Raulzito: 20 anos da sua morte.
Maluco Beleza. Maluco?
Foi um dos caras mais inteligentes e engajados da MPB. Correu paralelo aos movimentos da moda de sua época- bossa nova, tropicalismo, jovem guarda, canções de protesto.
Conheci Raul Seixas no final dos anos 80 num hotel de quinta, em Copacabana. Um pulgueiro em que morava sozinho, recém-separado. Estava um caco.
Falava sem parar. Mas eram frases confusas, pensamentos desconexos. Estava viciado em éter. E, claro, cheirou na minha frente. Molhava um pano imundo, cheirava e falava. Até nisso, ele nadava contra a corrente, já que era a cocaína e heroína que passeavam pelas veias do rock brasileiro naquele tempo.
É um dos pais do rock brasileiro. Misturou baião, forró, música erudita com guitarras. Enfrentou a censura e a ditadura com esperteza: se dizia maluco, excêntrico, mas tinha muita metafísica em sua performance e, como todo filósofo, política. “Eu não sou louco, é o mundo que não entende minha lucidez.”, disse.
Redefiniu o conceito de regionalismo: um baiano antenado, mais próximo de John Lennon do que de Dorival Caymmi. Não trocou os tambores pelos amplificadores. Na música MOSCA EM SUA SOPA, há uma levada de samba-de-roda.
Falou ao jovem e deu esperanças ao País oprimido. Há muita contestação política em todas as suas letras. “Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na sua loucura, acabará sábio”, disse.
No entanto, viveu o ostracismo dos gênios. Com a explosão do rock brasileiro nos anos 80, ficou excluído. Era o “chato”, “anacrônico” e “bêbado” que todos evitavam. Respeitavam, mas não o convidavam para as festas.
Como ocorreu com tantos outros, que só com morte recuperou a vida, como Tim Maia [excluído da Globo], Plínio Marcos [excluído da grande imprensa e até da TV Cultura], autênticos que não mediam palavras e não abriam mão de seus ideais: “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade”, falou.
Paralelamente, seu grande parceiro, Paulo Coelho, brigado com ele, iniciava a carreira de “grande escritor”.
Marcelo Nova e a banda Camisa de Vênus, baianos e de alma roqueira, o resgataram. Fizeram uma parceria não muito bem-sucedida. Enquanto Cazuza e Renato Russo se transformavam na voz de uma geração. E Lobão imprimia atitude e verdade no rock.
Ironicamente, seu último disco com Marcelo Nova, A PANELA DO DIABO, lançado um dia após sua morte [21 de agosto de 1989, aos 44 anos], vendeu 150 mil cópias e rendeu um disco de ouro póstumo- foi um dos discos de maior sucesso de Raulzito.
Mas sua vingança foi sutil. De repente, depois da sua morte, em algum show de rock, alguém da platéia gritou: “Toca Raul!” Ele, sim, é nosso representante. Hoje, imortalizado, virou um bordão de todos os shows. Quando o público está entediado ou incomodado com o adoçamento da rebeldia que vê num palco, grita: “Troca Raul!”
“A formiga é pequena, mas elas são um exército quando juntas”, escreveu. Pense em suas letras:
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Raul exprimia as contradições dos movimentos sociais, especialmente da esquerda, que mudava a linha ideológica a cada 6 meses, enterrava ícones e ressuscitava outros, que contraditoriamente defendia a luta e a paz, contestava as guerras e o autoritarismo com protestos de ruas. Dizia: “Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito. Só há amor quando não existe nenhuma autoridade.”
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Era o pensamento reinante de uma geração perdida entre a luta armada e a alienação.
Se fazendo de bobo, e censurado eventualmente, encontrou formas de ironizar a ditadura e o incomodo que causava:
Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou pra lhe abusar.
Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Mesmo censurado, conseguia espaço e popularidade, inclusive entre as crianças, para passar um recado aos censores e à repressão, e dar esperança a aqueles que perdiam seus heróis assassinados:
E não adianta
Vir me dedetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar…
No mais, a poesia regia a sua alma ["eu sou os olhos do cego, e a cegueira da visão"]. Imagens incríveis, da sua mais marcante música, GITA, mexiam com a nossa imaginação, num diálogo com Deus, ou superego, ou pai, ou mundo, ou amor. Você a conhece de cor. Mas vale lembrar:
Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar…
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou..
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição…
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada…
Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra “A” tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor…
Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo…
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão…
Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
Maluco?!
+++
O filme uruguaio GIGANTE, em cartaz, que ganhou o prêmio de melhor roteiro na última edição do Festival de Gramado, merece ser visto, especialmente por aqueles envolvidos com a indústria cinematográfica brasileira.
Baixíssimo orçamento- o filme só foi lançado graças ao apoio do indústria de cinema cubano, que fez a cópia em película da versão digital.
Roteiro brilhante- que economiza nas falas e consegue contar a história de Jara [Horacio Camandule], o alto, gordo e tímido segurança de um supermercado e de uma boate de heavy metal, de que é fã, que segue com os olhos Julia (Leonor Svarcas), faxineira recém-contratada, e pelas câmeras de vigilância, e se apaixona por ela.
Elenco afinadíssimo- nem todos são atores profissionais, que esbanjam sutileza e humor.
Camadulle, de 1,93m, é conhecido no Uruguai por suas “stand up comedies”, e se apresenta em restaurantes e bares de Montevidéu, Uruguai [país que produz dez filmes por ano e cujos lançamentos surpreendem].
A trama- como um sujeito comum, sem charme, infantilizado [joga videogame com o sobrinho], conseguiria conhecer e se aproximar de uma paixão.
Apesar de fã de Motorhead, Metallica e bandas que cultuam o demônio, o cara é do bem. Ingênuo, seu melhor amigo é o sobrinho anos mais novo. Só parte pra violência quando é acuado. Delicado, presenteia a paixão com flores- um cacto.
O filme também ganhou o Urso de Prata em Berlim.
Chama atenção a economia de diálogos. Se cinema é mais imagem que fala, nós, do Brasil, talvez impregnados pela teledramaturgia, ou sob a influência da estética do cinema novo, discursivo e político, ainda não conseguimos nos livrar dos extensos blablablás em nossos roteiros.
Há exceções, como Céu de Suely, Aspirinas e Urubus. E não que o cinema de diálogo seja inferior. No entanto, se a imagem fala por mil palavras, que tal economizá-las.
E, sim, dá pra fazer obra-prima sem grana. Que toca o coração do público. Faz rir e, sobretudo, faz pensar.
Muito bom Marcelo!!!
Fala a verdade, nem sei se a letra de “Pluft, plaft zoom” é do Raulzito, mas isso é lá música para criança? Além de mim, minha filha de 5 anos também ADORA. Toca Raul!!!
… pluft, plaft, zoom, não vai a lugar nenhum. Tem de ser selado, carimbado, rotulado, avaliado, se quiser voar. Se quizer voar. Para Lua a taxa é alta, pro Sol identidade, …
PS: Poxa, onde está passando o filme uruguaio? Deu vontade.
Valeu, bjos
hahahahahah! carreira de “grande escritor”. Boa!
o banheiro do papa também é uruguaio e muito bom
bom e produzido pelo nosso walter salles
“Euuuuu sou a moscaa q pousou na sua sopaaaa…”
Muito fo*&$!!
Belo texto sobre o Raul Seixas, Marcelo!!!
Foi dele o primeiro show que assisti na minha vida, lá pelos idos de 1977. Uma experiência que marcou minha vida.
Abraço
Didi, Didi, vc é casada mulher, deixa o Marcelo….vc é deslumbrada, tanto como um monte q vejo aqui, mas respeite seu marido.
Poupe os “bois” disto!
Por isto o Marcelo tem tanta inspiração para escrever sobre traições…q ridículo!!
didid é solteiríssima e sister. e diz que não é complicada
Aí caro mio,
A-DO-RO quando voce escreve sobre os beatnikis brasileiros, nossos santos incompreendidos pelo mundo das coisas certinhas.
Uma cara como o Raul Seixas – o doce Raulzito – que vivia caindo pelas beiradas da vida e escreveu Tente Outra Vez, um hino de coragem e força pra qualquer um que esteja de baixo astral se levantar.
Viva Raul, toca Raul !
Olha O Trem, ele é lindo e não pode ser perdido.
Li o post as 17:43…terminei com sorriso no rosto e cantarolando metamofose ambulante enquanto saia do trampo…rs
Na semana passada era outra musica dele que não me saia da cabeça:
“…Se você acha que tem pouca sorte Se lhe preocupa a doença ou a morte Se você sente receio do inferno Do fogo eterno, de Deus, do mal Eu sou estrela no abismo do espaço O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço Onde eu tô não há bicho-papão…”
Saudade do que não vi! Ainda bem que musica é eterna…
Bj
Entre tantas coisas boas e outras importantes nessa vida, como falar palavrão e colar nas provas, meu pai me ensinou também a gostar de Raulzito e Luiz GOnzaga.
ADORO.
Beijo,
Raul,
Não há político. Não há política. Há ser humano. Que atua. Interfere.
Raul, grande, Raul.
Ótimo texto.
Forte abraço.
Eu prefiro ser
Essa metamorfose MERCADANTE
Do que ter aquela velha opinião
IRREVOGÁVEL sobre tudo
Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose MERCADANTE
rsrsrsrs. realmente… decepcionou nosso senador
Acho engraçado o comentário de pessoas como Jéssica, que desdenham de Paulo Coelho. O cara é um dos maiores escritores do mundo, pelo menos no quesito popularidade (já li “Veronika decide morrer” e não gostei). Acho uma puta ingenuidade desdenhar de um cara que vende seus livros aos montes desde a Rússia, China, Havai, Argentina, enfim, em qualquer lugar do globo.
Quanto ao cinema economia dramática é o que liga, quanto menos diálogos melhor.
Beleza de remember que você propocionou a nós com este texto, Marcelo! Obrigado.
Eu que já estou beirando os quarenta, posso atestar que Raul foi esplêndido e sensacional! Na minha opinião, ele foi, junto com o Renato Russo, a melhor cabeça pensante-brilhante-criativa do rock-pop nacional de todos os tempos (desde que isso existe, claro). Que me desculpem todos os demais.
abç
Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada e cheia de dentes esperando a morte chegar.
Simplismente genial, viva Raul, isso sim é rock n roll, e não essas bostas de Fresno e NX0, coitada desta geração.
beleza, maluco!
Impossível não gostar de Raul Seixas (se vc for do Rock)!
Onde podemos assistir a esse filme em SP?
nos cinemas, sei que no espaço unibanco passa
Caro Amigo,
Adorei o Raul, adorei sua lembrança, adorei as letras, como também a sociedade alternativa que ele fundou e onde vivia para suportar essa joça, onde senador dá uma de juiz de futebol e se diz roqueiro, dando canja com o filho!Damos mole prá ladrão safado mas não damos crédito para quem merece!
Aprendo com você sobre mil coisas, inclus cinema, teatro, artes em geral e filosofia en passant!Você não se entrega,não desiste…Eu preciso de você!
Merci beaucoup pour exister!
Raul era um gênio das palavras. Pena que morreu cedo. Infelizmente os grandes poetas vivem tão intensamente que o corpo não aguenta.
Pena que a droga seja mais presente que comida para estes artistas. Tantos se foram, de Elvis a Janis, Kurt a quase morta Amy Winehouse… será que realmente precisa de droga pra ser ciativo? Caras como os Aerosmiths hoje dizem que não. Sempre é uma pena. Um Elvis vivinho hoje seria espetacular!
Por que será que amo tudo que escreve, hein?! Perfeito!
“Toca Raul” não é um clichê ou bordão, é uma grito sufocado mesmo.
Beijo, Marcelo.
Queridissimo Marcelo,
Qd leio seus textos, dá vontade se sair correndo e ir fazer RONDA em SP de bar em bar e te procurar até encontrar; te pagar um drink e me embebedar do seu papo… PUTZ, como pode eu adorar tanto tanto vc? Essa história de blog ainda por cima faz a gente pensar q é intima sua…
Não gosto dos livros de Paulo Coelho… Mas aqui nos EUA, onde vivo, é referência para meu sobrenome. Vez por outra o povo pergunta: “Vc é parente do escritor?”. Eu sorriu, não critico, mas penso comigo… “cada figura que lê esse cara…”.
Olá Marcelo!
Bem, vi parar aki no teu blog sem kerer.
Na verdade tou lendo “Feliz Ano Velho” e fikei curiosa pra saber algo mais sobre esse cara q anda me arrancando gragalhadas durante a madrugada (minha mãe axa q tô fikando louka).
Qnt ao texto sobre o rauzito, caaaaaaara. Fuderooooooso! “fuderoso” é uma gíria q ñ sai da boca do povo de Recife, aprendi semana passada durante uma oficina cineclubista, rsrsrsrs… É a mistura de foda+poderoso ou fuder poderosamente, entende? Mais q massa! Massa 10 vezes! Aki no Piauí ñ se usa essa gíria e nem sei aí, mas axei muito expressiva. Bjs e até amanhã, a gente se encontra lá no livro, teu carnaval lá no hospital até q foi legal, rsrrsrs… Bjs!
Olá Marcelo!
Bem, vi parar aki no teu blog sem kerer.
Na verdade tou lendo “Feliz Ano Velho” e fikei curiosa pra saber algo mais sobre esse cara q anda me arrancando gragalhadas durante a madrugada (minha mãe axa q tô fikando louka).
Então, ao digitar MARCELO RUBENS PAIVA, o Sr. Google me pegou pelo braço e me trouxe até aki.
Qnt ao texto, caaaaaaara. Fuderooooooso! (“fuderoso” é uma gíria q ñ sai da boca do povo de Recife, aprendi semana passada durante uma oficina cineclubista, rsrsrsrs… É a mistura de foda+poderoso ou fuder poderosamente, entende? Mais q massa! Massa 10 vezes!)
Aki no Piauí ñ se usa essa gíria e nem sei aí, mas axei muito expressiva. Bjs e até amanhã, a gente se encontra lá no livro, teu carnaval lá no hospital até q foi legal, rsrrsrs… Bjs!
Dear friend Marcelo,
Na verdade, a parceria com o Raul Seixas não foi com o Marcelo Nova e o Camisa de Vênus,foi somente o Marcelo Nova acompanhado pela banda envergadura moral. O Raul Seixas teve uma participação no”Duplo Sentido”, último album da Banda Camisa de Vênus que foi lançado no ano de 1987 e contem uma música de autoria da dupla Marcelo e Raul,que cantaram juntos. A letra é muito interessante, e retrata a atimosfera da industria fonográfica dos anos 80,assim tirando um sarro de como era projetado um novo sucesso para estourar no mercado. A musica chama-se: “Muita estrela e pouca constelação”.
Qualquer dúvida,estarei com uma dose de Jack Daniel´s te esperando.
Cheers!…
com uma pedra de gelo. ps> esse é robério, baiano, guitarrista do camisa, parceiro de jack, para esclarecer.
Caro Marcelo,
Legal a lembrança do Raul. Oportuna a sua interrogação: “Maluco?”
Maluco nunca foi. Além de roqueiro, contestador da ditadura era também ocultista.
Meu pai faleceu no ultimo dia 31, tinha 69 anos. Na cerimonia de cremacao, a primeira musica tocada foi GITA. Uma musica que diz tudo! Tomara que continuem tocando muito Raul por ai!
Saudade do que eu não vi! Ainda bem que música é eterna. [2]
“Os homens passam, e as musicas ficam”
Descobri nos discos de vinil do meu pai. Na mesma época descobri o quanto ele e meus tios curtiram(curtiam) o barbudo que escrevia coisas que batiam loucamente dentro dos meus anseios dos 12-13 anos.
Eu gosto bastante de tudo que ele deixou p/ mim e gosto bastante também de tudo que Marcelo Rubens Paiva Neto é p/ mim.
2012
2011
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