber o que é gravidade?”
“Não.”
“Mas você queria antes.”
“Não quero mais.”
“Quer um beijo?”
“Não.”
“Quer um sopro na bochecha?”
Ela ri:
“Quero.”
Ele inclina, enche os pulmões com ar, encosta a boca na bochechina dela e assopra, urrando como um peido alto. Ela gargalha. Adora quando ele faz isso e pede outro. Ele dá outro beijo assoprado, urrando como um urso. E faz cócegas nela, que se contorce toda, rola pelo banco. E gargalha de novo. Ele para, e ela pede:
“Faz de novo.”
“Não.”
“Faz de novo.”
“Já disse, não.”
Ela se senta na mesma posição de antes e faz uma cara emburrada. Ele bebe o seu uísque da garrafinha particular. Ficam ambos emburrados. Ela, porque não fez de novo. Ele, porque a vida não o favorece.
“Tá com sono?”
“Não.”
“Mas tá ficando tarde.”
‘Não.”
“Não quer ir embora?”
“Não.”
“Quer saber o que é gravidade?”
“Não.”
“Você só sabe falar não?”
“Não.”
Ela ri. E o olha. Pergunta o que ele teme:
“O que que é gravidade?”
“Por que quer saber?”
“Porque quero saber.”
“Por que pergunta sobre tudo?”
“Porque sou curiosinha.”
“E chatinha.”
“Sou nada.”
“É sim.”
Ela de novo mostra a língua. Sem pipoca colorida nela.
“Saco! Gravidade é uma coisa difícil de explicar. É uma força invisível que atrai os corpos. Por exemplo, se eu jogo o cigarro, ele cai, porque a gravidade da Terra puxa a bituca pra ela. Se a gente pula, a gente volta, porque a gravidade não deixa a gente sair voando. Só se tivermos motores fortes, potentes, como um foguete.”
Olha, dá uma bicada no uísque e se surpreende: ela está super atenta.
“A lua gira em torno da Terra por causa da gravidade, se não, ela sairia voando. A Terra gira em torno do Sol. Os planetas giram em torno do Sol, que não deixa escaparem. Tem as galáxias. Tudo se atrai. Fica conectado. Assim por diante. Sacou?”
Ela demonstra não ter entendido muito.
“É como um imã. Uma cordinha invisível que segura as coisas. Um elástico. É difícil explicar. Quando você crescer, você vai entender.”
“Eu não quero crescer.”
“Por quê?”
“Porque gosto de ser criança.”
“Você é feliz?”
“Hum-hum”, afirma com a cabeçinha.
“Pois sinto lhe informar, mocinha, que todo mundo cresce, vira adulto e depois morre.”
Se arrepende no ato desta frase mal colocada e apocalíptica. Ela continua pensativa. Por que desconta nela angústias pessoais? Bebe.
“Você não gosta de criança, né?”
“Gosto sim. Adoro você. Amo você. É a minha sobrinha querida.”
“Então por que não tem filhinhos?”
Bebe mais.
“Porque não sou mais casado.”
“Mas já foi.”
“Mas não tivemos filhos.”
“Mas podia.”
“Mas não rolou.”
“Por que você não quis?”
“É difícil explicar.”
“Que nem a gravidade?”
“Mais ou menos.”
“Você é triste?”
Não consegue responder. Ela coloca a mão no rosto dele e faz um carinho.
“Eu posso ser sua filhinha de vez em quando.”
“Pra quê?”
“Pra te deixar contente.”
“Você me deixa contente.”
“Jura?”
Ele não responde. Mata o uísque. Ela se deita com a cabecinha no colo dele e diz:
“Eu também amo você.”
“Tá com sono?”
“Tô.”
Ele joga com força a garrafinha no lago, assustando os patos, que batem as asas se afastando. Se levanta, acende outro cigarro e diz:
“Bora.”
para luiza
Bateu a depressão agora….
E ciumes da Luiza…
Voce criou o texto?
Bjs, parabens.
Cara, vou ser politicamente correto:
Que Anta meu amigo.
Fuma na frente da criança dando mal exemplo. Bebe, idem. Joga a bituca no chão e não engole. Joga a garrafa no lago e não no lixo. Gasta uma baita de uma grana com vício e não está bem na vida.
Meu, que mala sem alça
Ela um amor, ele uma besta
lindo, sensível, politicamente incorreto. adorei. parabéns.
Marcelo, imaginei, mesmo sem conhecer tua voz, mas, imaginei vc dizendo cada palavra desse diálogo… DIGNÍSSIMO… achei simplesmente lindo, eu teria um filho desse cara!!! me apresenta??? (ele, o tio) rsrs
beijos
Eu adorei o livro Marcelo, adorei a crônica do cachorro, aquela sobre qndo se dizer q está namorando e todas aquelas perguntas de inicio de relacionamento, ri muito com a sobre os almoços filados na casa dos amigos hahaha enfim acho q adorei tudo né.
Alias fica minha recomendação pra todos aqui um livro leve e doce.
Qual livro?
Femeas?
Se for, acabou a brincadeira, ainda não cheguei nessa parte..
Hahaha pode continuar lendo o Femeas tranquila to falando do Crônicas para ler na escola o novo,de onde essa crônica postada do tio e a gravidade pertence.Termina esse q vc ta lendo depois vai pro outro rs….espero q goste tanto qnto eu gostei
Beijos
OI , eu ja comprei o Cronicas…mas tenho que terminar esse.
Obrigada!
Bjs!
Palmas!! Lindo, me lembrou um livro “Ei, tem alguém aí?” do mesmo autor de o Mundo de Sophia; tem o mesmo ritmo; me trouxe a mesma alegria.
Aquele tio que apesar de inteligente tem um vício feio, fica alegra quando bebe e mudo quando está são e que apesar disso você é apaixonada por ele. Aquele avô que andava caindo bêbado e que você tinha certeza de que esse devia ser o único defeito dele. O mesmo avô que 10 anos antes de partir deu o bom exemplo largando todos os vícios e nunca se sentiu grande por isso, nunca almejou ser exemplo, nem parecia que era um das pessoas mais maravilhosas que esse mundo já viu.
Coisas com esse cheiro que a vida ensina, que nós engolimos confusos, emocionados e agradecidos!
Touché… comentário tão belo quanto o post…
responder este comentário denunciar abusoJulia, obrigado por me fazer relembrar momentos (significativos!) quase apagados da infància…
Belo texto, belo comentário!
Show hermano, muito legal!!!
Um adulto solitário, depressivo e sem rumo.
Um criança lindinha q não sabe o q são as estrelas.
Esse é o conto definitivo sobre o mundo.
Tirando a parte do cigarro no chão e a garrafa no lago, eu ameeeeiiii.. como tudo que escreve!!! Sempre!!
Tios “perfeitos” são chatos. Deixem o cara beber, fumar, poluir…
- Êita cabeçinhas!
Tios e pais imperfeitos.
sobrinhos e filhos no mal caminho.
O exemplo vem de cima.
É melhor pecar por tentar fazer a coisa certa do que pecar por omissão.
Assim caminha a Umanidade…
responder este comentário denunciar abusoEu tbem não queria crescer, mas agora que cresci e tenho um filho , acho ótimo virei criança de novo… pelo menos em algumas hrs. E não quero morrer!!! A vida é bela!!
Bjs
Tio,
era 12 anos ?
é por isso que eu me apaixonei pelo Feliz Ano Velho. e é por isso que eu estou louca para comprar as suas crônicas.
pelo fato do seu texto ter a delizadeza do cotidiano e o olhar de quem viveu o sufiente para entender a beleza das pequenas coisas (:
Essa tá no seu livro de crônicas não?
siiiimmm
responder este comentário denunciar abusoEzequiel,
Cara relaxa, vc é muito pilhado!!
Bjss!
Sou nada.
Eu sou um amor. Eu me amo, não posso viver sem mim.
Abraços -
responder este comentário denunciar abusoWhat the fuck is that supposed to mean?
nothing
responder este comentário denunciar abusoli *feliz ano velho* numa tacada só, num final de tarde até o início de uma madrugada. tinha uns 20 21 22 sei lá. eram os anos 80 eu era feliz e não sabia. fiquei perdidamente apaixonada por ele. exatamente como estou agora. tenho um fraco por marcelos. *marcelo marmelo martelo*, marcelo paixão 1. marcelo paixão 2. marcelo melhor amigo e marcelo r. paiva. é de um *politicamente incorreto* desses q gnt tá precisando. eu <3 marcelo.
Esses adultos…
Marcelo, parabéns! Seu Blog salva minha semana! Assim como assisti “Uma noite em 67″(bom pra caralho), “Somewhere” apesar que prefiro muito mais” Malu de Bicicleta” que acabei de assitir, adoro filmes que retratam a vida cotidiana, mesmo acreditando que a vida muitas vezes tende a monotonia dos filmes da Sofia, adoro também os filmes dela, mas é sempre bom as reviravoltas! E acredito que não vou mais comprar no submarino! Brincadeira! Mesmo acreditando que vc não lê esses comentários, vai meu Muito Obrigado por tornar minha semana mais emocionante!
Este post é repitido, não?
Achei ele meio porquinho, fumou e jogou a bituca na grama, tomou a garrafa de uísque e jogou no lago. Além do que este texto me pareceu meio ‘ Lolita”.
vc so pode estar zoando…
responder este comentário denunciar abusoEh… vou ter q concordar. Bituca de cigarro na grama. Garrafa no lago. Kd a sustentabilidade nessa história? Pelo menos acerto o pato? Ah vá… pelo menos ia ser engraçado… rsss
responder este comentário denunciar abusoconcordo.. mas sem a parte da lolita..
responder este comentário denunciar abusoÓun! Cadê o “Curtir” daqui?
errou de rede social, esta aqui é ditatorial
responder este comentário denunciar abusoEntão não posso “curtir” essa? Magoei.
responder este comentário denunciar abusoMarcelo, apresentei um trabalho sobre o livro feliz ano velho na faculdade essa semana. Eu ja tinha lido blecaute sem saber q foi vc q escreveu era sua fã e nem sabia. Agora sempre acompanho seu blog. Parabéns!!
Uma graça o texto…
Fui visitar tua exposição e prestigiar mais dos teus trabalhos.Impressionante!
Tem foto da exposição no meu blog
http://youhaveyourway.blogspot.com/
Abraço!
esta na livrarias
responder este comentário denunciar abusoque lindo. me emocionou.
Ah, Marcelo. Muito delicado e verdadeiro o textinho! Amei. Você é uma inspiração. Parabéns!
Acho que eu já tinha lido. Mas hoje eu chorei, sei bem porque.
Sobrinhos e tristeza, acho q me identifiquei.
Um abraço
Eh Marcelo,
Sempre dizendo tudo como quem não diz nada.
Assim é a vida.
Sensacional.
Marcelo a um tempo atrás eu li na revista Trip uma crônica sua sobre o Vale-tudo. Por acaso essa crônica faz parte de algum livro seu ? Tem mais de 10 anos que eu procuro esse texto. Grande abraço.
que eu saiba, não, se eu achar aqui eu post pra vc, abs
responder este comentário denunciar abusoAMEIIII! Toootalmente eu. E minha pequena amada sobrinha LUIZA. Obrigada!
Caraca, ganhei o “Crônicas para ler na escola” no meu aniversário semana passada. Sou filha de professores de história e me identifiquei muito com a primeira: O cara chato que te liga pedindo ajuda pro TCC dele. Final de ano é sempre esse estresse lá em casa: alunos burros e preguiçosos enchendo o saco dos velhos prá que eles orientem seus TCCs, mas na verdade querem tudo mastigadinho. Ou seja, que meus pais literalmente escrevam os TCCs prá eles. E infelizmente meus velhos são da geração década de 60/70 acostumados com alunos que estudam de verdade e não ficam nessa brincadeira sem gosto! É triste ver a tristeza deles em ver os futuros professores se formando mais preguiçosos do que nunca… Ainda não terminei de ler esse livro, mas tb queria dizer que a foto da capa é ótima! Adoro sua carinha de safado! Bjks
cabeçinha foi foda.. mas lindinho o texto.. bateu uma nostalgia..
Me lembrou os dialogos do livro Mister God this is Anna (Fynn) !
2012
2011
2010
2009
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